Maratone como uma Garota: As Mulheres Poderosas e suas representações

Com o dia das eleições chegando, muito tem se discutido sobre as questões voltadas para temáticas sobre “representatividade” e “empoderamento”. Nada como relembrarmos, então, daquelas personagens que ressignificaram para nós o sentido de “mulheres empoderadas” (ou “mulheres poderosas”, já que o termo “empoderada” se popularizou mais recentemente).

Como normalmente elas são construídas nas séries? Quais traços de personalidade e estilo usuais? Por que, por exemplo, é comum pairar sobre elas o fantasma da superioridade ou dos relacionamentos fracassados? E melhor, por que é importante falar sobre como muitas delas roubam nossos corações e se tornam uma inspiração de vida? O Maratone como uma garota! do mês passado falou sobre o empowerment na série Good Girls. Seguindo o tema, hoje vamos trazer algumas personagens badass*¹ e discutir um pouco sobre a representação desses “arquétipos” em seriados populares.  

 

Resultado de imagem para claire underwood

 

Elas são advogadas, médicas, jornalistas, primeiras-damas, chefes de polícia, e, porque não, presidentes da maior potência do mundo. É impossível, claro, assumir que há um padrão definitivo, porém, alguns atributos e estratégias narrativas acabam sendo recorrentes. Representações ideais estão ainda bem distantes, dada a força do imaginário patriarcal nos produtos midiáticos, mas não se pode negar que mulheres com personalidades fortes, bem construídas e com papéis centrais nas tramas e, muitas protagonistas, têm aparecido com mais frequência, especialmente em trabalhos de profissionais incríveis, como Shonda Rhimes.

Comecemos pensando em como, quase sempre, elas são mulheres com um ar de superioridade e arrogância. Ok, é muito comum que muitas de nós acabe criando uma “capa de pedantismo” como estratégia para resistir à desvalorização no trabalho, aos desmerecimentos, assédios, e por aí vai. Porém, quando se trata de personagens para um grande público, reforçar esses estereótipos negativos pode ser perigoso, criando um senso geral de que, para ser respeitada, não se pode ser dócil, sorridente, amável, enfim. Tal fato cria, inclusive, uma tensão em torno da ideia de “feminilidade” (que nem é preciso explicar quão machista é).

 

Resultado de imagem para cat grant

 

Tomemos como exemplo a Cat Grant (Calista Flockhart) , a chefe da Supergirl e toda poderosa de National City. Cat é, praticamente, a Miranda Priestly da DC Comics, implacável e temida. Inicialmente fria e arrogante, aos poucos a série vai revelando nuances de seu “lado humano”. O mesmo acontece com as rainhas dos tribunais da atualidade. Olivia Pope (Kerry Washington) e Annalise Keating (Viola Davis), protagonizaram o crossover do milênio. Ambas são temidas, andam sempre em ternos suntuosos e com imponência na voz. Entre entradas triunfais, cada qual à sua maneira, lidam com as pessoas ao redor de modo impositivo e autoritário.

Algo que não pode passar batido se refere aos traumas e dramas pessoais desses sujeitos. É raro encontrar uma mulher que não tenha uma família desestabilizada, relacionamentos fracassados, ou sofrido violências e traumas de infância. Mais uma vez, esse padrão carrega o perigo de utilizar situações drásticas como motores únicos para o sucesso e muitas vezes serve como justificativa para comportamentos ariscos, o vício em trabalho, entre outro. É o caso de violências sexuais. É comum que roteiristas (homens, especialmente) que se apropriem de um estupro para humanizar as personagens, ou colocá-las como mulheres frias e impiedosas.

 

Resultado de imagem para jessica jones

 

Jessica Jones (Krysten Ritter), super-heroína da Marvel, é antissocial e pessimista. O fato de ter sido vítima do vilão Killgrave é tomado em alguns momentos da série como justificativa para sua força e desejo de vingança. O mesmo acontece com Mellie Grant (Bellamy Young), de Scandal, a primeira dama amargurada e irritante passa a ser humanizada quando se revela um abuso sofrido. Meredith Grey (Ellen Popeo) já sofreu perdas dolorosas e inclusive ataque por um paciente. Não esqueçamos de Claire Underwood (Robin Wright), de House Of Cards, cuja popularidade exponencial com o público não decorre disso, mas ganhou um destaque político quando revelou nacionalmente ter sido vítima de um estupro, do qual decorreu um aborto. Ainda que não seja bem assim (no enredo), a série colocou em pauta questões complexas que não deu conta de trabalhar como merecia.

É óbvio que tais acontecimentos deixam marcas e que não é obrigatoriamente um problema que eles sejam parte da história de um personagem. Não se trata puramente de abominar a “vitimização”, mas o discurso torna-se perigoso quando se explora esses fatos com fins de estereotipar ou “motivar” as mulheres, explorando uma experiência traumática que atinge muitas mulheres reais.

 

Resultado de imagem para annalise and olivia

 

Como toda história tem dois lados, nem tudo está perdido. Ms. Pope e Ms. Keating têm muito mais em comum do que as aparências indicam, sendo reverenciadas pela audiência, que vibra ao som dos seus saltos. Olivia pode ter a Casa Branca aos seus pés em um estalo de dedos, já que é uma estrategista implacável e conhecedora do direito e da política como poucas. Annalise é decidida, segura e pronta para as batalhas. Se Claire Underwood chegou à presidência não foi somente pelas circunstâncias complicadas que os produtores da série enfrentaram (a expulsão de Kevin Spacey após os escândalos de abusos), mas porque a personagem sempre foi fundamental para a ascensão política do marido e sempre esteve decisiva nas ações do plot.

O fato de serem independentes, seguras, inteligentes e jamais abaixar a cabeça para homem algum são alguns pontos que ganham a simpatia de quem afirma sentir-se mais “empoderada” por elas. Talvez por vivemos rodeadas de estereótipos e expectativas que tendem a nos subjugar, forçando-nos a esconder todo o tempo as nossas potências, habilidades e impondo limites sobre nossos corpos, vemos nessas personagens não somente aquilo que queremos ser, mas também aquilo que, em algum lugar, já somos!

 
*¹ – Bad Ass é uma gíria estadunidense para “Fodonas”

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Nenhum Comentário

Os comentários estão desativados.