A PERGUNTA DE UM MILHÃO DE DÓLARES: Por que o transporte de Salvador é tão ruim?

Fonte: Cris Almeida

Crédito da Foto: Reprodução

De São Tomé de Paripe ao Rio Vermelho o problema é o mesmo. Longas esperas no ponto de ônibus, coletivos cheios, viagens na companhia de baratas e alto preço da tarifa. Salvador tornou-se a oitava pior capital em transporte público no país, de acordo com índice divulgado no segundo semestre de 2016, pela Proteste – Associação Brasileira de Defesa do Consumidor.

A capital baiana conta com uma frota de 2.600 ônibus distribuídos em 500 linhas, para atender 163 bairros e quase 2,9 milhões de soteropolitanos — descontado, claro, aqueles que têm carro próprio e não fazem uso constante dos coletivos.

Não bastasse esta difícil equação que não fecha, na capital baiana o número de linhas começou a cair a partir do corte de 16 roteiros que, segundo a prefeitura, faziam rotas desnecessárias. Com a introdução do Bilhete Único, mais diminuição das linhas que rodam. Mais de dez linhas foram retiradas para estimular os soteropolitanos a pegar dois ônibus – pagando apenas uma passagem – ou usar o sistema do metrô.

O Aratu Online foi procurar saber porque há tantas queixas sobre o transporte público na capital baiana, do tempo de espera à limpeza dos coletivos.

Confira:

1. “Que horas esse ônibus sai?”

Final de linha da Federação com quatro ônibus Federação-Nazaré parados e passageiros esperando - Foto: Cris Almeida/Aratu Online

Final de linha da Federação com quatro ônibus Federação-Nazaré parados e passageiros esperando – Foto: Cris Almeida/Aratu Online

As demoras nos pontos de ônibus de Salvador é uma das principais reclamações entre os passageiros. Até na Estação da Lapa, um dos principais terminais de transbordo da capital, a demora chega a quase 2 horas. “Já estou esperando há mais de 1h30, nesse horário de 15h que nem é um horário de pico”, reclama Débora Santana, de 27 anos, enquanto aguarda, em uma sexta-feira, na fila do Cajazeiras 8, localizada no subsolo da Estação.

A matemática é simples. Das 192 linhas OT Trans da empresa Integra, que atende o chamado ‘miolo’ da cidade, ou seja de Tancredo Neves a Cajazeiras, apenas 27 linhas são Lapa. O ônibus de Débora demora porque somente dois ônibus Cajazeiras 8-Lapa circulam em Salvador, sendo que, a menos que haja um atraso significativo no trânsito, um coletivo só inicia a viagem, quando o outro chega do roteiro.

Mas não precisa ir até Cajazeiras para sentir os longos atrasos nos pontos de ônibus. No final de linha do bairro da Federação, os passageiros também sofrem com a espera e limitação de opções. De acordo com o despachante Jairo Rocha, da linha Integra Salvador Norte, que atende o Centro e a Orla da cidade, sai um ônibus a cada dez minutos no bairro. Os moradores, porém, negam. “Tem dias, como hoje, que ficam dois ou três ônibus parados aqui fazendo hora enquanto os motoristas e cobradores conversam. As vezes a gente precisa pressionar para saírem”, revela a atendente de telemarketing Rosana Cruz.

Outro problema pontuado pelos moradores da Federação, é o número pequeno de linhas que atendem o bairro. São apenas quatro opções de ônibus – Nazaré, Ribeira, Vale dos Rios Stiep R3 e R4.

A má distribuição das linhas e o longo intervalo de tempo entre uma e outra saída das garagens e finais de linha tem como consequência também a superlotação nos coletivos. Esses fatores são determinantes para a fama de mau serviço de transporte público que Salvador carrega há anos.

2. Mais 30 centavos

Salvador começou 2017 com uma nova tarifa de ônibus. No dia 2 de janeiro, o valor da passagem foi de R$ 3,30 para R$ 3,60. As linhas Aeroporto-Centro Histórico e Salvador Shopping-Centro Histórico, que operam em ônibus executivos, com ar-condiconado, têm nova tarifa de R$ 5,30. O valor anterior era de R$ 5.

Ao longo da última década os sucessivos aumentos fizeram a tarifa saltar de R$1,70 (valor cobrado em 2006) até os atuais R$3,60. Com isso, o acumulado de reajustes nos últimos 10 anos chega a soma de 80,4%. Essa prática de aumentos anuais soma-se com o péssimo serviço relatados pelos soteropolitanos e transforma-se em constantes protestos contra o reajuste.

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O estudo de ajuste da passagem é feito pela Agência reguladora e fiscalizadora dos serviços públicos de Salvador, a ARSAL, órgão ligado ao executivo municipal. Os critérios do estudo não foram divulgados, mas, de acordo com a prefeitura, entram na conta os 800 ônibus da frota que foram renovados. Sobre as demais melhorias no serviço, a prefeitura não se pronunciou.

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3. Limpeza

Basta colocar a mão para o ônibus parar, subir os degraus, passar pela catraca e pronto! Já é possível conviver entre baratas que circulam os coletivos da capital baiana. Mas ninguém paga R$ 3,60 para isso.

De acordo com a Secretaria de Mobilidade Urbana, a responsável pela higienização dos ônibus são as empresas, mas que são realizados dois tipos de vistorias pelo órgão, as programadas e as eventuais. Em caso de irregularidade, as empresas são autuadas e recebem um prazo para regularizar a situação – dedetizar os veículos e fazer uma limpeza mais intensa que o normal.

Ao Aratu Online, a empresa Integra afirmou que a limpeza nos coletivos é feita diariamente, mas apenas com o intuito de tirar ‘lixo humano’. Sobre a presença de baratas, a empresa afirmou “desconhecer a acusação” e garantiu que toda frota está em estado regular no quesito limpeza.

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