Maratone como uma Garota! – Sororidade e Profissionalismo em Suits

Suits poderia ser mais uma produção dramática cuja trama percorre tribunais e escritórios de advocacia, mas a série, que chegou à 8ª temporada em 2018, reserva personagens femininas complexas e intensas, que passam longe de meros acessórios na história e subvertem alguns estereótipos do gênero. Deixando de lado os Homens de Terno (tradução brasileira para Suits), a Maratone como uma Garota! vai abordar e a representação feminina, especialmente as relações entre mulheres, no ambiente profissional.

A série gira em torno de um escritório de advocacia corporativo de Manhattan. Até a temporada anterior, o enredo centrava-se em Harvey Specter (Gabriel Match), melhor advogado de NY, e Mike Ross (Patrick J. Adams), um rapaz com memória fotográfica que fingia ser advogado formado em Harvard. Com a saída de alguns atores do elenco, o protagonismo se dispersa e a história foca agora nas tensões e conciliações dentro da Zane Specter Litt.

 

 

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Apesar do protagonismo Specter-Ross, Suits já demarca, desde os primeiros episódios, que quem manda na coisa toda é Jessica Pearson (Gina Torres). Ela é basicamente a rainha suprema, talvez a personagem cuja construção mais evoluiu, sendo desde o início uma mulher firme, inteligente, chefe e advogada implacável e que preza por quem está ao seu lado, sempre atenta aos sentimentos dos outros. Some-se a tudo isso o fato de que além de mulher, ela é negra. E a questão racial recebe a devida atenção, de modo sutil (ao longo de momentos chaves), sem se tornar uma tecla constante, mas sem passar batido. Esse conjunto de atributos situam a personagem entre uma das melhores representações dos anos recentes. Superando o papel da mulher negra forte, Jessica, assim como Annalise Keating e Olivia Pope, são cheias de traços de personalidade e profissionais que subvertem a estrutura social e reivindicam seu lugar de direito.

Ao lado de Jéssica, Donna Paulsen é a mais querida da série. “Eu sou Donna” é o seu “Eu sei de tudo”. De fato, Donna sabe tudo, já que é bastante sagaz, responsável e hábil para negociações. Inicialmente ocupando o cargo de secretária pessoal de Harvey Specter, a personagem sempre foi central no desenrolar dos casos. Donna e Harvey nutrem um sentimento intenso, mais que amizade, o que os torna o ship mais fofo da série, ainda que o casal nunca tenha ficado junto. Essa relação clichê chefe-secretária, muito estigmatizada em filmes e séries, é bem desenvolvida aqui, principalmente pela construção de Donna como o campo sensato e racional, além de uma mulher com valores e visão bastante feministas. A personagem cresce a partir desses valores e de uma boa dose de empoderamento – (ALERTA DE SPOILER) -, chegando ao cargo de COO (chefe de operações) por sua determinação e exigência.

 

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Donna é quase sempre o elo que preza pela união das personagens femininas ao longo das temporadas. Sua relação com Jessica Pearson é de mútuo respeito e confiança. Soma-se ao time das protagonistas Rachel Zane (Meghan, Duquesa de Sussex, a nova membro da família real britânica), filha de um dos principais advogados de NY, mas que decide traçar seu caminho por conta própria e por isso vai trabalhar na Pearson Hardman (nome inicial da firma). Rachel é insegura, porém decidida. A personagem não consegue entrar em Harvard, requisito para ser associada, mas por sua dedicação à firma, consegue que seja revogada essa exigência. A paixão por Mike sempre esteve central no desenvolvimento da personagem e parece que estamos um pouco sem paciência para mulheres apaixonadas, já que Rachel era uma das menos queridas pelo público. Ainda assim, o seu crescimento profissional, a maturidade e competência que desenvolve, merecem o reconhecimento, visto que mulheres jovens e belas nem sempre são respeitadas em tramas assim. 

Rachel e Donna logo se tornam melhores amigas. Donna esteve sempre impulsionando-a, afinal, uma sobe e leva a outra, né mesmo? No ambiente profissional, ambas se empenham em cuidar dos interesses da firma antes de tudo. Há um notável equilíbrio entre o afeto pessoal e profissional, o que torna a relação das duas admirável ao público. Jessica reconhece em Rachel seu potencial como advogada mas, mais que isso, reconhece a força e determinação da jovem, que, sendo mulher e negra, vai percorrer um caminho semelhante ao que ela (Jessica) teve de trilhar. Ou seja, a empatia entre ambas se fortalece e estreita sua relação. Rachel, que via em Jessica seu modelo e inspiração, sendo ela um dos motivos pelo qual quis estar no escritório, teve Jessica também como mentora.

 

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O conceito de sororidade recebe, entre Jessica e Rachel, contornos bastante sensíveis e muito admiráveis na série. A questão de gênero e raça ganham força, remetendo à importância da afetividade e irmandade entre mulheres negras em sua construção política e social. Além de Jessica, Donna e Rachel, que diversas vezes trabalham em conjunto, a série apresenta mais mulheres que não podem ser esquecidas. Katrina Bennet (Amanda Schull) é uma das advogadas associadas mais ferozes e determinadas. Katrina retorna a 8ª temporada como elenco principal. Estreita sua relação com Donna, quem também a impulsionou profissionalmente. Sheila Sazs (Rachael Harris) também torna-se elenco principal. Sheila, agora casada com Louis, opta por tornar-se mãe, algo que recusava veementemente nas temporadas anteriores, e afirma que a maternidade não deverá interferir nas suas aspirações profissionais e que seu desempenho jamais será inferior por ser mãe.

A saída de Rachel (devido ao casamento real de Meghan, agora não mais atriz) e Ross foi compensada, na última temporada, com a entrada de novos personagens e a volta de antigos. Samantha Wheeler (Katherine Heigl) é uma das novas protagonistas. Braço direito de Robert Zane, é uma das melhores advogadas de Nova York. Jovem, esperta e capaz de tudo para vencer, a personalidade de Samantha vai sendo reveladas aos poucos. A relação entre ela e Donna é um dos traços mais interessantes da 8ª temporada. Donna percebe que Samantha, que não é muito de amizades, talvez precise de alguém em quem confiar, pessoal e profissionalmente, de modo que consegue tornar-se íntima.

 

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Chimamanda Ngozi Adichie, no livro Sejamos Todas Feministas (no trecho incorporado na música Flawless, da Beyoncé), afirma que nós (as sociedades) costumamos criar as mulheres para competir umas com as outras, não por empregos ou realizações, o que a autora julga uma coisa boa, mas pela atenção dos homens. Qualquer mulher sabe que, desde crianças, somos incentivadas a competir por atributos físicos, a ver as outras mulheres como rivais, e não parceiras, a desconfiar e rivalizar com nossas companheiras. Ao contrário da  “brotheragem” masculina. Pois bem, Suits abre espaço para essa discussão com uma firmeza que não passa batida em meio aos processos jurídicos. Desde o início, suas personagens refletem que não estão ali para passar pano ao patriarcado e sabem muito bem que competição e rivalidade não devem cair nas armadilhas machistas.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Especial: Os Melhores e os Piores Spin-offs de Todos os Tempos

 

Por Enoe Lopes Pontes

Depois de The Vampire Diaries e The Originals, o canal CW traz para os fãs das séries outra série dentro deste mesmo universo! Legacies é mais uma continuação da história sobre os vampiros e criaturas mágicas da emissora e pretende narrar a trajetória da filha da personagem Klaus, a Hope Mikaelson. Além disto, o enredo também mostrará as aventuras dos outros seres sobrenaturais da geração da Hope e easter eggs dos seriados originais, incluindo a revelação do destino de Elena (Nina Dobrev) e Damon (Ian Somerhalder).

Aproveitando o gancho da nova estreia da CW, o Série a Sério preparou um especial com os três melhores e piores spin-offs de todos os tempos da televisão. Curiosamente, foram pensadas produções de outras localidades, como o Brasil e a Inglaterra, mas os conteúdos dos Estados Unidos ocuparam as posições iniciais por terem continuações com plots mais independentes e arriscados e, ainda assim, conseguirem superar o original, seja para melhor ou pior! Contudo, adicionamos alguns nomes extras no final da lista, caso o leitor fique curioso para descobrir ou evitar algumas tramas!

 

MELHORES

 

 

3. Angel (1999-2004): Em 1997, entrava na programação da TV dos Estados Unidos Buffy – A caça vampiros. Com uma trama que misturava aventura, romance e suspense, a produção possuía um público fiel, conseguindo manter uma média de 5 a 7 milhões de espectadores por episódio, em todas as suas temporada. Dentro da narrativa, Buffy (Sarah Michelle Gellar), a heroína protagonista, vivia um romance complicado com um vampiro, Angel (David Boreanaz). A personagem do namorado da mocinha fez tanto sucesso que ele ganhou um seriado solo, com seu nome no título. O ponto alto da série é que ela talvez seja a que mais conseguia manter o estilo do enredo original, sem perder a sua própria personalidade. Além disso, o  principal possuía carisma, as tramas “monstro da semana” e do arco geral eram instigantes e os crossover entre Buffy e seu spin-off faziam eram bem elaborados, com sentido, criação de tensões e incentivo para seu público ter a vontade consumir as duas produções, pois elas se interligavam, em alguns momentos. Angel ficou no ar durante cinco anos, com uma média de público de quase 5 milhões de pessoas.

 

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2. Better Call Saul (2015-): Ainda em exibição e com quatro temporadas, até o momento, a série é um spin-off da famosa e cultuada Breaking Bad (BB). Com uma pegada mais leve que sua original, o seriado foca na história do advogado trambiqueiro Saul Goodman (Bobby Odenkirk), quando ele ainda era conhecido como Kimmy McGill. Apesar de ter altos e baixos, em alguns momentos, Better Call Saul consegue desenvolver a trajetória de Jimmy, revelando gradativamente sua transformação em Saul. Além disso, o roteiro consegue trazer um equilíbrio entre o dramático e cômico, explorando a personalidade sarcástica do protagonista, sem deixar de mostrar que embaixo da ponta do iceberg existe a degradação humana encarnada na figura do principal e de outros que o cercam. Odenkirk também é um destaque por ter habilidade de “voltar no tempo” e mostrar completamente o McGill, sabendo dosar os inserts de Goodman, aos poucos, sem entregar o resultado final que ele já havia mostrado antes, em sua aparição anterior. A sua performance vem sendo agraciada por elogios da crítica e indicações em premiações como Globo de Ouro e Emmy Awards.  Por fim, ainda têm uma questão: os fan services para os fãs de BB! Muitas das tragédias e confusões que explodem em Breaking Bad têm suas trajetórias mostradas nesta continuação.

 

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1.Frasier (1994-2003): Com o final do seriado Cheers – que ficou no ar por onze anos, teve 275 episódios e ganhou 28 Emmy Awards -, os fãs da sitcom ficaram órfãos. Porém, a NBC, emissora responsável pela produção, trouxe o seu spin-off, intitulado de Frasier. Com oito temporadas, no total, a história girava em torno de Dr. Frasier Crane, personagem presente desde a terceira temporada do seriado original, e seu irmão. Os dois são psiquiatras. As tensões e disputas entre a dupla gera os momentos mais engraçados da série. Quando Frasier começou a ser exibida, existia certa tensão, pois o seu sucessor possuía sucesso de crítica e público. Contudo, a comédia conseguiu manter a graça e algumas características de Cheers, porém repaginando a cidade e seus os ambientes principais. Por exemplo, enquanto uma se passa majoritariamente em um bar, a outra fica mais na casa de Dr. Frasier e na rádio que ele trabalha. Isto muda o tom em certos aspectos, pois as situações e o comportamento das pessoas são diferentes a depender do local que elas estão. Contudo, o time das piadas permanece e o fato de existirem questões amorosas com destaque forte também. Ainda existe um fato curioso sobre o seriado, ele é o maior vencedor de Emmys de todos os tempos, recebendo 39 troféus, em 12 anos!

Outras dicas boas: Cidade dos Homens (Original/2002 e Continuação/2018); Carga Pesada (Original/1979 e Continuação/2003); As Cariocas/As Brasileiras; Doctor Who (Original 1963/Continuação/2005) e Torchwood.

 

PIORES

 

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3. Once Upon a Time in Wonderland (2013-2014): Quando Once Upon a Time (2011-2018) entrou em sua terceira temporada, os showrunners Adam Horowitz e Edward Kitsis anunciaram o spin-off da série. Com um plot que focava em Alice no País das Maravilhas, e pitadas de Aladin, a produção foi considerada um fiasco por não alcançar uma boa média de público, tendo menos de 6 milhões de espectadores por episódios. Comparada com a sua original, que chegava ao dobro disso, o seriado não rendia bons frutos para a emissora ABC e foi cancelada em seu primeiro ano. Talvez, a razão para a falta de fidelização dos espectadores seja a qualidade técnica de OUAT in Wonderland mesmo! A protagonista, interpretada por Sophie Lowe (The Returned), era pouco expressiva e sem carisma, o seu ship – o gênio da lâmpada Cyrus (Queen of South) e Alice – não tinha química, os plot twists eram tantos que acompanhar o enredo ficava entediante e os efeitos especiais eram horrendos (coisa que a sua antecessora também não brilhava).

 

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2. Joey (2004-2006): Considerada uma das melhores séries de todos os tempos pelo público e por veículos como a Rolling Stones e o Hollywood Reporter, Friends (1994-2004) foi um hit em seu período de exibição e continua sendo cultuada e assistida até hoje em canais de TV fechados, DVD’s e streamings. Pensando neste sucesso, dois roteiristas do seriado, Shana Goldberg-Meehan e Scott Silveri, criaram o spin-off Joey. Ele mostrava a vida do ator Joey Tribbiani (Matt Le Blanc), que previamente ficou conhecido um dos seis amigos da narrativa antecessora. Curiosamente, muitos episódios foram dirigidos pelo Kevin S. Bright, um dos criadores de Friends, e por David Schwimmer, que fazia o Ross Geller na trama original. Ainda que a história não tenha tanta graça, com apenas um dos companheiros da turma, as piadas sejam óbvias e o lado mais clichê de Joey seja explorado, deixando-o raso, Le Blanc recebeu uma indicação ao Globo de Ouro pelo papel. Contudo, este fator não salva o conteúdo desastroso e entediante de Joey e não é também uma grande surpresa, já que o artista interpretava Tribbiani por mais de uma década.

 

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1. DC Legends of Tomorrow (2016-): A grande vencedora – ou perdedora – da lista de piores spin-offs com certeza é Legends of Tomorrow. Sucessora de produções como Arrow e The Flash, a série é exibida pela CW, nos Estados Unidos e pelo Warner Channel, no Brasil. O seriado peca, principalmente, na falta de habilidade em administrar a quantidade de herói colocados na trama. Eles não conseguem explorar com profundidade nenhuma personagem, deixando que a própria condução da narrativa se contamine, ficando óbvia e tediosa, pois traz problemas e soluções já esperadas. Para finalizar, as cenas de ação são o que tem de menos empolgante, numa produção sobre Super-heróis. Talvez, a emissora só deseje expandir o conteúdo da temática no canal, mas poderiam fazer de forma menos preguiçosa.

 

Terror em Série: American Horror Story e o mistério da Suprema

 

A nova temporada de American Horror Story está em seu sétimo episódio e, até então, retornamos a ver as histórias  que os fãs tanto esperavam, trazendo de volta personagens emblemáticas da primeira, da terceira e, até, da quinta temporada.

Deixamos um pouco de lado o futuro distópico, arruinado, até onde podemos saber e entender, pelo filho do mal, Michael Langdon. A temporada, nesse momento, se foca em mostrar como foi que chegou-se ao ponto de destruição total e como Langdon conseguiu ascender e chegar ao poder, sendo um Supremo, fato bem incomum, já que as mulheres herdam a supremacia, já que são herdeiras das bruxas de Salém.

 

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Aproveitando o lançamento de Apocalypse, sétimo ano da produção, aproveitamos para trazer um comentário de cada temporada por mês, até chegarmos a oitava. Murder House e Asylum já foram comentadas e você pode conferir os textos aqui e aqui. Desta vez, relembraremos um pouco de Coven e suas personagens. A história mostrava duas épocas distintas.  No presente, as bruxas descendentes de Salém, buscam proteção e auxílio para o controle de seus poderes, além da fuga da extinção e, encontram como refúgio, a Academia para Excepcionais Jovens Garotas da Madame Robichaux. A espécie de escola é comandada por Fiona Goode, mãe de Cordelia Foxx. Goode, interpretada por Jessica Lange, está no fim da linha como Suprema e perdendo seus poderes, enfraquecendo. Por isso, precisa encontrar sua sucessora e começa a treinar aprendizes.

No passado, personagens do período da escravidão, que realmente existiram em Nova Orleans, entram em conflito. A série une a socialite e assassina em série Delphine Lalaurie, que torturava seus escravos e a Rainha do Vodu, Marie Laveau. A última consegue vingança contra Lalaurie, mas, quando Goode busca a vida eterna, ela liberta Lalaurie e quebra o pacto de trégua entre as bruxas e as praticantes do vodu.

 

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O estilo de cada época é bem demarcado pela fotografia, pela arte e, claro, pelos figurinos. Se no passado os tons de vermelho e marrom fortes realçavam ambientes duais entre a riqueza e o horror do sangue e da violência, no presente, tons azulados e leves, demarcam uma era de perversidades veladas, onde a crueldade e atos inumanos são realizados com um sorriso no rosto.

Os assassinatos do século XIX possuem uma atmosfera mais sombria, trazendo uma iluminação que busca um naturalismo e que estabelece um ambiente pouco aconchegante. A direção de arte capricha na quantidade elementos cênicos, deixando sempre as locações preenchidas, colocando os corpos dos torturados como parte do cenário, muitas vezes, pendurados. Isto evidencia como a Lalaurie via seus escravos, como animais ou objetos insignificantes. Se existe algo de positivo em todas as temporadas da série é como a mesma consegue unir sua estética bem delineada, com seu discurso. A equipe consegue se apropriar ao máximo da meta de que tudo que aparece em cena deve ter um sentido.

 

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A Academia de bruxas possui poucos móveis e traz numa casa rodeada por um jardim iluminado, corredores e salas enormes e vazias, destacando a solidão que existe ali, mostrando que aquele lugar foi projetado um dia para morarem muitas mulheres, evidenciando assim, que as bruxas estão desaparecendo. O seriado tem uma de suas temporadas mais leves, com uma forte dose de humor, trazendo personagens bem construídas e com características bem delineadas. Cada uma das bruxas possui seus talentos, defeitos e dúvidas, fazendo com que seja difícil identificar a nova Suprema. Mesmo com atrizes novas na série até então, o elenco não deixa de ter sintonia e traz momentos potentes como a morte de Fiona ou quando Myrtle é queimada na fogueira.

É também uma temporada que celebra a força das mulheres, o girl power, sem etiquetar cada uma delas em clichês óbvios da feminilidade. A mãe pode amar sua filha e, ainda assim, se importar mais consigo mesma do que com qualquer outro, a atriz de Hollywood fútil, pode ser forte e inteligente e dentro de cada mulher existe muito mais companheirismo pela outro do que pode-se imaginar. Somos todas um pouco bruxas e, juntas, somos bem mais fortes. Coven talvez tenha uma dose alta de reviravoltas, trazendo um tom folhetinesco exagerado e deixa certa inconstância na qualidade de seus episódios. Mas, não perde seu charme e tem personagens e frases icônicas que trouxeram muitos fãs para American Horror Story.

 

Na trilha da série: Glee, Wicked e a luta por direitos

POR HANNA NOLASCO

O musical é um gênero que foi muitas vezes menosprezado por críticos e pesquisadores por ser encarado como mero entretenimento. No entanto, as temáticas sociais permeiam o enredo de seus produtos desde seu surgimento. Indo do teatro à televisão, o assunto foi abordado de diversas maneiras: a questão da diferença de classes era pano de fundo de My Fair Lady (teatros, 1956; cinema, 1964); as gangues de Nova Iorque e suas diferenças étnicas, base do enredo de West Side Story (cinema, 1961); e até filmes musicais infantojuvenis trouxeram discussões que perpassam o respeito ao próximo e a aproximação do diferente (A Bela e a Fera, 1991), os posicionamentos machistas de uma sociedade e a história de uma mulher que salva a China (Mulan, 1998) e também um governo ditatorial que assume o poder através do assassinato de um líder (O Rei Leão, 1994). Isso, além da guinada, a partir da década de 1970, de discussões mais abertas de temáticas sociais em musicais devido ao contexto histórico: Hair (1979), por exemplo, retratou a comunidade hippie estadunidense durante os anos 1960 e realizou uma crítica política à guerra do Vietnã. 

Mais especificamente em relação à discussão de preconceitos e de minorias sociais nos musicais, o tema do Na Trilha da Série de hoje é o seriado Glee e seu entrelaçamento com o musical da Broadway WickedGlee foi uma série musical de sucesso produzida pela FOX, com seis temporadas, exibida entre 2009 e 2015. O enredo se desenvolvia em um colégio no interior dos Estados Unidos, enfocando o Glee Club – coral – e seus membros. Nesse país, este tipo de grupo é apresentado como uma instituição marginalizada, que agrega jovens considerados nerds. A produção se apropria dessa discussão ao apresentar um grupo de estudantes guiados pelo professor Will Schuester, que saem de uma situação de preconceito escolar e constrangimento social ao prestígio entre os pares, através do sucesso em competições e divulgação da escola. Sendo assim, a narrativa mostra a transformação desse clube e da vida de seus participantes, abarcando temáticas como envolvimentos românticos, gravidez na adolescência e homossexualidade.

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A lista de músicas desse seriado abarcava grande quantidade de versões, indo do cancioneiro clássico estadunidense até hits da atualidade. Também havia uma aproximação grande com os musicais de teatro e cinema, visto que dois dos protagonistas, Rachel Berry e Kurt Hummel, almejavam ser atores da Broadway. É justamente na interação entre esses dois personagens, no nono episódio da primeira temporada de Glee, que foi realizada a versão de “Defying Gravity”, do musical teatral Wicked.

Esta canção é emblemática em Wicked: a história não contada das bruxas de Oz, obra que se passa na terra de Oz antes da ida de Dorothy – de O Mágico de Oz (1939). A peça trata da relação de amizade entre duas bruxas: Glinda, rotulada posteriormente como “bruxa boa” e Elphaba, posteriormente indicada como “bruxa má”. Acompanhando as duas bruxas desde a infância, o musical discute rótulos, questões de preconceito, corrupção na sociedade, além das próprias definições de boa/má: enquanto Glinda é branca e loira, Elphaba é verde, fator que sempre trouxe um estranhamento dos cidadãos de Oz em relação a ela. Esta produção, portanto, traz uma reflexão do que realmente é ser wicked (malvado), construindo assim uma crítica interessante a problemas vigentes em nossa sociedade, utilizando como metáfora essa terra fictícia.

 

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A canção “Defying Gravity” é utilizada no fim do primeiro ato da peça, marcando o momento em que Elphaba descobre que o Mágico de Oz, idolatrado por todos, não era um herói: pelo contrário, possuía planos sinistros para os animais de Oz. Sendo assim, a bruxa decide fazer tudo em seu poder para impedi-lo, mesmo enquanto os moradores de Oz a ridicularizam e vilanizam. Nesse momento, Elphaba canta sobre viver sem limites e ir de encontro a regras, desafiando a gravidade (tradução do título da canção), como podemos notar no trecho a seguir:

 

           “I’m through accepting limits                                                “Cansei de aceitar limites
‘Cuz someone says they’re so                          Porque alguém diz que eles existem
Some things I cannot change                          Algumas coisas eu não posso mudar
But till I try, I’ll never know”                                  Mas até eu tentar, nunca saberei”

 

Em Glee, no episódio 1×09, “Defying Gravity” marca um posicionamento do personagem Kurt, que luta pelo direito de interpretar essa canção na apresentação do coral, pois o professor Will deu o papel a Rachel somente por ser uma música tradicionalmente cantada por uma mulher. A mensagem da letra representa o momento vivido por Kurt, que tinha acabado de se assumir gay e se posiciona em face de uma decisão arbitrária, lutando por direitos iguais a solos em músicas independentemente de questões de gênero. Ao mesmo tempo, o episódio traz também um contexto do tratamento de homossexuais e suas famílias: o pai de Kurt, que o ajudou a ter a oportunidade de fazer a audição ao denunciar a atitude discriminatória ao diretor da escola, passa a receber telefonemas anônimos de cunho homofóbico.

 

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Sendo assim, durante a audição, Kurt erra propositalmente a nota mais aguda da canção, para que não seja selecionado por seus pares e seu pai não sofra mais ataques. Dessa forma, o episódio mostra não só um momento relevante de debate, mas também a realidade do preconceito de determinadas pessoas em relação àqueles que são diferentes.

Confiram aqui a apresentação de Idina Menzel e Kristin Chenoweth, da formação original de Wicked, na premiação Tony Awards, em 2004. Uma curiosidade: as duas atrizes participaram posteriormente de Glee, interpretando, respectivamente, a mãe biológica de Rachel e uma amiga de colégio do professor Will Schuester.

 

 

*Hanna Nolasco é jornalista, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e desenvolve pesquisas sobre o uso da música em produtos televisivos.

Maratone como uma Garota: As Mulheres Poderosas e suas representações

Com o dia das eleições chegando, muito tem se discutido sobre as questões voltadas para temáticas sobre “representatividade” e “empoderamento”. Nada como relembrarmos, então, daquelas personagens que ressignificaram para nós o sentido de “mulheres empoderadas” (ou “mulheres poderosas”, já que o termo “empoderada” se popularizou mais recentemente).

Como normalmente elas são construídas nas séries? Quais traços de personalidade e estilo usuais? Por que, por exemplo, é comum pairar sobre elas o fantasma da superioridade ou dos relacionamentos fracassados? E melhor, por que é importante falar sobre como muitas delas roubam nossos corações e se tornam uma inspiração de vida? O Maratone como uma garota! do mês passado falou sobre o empowerment na série Good Girls. Seguindo o tema, hoje vamos trazer algumas personagens badass*¹ e discutir um pouco sobre a representação desses “arquétipos” em seriados populares.  

 

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Elas são advogadas, médicas, jornalistas, primeiras-damas, chefes de polícia, e, porque não, presidentes da maior potência do mundo. É impossível, claro, assumir que há um padrão definitivo, porém, alguns atributos e estratégias narrativas acabam sendo recorrentes. Representações ideais estão ainda bem distantes, dada a força do imaginário patriarcal nos produtos midiáticos, mas não se pode negar que mulheres com personalidades fortes, bem construídas e com papéis centrais nas tramas e, muitas protagonistas, têm aparecido com mais frequência, especialmente em trabalhos de profissionais incríveis, como Shonda Rhimes.

Comecemos pensando em como, quase sempre, elas são mulheres com um ar de superioridade e arrogância. Ok, é muito comum que muitas de nós acabe criando uma “capa de pedantismo” como estratégia para resistir à desvalorização no trabalho, aos desmerecimentos, assédios, e por aí vai. Porém, quando se trata de personagens para um grande público, reforçar esses estereótipos negativos pode ser perigoso, criando um senso geral de que, para ser respeitada, não se pode ser dócil, sorridente, amável, enfim. Tal fato cria, inclusive, uma tensão em torno da ideia de “feminilidade” (que nem é preciso explicar quão machista é).

 

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Tomemos como exemplo a Cat Grant (Calista Flockhart) , a chefe da Supergirl e toda poderosa de National City. Cat é, praticamente, a Miranda Priestly da DC Comics, implacável e temida. Inicialmente fria e arrogante, aos poucos a série vai revelando nuances de seu “lado humano”. O mesmo acontece com as rainhas dos tribunais da atualidade. Olivia Pope (Kerry Washington) e Annalise Keating (Viola Davis), protagonizaram o crossover do milênio. Ambas são temidas, andam sempre em ternos suntuosos e com imponência na voz. Entre entradas triunfais, cada qual à sua maneira, lidam com as pessoas ao redor de modo impositivo e autoritário.

Algo que não pode passar batido se refere aos traumas e dramas pessoais desses sujeitos. É raro encontrar uma mulher que não tenha uma família desestabilizada, relacionamentos fracassados, ou sofrido violências e traumas de infância. Mais uma vez, esse padrão carrega o perigo de utilizar situações drásticas como motores únicos para o sucesso e muitas vezes serve como justificativa para comportamentos ariscos, o vício em trabalho, entre outro. É o caso de violências sexuais. É comum que roteiristas (homens, especialmente) que se apropriem de um estupro para humanizar as personagens, ou colocá-las como mulheres frias e impiedosas.

 

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Jessica Jones (Krysten Ritter), super-heroína da Marvel, é antissocial e pessimista. O fato de ter sido vítima do vilão Killgrave é tomado em alguns momentos da série como justificativa para sua força e desejo de vingança. O mesmo acontece com Mellie Grant (Bellamy Young), de Scandal, a primeira dama amargurada e irritante passa a ser humanizada quando se revela um abuso sofrido. Meredith Grey (Ellen Popeo) já sofreu perdas dolorosas e inclusive ataque por um paciente. Não esqueçamos de Claire Underwood (Robin Wright), de House Of Cards, cuja popularidade exponencial com o público não decorre disso, mas ganhou um destaque político quando revelou nacionalmente ter sido vítima de um estupro, do qual decorreu um aborto. Ainda que não seja bem assim (no enredo), a série colocou em pauta questões complexas que não deu conta de trabalhar como merecia.

É óbvio que tais acontecimentos deixam marcas e que não é obrigatoriamente um problema que eles sejam parte da história de um personagem. Não se trata puramente de abominar a “vitimização”, mas o discurso torna-se perigoso quando se explora esses fatos com fins de estereotipar ou “motivar” as mulheres, explorando uma experiência traumática que atinge muitas mulheres reais.

 

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Como toda história tem dois lados, nem tudo está perdido. Ms. Pope e Ms. Keating têm muito mais em comum do que as aparências indicam, sendo reverenciadas pela audiência, que vibra ao som dos seus saltos. Olivia pode ter a Casa Branca aos seus pés em um estalo de dedos, já que é uma estrategista implacável e conhecedora do direito e da política como poucas. Annalise é decidida, segura e pronta para as batalhas. Se Claire Underwood chegou à presidência não foi somente pelas circunstâncias complicadas que os produtores da série enfrentaram (a expulsão de Kevin Spacey após os escândalos de abusos), mas porque a personagem sempre foi fundamental para a ascensão política do marido e sempre esteve decisiva nas ações do plot.

O fato de serem independentes, seguras, inteligentes e jamais abaixar a cabeça para homem algum são alguns pontos que ganham a simpatia de quem afirma sentir-se mais “empoderada” por elas. Talvez por vivemos rodeadas de estereótipos e expectativas que tendem a nos subjugar, forçando-nos a esconder todo o tempo as nossas potências, habilidades e impondo limites sobre nossos corpos, vemos nessas personagens não somente aquilo que queremos ser, mas também aquilo que, em algum lugar, já somos!

 
*¹ – Bad Ass é uma gíria estadunidense para “Fodonas”

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Crítica: Nem boa e nem ruim! Minissérie “Maniac” quase chega lá!

Por Enoe Lopes Pontes

Produzida pela Netflix e criada por Cary Fukunaga (It: A Coisa) e Patrick Somerville (The Leftover), Maniac é uma produção um tanto complexa de se descrever e adjetivar. A sua narrativa não possui unidade, é dispersa e cada enredo que eles criaram é mal aproveitado. Quando o público assiste ao piloto, a impressão é a de que o protagonista é Jonah Hill (Anjos da Lei) e que existirá um mistério a ser contado durante a temporada: o que Owen vê e diz é verdade ou não? Muito bem!

Em seguida, há uma quebra de expectativa – que poderia ter sido bem explorada, obviamente – e o segundo episódio é focado em Annie (Emma Stone). A partir daí, o espectador começa a pensar que irá montar o quebra-cabeça da relação de Annie com a irmã e o que isto tem a ver com Owen  dentro do enredo. Contudo, apesar do 01×02 ser bem executado, impactante, principalmente na forma de conduzir o conflito principal da personagem de Stone, ainda não é ali que a questão mais importante é posta. O que realmente o seriado vai contar é um experimento de uma empresa farmacêutica da qual os jovens interpretados por Stone e Hill irão ser cobaias. Saber que o processo e resultado disto é o que importa apenas fica claro… Bem, no final da série.

 

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O problema é que, ao invés de tentar contar com clareza o experimento e até mesmo usar as informações das personagens que são descobertas nas duas primeiras partes da trama, pequenas partículas de historinhas imaginárias são postas demasiadamente. O roteiro começa a parecer o mesmo labirinto mental que Owen e Annie estão, mas não de uma forma positiva. O tempo que é gasto com as fantasias das cabeças da dupla não têm ritmo, porque ficam estagnadas em um único tom, sem equilibrar aceleração com tensões ou calmaria, as falas são monocórdicas. Quando Maniac chega no final, a conclusão é de ela poderia se resolver em cinco episódios e ser mais impactante ou ter os dez que ele possui, mas que explorasse menos peripécias e desenvolvesse melhor o que importa: a saúde mental de Owen e o conflito de Annie com a irmã – sem spoilers!

Porém, não é possível dizer que a minissérie é ruim! A primeira coisa que chama a atenção é a experimentação de gêneros cinematográficos. Enquanto as cobaias estão desacordadas, elas vivem em mundos imaginários. Neles são mostrados romances, lutas, brigas, gangsters, dramas familiares, suspense, investigação. O tom, os figurinos, as temperaturas e as fotografias seguem bem cada estilo. O ponto alto é a história de máfia, vivida por Owen, que parece uma mistura de Os Bons Companheiros (1990, Martin Scorsese), com Baby Driver (2017, Edgar Wright). Mesmo fugindo da história principal que deveria ser contada, aqui o episódio consegue ser mais fluído graças ao ritmo imprenso nas fantasias de Owen. Inclusive, é quando a narrativa começa a voltar para o prumo e se encaminhar para um desfecho.

 

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Outro ponto positivo é a dinâmica entre Emma Stone e Jonah Hill. Os dois separadamente estão equilibrados, conseguem captar bem a essência das personagens fixas que fazem, bem como mostram outras facetas quando estão vivendo as pessoas da realidade paralela. Vozes marcantes, postura corporal, malemolência ou dureza, os atores trazem em cada persona uma figura diferente. Mas, as cenas crescem mesmo quando a dupla está junta. A vivacidade de Annie contamina a melancolia de Owen e tanto a dupla quanto os acontecimentos ao redor deles ganha equilíbrio, deixando que a energia seja apenas uma. Além, claro que a trama fica menos dispersa quando os dois se encontram.

Por fim, o clima de futurismo dos anos 1980, numa pegada Blade Runner (1982), é um plus para o seriado, que busca desconectar-se temporalmente. A ideia que se existia no século XX de máquina com sentimentos e pensamentos é colocada a todo vapor em Maniac. Inclusive, a trajetória da personagem/computador, dublada por Sally Fiel (Brothers and Sisters), é a que vai fazendo mais sentido durante as horas de exibição. Assim, a série vira um produto distraído, que pode ser consumido lentamente, sem maratonas, para não ficar entediante.

Crítica: montagem é a grande falha de Luis Miguel: A série

por Enoe Lopes Pontes

Produzida pela MGM e a Gato Grande e distribuída pela Netflix, Luis Miguel – a Série alcançou um sucesso tão grande no México, que até uma matéria sobre o entusiasmo de seu público saiu no El País. Contando a trajetória do cantor internacional que dá título para a história, a produção mescla drama familiar, com romance e uma pitada de mistério. Toda a trama se baseia nos sucessos e derrotas de Luis (Diego Boneta), através de idas e vindas em sua vida, entre sua pré-adolescência até o início de sua juventude. Com um início instigante, a lógica da narrativa não se sustenta, porque ela perde sua força quando abusa da questão temporal.

Um dos elementos que acabam faltando por conta disto é a progressão dramática. A vida do cantor parece ter sempre sido marcada pelas opressões de seu pai, o também cantor, Luisito Rey (Óscar Jaenada). Até a sua morte, em 1992, Luis Miguel precisou lidar com os ultrajes de seu progenitor que lhe causaram perdas e ganhos enormes em sua carreira e desastres em sua vida pessoal. Por isso, é possível que a dinâmica seja logo vista, mas a empatia demora a acontecer e algumas reações das personagens não parecem justificáveis, até que se avance nos episódios. A estratégia poderia funcionar, porém as emoções são jogadas aos montes, deixando o tom das cenas à cima por tempo demasiado.

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Outros fatores não tão agradáveis são a montagem e a continuidade. Talvez, esta seja a grande questão da produção. Se uma reorganização das cenas fosse realizada, em cada episódio, a progressão e conexão com a trama conseguiriam crescer. Além disso, os cortes fazem o ritmo da exibição ir caindo e a fluidez da narrativa ir se perdendo. Resta uma ideia de que tudo que está sendo mostrado na tela é redundante e monótono. Por fim, as sequências foram realizadas com tanta falta de zelo que é possível notar erros de prosseguimento tão fortes que a questão até virou piada na internet – principalmente no Twitter, claro.

Contudo, existe uma questão que tem a capacidade de instigar o público a querer continuar sua maratona! O fator motivante para terminar a temporada é o mistério em relação ao sumiço de Marcela, mãe do protagonista. Entre as derrapadas de Luis e seu pai, a grande questão que desperta curiosidade é como vão mostrar a busca da personagem principal por um reencontro com Marcela e a razão pela qual ela sumiu. Inclusive, a atriz que a interpreta, Anna Favella, consegue estabelecer uma boa dinâmica com os dois atores que interpretam o cantor em sua fase de adolescente (Izan Llunas e Luis de La Rosa). As relações de olhar e toque, devido ao medo que os dois têm de Luisito ou alguma conquista maior de Luis, são logo notadas. O gestual de Favella fica mais suave quando sua personagem está ao lado do filho, e o mesmo demonstra segurança e tranquilidade quando acontecem interações entre os dois.

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Luis Miguel: A Série consegue enlaçar o espectador até o final da temporada por possuir uma investigação curiosa, que pode ser considerada o ponto alto do seriado. Contudo, se diluísse mais as idas e vindas da trajetória de Luis e enxugasse os episódios de treze para oito, talvez conseguisse reunir os fatos mais necessários para a trama e ganhasse impulso e brilho que um cantor que despertou tantos fãs mundialmente merecia.

 

Terror em Série: American Horror Story – uma nova temporada, uma nova história

A nova temporada de American Horror Story começou na última quarta (12) e a expectativa de ver personagens de temporadas anteriores foi quebrada, com um episódio focado somente numa história nunca vista anteriormente. Não vimos nenhum sinal de Cordelia Fox ou Constance Landgdon. De qualquer maneira, calma (!), Fox, Landgdon e tantas outras irão, eventualmente, aparecer. Isso já se é sabido.

Talvez, o Ryan Murphy e sua equipe tenha achado melhor apresentar logo pessoas novas para que o espectador possa de alguma forma se conectar com eles, sem preferência das personagens antigas, que já ganharam o carinho do público. Na carona dessa estreia, resolvemos trazer um comentário de cada temporada por mês, até chegarmos na oitava. Na coluna anterior, abordamos o início do seriado e a força na qual ele já começa. (Para quem quiser conferir o texto do mês passado, clique aqui!

Resultado de imagem para ahs apocalypseImagem de American Horror Story: Apocalypse 

A segunda temporada de American Horror Story chama-se Asylum e é considerada por muitos fãs e críticos como a melhor temporada de todas. Isso se deve ao fato da mesma possuir uma trama muito bem amarrada e personagens que têm mais complexidade, com menos maniqueísmos. Ainda que estas sejam muito más, vê-se a motivação de cada uma. Os episódios vão levando o espectador em uma jornada profunda, num universo do pós-guerra dentro de um manicômio. Vê-se nesta temporada, conflitos clássicos do terror, como uma parte da trama dedicada a possessão de um jovem. Depois que Mary Eunice (Lily Rabe) morre, um demônio entra em seu corpo. A escolha de planos da cena do exorcismo, evoca a memória dos fãs de horror e traz num quarto escuro enquadramentos abertos e zenitais (como vistos de cima para baixo), mostrando toda a geografia da cena.

A irmã Jude, madre superiora do manicômio, que abusa ao extremo de seu pequeno poder por ali, vê-se na cena do exorcismo sem forças para lutar. Na sequência, a atriz Jéssica Lange imprime em seu olhar o medo de estar ao lado, verdadeiramente, de um demônio. E a série joga mais uma vez com a noção dos monstros interiores e humanos. Os homens são os vilões dessa temporada e na cena do exorcismo é quase como se ambos quisessem aquele demônio presente, como se a força sobrenatural soubesse que há uma cumplicidade entre os seres masculinos. Por isso, escolhe o corpo de uma mulher inocente para habitar, de uma freira boa onde teria mais espaço para corromper.

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O manicômio onde se passa a temporada é não somente sombrio, mas, cinzento, com paredes grossas e gélidas que, combinadas com planos mais fechados e quase sempre com movimentos, trazem a sensação de clausura e instabilidade. Lana Winters, a protagonista de Asylum, é uma jornalista lésbica, que é internada no hospício somente por ser homossexual. Vê-se então uma perspectiva do terror não somente pelo sobrenatural mas, mais uma vez, pela capacidade do ser humano de fazer o mal, de torturar psicológica e fisicamente. Winters se torna alvo de experimentos, castigos, como se houvesse nela vilania e é quem em ela mais confia que se mostra seu maior algoz.

Asylum possui uma mistura de linguagens consagradas pelo horror. Diferentemente de Murder House, onde se vê uma construção de linguagem única, na segunda temporada, vê-se uma união de alguns aspectos que são bem amarrados. Uma sucessão de conflitos que misturam filme de possessão, pegadas de Polanski em Bebê de Rosemary, de um universo desconhecido e escuro, onde a protagonista se torna espectadora de sua própria vida, a tortura física que lembra os filmes de Eli Roth (sendo que Roth atua na série e é justamente sua personagem que traz essa atmosfera).

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Há também o conflito com os nazistas e as cenas ficam com luzes mais artificiais, com uma direção de arte preocupada , que faz salas de experimento que são bem diferentes do resto do manicômio. Dr. Arthur, interpretado por James Cromwell, é um médico nazista disfarçado e em sua sala de cirurgia faz os experimentos mais variados com os pacientes do manicômio. Com poucos cortes, suas cenas têm uma amplitude do sentimento de medo, deixando os planos parados e abertos instalarem um sentimento de repulsa bem característico do horror. Esse sentimento reforça uma ambientação terrorífica, deixando claro que os fatos da trama estão mais perto da realidade do que se imagina.

Asylum possui uma competência em sua decupagem, mostrando um jogo de luz entre o que se vê e o que fica nas sombras, brincando com a imaginação do espectador. É uma temporada que utiliza de maneira ainda mais eficaz a linguagem do gênero para evidenciar o horror do cotidiano e das fronteiras das relações sociais que, quando ultrapassadas podem revelar um ser mais demoníaco do que qualquer entidade, o próprio ser humano.

 

 

*Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

 

Na trilha da série: A música em Grey’s Anatomy

A música é um elemento fundamental para a realização de qualquer produto audiovisual, podendo assumir funções variadas, como a transmissão de informações e emoções. Por conta disso, inauguramos hoje, no Série a Sério, a nova coluna Na trilha da série, onde falaremos sobre os diferentes usos desse recurso em produtos televisivos!!!*

Alguns seriados não são musicais e ainda assim utilizam a música de forma diferenciada: é o caso de Grey’s Anatomy (ABC, 2005–atualmente). Se encaminhando para a 15ª temporada, que estreia ainda no mês de setembro, nos EUA, este drama médico é criado pela célebre showrunner Shonda Rhimes. Seguindo a tradição de clássicos da televisão estadunidense – como E.R. (no Brasil conhecido como Plantão Médico, NBC, 1994-2009) – a produção traz as histórias de vida de profissionais de saúde intercaladas a casos médicos.

 

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Além de ter realizado um episódio plenamente musical em sua sétima temporada – que retomaremos em outra edição da coluna –, Grey’s traz como característica marcante o uso de nomes de canções para intitular seus episódios. A partir daí, os títulos dessas músicas podem indicar a ideia geral do episódio, a canção pode ser executada em momentos-chave da trama, ou a sua letra pode estar ligada ao desenvolvimento narrativo de cada exibição, por exemplo.

É importante dizer que as referências musicais estão nos títulos originais dos episódios, em inglês. Na tradução para o português, são realizadas interpretações livres. Daremos alguns exemplos em seguida (SPOILER ALERT! Fugimos de indicações diretas, porém explanamos alguns desenvolvimentos de personagens nos exemplos escolhidos).

 

 

1×01:

Vamos começar pelo piloto da série. Intitulado “A Hard Day’s Night”, referência à canção dos Beatles, o episódio lida com o primeiro dia de trabalho de um grupo de internos – incluindo a protagonista, Meredith Grey (Ellen Pompeo) – no hospital Seattle Grace. Seu primeiro turno tem a duração de 48 horas, nas quais eles devem trabalhar e atender às mais diversas demandas do local. Sendo assim, a canção evocada pelo título pretende fazer alusão ao que acontecerá durante o enredo do 1×01: uma jornada intensa, “uma noite de um dia duro” (tradução livre do título da música). A letra da canção se relaciona parcialmente com essa intenção, pois o eu-lírico afirma ter trabalhado como um cachorro, diz que deveria estar dormindo e anseia pelo reencontro com a pessoa que o espera em casa. No caso dos internos de Grey’s Anatomy, fica claro, no entanto, que o fator marcante em suas vidas é o labor intenso, que inclusive é um complicador para seus relacionamentos pessoais.

 

12×11:

Como o nome do episódio e seu teaser são anunciados antes da estreia, ter determinadas canções como título também ajuda a criar expectativa no público. Por exemplo, ao ver o anúncio de “Unbreak my heart”, o espectador que conhece a canção melodramática interpretada por Toni Braxton não tem como esperar que a trama se desenrole sem situações de muita tensão. Além disso, pode inferir que o desenvolvimento narrativo do episódio traga algo relativo a um relacionamento amoroso, como o tema da canção. Nesse caso, a suposição estaria certa: o episódio 12×11 traz a resolução do casamento turbulento de April Kepner e Jackson Avery, através do seu divórcio. Por ser um momento difícil, pensar em “desquebrar” um coração, como a canção sugere, é uma relação direta à dor da separação e ao estado mental desses personagens.

 

9×01:

Outras vezes a escolha da música pode ser contraditória ao sentimento do episódio. É o caso de “Going going gone”. A canção, de Maddi Poppe, traz uma melodia dançante e o ponto de vista de alguém que não conseguia agir por medo, mas decide acabar com esse comportamento. No entanto, ela foi escolhida como título do episódio inicial da nona temporada de Grey’s Anatomy, que traz os momentos posteriores a uma grande tragédia: uma queda de avião envolvendo médicos da equipe do hospital. Nesse episódio, um dos médicos mais carismáticos da série vem a óbito por consequência de seus ferimentos. Sendo assim, o sentimento da música é contraditório, porém seu título “Going, going, gone”, que pode ser traduzido livremente como “indo, indo, foi”, não. Contrariamente à libertação do eu-lírico da música, o título pode ser interpretado de outra maneira ao ser relacionado com a trajetória desse personagem, que acaba morrendo mesmo após ter resistido e conseguido ser resgatado do acidente ainda com vida.

Há muitos outros exemplos nos mais de trezentos episódios já exibidos dessa série – já clássica – de drama médico estadunidense. E vocês, identificam alguma relação entre música e episódio que gostariam de destacar em Grey’s Anatomy? Comentem e até a próxima!

 

*Hanna Nolasco é jornalista, cantora, pesquisadora e mestre em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia. A música é seu foco de estudo e algo que está ligado ao seu cotidiano também como um prazer!

Especial: Séries que tratam sobre militância

Por Enoe Lopes Pontes

Assistir seriados pode ser um momento de relaxamento, de desligar-se do mundo e curtir aquela maratona divertida. Mas, o lazer também tem a possibilidade de chegar com reflexões e pautas relevantes para a sociedade. Enquanto o espectador consome uma produção bacana, que prende a atenção, a representatividade e a luta das chamadas minorias sociais acrescentam qualidade ao seriado.

Pensando nisso, o Série a Sério traz agora uma lista com séries que tratam sobre militância de diversas formas. Aqui, a busca foi enumerar obras que abordam temas mais variados possíveis, que possuem um discurso coerente e que conseguem debater  questões importantes para serem fomentadas, trazendo soluções.

Lembrando que a ideia da lista veio de um sorteio com sugestões de nossos leitores pelo o instagram do site (@serie_a_serio). O público pode interagir e mandar dicas para a página sempre que desejar. Mas, por enquanto, fique ligadinho neste top 5, feito para você que curte estar engajado e informado!

 

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5 – Sense8 (2015-2018): Oito pessoas, espalhadas pelo mundo, estão conectadas entre si e conseguem viver situações e sentimentos iguais, ao mesmo tempo. Localizados em regiões distintas, a representatividade dentro do seriado começa pelas diferentes etnias do grupo. Contudo, o ponto alto de reflexão da série vem da personagem Nomi Marks (Jamie Clayton), uma garota transgênero que precisa lutar contra a família que não aceita a sua identidade. Além de ser trans, Nomi é lésbica, o que deixa ainda mais tensa a sua relação com os parentes. Mas, Sense8 tem outras questões relevantes como: a homossexualidade do ator famoso Lito (Miguel Silvestre), as dificuldades sociais e financeiras de Capheus (Aml Ameen) e o girl power de Sun (Bae Doona). Apesar de muitas pautas necessárias e uma premissa instigante, a produção ficou muito custosa e foi cancelada em 2018. Ainda assim, vale a pena conferi-la.

 

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4 –  The Fosters (2013-2018): Produzida por Jennifer Lopez e exibida pelo canal Freeform, a série conta jornada de uma família estadunidense não tão convencional. Duas mulheres são casadas e possuem três filhos. O garoto mais velho é fruto do primeiro matrimônio de Stef (Teri Polo). Já os gêmeos Jesus (Noah Centineo) e Mariana (Cierra Ramirez) são adotivos e de origem latina. De repente, Stef e Lena (Sherri Saum) precisam acolher mais duas crianças temporariamente: Callie (Maia Mitchell) e Jude (Hayden Byerly). Dentro deste contexto, é impressionante como o seriado tem a capacidade abarcar múltiplas discussões fortes e importantes da sociedade, em um tom cotidiano. Eles conseguem criar empatia, aproximando o espectador com a realidade daquelas personagens, trazendo isto em uma mãe muito rígida ou uma adolescente rebelde, por exemplo. Assim, assuntos como a descoberta da homossexualidade na adolescência, drogas, alcoolismo, racismo, lesbofobia, estupro, assédio sexual e moral são inseridos em cada episódio. Em alguns momentos, a exposição dos problemas fica um tanto didático, porém os roteiristas equilibram isto colocando instantes de intimidade entre os Fosters.

 

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3 – Faking It (2014-2016): Produzida e exibida pela MTV, Faking it mostra a história de uma escola na qual todas as minorias sociais são populares. Por esta razão, duas melhores amigas fingem ser um casal para chamar a atenção do colégio. A partir disto, Amy (Rita Volk) começa a notar que tem sentimentos reais por Karma (Katie Stevens). Mas, a garota sofre muito porque sua crush gosta de um garoto, o Liam (Greg Sulkin). A partir desta premissa, o seriado foca, inicialmente, em discutir sobre a sexualidade. As duas garotas se questionam sobre gostar de meninos e meninas e existe sempre uma tensão no que tangem a bissexualidade e a homossexualidade, mostrando que as duas orientações existem e precisam ser discutidas. Contudo, a produção avança ainda mais quando traz o tema da intersexualidade. Uma das personagens descobre que é intersexo e a forma como a série trata todo o processo da jovem é delicada e esclarecedora. Por fim, outros assuntos são mencionados em vários episódios, como o racismo, a gordofobia, a mobilidade e a visibilidade de deficientes, a quebra de expectativa em relação aos muçulmanos, entre outras coisas que valem cada minuto gasto!

 

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2 – Dear White people (2017-): Adaptação do filme homônimo de 2014, a série é uma realização da Netflix. Mostrando o dia a dia de uma famosa universidade dos Estados Unidos, na qual a maioria dos estudantes é branca, a produção mostra os desafios que os alunos negros passam no campus. As tensões aumentam após uma festa na qual o tema era blackface. Obviamente, a sugestão foi feita por caucasianos que não possuiam sensibilidade e/ou conhecimento para barrar um ato tão racista. A partir disto, cada episódio trata da perspectiva de uma das personagens do seriado. Dear White People torna-se uma obra muito relevante por trazer pautas essenciais para a comunidade negra, inclusive aquelas que muita gente gosta de fingir que não existem. A autora deste top 5 reconhece que este não é seu lugar de fala, no entanto sabe também da profunda importância da discussão promovida por DWP e, por isso, recomenda que todos a assistam, urgentemente.

 

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1 – The Bold Type (2017-): Racismo, homofobia, empoderamento feminino, intolerância religiosa, relação com tecnologia… Esta série consegue abarcar quase todas as pautas pertinentes para a sociedade contemporânea. Além de provocar reflexão e debate sobre assuntos importantes, a melhor coisa de The Bold Type é o como ela faz isso. Ambientada dentro de uma revista de moda, na maior parte do tempo as personagens principais precisam lidar com a rotina estressante, mas gratificante de seus trabalhos. Exibida pela Freeform, a produção encaixa-se no gênero adolescente e é esse o seu ganho. De maneira leve e divertida, ela consegue sinalizar grandes problemas sofridos pelas pessoas. Questões que parecem bobas, como o julgamento de uma garota pelo o que ela veste, até algo forte como a homossexualidade de uma mulher muçulmana são os destaques de cada episódio, durante as duas temporadas já exibidas. Aqui, o espectador vai se encontrar de alguma maneira. E, apesar dela ser voltada para os teens, The Bold Type consegue dialogar com uma faixa etária ampla. Ainda que a história seja sobre Sutton (Meghann Fahy), Kat (Aishaa Dee) e Jane (Katie Stevens), jovens em ascensão, outras narrativas são colocadas como importantes para o desenvolvimento do enredo. Assim, se você é uma menina que sonha por direitos iguais, é a chefe atenciosa ou alguém que luta para uma flexibilidade maior na sua religião ou cultura, existe a possibilidade de se sentir representada. O seriado ocupa a primeira posição por conseguir imprimir todo o sufocamento das minorias sociais de forma clara e objetiva e trazer também possíveis soluções para os problemas que afligem tanto algumas parcelas da sociedade. Vejam!

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