Crônica das tragédias anunciadas se repete há décadas em Salvador; cenário de horror no Barro Branco é o mesmo de 1996

Fonte: Por Diorgenes Xavier

Crédito da Foto: Manu Dias/GOVBA

Há 19 anos, em abril de 1996, o preparador físico Dario Montenegro teve de assistir a sua mãe, Beatriz Montenegro, 53, entrar para as estatísticas oficiais. Ela foi uma das 18 vítimas fatais dos deslizamentos de terra que atingiram o Barro Branco, na região da Avenida San Martin, deixando cerca de 300 desabrigados. A chuva, “culpada” pela tragédia à época, voltou a colocar o local no centro das atenções nesta segunda-feira (27), quando novos deslizamentos provocaram 11 mortes.

Naquela madrugada, ele acordou por volta das duas da manhã e retirou as filhas, Paloma e Priscila, e a esposa Dalila, do andar térreo da casa onde morava e abrigou-as na residência de um vizinho. Retornou para procurar pela irmã, o sobrinho e mãe, que ficavam na parte de cima. “Tive que escalar a laje e consegui retirar meu sobrinho e minha irmã, mas não tive forças para retirar a minha mãe. Ela não respondia aos meus chamados”, conta.

Morando atualmente no bairro da Liberdade, a dor e lembranças daqueles momentos não saem de sua memória até hoje. A maior prova disto é a sua incomum decisão de não repassar o terreno no Barro Branco para nenhum dos compradores interessados que o procuraram. “Expliquei a todos eles que o que eu passei eu não queria que ninguém passasse. Este dinheiro para mim seria maldito”, desabafa.

Quando soube que a situação se repetiu no mesmo local, quase duas décadas depois de sua tragédia pessoal, Dario conta que voltou a sentir as mesmas estranhas sensações que o resumiam em abril de 1996. “A dor e tristeza que sinto hoje, são as mesmas que senti há 19 anos”, confessa.

Ao receber a notícia, por volta das 5h45 de ontem (segunda-feira), imediatamente se dirigiu ao local, de onde só saiu às 22h e para onde retornou nesta terça-feira (28). Questionado sobre as razões que o motivaram a voltar ao mesmo cenário de sua maior tragédia pessoal, ele resume de forma simples: “É o espírito de solidariedade e amor aos vizinhos. Foi o que os meus pais me ensinaram e é o mesmo que eu tento passar para as minhas filhas”.

Tragédias Anunciadas

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Foto: reprodução Facebook

De acordo com dados da Prefeitura de Salvador, choveu 198 milímetros durante a última segunda-feira (27), no Alto do Peru. Este foi o maior índice pluviométrico verificado na capital baiana e representa quase 2/3 do total de 309 milímetros previstos para todo o mês de abril na região. Foram 240 milímetros em toda a Salvador, número maior do que o contabilizado durante o mês de abril do ano passado. O prefeito ACM Neto classificou as chuvas deste mês como “as piores em 21 anos”.

Números à parte, não se pode dizer que o aumento dos índices seja uma surpresa nesta época do ano. Levantamento feito pela jornalista Jaciara Santos, ex-assessora da Defesa Civil, mostra que a situação se repete nos meses de outono e inverno (entre março e junho), especialmente em abril e maio. Em abril de 1971, foram mais de 100 mortes decorrentes de deslizamentos e desabamentos em diversos pontos da capital. Em junho de 1978, 21 mortos somente na ladeira da Montanha. Em maio de 1989, houve 23 mortes, nove das quais no Motel Mustang, no Subúrbio Ferroviário. Em 1995, entre os dias 30 de maio e 1º de junho, 57 mortes, 32 no Arraial do Retiro; 21 em Cajazeira VI e quatro em São Caetano.

A prefeitura afirma que há, atualmente, cerca de 600 áreas de risco em Salvador e pede auxílio do governo federal para realizar obras de contenção que minimizem os impactos das chuvas. Enquanto o socorro oficial não chega, resta aos moradores dessas regiões torcer para que os meses críticos passem logo e para que ela, a chuva, não volte aos noticiários como a responsável pela morte de dezenas de pessoas.