Maratone como uma Garota! – Sororidade e Profissionalismo em Suits

Suits poderia ser mais uma produção dramática cuja trama percorre tribunais e escritórios de advocacia, mas a série, que chegou à 8ª temporada em 2018, reserva personagens femininas complexas e intensas, que passam longe de meros acessórios na história e subvertem alguns estereótipos do gênero. Deixando de lado os Homens de Terno (tradução brasileira para Suits), a Maratone como uma Garota! vai abordar e a representação feminina, especialmente as relações entre mulheres, no ambiente profissional.

A série gira em torno de um escritório de advocacia corporativo de Manhattan. Até a temporada anterior, o enredo centrava-se em Harvey Specter (Gabriel Match), melhor advogado de NY, e Mike Ross (Patrick J. Adams), um rapaz com memória fotográfica que fingia ser advogado formado em Harvard. Com a saída de alguns atores do elenco, o protagonismo se dispersa e a história foca agora nas tensões e conciliações dentro da Zane Specter Litt.

 

 

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Apesar do protagonismo Specter-Ross, Suits já demarca, desde os primeiros episódios, que quem manda na coisa toda é Jessica Pearson (Gina Torres). Ela é basicamente a rainha suprema, talvez a personagem cuja construção mais evoluiu, sendo desde o início uma mulher firme, inteligente, chefe e advogada implacável e que preza por quem está ao seu lado, sempre atenta aos sentimentos dos outros. Some-se a tudo isso o fato de que além de mulher, ela é negra. E a questão racial recebe a devida atenção, de modo sutil (ao longo de momentos chaves), sem se tornar uma tecla constante, mas sem passar batido. Esse conjunto de atributos situam a personagem entre uma das melhores representações dos anos recentes. Superando o papel da mulher negra forte, Jessica, assim como Annalise Keating e Olivia Pope, são cheias de traços de personalidade e profissionais que subvertem a estrutura social e reivindicam seu lugar de direito.

Ao lado de Jéssica, Donna Paulsen é a mais querida da série. “Eu sou Donna” é o seu “Eu sei de tudo”. De fato, Donna sabe tudo, já que é bastante sagaz, responsável e hábil para negociações. Inicialmente ocupando o cargo de secretária pessoal de Harvey Specter, a personagem sempre foi central no desenrolar dos casos. Donna e Harvey nutrem um sentimento intenso, mais que amizade, o que os torna o ship mais fofo da série, ainda que o casal nunca tenha ficado junto. Essa relação clichê chefe-secretária, muito estigmatizada em filmes e séries, é bem desenvolvida aqui, principalmente pela construção de Donna como o campo sensato e racional, além de uma mulher com valores e visão bastante feministas. A personagem cresce a partir desses valores e de uma boa dose de empoderamento – (ALERTA DE SPOILER) -, chegando ao cargo de COO (chefe de operações) por sua determinação e exigência.

 

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Donna é quase sempre o elo que preza pela união das personagens femininas ao longo das temporadas. Sua relação com Jessica Pearson é de mútuo respeito e confiança. Soma-se ao time das protagonistas Rachel Zane (Meghan, Duquesa de Sussex, a nova membro da família real britânica), filha de um dos principais advogados de NY, mas que decide traçar seu caminho por conta própria e por isso vai trabalhar na Pearson Hardman (nome inicial da firma). Rachel é insegura, porém decidida. A personagem não consegue entrar em Harvard, requisito para ser associada, mas por sua dedicação à firma, consegue que seja revogada essa exigência. A paixão por Mike sempre esteve central no desenvolvimento da personagem e parece que estamos um pouco sem paciência para mulheres apaixonadas, já que Rachel era uma das menos queridas pelo público. Ainda assim, o seu crescimento profissional, a maturidade e competência que desenvolve, merecem o reconhecimento, visto que mulheres jovens e belas nem sempre são respeitadas em tramas assim. 

Rachel e Donna logo se tornam melhores amigas. Donna esteve sempre impulsionando-a, afinal, uma sobe e leva a outra, né mesmo? No ambiente profissional, ambas se empenham em cuidar dos interesses da firma antes de tudo. Há um notável equilíbrio entre o afeto pessoal e profissional, o que torna a relação das duas admirável ao público. Jessica reconhece em Rachel seu potencial como advogada mas, mais que isso, reconhece a força e determinação da jovem, que, sendo mulher e negra, vai percorrer um caminho semelhante ao que ela (Jessica) teve de trilhar. Ou seja, a empatia entre ambas se fortalece e estreita sua relação. Rachel, que via em Jessica seu modelo e inspiração, sendo ela um dos motivos pelo qual quis estar no escritório, teve Jessica também como mentora.

 

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O conceito de sororidade recebe, entre Jessica e Rachel, contornos bastante sensíveis e muito admiráveis na série. A questão de gênero e raça ganham força, remetendo à importância da afetividade e irmandade entre mulheres negras em sua construção política e social. Além de Jessica, Donna e Rachel, que diversas vezes trabalham em conjunto, a série apresenta mais mulheres que não podem ser esquecidas. Katrina Bennet (Amanda Schull) é uma das advogadas associadas mais ferozes e determinadas. Katrina retorna a 8ª temporada como elenco principal. Estreita sua relação com Donna, quem também a impulsionou profissionalmente. Sheila Sazs (Rachael Harris) também torna-se elenco principal. Sheila, agora casada com Louis, opta por tornar-se mãe, algo que recusava veementemente nas temporadas anteriores, e afirma que a maternidade não deverá interferir nas suas aspirações profissionais e que seu desempenho jamais será inferior por ser mãe.

A saída de Rachel (devido ao casamento real de Meghan, agora não mais atriz) e Ross foi compensada, na última temporada, com a entrada de novos personagens e a volta de antigos. Samantha Wheeler (Katherine Heigl) é uma das novas protagonistas. Braço direito de Robert Zane, é uma das melhores advogadas de Nova York. Jovem, esperta e capaz de tudo para vencer, a personalidade de Samantha vai sendo reveladas aos poucos. A relação entre ela e Donna é um dos traços mais interessantes da 8ª temporada. Donna percebe que Samantha, que não é muito de amizades, talvez precise de alguém em quem confiar, pessoal e profissionalmente, de modo que consegue tornar-se íntima.

 

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Chimamanda Ngozi Adichie, no livro Sejamos Todas Feministas (no trecho incorporado na música Flawless, da Beyoncé), afirma que nós (as sociedades) costumamos criar as mulheres para competir umas com as outras, não por empregos ou realizações, o que a autora julga uma coisa boa, mas pela atenção dos homens. Qualquer mulher sabe que, desde crianças, somos incentivadas a competir por atributos físicos, a ver as outras mulheres como rivais, e não parceiras, a desconfiar e rivalizar com nossas companheiras. Ao contrário da  “brotheragem” masculina. Pois bem, Suits abre espaço para essa discussão com uma firmeza que não passa batida em meio aos processos jurídicos. Desde o início, suas personagens refletem que não estão ali para passar pano ao patriarcado e sabem muito bem que competição e rivalidade não devem cair nas armadilhas machistas.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

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