ALERTA DE PIEGUICE: Uma ode a Paul McCartney e o privilégio de vê-lo de olhos fechados

Fonte: André Uzêda

ALERTA DE PIEGUICE: Uma ode a Paul McCartney e o privilégio de vê-lo de olhos fechados

Crédito da Foto: Paul e seu lendário Hofner dedilhado na mão esquerda. Crédito: Margarida Neide - Ag. A Tarde

Cautela da modinha, o “alerta spoiler” cumpre seu papel de honestidade com o leitor. Com a profusão de séries, livros e filmes, aos magotes, críticos apelam para o recurso quando sinalizam detalhes da trama em suas resenhas (quase sempre mais descritivas que, necessariamente, analíticas).

Com pouquíssima originalidade, pego carona nessa coqueluche com uma variante igualmente proba, embora sem qualquer virtuose que caminhe muito além da cópia.  Em bom português: esse texto contém “alerta de pieguice”, “alerta de deslumbramento” e um nível razoável de bajulação rasteira.

Desmereço as primeiras linhas em convite, ao insigne leitor, para que abandone o barco neste cais seguro, antes de zarpar pelas águas turvas do engodo.

Estou escrevendo sobre o show de Paul McCartney em Salvador, na última sexta-feira (20/10), na Fonte Nova. Foram precisos 17 minutos de atraso – talvez o maior da carreira de um artista que carrega o peso de ser britânico e a pontualidade como destino – até os primeiros acordes vibrarem pela acústica do estádio.

Quando ressoou “It’s been a hard day’s night / And I’ve been workin’ like a dog…” (Tradução: Hoje foi um dia difícil / E tenho trabalhado como um cachorro…), este canto proletário lançado em 1964, e que nomeia o primeiro filme dos Beatles (chamando no Brasil de Os Reis do Ié, Ié, Ié), por fração de segundos, me peguei pensando no quanto de energia regressa aqueles acordes em alta emanavam (não faça muxoxo agora! eu avisei que esta porra era piegas).

Paul carregava o lendário baixo Hofner marrom perfeitamente lustrado, espetado para a direita (sim! Ele é mesmo canhoto) e usado desde à época dos Beatles. Este não é o primeiro Hofner, aquele dos shows na abafada Cavern ou dos dias de aperfeiçoamento em Hamburgo, período que a banda, ainda sem a formação definitiva, corrigiu os defeitos técnicos e notadamente elevou o patamar de excelência. É o segundo. O primogênito foi roubado nos estúdios da Abbey Road, tal qual a Rimet do Tri de Pelé e se tornou uma das profícuas lendas que envolvem Paul, os Beatles e a própria cultura pop.

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No entanto, mesmo sem a aura do irmão mais velho, aquele Hofner nas mãos de Paul, uma extensão de seu braço, irradia o poder de transformação do século XX. The Beatles surge no início dos anos 1960, época de fabricação da juventude enquanto modelo de vida pouco menos de 20 anos do pós-trauma da II Guerra. Uma banda que viria a participar ativamente dos movimentos de contra cultura, das viagens lisérgicas, da Swinging London, das músicas experimentais e tudo ao mesmo tempo como uma grande ópera de vozes e instrumentos de A Day in The Life (que, oba!, felizmente Ele tocou no show da Fonte Nova).

Aquele baixo esteve nos momentos marcantes do grupo, no Shea Stadium, em Nova York, no Budokan, no Japão, no quase linchamento público do quarteto em Manilla, nas Filipinas. Esteve em companhia de John, Paul, George e Ringo nas sessões de maconha, nos shows reservados, em companhia de líderes mundiais, personalidades, Rainhas, prêmios e multidões. É uma peça de museu guardado no melhor dos púlpitos sagrados: a canhota de McCartney.

Menino vestido de Paul McCartney no aclamado álbum Sgt Pepers: a prova da longevidade da banda. Crédito: André Uzêda

Se o Hofner é um instrumento a serviço da história, seu guardião mantém uma relação dialética com a mesma. Aos 75, James Paul McCartney é uma parte importante do último século e, quase, ele próprio, seu próprio século de história. Enquanto o artista fabrica sua obra-prima, a obra replica fabricando também seu criador, transformando-o e transcendo-o. A vida de Paul é uma obra da obra do próprio ex-Beatle.

É curioso pensar que, enquanto se diverte fazendo caretas (uma de suas muitas marcas) e emulando gírias locais — em Porto Alegre disse “Tchê”, em São Paulo “manos e minas” e, aqui em Salvador, “vocês são massa” –, Paul tem gravado na retina acontecimentos de impacto revolucionário na cultura. As composições Lennon-McCartney têm muitos filhos, netos e bisnetos. De Rolling Stone a Oasis. Da moda à meditação. No Brasil, influenciou a Jovem Guarda (de Roberto Carlos, Erasmo, Jerry Adriani) e até na antropofágica Tropicália, que completou 50 anos em 2017, veio bater de forma definitiva com as guitarras impactantes de Helter Skelter e Back in the URSS  — ambas executadas brilhantemente na Fonte Nova.

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Elogiar Paul por ser carismático e engraçado é, descontando meu azedume habitual, enaltecer Lênin pela bela escolha dos ternos, DaVinci pelo nariz adunco e Santo Agostinho pelos dedos delicados. Você até pode ir por esta via, mas estará subjugando a camada mais profunda que norteia todos eles: o poder de inflexão sobre a história.

Há uma cena em Blade Runner (não este recém-lançado nos cinemas. O original, de 1982), que serviria a McCartney como um verso de ‘Lady Madona’ dedilhado por ele no piano. Na cena dramática do filme, o androide replicante se despede da vida recorrendo à única condição humana particularmente inexorável: as memórias.

“Eu vi coisas que vocês homens nunca acreditariam. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva”.

Felizmente, em Paul, as memórias, vivências e emoções deram vazão a músicas de personagens tão amáveis quanto Jojo, Eleanor Rigby, a mocinha que abandona os pais em She’s Leaving Home, Rita, Martha e o pássaro preto que precisava aprender a voar.

Saber que todos aqueles versos são cantados desde que Paul tinha 19 anos e que, um bom número de pessoas que nasceu nos últimos 53 cantarolou alguma coisa dos Beatles é acreditar num coro de milhões de vozes (entre vivos e mortos) num loop infinito de “Na Na Na”, em “Hey, Jude”.

Olhá-lo de perto é contemplar a arquitetura de Versalhes, as ruínas do Coliseu ou Templo do Sol, em Machu Picchu. É saber que ele é um ponto de intersecção entre milhões de pessoas que o viram, veem e o virão — a história em constante gestação está.

É um privilégio ter estado, no mesmo espaço-tempo, com Paul McCartney durante três horas passeando por letras poderosas e um repertório do Please Please Me ao Let it Be (do primeiro ao último álbum), que melhor contam a história da cultura nas últimas cinco décadas.

Alerta de pieguice-clichê:

Fechei os olhos e já senti sua falta hoje, Paul.

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