Horizontes

Uma vez me perguntaram: “o que você mais gosta de fazer?”
Eu era jovem, na faixa dos vinte e poucos anos e talvez tenha respondido que era descobrir o mundo ou alguma dessas coisas que sempre respondi por falta de resposta melhor. O interessante é que uma coisa acontece com a gente que transforma nossa mente e nossa visão de mundo, muito parecido com uma feitiçaria mas tão importante que todo ser humano deve experimentar sem moderação: envelhecer. Não falo de SER VELHO, ou SER RETRÓGRADO, mas envelhecer rumo a algum amadurecimento, entendimento e aperfeiçoamento da nossa interpretação de mundo. O que eu diria hoje se me perguntassem “o que você mais gosta de fazer?”, ora, sem dúvida alguma eu responderia: estar do lado de minha mulher.

É interessante como passamos a vida e não damos valor às pequenas coisas. Sabe aqueles segundos de uma brisa batendo no rosto, o cheiro de uma comida caseira ou o som de passos antes de abrirem a porta e te darem um “boa noite” depois de um dia pesado de trabalho? Eu falo dessas pequenas coisas. E falo de coisas mais sutis como passar a mão pelos cabelos, deitados na cama e olhando para o teto só saboreando a respiração um do outro. Ou então olhar de relance para ela de cá do banco do carona e sentir um leve sorriso de felicidade desenhando nos seus lábios ou até perceber que ela te olha, também e te admira. São essas pequenas coisas que talvez possam ser o alicerce de uma longa relação, isso na minha opinião.

Outro dia eu estava debruçado sobre ela e senti seus batimentos. Foi numa cama de hospital e ela tinha acabado de passar por uma cirurgia de emergência. Me deixou preocupado, sem sono e dava pra sentir o calafrio na espinha quando se é colocado contra a parede pela vida nesse momento. Um conjunto de informações pós cirurgia e a dificuldade para separar notícias boas de ruins mas o alívio na frase do doutor: “correu tudo bem”. Dias em recuperação e vontade de desligar o mundo e só funcionar somente eu e ela. Às vezes sentava do seu lado e olhava admirado em seu sono e dizia pra mim o quanto eu tive sorte nessa vida. Nada do que passei de decepções amorosas, tristezas, fracassos teve mais significado depois de um beijo no Rio Vermelho à noite, assim pensei. Nunca estive tão certo. Nunca senti tanto por alguém como eu sinto por minha mulher. Sinto tudo e muito intensamente, diga-se de passagem. Uma onde de energia bilhões de vezes maior do que eu que me absorveu desde o primeiro dia e me fez perder o sentido de mim mesmo me tornando tão próximo à ela ao ponto de sermos um outro ser, juntos, funcionando em completa sincronia.

As sessões de quimioterapia começarão essa semana e estamos muito confiantes e sem alarmes e com uma boa percepção dos médicos que já nos avisaram que o pior já passou. É uma medida preventiva para que não se manifestem mais nenhuma forma noiva dentro de seu organismo. Chorei muito no início e um enorme desespero, confesso brotou em mim. O medo de perdê-la é algo que nunca senti por ninguém na vida, nem mesmo pelo meu pai. Me vi falando só: “não posso te perder”. E não vou. Não vou, mesmo. Faremos a quimioterapia juntos, disse a ela. Sua saúde é a minha saúde e farei o impossível se necessário para ficarmos juntos.

Hoje eu paro e vejo o horizonte que pretendemos alcançar: casamento, filhos, trabalho… nada mudou desde nossos planos iniciais. Eles só amadureceram com nossa experiência, nossos obstáculos e nossos aprendizados. Está tudo bem, como disse os médicos. Momentos como esse nos dão perspectiva  e sabemos onde queremos chegar. Nada vai nos impedir.

Esse texto eu dedico à mulher que eu escolhi para viver ao meu lado e dedicar minha vida. Eu amo você, Paula Dultra.

Por Roddolfo Carvalho
Foto: Bia Dultra

Nenhum Comentário

Os comentários estão desativados.