ENTRE “OÊ” E TAQUITÁ: Escolha da música do Carnaval revela força gay e disputa de classe

Fonte: André Uzêda

Crédito da Foto: Nestor Carrera - Aratu Online

A melhor pergunta não é qual é a música do Carnaval 2017. A formulação correta é: a melhor música do Carnaval pra quem? Este ano, um pouco diferente dos últimos, muitas foram as candidatas ao posto. Em geral, despontam entre cinco a seis. Em 2017, foram 12.

Muitas que prometiam ficaram no meio do caminho — o melhor exemplo é “Me Libera, Nega”, que surfou no fenômeno midiático que envolveu sua aparição (um jovem preso filmado pela televisão) e no carisma do próprio autor, Ítalo Gonçalves, que rapidamente virou MC Beijinho. No entanto, sem força para emplacar na voz de outros puxadores de trio, no que depende da força dos empresários e boa relação nos bastidores, morreu de inanição sonora nos primeiros acordes do Carnaval.

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“Taquitá”, de Cláudia Leitte, cumpriu a jornada inversa. Saiu de um obscuro anonimato para se consagrar no circuito da festa. A música virou uma espécie de hino gay impulsionado pela força de Cláudia com o público LGBTT. O Blow-Out, um de seus blocos em parceria com uma boate gay da cidade, chamou a atenção pelo tamanho, pela falta de brigas e pela coreografia ensaiada de ‘Taquitá’. O Blow-Out custa em torno de R$ 600.

O pagode também teve perdas na trajetória da festa, embora tenha alcançado sucesso com “Oêê”, da banda da La Fúria. Entre baixas,  ‘Paralisou’, do Tchan foi menos tocada que ‘Faraó’, música do Olodum que completa 30 anos em 2017. ‘Mulheres no Comando’ ficou restrita a Marcio Vitor e seus discurso autorreferencial de “essa é a música do Carnaval, hein?”.  Já ‘Santinha’, de Léo Santana, também veio forte. Está no páreo.

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Pela facilidade silábica, “Oêêê” funciona. O público grita “Oêê”. Entre um trio e outro, o vendedor de gelo grita “Oêê” quando quer abrir caminho na multidão. Um casal se beija e o Gandhy passa gritando “Oêê” antes de beber mais uma latinha de cerveja. A banda La Fúria é forte no povão. Concorre com Kannário nos guetos e favelas da cidade.

‘Oêê’ e ‘Taquitá’ . Duas onomatopeias com força ritmada. A primeira do povão e a outra do público gay. Calhou uma interessante representação em palavras tão simples. Pode ser que nem ganhem a música do Carnaval, mas chegaram com fôlego. O coro funciona.

Falando em coro, teve outra música, uma tal de “Fora, Temer”, que também foi bastante ouvida.

Mas isso é outra história…

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