Atendido por Kátia Vargas, paciente detalha como a médica está um ano após júri

Fonte: Cris Almeida e Jean Mendes

Crédito da Foto: Aratu Online

Abraçada com uma desconhecida em frente ao Fórum Ruy Barbosa, Marinúbia Gomes, mãe dos irmãos Emanuel e Emanuelle, mortos em um acidente de trânsito, em outubro de 2013, ouvia da mulher que “tudo ia ficar bem”. Antes de ir, a estranha se despediu da enfermeira passando a mão pelo seu rosto.

A “desconhecida” se chama Ana Tereza, amiga de infância e uma das testemunhas de defesa da acusada de ter provocado a morte dos filhos de Marinúbia. Em 5 e 6 de dezembro de 2017, Kátia Vargas Leal Pereira foi julgada e absolvida em caráter popular. Tudo foi visto por 430 pessoas, entre estudantes, profissionais do Direito e curiosos.

Nesta quinta-feira completa exatamente um ano do júri que movimentou todas as manchetes jornalísticas da Bahia. Doze meses depois, Kátia está atendendo seus pacientes normalmente. Por falar nisso, ela, que é oftalmologista, voltou a trabalhar na clínica onde é sócia do marido, na Avenida Anita Garibaldi, em Salvador.

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Um paciente detalhou para o Aratu Online os minutos que esteve frente a frente com a médica. De acordo com o rapaz, que terá a identidade preservada, o cabelo mais clareado que o habitual e a retirada do sobrenome Vargas são elementos que, aos poucos, fazem a mulher de meia-idade ter sua imagem distanciada do caso.

“Procurei uma oftalmologista pelo meu plano e queria uma na Garibaldi, porque estava saindo do trabalho e precisava chegar a tempo, foi quando vi uma chamada ‘Kátia Leal’ e achei estranho porque eu vi uma matéria sobre ela, mas não lembrava que ela atendia naquela região. Fui mesmo assim”, disse.

“Quando cheguei lá esperei me chamarem. Ela tava muito diferente de quando aparecia na TV. Na televisão ela aparecia sempre com o cabelo muito mal cuidado, o rosto de alguém que estava bem debilitada, bem magra. Quando cheguei lá ela estava com o cabelo pintado, bem arrumada, unhas bem feitas, maquiagem. Ela falava normal também, nada muito baixo nem impostada, me atendeu bem tranquila, como se nada na vida tivesse acontecido”.

Questionada sobre em que momento reconheceu a médica, a fonte foi enfática. “Não tive qualquer receio. A imagem que ela vendeu no tribunal, de uma mulher frágil não condizia com o que eu vi, porque ela estava muito bem. Eu demorei um tempo para perceber que era ela, porque era algo bem distinto do que a gente está acostumado a ver”.

Quem procura o atendimento da “Dr. Kátia Leal” e a vê com todos os elementos descritos acima, talvez se esqueça daqueles dias 5 e 6 de dezembro de 2017. Naquela oportunidade, em dois turnos de repórteres, o Aratu Online acompanhou tudo por meio do Twitter, única ferramenta liberada no tribunal.

Vamos relembrar, abaixo, os momentos mais importantes.

O DIA DO JÚRI

A galeria do plenário estava literalmente dividida: do lado direito sentaram familiares e amigos da acusada, incluindo o marido, o médico Paulo Henrique Brito Pereira, e os filhos, Paulo Henrique Júnior e Ana Carolina, todos muito quietos e cabisbaixos; do lado esquerdo, a família e amigos das vítimas, nitidamente emocionados.

O advogado que liderou a defesa de Kátia Vargas, José Luis Oliveira Lima, juntamente com sua equipe, enfrentou os promotores Davi Galo e Daniel Keller em quase 12 horas de julgamento, cada dia, onde a história foi contada e recontada pelas duas partes várias vezes. A formação do júri, por sua vez, aconteceu após o consenso entre defesa e acusação, levando em consideração a vida pregressa de cada um. Kátia Vargas estava com um visual diferente: com o cabelo mais escuro e com uma franja, a médica usava uma camisa social branca e permanece cabisbaixa no plenário.


As primeiras testemunhas foram as que estavam no local no momento da colisão entre os irmãos e um poste, o que causou a morte imediata das vítimas.


A defesa de Kátia Vargas, através de imagens mostradas pelo Ministério Público, buscou mostrar que o carro de Arivaldo não estava a 5 metros do carro da médica, quando houve a referida colisão, como afirmou a testemunha. Um dos momentos que mais chocou a todos durante o primeiro dia de julgament, foi a exposição dos corpos de Emanuel e Emanuelle logo após o choque no poste. Tanto Marinúbia quanto Kátia se ausentavam do plenário.

Após o intervalo, o primeiro dia de julgamento foi retomado com a quarta testemunha.


De acordo com a quarta testemunha, Kátia Vargas emparelhou o carro com a moto das vítimas, atingindo e provocando a morte dos irmãos.


A primeira testemunha de defesa de Kátia foi o perito Alberi Espíndula, contratado para acompanhar a reconstituição do caso.


A segunda testemunha de defesa é Ana Tereza, amiga de Kátia Vargas e professora da filha da médica.


A terceira testemunha de defesa foi Edmilton Pedreira, pai de um paciente da médica. Nesse momento Kátia Vargas começou a chorar no plenário.


A quarta e última testemunha da defesa foi Carina Caldeira, colega de Kátia Vargas. As duas participavam juntas do projeto “Corrente do Bem”.


No segundo dia, o momento mais esperado foi o depoimento da médica, que, chorando muito, respondeu algumas perguntas e recusou outras.


Ao final do interrogatório, a defesa pediu que ela respondesse uma das perguntas feitas pelo promotor Davi Galo. Ele quis saber por que ela queria pedir desculpas à mãe das vítimas, segundo publicação de um jornal, se ela não tocou na moto? “Porque, por maior que seja a minha dor e o meu sentimento, a dor dela é insuperável!”, respondeu.

Iniciou, a partir de então, as considerações da defesa e acusação direcionadas ao júri. Logo após a discussão, que durou cerca de três horas, os jurados se retiraram do plenário para dar a sentença. Por 4 votos a 3, a médica Kátia Vargas foi inocentada da acusação de ter provocado a morte dos irmãos.

O OUTRO LADO

“Eu tenho fé de que a justiça será feita. Porque, pela forma como o julgamento foi conduzido, ficou clara a parcialidade de alguns envolvidos no júri. Foi uma verdadeira vergonha, uma decepção, tanto para mim quanto para a população aqui de Salvador”, desabafou dona Marinúbia para o Aratu Online seis meses após a absolvição.

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O sentimento de justiça que busca desde 2013 se transformou em frustração e sensação de que “nada aconteceu”. “A análise dos fatos não foi feita, porque quem deveria julgar não soube fazer isso e, por isso, foi aquele desastre. O júri dizer que aquela mulher que perseguiu meus filhos e tirou a vida deles, os deixando jogados no chão, partidos em vários pedaços, é inocente, é muita dor pra mim”.

Marinúbia, mãe de Emanuel e Emanuelle. Foto: Aratu Online

A mãe de Emanuel e Emanuelle criticou ainda outro momento da defesa da médica. “Eles mesmos disseram que Kátia deveria ser condenada, enquadrada como homicídio culposo, quando não há intenção de matar. Então, havia a tendência de todos acharem que Kátia é culpada”, completou.

Dona Marinúbia não fica sozinha em casa, está sempre na companhia de familiares. Voltou a trabalhar porque, segundo ela, precisa ocupar a mente para não cair na depressão. O pai das vítimas faleceu em outubro do ano passado da mesma doença que Marinúbia tenta evitar.

JUSTIÇA

Mesmo com a absolvição de Kátia Vargas, o caso continua no Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA). Isso porque o Ministério Público da Bahia (MP-BA) pediu o cancelamento do júri popular, o que foi acatado, em votação que terminou 2 x1, por desembargadores que compõem a 2ª Turma da 2ª Câmara Criminal.

A defesa da médica recorreu em agosto. Na oportunidade, os advogados pediram que o mérito do seja analisado novamente pela Seção Criminal do TJ-BA, formada por 20 desembargadores. Não há data para um novo julgamento.

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