Em vídeo, mototaxista ‘dá aula’ de como vender votos a vereador de Salvador; Democrata nega

Fonte: Cris Almeida e André Uzêda

Crédito da Foto: Vereador Claudio Tinoco (esquerda) e integrantes da associalção de mototaxistas (direita). Arte - Aratu Online

Um vídeo gravado durante uma reunião da Associação dos Mototaxistas de Salvador (Asmop) indica um crime eleitoral de gravíssimo potencial. Nas imagens é possível ver os profissionais conversando sobre uma suposta venda de votos ocorrida nas eleições de outubro do ano passado. A reportagem apurou que o vídeo teria sido gravado neste período, embora apenas nesta semana o Aratu Online tenha tido acesso a ele de forma exclusiva.

O nome do vereador Claudio Tinoco (DEM) é citado na gravação. Ele foi o décimo mais votado na última disputa, com 12.348 votos. Embora tenha sido eleito, o vereador se licenciou do cargo, a pedido do prefeito ACM Neto, para assumir a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. Questionado sobre o vídeo, negou compra de votos e atribuiu a “conotação política” de “lideranças do sindicato ligados a partidos políticos de oposição” (leia mais abaixo).

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“Se você observar todas as pistas onde estavam as campanhas do vereador Claudio Tinoco a Asmop estava lá. Ninguém sai do ponto de mototáxi pra puxar saco de vereador nenhum de graça. Só vai pago”, diz um homem, não identificado, em tom professoral, como se desse aula de compra de votos aos demais.

E continua. “Pela Justiça Federal Eleitoral é proibido o pagamento de propina… Propina não. De cabo eleitoral não. De boca urna. E todo mundo sabe que só ganha dinheiro em eleição em boca de urna. Ninguém trabalha de graça”, repete.

Em outro trecho toca novamente no nome do vereador do DEM. “No dia da eleição eu fui falar com Dragão para trabalhar fazendo boca de urna. Levando e trazendo eleitor do senhor Claudio Tinoco. Fiz o mesmo. Eu ganhei R$ 300. Teve gente oferecendo até mais… vereadores”, diz.

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A compra de voto é crime eleitoral e pode resultar até em cassação do registro ou diploma do candidato, além de multa. O crime está tipificado no artigo 41-A Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997). Pelo texto, é vedado ao candidato “doar, oferecer, prometer ou entregar, ao eleitor, com o fim de obter-lhe o voto, bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza, inclusive emprego ou função pública”.

Procurado, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) disse que “não podemos falar sobre casos concretos”. O órgão, no entanto, enviou uma cartilha que informa que “constitui crime, no dia da eleição, a distribuição de material de propaganda política,inclusive volantes e outros impressos (“boca de urna”).

OUTRO LADO

Procurado pela reportagem, o vereador Claudio Tinoco pediu que o vídeo fosse enviado, via assessoria de imprensa, para que se analisasse o conteúdo. Depois, respondeu negando compra de votos. “Acabei de assistir o vídeo e fica claro a conotação política pela presença de lideranças do sindicato que são ligadas a partidos políticos de oposição”, disse.

Formado em administração pública pela Ufba e ex-presidente da Saltur (Empresa Salvador Turismo), Tinoco negou conhecer o homem que aparece no vídeo palestrando sobre recebimento de boca de urna. “Não o conheço, não sei o nome, ele nunca esteve em meu gabinete ou escritório. Atribui a terceiros um ato que não gerou pagamento. Portanto, refuto qualquer tentativa de associação a minha atuação política”, pontua.

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Tinoco ressaltou ainda que há uma disputa entre sindicato dos mototaxistas (Sindmoto) e a associação — as Asmop, que aparece no vídeo. “A disputa entre sindicato e associações leva as lideranças assumirem posições políticas”.

Procurado, o presidente da Associação de Mototaxistas, Adailton Dragão (citado três vezes no vídeo), disse que “não sabia de nada”. Afirmou que a única relação com Tinoco é que o vereador tem ajudado na regulamentação da profissão, assim como outros parlamentares.

O Aratu Online ofereceu para enviar o vídeo ao presidente no intuito de identificar as pessoas que aparecem na imagem. Ele, porém, não quis recebê-lo. “Não quero ver não. Não sei de nada e isso não tem nada a ver com a associação. Quem tá acusando que prove”. O Sindmoto também foi procurado, mas não quis se pronunciar a respeito.

VEJA VÍDEO:

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*Publicada originalmente 13h35