Terror em Série: American Horror Story e suas mil facetas

 

por Hilda Lopes Pontes*

Em setembro, o público recebe a oitava temporada da celebrada e aclamada série de terror American Horror Story. Criada por Ryan Murphy, o seriado possui uma história diferente por ano, com assuntos variados, sem desfazer o clima de mistério, suspense, medo e sustos. Desta forma, o espectador sempre conhece novas personagens e vê na tela alguns atores que estão presentes em toda ou quase todas as temporadas, como numa trupe de teatro ou algo parecido. Muda-se o cenário, a narrativa, os conflitos, mas o elenco quase não muda.

Apesar de cada tema possuir um enredo isolado, em alguns momentos foi possível encontrar papéis repetidos, dentro de novos contextos. Um exemplo foi Lana Winters. Originalmente, uma participante da segunda season, ela reaparece na sexta, assim como Billie Dean, quem veio da primeira e retorna na quinta. Ambas são interpretadas pela atriz Sarah Paulson.

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Apesar de já ter realizado crossover** entre as temporadas, este ano Murphy e sua equipe prometem algo muito mais entrelaçado, trazendo de volta uma quantidade maior de personagens e conflitos que já apareceram previamente. Sabe-se até agora que a questão deixada em aberto no fim da primeira vira à tona e também que as bruxas da terceira estarão presentes em algum momento. Já que a nova etapa do seriado trará papéis e fatos anteriores, decidimos fazer um recap dos anos anteriores de American Horror Story e analisar os elementos de terror e narrativa que mudam a cada história.

Murder House é o título da primeira temporada e mostra uma família que está tentando se reconstruir depois de passar por um momento conturbado no qual a protagonista, Vivien, acabara de perder um filho. Além disso, seu marido, Ben, tinha terminado recentemente seu caso extraconjugal. Nesse cenário, os dois e sua filha compram, por um preço módico, uma casa grande e bonita, em Los Angeles.

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Vê-se então delinear-se uma histórica bem típica do imaginário que passou desde o gótico, da mansão que abriga espíritos malignos que assombram aqueles que conseguiram uma boa propriedade tão barata e sem nenhuma competição por ela. Nos primeiros episódios, Murder House traz muitos establishing shots*** da casa do lado de fora, investindo na ambientação externa e interna desse local amaldiçoado.

Faz-se uma certa pressão de que é na casa que estão os maiores problemas que a família vai enfrentar. A angulação contribui para a construção deste imaginário sobre a residência. Os planos, ora filmados com lente grande angular, de baixo para cima (contra plongée) ou com câmera aberta, emulam um point of view, como se os protagonistas estivessem sendo constantemente vigiados. Esta estratégia, passa a sensação de que existe uma acentuação das deformidades nas personalidades dos novos moradores deste lar, que estão crescendo justamente pela presença deles neste lugar, deixando uma aura de mau presságio. A questão é que essa apresentação do local e das personagens se delonga e os primeiros episódios terminam se arrastando um pouco.

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A atmosfera da temporada é delineada rapidamente, contudo, a série parece não perceber e se estende em momentos de suspense repetitivos, com os mesmos planos já citados e com as mesmas conversas entre o casal protagonista sobre seus problemas conjugais. O seriado pode, inclusive, gerar algum desinteresse em quem assiste inicialmente porque parece que não vai muito longe, nem em termos de narrativa de horror (quem está na casa será assombrado até a morte), nem em termos estéticos.

Contudo, a medida em que os episódios vão se desenvolvendo, descobre-se que American Horror Story se apropria da linguagem do terror para construir personagens tridimensionais, que precisam lidar com questões existenciais e com a morte. O elemento sobrenatural entra na série para tratar de temas universais como problemas familiares, relacionamentos humanos e, principalmente, sobre a maternidade.

(SPOILER ALERT!!!!!!!)

A estranha gravidez de Vivien e o amor de mãe são pano de fundo para tratar a maneira como a gestão é um momento que pode ser muito sombrio e como a perspectiva maternal, de proteção de um bebê pode levar as pessoas ao extremo. A família se vê perturbada por fantasmas e seres misteriosos que querem para si uma criança que ainda inexiste socialmente. Não se sabe quem é ou será um dia essa criatura que ainda não veio ao mundo.

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E o desfecho da temporada prova justamente que aquela vida pela qual uma família inteira trocou a sua é uma criatura sobrenatural. Mais uma vez, a apropriação do universo já explorado pelo terror é usada na série. O bebê nada mais é que um ser misterioso, com habilidades sinistras e sua história irá se desenvolver no oitavo ano de American Horror Story.

A narrativa se amarra para dentro e deixa links para sete anos depois retornar. Ainda que com certas “barrigas” e uma demora no desenvolvimento da história, a primeira temporada do seriado traz personagens complexas, ainda que coadjuvantes e estabelece uma mitologia cuidadosa que aparece em outras temporadas e que agora parece que terá seu desfecho.

 

*Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

**Crossover: quando personagens, universos e/contextos de narrativas ficcionais distintas se encontram. Exemplo: Annalise Keating (Viola Davis) da série How to get away with murder estar presente em um episódio de Scandal.

***Estabalishing shot: plano que ambientaliza o espectador, mostrando o cenário em sua totalidade. A câmera fica distanciada do objeto.

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