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Terror em Série: American Horror Story – Le Freak C’ést Chic

Em setembro, tivemos o início da oitava temporada de American Horror Story (AHS), finalizada, de maneira impactante, em novembro. Por conta desse novo ano do seriado, resolvemos fazer um especial sobre o programa de TV, criado por Ryan Murphy, comentando um pouco sobre cada um de seus anos. Este mês, vamos falar sobre a quarta temporada da série, Freak Show. A trama se passa majoritariamente dentro de um circo e traz personagens marcantes e linhas narrativas bem construídas.

O lado fantástico da produção é explorado com a presença do palhaço Twisty (John Carroll Lynch), que comete alguns assassinatos. Todo o plot deste ser macabro é o que quebra o certo tom mais melancólico de Freak Show, trazendo pegadas de gore e de trash para a série. A personagem, inclusive, é a única do quarta ano que aparece em temporadas futuras, até então. Em Cult, ele é retratado numa revista em quadrinhos de Oz, filho de Ally e Ivy.

 

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Além do palhaço Twisty, vemos um circo, bastante decadente, comandado por Elsa Mars (Jessica Lange). Logo no começo da narrativa dentro do circo, a atriz Jessica Lange canta Life on Mars*, numa performance que dita todo o tom do universo desta nova história em AHS, trazendo movimentos de câmera que se traduzem num ballet visual e mostram de maneira poética a vida do circo, unindo as figuras diferentes, que vivem à margem da sociedade com a beleza da cena que carrega em seus tons esverdeados.

As cores em Freak Show são bem exploradas, pois a direção de arte utiliza muitas tons claros e, supostamente, alegres, só que dessaturadas, trazendo uma ambientação melancólica e que elucida a emulação da alegria que há nas atividades circenses. A temporada trabalha bem as características de cada personagem, mostrando de maneira inteligente que o freak não é aquele com tipos físicos diferentes do que a sociedade costuma ver e sim aquele que tem uma crueldade dentro de si, uma maldade que transborda e se constrói numa personalidade distorcida e anormal. Freak Show é um tratado sobre como a natureza humana pode ser doentia.

 

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Os planos e enquadramentos das cenas acompanham esse pensamento. No início da temporada, as cenas com as personagens do circo possuem mais planos holandeses (câmera de lado), o uso do lens flare e do soft focus, criam uma ambientação que mescla o onírico e o estranho. Aos poucos, mesmo com uma fotografia sombria e com pouca saturação, os enquadramentos vão se tornando mais crus, traduzindo bem a curva dramática de Freak Show. Este fator faz com que a energia saia do fantástico e mergulhando num universo sombrio e cruel.

As duas personagens de Sarah Paulson, as irmãs siamesas, Bette e Dot, roubam a cena com suas personalidades bem delineadas, com uma construção minuciosa de Paulson, quebrando estigmas e clichês sobre a relação de gêmeas siamesas. Existe uma complexidade nos desejos das duas, que termina movendo a trama para frente em sua narrativa e atriz mostra a consciência da importância de suas personagens, quando vai fazendo-as crescer episódio por episódio, revelando nuances de cada uma delas.

 

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Freak Show se apresenta como uma sólida temporada, ambientando bem as contradições do universo circense, colocando mais uma vez as crueldades e distorções de personalidade nas personagens mais inesperadas e utilizando bem os aspectos visuais do audiovisual tanto para criar uma ambientação, quanto para construir personagens e justificar aspectos da trama.

 

 

* Life on Mars é uma música de David Bowie, de 1971.

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

 

Na trilha da série: Walt Disney Company e o lançamento de carreiras musicais

A Walt Disney é uma empresa de grande envolvimento com o gênero musical, tanto nos cinemas quanto na televisão. Suas animações musicais marcaram a infância de várias gerações, e sua ação também trouxe fama a artistas hoje célebres, impactando o mercado fonográfico estadunidense no decorrer das décadas. No Na trilha da série de hoje, destacaremos alguns artistas que iniciaram suas carreiras na Disney.

 

Mickey Mouse Club

 

Christina Aguilera, Britney Spears, Justin Timberlake. Quem acompanha a carreira desses cantores pop hoje, não imagina que sua trajetória se iniciou ainda na infância no Mickey Mouse Club, o clube do Mickey Mouse. Realizado pela Disney e exibido pela ABC e Disney Channel, esse programa esteve no ar em períodos diversos entre as décadas de 1950 e 1990.

Sendo um programa de variedades, os episódios do clube compreendiam esquetes de comédia, participação de celebridades, além de diversos números musicais. A versão lançada em 1989, estrelada pelos famosos cantores supracitados, além de outros artistas relevantes – Keri Russel, protagonista de The Americans, também fez parte da equipe desse programa em sua adolescência, por exemplo – foi denominada como o “novíssimo” clube do Mickey Mouse, apontando para uma renovação do estilo desse show.

Os números musicais variavam entre solos, duetos e números de coro, que compreendiam uma quantidade maior de artistas. Em destaque após se apresentar no Star Search, um reality show musical, com apenas 9 anos, Christina Aguilera mostrava no clube seu alcance e variedade vocal desde criança, apresentando alguns solos ao vivo como a seguinte canção de Aretha Franklin:

 

Outros números tinham vocais pré-gravados, sendo apresentados em playback (um tipo de dublagem) e com grande enfoque em coreografias. Um exemplo é o dueto de “I’ll take you there” apresentado por Britney Spears e Justin Timberlake:

 

 

Miley Cyrus e Hannah Montana

Quase duas décadas depois, um dos programas musicais recentes mais exitosos do Disney Channel, Hannah Montana, esteve no ar. Exibido entre 2006 e 2011, ele deu origem também a um filme homônimo. Estrelada por Miley Cyrus, a série acompanhava a história de uma garota que possuía vida comum durante o dia, porém à noite se transformava na estrela musical Hannah Montana.

O programa trazia alguns pontos de consonância com a vida pessoal de Miley: seu nome era o mesmo da protagonista, e seu pai, Billy Ray Cyrus – um cantor de música country- interpretava também o pai dessa personagem, que possuía a mesma carreira na ficção.

O sucesso de Hannah Montana alavancou a carreira musical de Miley Cyrus, que iniciou os trabalhos da série ainda com 14 anos. Sua trajetória familiar já trazia o ambiente da música, não só por seu pai, mas também por sua madrinha, uma das maiores cantoras do country estadunidense: Dolly Parton. No entanto, foi após a exposição que alcançou na série da Disney que a cantora lançou seu primeiro CD solo, Meet Miley Cyrus, em 2007. Desde então, desenvolveu sólida carreira musical perpassando vários gêneros de música.

“The Climb”, uma das canções mais famosas da carreira de Cyrus, foi lançada como single e utilizada no momento de ápice do filme Hannah Montana:

 

Artistas teens dos anos 2010

Após o sucesso da série anterior, a Disney investiu ainda mais em uma variedade de programas para o público adolescente, incluindo também filmes. Alguns exemplos são High School Musical, construído em uma trilogia, e Camp Rock, sequência de duas obras, todos sendo filmes musicais.

Este último título, lançado em 2008, destacou a performance musical dos artistas Demi Lovato e Jonas Brothers. Após o filme, eles saíram em turnê musical juntos, já desvinculados de seus papeis ficcionais. Demi continuou a fazer seriados no Disney Channel, enquanto tocava sua carreira musical. Já os Jonas Brothers, trio de irmãos cantores, alcançaram uma base de fãs tão expressiva que a emissora lançou Jonas L.A, uma série com formato de reality show, que acompanhava a rotina desses artistas.

Selena Gomez é outra artista contemporânea que possui trajetória similar à de Demi Lovato. Ela já havia atuado em televisão, mas foi protagonizando a série de fantasia do Disney Channel, Os Feiticeiros de Waverly Place, que ganhou mais notoriedade. Um ano depois do lançamento da série, Selena iniciou sua carreira musical com a banda The Scene. Seu primeiro álbum solo, no entanto, só foi lançado em 2013.

Além dos cantores citados aqui, muitos outros artistas tiveram carreiras lançadas pela Disney. Sendo assim, essa empresa trouxe impacto para a indústria fonográfica, também através da grande variedade e vendagem dos CDs de trilha de seus programas.

*Hanna Nolasco é mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e desenvolve pesquisas sobre o uso da música em produtos televisivos

Maratone como uma Garota! – Sororidade e Profissionalismo em Suits

Suits poderia ser mais uma produção dramática cuja trama percorre tribunais e escritórios de advocacia, mas a série, que chegou à 8ª temporada em 2018, reserva personagens femininas complexas e intensas, que passam longe de meros acessórios na história e subvertem alguns estereótipos do gênero. Deixando de lado os Homens de Terno (tradução brasileira para Suits), a Maratone como uma Garota! vai abordar e a representação feminina, especialmente as relações entre mulheres, no ambiente profissional.

A série gira em torno de um escritório de advocacia corporativo de Manhattan. Até a temporada anterior, o enredo centrava-se em Harvey Specter (Gabriel Match), melhor advogado de NY, e Mike Ross (Patrick J. Adams), um rapaz com memória fotográfica que fingia ser advogado formado em Harvard. Com a saída de alguns atores do elenco, o protagonismo se dispersa e a história foca agora nas tensões e conciliações dentro da Zane Specter Litt.

 

 

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Apesar do protagonismo Specter-Ross, Suits já demarca, desde os primeiros episódios, que quem manda na coisa toda é Jessica Pearson (Gina Torres). Ela é basicamente a rainha suprema, talvez a personagem cuja construção mais evoluiu, sendo desde o início uma mulher firme, inteligente, chefe e advogada implacável e que preza por quem está ao seu lado, sempre atenta aos sentimentos dos outros. Some-se a tudo isso o fato de que além de mulher, ela é negra. E a questão racial recebe a devida atenção, de modo sutil (ao longo de momentos chaves), sem se tornar uma tecla constante, mas sem passar batido. Esse conjunto de atributos situam a personagem entre uma das melhores representações dos anos recentes. Superando o papel da mulher negra forte, Jessica, assim como Annalise Keating e Olivia Pope, são cheias de traços de personalidade e profissionais que subvertem a estrutura social e reivindicam seu lugar de direito.

Ao lado de Jéssica, Donna Paulsen é a mais querida da série. “Eu sou Donna” é o seu “Eu sei de tudo”. De fato, Donna sabe tudo, já que é bastante sagaz, responsável e hábil para negociações. Inicialmente ocupando o cargo de secretária pessoal de Harvey Specter, a personagem sempre foi central no desenrolar dos casos. Donna e Harvey nutrem um sentimento intenso, mais que amizade, o que os torna o ship mais fofo da série, ainda que o casal nunca tenha ficado junto. Essa relação clichê chefe-secretária, muito estigmatizada em filmes e séries, é bem desenvolvida aqui, principalmente pela construção de Donna como o campo sensato e racional, além de uma mulher com valores e visão bastante feministas. A personagem cresce a partir desses valores e de uma boa dose de empoderamento – (ALERTA DE SPOILER) -, chegando ao cargo de COO (chefe de operações) por sua determinação e exigência.

 

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Donna é quase sempre o elo que preza pela união das personagens femininas ao longo das temporadas. Sua relação com Jessica Pearson é de mútuo respeito e confiança. Soma-se ao time das protagonistas Rachel Zane (Meghan, Duquesa de Sussex, a nova membro da família real britânica), filha de um dos principais advogados de NY, mas que decide traçar seu caminho por conta própria e por isso vai trabalhar na Pearson Hardman (nome inicial da firma). Rachel é insegura, porém decidida. A personagem não consegue entrar em Harvard, requisito para ser associada, mas por sua dedicação à firma, consegue que seja revogada essa exigência. A paixão por Mike sempre esteve central no desenvolvimento da personagem e parece que estamos um pouco sem paciência para mulheres apaixonadas, já que Rachel era uma das menos queridas pelo público. Ainda assim, o seu crescimento profissional, a maturidade e competência que desenvolve, merecem o reconhecimento, visto que mulheres jovens e belas nem sempre são respeitadas em tramas assim. 

Rachel e Donna logo se tornam melhores amigas. Donna esteve sempre impulsionando-a, afinal, uma sobe e leva a outra, né mesmo? No ambiente profissional, ambas se empenham em cuidar dos interesses da firma antes de tudo. Há um notável equilíbrio entre o afeto pessoal e profissional, o que torna a relação das duas admirável ao público. Jessica reconhece em Rachel seu potencial como advogada mas, mais que isso, reconhece a força e determinação da jovem, que, sendo mulher e negra, vai percorrer um caminho semelhante ao que ela (Jessica) teve de trilhar. Ou seja, a empatia entre ambas se fortalece e estreita sua relação. Rachel, que via em Jessica seu modelo e inspiração, sendo ela um dos motivos pelo qual quis estar no escritório, teve Jessica também como mentora.

 

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O conceito de sororidade recebe, entre Jessica e Rachel, contornos bastante sensíveis e muito admiráveis na série. A questão de gênero e raça ganham força, remetendo à importância da afetividade e irmandade entre mulheres negras em sua construção política e social. Além de Jessica, Donna e Rachel, que diversas vezes trabalham em conjunto, a série apresenta mais mulheres que não podem ser esquecidas. Katrina Bennet (Amanda Schull) é uma das advogadas associadas mais ferozes e determinadas. Katrina retorna a 8ª temporada como elenco principal. Estreita sua relação com Donna, quem também a impulsionou profissionalmente. Sheila Sazs (Rachael Harris) também torna-se elenco principal. Sheila, agora casada com Louis, opta por tornar-se mãe, algo que recusava veementemente nas temporadas anteriores, e afirma que a maternidade não deverá interferir nas suas aspirações profissionais e que seu desempenho jamais será inferior por ser mãe.

A saída de Rachel (devido ao casamento real de Meghan, agora não mais atriz) e Ross foi compensada, na última temporada, com a entrada de novos personagens e a volta de antigos. Samantha Wheeler (Katherine Heigl) é uma das novas protagonistas. Braço direito de Robert Zane, é uma das melhores advogadas de Nova York. Jovem, esperta e capaz de tudo para vencer, a personalidade de Samantha vai sendo reveladas aos poucos. A relação entre ela e Donna é um dos traços mais interessantes da 8ª temporada. Donna percebe que Samantha, que não é muito de amizades, talvez precise de alguém em quem confiar, pessoal e profissionalmente, de modo que consegue tornar-se íntima.

 

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Chimamanda Ngozi Adichie, no livro Sejamos Todas Feministas (no trecho incorporado na música Flawless, da Beyoncé), afirma que nós (as sociedades) costumamos criar as mulheres para competir umas com as outras, não por empregos ou realizações, o que a autora julga uma coisa boa, mas pela atenção dos homens. Qualquer mulher sabe que, desde crianças, somos incentivadas a competir por atributos físicos, a ver as outras mulheres como rivais, e não parceiras, a desconfiar e rivalizar com nossas companheiras. Ao contrário da  “brotheragem” masculina. Pois bem, Suits abre espaço para essa discussão com uma firmeza que não passa batida em meio aos processos jurídicos. Desde o início, suas personagens refletem que não estão ali para passar pano ao patriarcado e sabem muito bem que competição e rivalidade não devem cair nas armadilhas machistas.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Terror em Série: American Horror Story e o mistério da Suprema

 

A nova temporada de American Horror Story está em seu sétimo episódio e, até então, retornamos a ver as histórias  que os fãs tanto esperavam, trazendo de volta personagens emblemáticas da primeira, da terceira e, até, da quinta temporada.

Deixamos um pouco de lado o futuro distópico, arruinado, até onde podemos saber e entender, pelo filho do mal, Michael Langdon. A temporada, nesse momento, se foca em mostrar como foi que chegou-se ao ponto de destruição total e como Langdon conseguiu ascender e chegar ao poder, sendo um Supremo, fato bem incomum, já que as mulheres herdam a supremacia, já que são herdeiras das bruxas de Salém.

 

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Aproveitando o lançamento de Apocalypse, sétimo ano da produção, aproveitamos para trazer um comentário de cada temporada por mês, até chegarmos a oitava. Murder House e Asylum já foram comentadas e você pode conferir os textos aqui e aqui. Desta vez, relembraremos um pouco de Coven e suas personagens. A história mostrava duas épocas distintas.  No presente, as bruxas descendentes de Salém, buscam proteção e auxílio para o controle de seus poderes, além da fuga da extinção e, encontram como refúgio, a Academia para Excepcionais Jovens Garotas da Madame Robichaux. A espécie de escola é comandada por Fiona Goode, mãe de Cordelia Foxx. Goode, interpretada por Jessica Lange, está no fim da linha como Suprema e perdendo seus poderes, enfraquecendo. Por isso, precisa encontrar sua sucessora e começa a treinar aprendizes.

No passado, personagens do período da escravidão, que realmente existiram em Nova Orleans, entram em conflito. A série une a socialite e assassina em série Delphine Lalaurie, que torturava seus escravos e a Rainha do Vodu, Marie Laveau. A última consegue vingança contra Lalaurie, mas, quando Goode busca a vida eterna, ela liberta Lalaurie e quebra o pacto de trégua entre as bruxas e as praticantes do vodu.

 

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O estilo de cada época é bem demarcado pela fotografia, pela arte e, claro, pelos figurinos. Se no passado os tons de vermelho e marrom fortes realçavam ambientes duais entre a riqueza e o horror do sangue e da violência, no presente, tons azulados e leves, demarcam uma era de perversidades veladas, onde a crueldade e atos inumanos são realizados com um sorriso no rosto.

Os assassinatos do século XIX possuem uma atmosfera mais sombria, trazendo uma iluminação que busca um naturalismo e que estabelece um ambiente pouco aconchegante. A direção de arte capricha na quantidade elementos cênicos, deixando sempre as locações preenchidas, colocando os corpos dos torturados como parte do cenário, muitas vezes, pendurados. Isto evidencia como a Lalaurie via seus escravos, como animais ou objetos insignificantes. Se existe algo de positivo em todas as temporadas da série é como a mesma consegue unir sua estética bem delineada, com seu discurso. A equipe consegue se apropriar ao máximo da meta de que tudo que aparece em cena deve ter um sentido.

 

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A Academia de bruxas possui poucos móveis e traz numa casa rodeada por um jardim iluminado, corredores e salas enormes e vazias, destacando a solidão que existe ali, mostrando que aquele lugar foi projetado um dia para morarem muitas mulheres, evidenciando assim, que as bruxas estão desaparecendo. O seriado tem uma de suas temporadas mais leves, com uma forte dose de humor, trazendo personagens bem construídas e com características bem delineadas. Cada uma das bruxas possui seus talentos, defeitos e dúvidas, fazendo com que seja difícil identificar a nova Suprema. Mesmo com atrizes novas na série até então, o elenco não deixa de ter sintonia e traz momentos potentes como a morte de Fiona ou quando Myrtle é queimada na fogueira.

É também uma temporada que celebra a força das mulheres, o girl power, sem etiquetar cada uma delas em clichês óbvios da feminilidade. A mãe pode amar sua filha e, ainda assim, se importar mais consigo mesma do que com qualquer outro, a atriz de Hollywood fútil, pode ser forte e inteligente e dentro de cada mulher existe muito mais companheirismo pela outro do que pode-se imaginar. Somos todas um pouco bruxas e, juntas, somos bem mais fortes. Coven talvez tenha uma dose alta de reviravoltas, trazendo um tom folhetinesco exagerado e deixa certa inconstância na qualidade de seus episódios. Mas, não perde seu charme e tem personagens e frases icônicas que trouxeram muitos fãs para American Horror Story.

 

 

*Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Na trilha da série: Glee, Wicked e a luta por direitos

POR HANNA NOLASCO

O musical é um gênero que foi muitas vezes menosprezado por críticos e pesquisadores por ser encarado como mero entretenimento. No entanto, as temáticas sociais permeiam o enredo de seus produtos desde seu surgimento. Indo do teatro à televisão, o assunto foi abordado de diversas maneiras: a questão da diferença de classes era pano de fundo de My Fair Lady (teatros, 1956; cinema, 1964); as gangues de Nova Iorque e suas diferenças étnicas, base do enredo de West Side Story (cinema, 1961); e até filmes musicais infantojuvenis trouxeram discussões que perpassam o respeito ao próximo e a aproximação do diferente (A Bela e a Fera, 1991), os posicionamentos machistas de uma sociedade e a história de uma mulher que salva a China (Mulan, 1998) e também um governo ditatorial que assume o poder através do assassinato de um líder (O Rei Leão, 1994). Isso, além da guinada, a partir da década de 1970, de discussões mais abertas de temáticas sociais em musicais devido ao contexto histórico: Hair (1979), por exemplo, retratou a comunidade hippie estadunidense durante os anos 1960 e realizou uma crítica política à guerra do Vietnã. 

Mais especificamente em relação à discussão de preconceitos e de minorias sociais nos musicais, o tema do Na Trilha da Série de hoje é o seriado Glee e seu entrelaçamento com o musical da Broadway WickedGlee foi uma série musical de sucesso produzida pela FOX, com seis temporadas, exibida entre 2009 e 2015. O enredo se desenvolvia em um colégio no interior dos Estados Unidos, enfocando o Glee Club – coral – e seus membros. Nesse país, este tipo de grupo é apresentado como uma instituição marginalizada, que agrega jovens considerados nerds. A produção se apropria dessa discussão ao apresentar um grupo de estudantes guiados pelo professor Will Schuester, que saem de uma situação de preconceito escolar e constrangimento social ao prestígio entre os pares, através do sucesso em competições e divulgação da escola. Sendo assim, a narrativa mostra a transformação desse clube e da vida de seus participantes, abarcando temáticas como envolvimentos românticos, gravidez na adolescência e homossexualidade.

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A lista de músicas desse seriado abarcava grande quantidade de versões, indo do cancioneiro clássico estadunidense até hits da atualidade. Também havia uma aproximação grande com os musicais de teatro e cinema, visto que dois dos protagonistas, Rachel Berry e Kurt Hummel, almejavam ser atores da Broadway. É justamente na interação entre esses dois personagens, no nono episódio da primeira temporada de Glee, que foi realizada a versão de “Defying Gravity”, do musical teatral Wicked.

Esta canção é emblemática em Wicked: a história não contada das bruxas de Oz, obra que se passa na terra de Oz antes da ida de Dorothy – de O Mágico de Oz (1939). A peça trata da relação de amizade entre duas bruxas: Glinda, rotulada posteriormente como “bruxa boa” e Elphaba, posteriormente indicada como “bruxa má”. Acompanhando as duas bruxas desde a infância, o musical discute rótulos, questões de preconceito, corrupção na sociedade, além das próprias definições de boa/má: enquanto Glinda é branca e loira, Elphaba é verde, fator que sempre trouxe um estranhamento dos cidadãos de Oz em relação a ela. Esta produção, portanto, traz uma reflexão do que realmente é ser wicked (malvado), construindo assim uma crítica interessante a problemas vigentes em nossa sociedade, utilizando como metáfora essa terra fictícia.

 

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A canção “Defying Gravity” é utilizada no fim do primeiro ato da peça, marcando o momento em que Elphaba descobre que o Mágico de Oz, idolatrado por todos, não era um herói: pelo contrário, possuía planos sinistros para os animais de Oz. Sendo assim, a bruxa decide fazer tudo em seu poder para impedi-lo, mesmo enquanto os moradores de Oz a ridicularizam e vilanizam. Nesse momento, Elphaba canta sobre viver sem limites e ir de encontro a regras, desafiando a gravidade (tradução do título da canção), como podemos notar no trecho a seguir:

 

           “I’m through accepting limits                                                “Cansei de aceitar limites
‘Cuz someone says they’re so                          Porque alguém diz que eles existem
Some things I cannot change                          Algumas coisas eu não posso mudar
But till I try, I’ll never know”                                  Mas até eu tentar, nunca saberei”

 

Em Glee, no episódio 1×09, “Defying Gravity” marca um posicionamento do personagem Kurt, que luta pelo direito de interpretar essa canção na apresentação do coral, pois o professor Will deu o papel a Rachel somente por ser uma música tradicionalmente cantada por uma mulher. A mensagem da letra representa o momento vivido por Kurt, que tinha acabado de se assumir gay e se posiciona em face de uma decisão arbitrária, lutando por direitos iguais a solos em músicas independentemente de questões de gênero. Ao mesmo tempo, o episódio traz também um contexto do tratamento de homossexuais e suas famílias: o pai de Kurt, que o ajudou a ter a oportunidade de fazer a audição ao denunciar a atitude discriminatória ao diretor da escola, passa a receber telefonemas anônimos de cunho homofóbico.

 

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Sendo assim, durante a audição, Kurt erra propositalmente a nota mais aguda da canção, para que não seja selecionado por seus pares e seu pai não sofra mais ataques. Dessa forma, o episódio mostra não só um momento relevante de debate, mas também a realidade do preconceito de determinadas pessoas em relação àqueles que são diferentes.

Confiram aqui a apresentação de Idina Menzel e Kristin Chenoweth, da formação original de Wicked, na premiação Tony Awards, em 2004. Uma curiosidade: as duas atrizes participaram posteriormente de Glee, interpretando, respectivamente, a mãe biológica de Rachel e uma amiga de colégio do professor Will Schuester.

 

 

*Hanna Nolasco é jornalista, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e desenvolve pesquisas sobre o uso da música em produtos televisivos.

Maratone como uma Garota: As Mulheres Poderosas e suas representações

Com o dia das eleições chegando, muito tem se discutido sobre as questões voltadas para temáticas sobre “representatividade” e “empoderamento”. Nada como relembrarmos, então, daquelas personagens que ressignificaram para nós o sentido de “mulheres empoderadas” (ou “mulheres poderosas”, já que o termo “empoderada” se popularizou mais recentemente).

Como normalmente elas são construídas nas séries? Quais traços de personalidade e estilo usuais? Por que, por exemplo, é comum pairar sobre elas o fantasma da superioridade ou dos relacionamentos fracassados? E melhor, por que é importante falar sobre como muitas delas roubam nossos corações e se tornam uma inspiração de vida? O Maratone como uma garota! do mês passado falou sobre o empowerment na série Good Girls. Seguindo o tema, hoje vamos trazer algumas personagens badass*¹ e discutir um pouco sobre a representação desses “arquétipos” em seriados populares.  

 

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Elas são advogadas, médicas, jornalistas, primeiras-damas, chefes de polícia, e, porque não, presidentes da maior potência do mundo. É impossível, claro, assumir que há um padrão definitivo, porém, alguns atributos e estratégias narrativas acabam sendo recorrentes. Representações ideais estão ainda bem distantes, dada a força do imaginário patriarcal nos produtos midiáticos, mas não se pode negar que mulheres com personalidades fortes, bem construídas e com papéis centrais nas tramas e, muitas protagonistas, têm aparecido com mais frequência, especialmente em trabalhos de profissionais incríveis, como Shonda Rhimes.

Comecemos pensando em como, quase sempre, elas são mulheres com um ar de superioridade e arrogância. Ok, é muito comum que muitas de nós acabe criando uma “capa de pedantismo” como estratégia para resistir à desvalorização no trabalho, aos desmerecimentos, assédios, e por aí vai. Porém, quando se trata de personagens para um grande público, reforçar esses estereótipos negativos pode ser perigoso, criando um senso geral de que, para ser respeitada, não se pode ser dócil, sorridente, amável, enfim. Tal fato cria, inclusive, uma tensão em torno da ideia de “feminilidade” (que nem é preciso explicar quão machista é).

 

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Tomemos como exemplo a Cat Grant (Calista Flockhart) , a chefe da Supergirl e toda poderosa de National City. Cat é, praticamente, a Miranda Priestly da DC Comics, implacável e temida. Inicialmente fria e arrogante, aos poucos a série vai revelando nuances de seu “lado humano”. O mesmo acontece com as rainhas dos tribunais da atualidade. Olivia Pope (Kerry Washington) e Annalise Keating (Viola Davis), protagonizaram o crossover do milênio. Ambas são temidas, andam sempre em ternos suntuosos e com imponência na voz. Entre entradas triunfais, cada qual à sua maneira, lidam com as pessoas ao redor de modo impositivo e autoritário.

Algo que não pode passar batido se refere aos traumas e dramas pessoais desses sujeitos. É raro encontrar uma mulher que não tenha uma família desestabilizada, relacionamentos fracassados, ou sofrido violências e traumas de infância. Mais uma vez, esse padrão carrega o perigo de utilizar situações drásticas como motores únicos para o sucesso e muitas vezes serve como justificativa para comportamentos ariscos, o vício em trabalho, entre outro. É o caso de violências sexuais. É comum que roteiristas (homens, especialmente) que se apropriem de um estupro para humanizar as personagens, ou colocá-las como mulheres frias e impiedosas.

 

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Jessica Jones (Krysten Ritter), super-heroína da Marvel, é antissocial e pessimista. O fato de ter sido vítima do vilão Killgrave é tomado em alguns momentos da série como justificativa para sua força e desejo de vingança. O mesmo acontece com Mellie Grant (Bellamy Young), de Scandal, a primeira dama amargurada e irritante passa a ser humanizada quando se revela um abuso sofrido. Meredith Grey (Ellen Popeo) já sofreu perdas dolorosas e inclusive ataque por um paciente. Não esqueçamos de Claire Underwood (Robin Wright), de House Of Cards, cuja popularidade exponencial com o público não decorre disso, mas ganhou um destaque político quando revelou nacionalmente ter sido vítima de um estupro, do qual decorreu um aborto. Ainda que não seja bem assim (no enredo), a série colocou em pauta questões complexas que não deu conta de trabalhar como merecia.

É óbvio que tais acontecimentos deixam marcas e que não é obrigatoriamente um problema que eles sejam parte da história de um personagem. Não se trata puramente de abominar a “vitimização”, mas o discurso torna-se perigoso quando se explora esses fatos com fins de estereotipar ou “motivar” as mulheres, explorando uma experiência traumática que atinge muitas mulheres reais.

 

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Como toda história tem dois lados, nem tudo está perdido. Ms. Pope e Ms. Keating têm muito mais em comum do que as aparências indicam, sendo reverenciadas pela audiência, que vibra ao som dos seus saltos. Olivia pode ter a Casa Branca aos seus pés em um estalo de dedos, já que é uma estrategista implacável e conhecedora do direito e da política como poucas. Annalise é decidida, segura e pronta para as batalhas. Se Claire Underwood chegou à presidência não foi somente pelas circunstâncias complicadas que os produtores da série enfrentaram (a expulsão de Kevin Spacey após os escândalos de abusos), mas porque a personagem sempre foi fundamental para a ascensão política do marido e sempre esteve decisiva nas ações do plot.

O fato de serem independentes, seguras, inteligentes e jamais abaixar a cabeça para homem algum são alguns pontos que ganham a simpatia de quem afirma sentir-se mais “empoderada” por elas. Talvez por vivemos rodeadas de estereótipos e expectativas que tendem a nos subjugar, forçando-nos a esconder todo o tempo as nossas potências, habilidades e impondo limites sobre nossos corpos, vemos nessas personagens não somente aquilo que queremos ser, mas também aquilo que, em algum lugar, já somos!

 
*¹ – Bad Ass é uma gíria estadunidense para “Fodonas”

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Terror em Série: American Horror Story – uma nova temporada, uma nova história

A nova temporada de American Horror Story começou na última quarta (12) e a expectativa de ver personagens de temporadas anteriores foi quebrada, com um episódio focado somente numa história nunca vista anteriormente. Não vimos nenhum sinal de Cordelia Fox ou Constance Landgdon. De qualquer maneira, calma (!), Fox, Landgdon e tantas outras irão, eventualmente, aparecer. Isso já se é sabido.

Talvez, o Ryan Murphy e sua equipe tenha achado melhor apresentar logo pessoas novas para que o espectador possa de alguma forma se conectar com eles, sem preferência das personagens antigas, que já ganharam o carinho do público. Na carona dessa estreia, resolvemos trazer um comentário de cada temporada por mês, até chegarmos na oitava. Na coluna anterior, abordamos o início do seriado e a força na qual ele já começa. (Para quem quiser conferir o texto do mês passado, clique aqui!

Resultado de imagem para ahs apocalypseImagem de American Horror Story: Apocalypse 

A segunda temporada de American Horror Story chama-se Asylum e é considerada por muitos fãs e críticos como a melhor temporada de todas. Isso se deve ao fato da mesma possuir uma trama muito bem amarrada e personagens que têm mais complexidade, com menos maniqueísmos. Ainda que estas sejam muito más, vê-se a motivação de cada uma. Os episódios vão levando o espectador em uma jornada profunda, num universo do pós-guerra dentro de um manicômio. Vê-se nesta temporada, conflitos clássicos do terror, como uma parte da trama dedicada a possessão de um jovem. Depois que Mary Eunice (Lily Rabe) morre, um demônio entra em seu corpo. A escolha de planos da cena do exorcismo, evoca a memória dos fãs de horror e traz num quarto escuro enquadramentos abertos e zenitais (como vistos de cima para baixo), mostrando toda a geografia da cena.

A irmã Jude, madre superiora do manicômio, que abusa ao extremo de seu pequeno poder por ali, vê-se na cena do exorcismo sem forças para lutar. Na sequência, a atriz Jéssica Lange imprime em seu olhar o medo de estar ao lado, verdadeiramente, de um demônio. E a série joga mais uma vez com a noção dos monstros interiores e humanos. Os homens são os vilões dessa temporada e na cena do exorcismo é quase como se ambos quisessem aquele demônio presente, como se a força sobrenatural soubesse que há uma cumplicidade entre os seres masculinos. Por isso, escolhe o corpo de uma mulher inocente para habitar, de uma freira boa onde teria mais espaço para corromper.

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O manicômio onde se passa a temporada é não somente sombrio, mas, cinzento, com paredes grossas e gélidas que, combinadas com planos mais fechados e quase sempre com movimentos, trazem a sensação de clausura e instabilidade. Lana Winters, a protagonista de Asylum, é uma jornalista lésbica, que é internada no hospício somente por ser homossexual. Vê-se então uma perspectiva do terror não somente pelo sobrenatural mas, mais uma vez, pela capacidade do ser humano de fazer o mal, de torturar psicológica e fisicamente. Winters se torna alvo de experimentos, castigos, como se houvesse nela vilania e é quem em ela mais confia que se mostra seu maior algoz.

Asylum possui uma mistura de linguagens consagradas pelo horror. Diferentemente de Murder House, onde se vê uma construção de linguagem única, na segunda temporada, vê-se uma união de alguns aspectos que são bem amarrados. Uma sucessão de conflitos que misturam filme de possessão, pegadas de Polanski em Bebê de Rosemary, de um universo desconhecido e escuro, onde a protagonista se torna espectadora de sua própria vida, a tortura física que lembra os filmes de Eli Roth (sendo que Roth atua na série e é justamente sua personagem que traz essa atmosfera).

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Há também o conflito com os nazistas e as cenas ficam com luzes mais artificiais, com uma direção de arte preocupada , que faz salas de experimento que são bem diferentes do resto do manicômio. Dr. Arthur, interpretado por James Cromwell, é um médico nazista disfarçado e em sua sala de cirurgia faz os experimentos mais variados com os pacientes do manicômio. Com poucos cortes, suas cenas têm uma amplitude do sentimento de medo, deixando os planos parados e abertos instalarem um sentimento de repulsa bem característico do horror. Esse sentimento reforça uma ambientação terrorífica, deixando claro que os fatos da trama estão mais perto da realidade do que se imagina.

Asylum possui uma competência em sua decupagem, mostrando um jogo de luz entre o que se vê e o que fica nas sombras, brincando com a imaginação do espectador. É uma temporada que utiliza de maneira ainda mais eficaz a linguagem do gênero para evidenciar o horror do cotidiano e das fronteiras das relações sociais que, quando ultrapassadas podem revelar um ser mais demoníaco do que qualquer entidade, o próprio ser humano.

 

 

*Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

 

Na trilha da série: A música em Grey’s Anatomy

A música é um elemento fundamental para a realização de qualquer produto audiovisual, podendo assumir funções variadas, como a transmissão de informações e emoções. Por conta disso, inauguramos hoje, no Série a Sério, a nova coluna Na trilha da série, onde falaremos sobre os diferentes usos desse recurso em produtos televisivos!!!*

Alguns seriados não são musicais e ainda assim utilizam a música de forma diferenciada: é o caso de Grey’s Anatomy (ABC, 2005–atualmente). Se encaminhando para a 15ª temporada, que estreia ainda no mês de setembro, nos EUA, este drama médico é criado pela célebre showrunner Shonda Rhimes. Seguindo a tradição de clássicos da televisão estadunidense – como E.R. (no Brasil conhecido como Plantão Médico, NBC, 1994-2009) – a produção traz as histórias de vida de profissionais de saúde intercaladas a casos médicos.

 

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Além de ter realizado um episódio plenamente musical em sua sétima temporada – que retomaremos em outra edição da coluna –, Grey’s traz como característica marcante o uso de nomes de canções para intitular seus episódios. A partir daí, os títulos dessas músicas podem indicar a ideia geral do episódio, a canção pode ser executada em momentos-chave da trama, ou a sua letra pode estar ligada ao desenvolvimento narrativo de cada exibição, por exemplo.

É importante dizer que as referências musicais estão nos títulos originais dos episódios, em inglês. Na tradução para o português, são realizadas interpretações livres. Daremos alguns exemplos em seguida (SPOILER ALERT! Fugimos de indicações diretas, porém explanamos alguns desenvolvimentos de personagens nos exemplos escolhidos).

 

 

1×01:

Vamos começar pelo piloto da série. Intitulado “A Hard Day’s Night”, referência à canção dos Beatles, o episódio lida com o primeiro dia de trabalho de um grupo de internos – incluindo a protagonista, Meredith Grey (Ellen Pompeo) – no hospital Seattle Grace. Seu primeiro turno tem a duração de 48 horas, nas quais eles devem trabalhar e atender às mais diversas demandas do local. Sendo assim, a canção evocada pelo título pretende fazer alusão ao que acontecerá durante o enredo do 1×01: uma jornada intensa, “uma noite de um dia duro” (tradução livre do título da música). A letra da canção se relaciona parcialmente com essa intenção, pois o eu-lírico afirma ter trabalhado como um cachorro, diz que deveria estar dormindo e anseia pelo reencontro com a pessoa que o espera em casa. No caso dos internos de Grey’s Anatomy, fica claro, no entanto, que o fator marcante em suas vidas é o labor intenso, que inclusive é um complicador para seus relacionamentos pessoais.

 

12×11:

Como o nome do episódio e seu teaser são anunciados antes da estreia, ter determinadas canções como título também ajuda a criar expectativa no público. Por exemplo, ao ver o anúncio de “Unbreak my heart”, o espectador que conhece a canção melodramática interpretada por Toni Braxton não tem como esperar que a trama se desenrole sem situações de muita tensão. Além disso, pode inferir que o desenvolvimento narrativo do episódio traga algo relativo a um relacionamento amoroso, como o tema da canção. Nesse caso, a suposição estaria certa: o episódio 12×11 traz a resolução do casamento turbulento de April Kepner e Jackson Avery, através do seu divórcio. Por ser um momento difícil, pensar em “desquebrar” um coração, como a canção sugere, é uma relação direta à dor da separação e ao estado mental desses personagens.

 

9×01:

Outras vezes a escolha da música pode ser contraditória ao sentimento do episódio. É o caso de “Going going gone”. A canção, de Maddi Poppe, traz uma melodia dançante e o ponto de vista de alguém que não conseguia agir por medo, mas decide acabar com esse comportamento. No entanto, ela foi escolhida como título do episódio inicial da nona temporada de Grey’s Anatomy, que traz os momentos posteriores a uma grande tragédia: uma queda de avião envolvendo médicos da equipe do hospital. Nesse episódio, um dos médicos mais carismáticos da série vem a óbito por consequência de seus ferimentos. Sendo assim, o sentimento da música é contraditório, porém seu título “Going, going, gone”, que pode ser traduzido livremente como “indo, indo, foi”, não. Contrariamente à libertação do eu-lírico da música, o título pode ser interpretado de outra maneira ao ser relacionado com a trajetória desse personagem, que acaba morrendo mesmo após ter resistido e conseguido ser resgatado do acidente ainda com vida.

Há muitos outros exemplos nos mais de trezentos episódios já exibidos dessa série – já clássica – de drama médico estadunidense. E vocês, identificam alguma relação entre música e episódio que gostariam de destacar em Grey’s Anatomy? Comentem e até a próxima!

 

*Hanna Nolasco é jornalista, cantora, pesquisadora e mestre em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia. A música é seu foco de estudo e algo que está ligado ao seu cotidiano também como um prazer!

Maratone como uma garota: Sororidade e empoderamento em Good Girls

As meninas hoje podem ser tudo” – ecoa a abertura do episódio piloto de Good Girls, a nova comédia dramática da NBC, distribuída pela Netflix.

Criada e produzida por Jenna Bans, a série conta com uma história que envolve “cidadãos de bem” que se envolvem com drogas, armas e chefões do tráfico para levantar uma graninha em momentos de desespero. Este plot já nos é familiar, vide Breaking Bad. Mas, quando esse plano é levado a cabo por mães de família frustradas, com problemas financeiros, porém dispostas a tudo pelos filhos e por si mesmas, o resultado pode ser um enredo cheio de reviravoltas. Dentro deste contexto, Good Girls consegue apresentar um universo consistente, com personagens fortes e bem desenvolvidas. No Maratone como uma Garota de hoje, vamos falar sobre como o girl power e a sororidade* tornam a trama ainda mais cativante!

A história gira em torno de Beth Boland (Christina Hendricks), Annie Marks (Mae Whitman) e Ruby Hill (Retta), um trio de amigas que, com problemas pessoais, optam por um atalho não convencional a fim de coletar dinheiro para demandas emergenciais. O plano: um assalto ao mercado onde Annie trabalha. O que era para ser um episódio isolado acaba inserindo as personagens em uma sequência de acontecimentos perigosos, já que o dinheiro do cofre pertencia ao chefe do tráfico local, que vai buscar retaliação.

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Apesar de não ser completamente original, a premissa principal ganha aqui contornos interessantes, ao inserir e trabalhar os dramas pessoais de cada uma das protagonistas, tensionando questões femininas de forma crítica. Vários são os motivos para qualquer um grudar no sofá e devorar os dez episódios. A começar pela maneira como o piloto é bem construído. Mas, também pelo desenrolar dos twists inseridos no roteiro e as questões secundárias. Estes elementos garantem um ritmo que mantém o fôlego até o final. A proposta de dramédia acaba rendendo melhores momentos cômicos, enquanto certos pontos dramáticos, como assédio e estupro, por exemplo, carecem de aprofundamento. Vamos, porém, concentrar a atenção em um elemento essencial que diz respeito a como as questões de gênero são construídas no caminho traçado na temporada. 

O protagonismo feminino é o elemento mais evidente, porém a representatividade não se esgota aí. São todas mulheres e mães, mas as idades diferentes, as personalidades e experiências de vida bastante distintas conferem fluidez à narrativa. Beth é dona de casa, tem quatro filhos e acaba de descobrir que o marido, além de traí-la com sua secretária, uma caricata loira padrão mais jovem, gastou todo o dinheiro da hipoteca. Annie, irmã mais nova de Beth, é caixa do supermercado. Foi mãe ainda adolescente e briga pela guarda da sua filha de onze anos, Sadie, que não se encaixa nos padrões de gênero e se veste como menino, o que a torna vítima de bullying na escola. Já Ruby é mãe de dois filhos, negra, trabalha como garçonete e, junto ao marido que é estagiário na polícia, tenta pagar o tratamento da doença renal da filha mais velha.

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A decisão de assaltar o mercado parte não apenas das necessidades de cada uma, mas da comoção com os problemas das demais, principalmente, a doença da filha de Ruby. Esse é talvez o traço mais marcante da sororidade do trio, essa palavrinha especial que vem ganhando cada vez mais força. A união feminina aparece de forma bastante potente também (SPOILER ALERT!!!!!!!!!) quando Beth salva Annie, enquanto esta era estuprada pelo chefe Boomer (David Hornsby). Ela (Beth) não hesita em ameaçar e agredir o criminoso, afirmando que o NÃO de uma mulher deve ser respeitado. As três permanecem unidas no suceder dos acontecimentos e vão transformando-se nesse elo.

Discursos feministas são bastante recorrentes, sendo o tom de girl power bem explorado em muitos momentos. A filha de Ruby é uma ativista que sabe muito bem que as garotas podem tudo, como ela mesma afirma. O apoio de Annie à identidade de gênero da filha é um potente exemplo de empoderamento. Quem melhor encarna esse tom é Beth. Líder do grupo, ela é o estereótipo mais comum de dona de casa da classe média estadunidense: atraente, inteligente, membro da associação de pais do colégio e esposa prestativa. É ela quem desafia Rio (Manny Montana), o chefe do tráfico, e propõe o esquema de lavagem de dinheiro que conecta as amigas ao crime. É a personagem cuja transformação é a mais notável, principalmente o contorno que sua personalidade passa a assumir.

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A relação familiar é mote central de grande parte dos eventos, mas também convoca a reflexões sobre as mulheres na sociedade e ao que usualmente se espera do seu comportamento e escolhas, em especial, quando mães. Ao assumir o controle da economia do lar, Beth inverte a relação matrimonial que a oprimia. Annie representa as várias jovens que, sozinhas, tentam equilibrar a criação de um filho com o próprio crescimento. Em sua relação com Sadie, adolescente madura e responsável, ela encontra um suporte e companheirismo. Ruby vivencia diariamente o racismo, a angústia do sistema de saúde, e vê o casamento feliz e estável em risco ao envolver-se com o crime.

O desenvolvimento das personagens demonstra a intenção da direção em tentar brincar com os lugares de vilãs e mocinhas, em um debate moral, já que toda escolha transforma o ser humano, de alguma forma. Nota-se o cuidado com que a transição e transformação delas vai revelando nuances de suas personalidades e, por conseguinte, das mulheres reais. As “boas garotas” vão precisar lidar com as consequências das más escolhas na sequência, já confirmada para 2019.

O grande trunfo de Good Girls é, sem dúvida, a dinâmica do elenco, que conduz a trama com maestria. Muitos traços refletem a própria trajetória das atrizes. A interação entre elas é muito potente, especialmente na contra-cena, e garante o carisma do trio e humaniza a narrativa. O combo comédia com mulheres no crime garante uma boa maratona!

 


* Sororidade – do latim, soror -oris = irmã. Nome que se dá à união ou aliança entre as mulheres. É um conceito muito caro aos feminismos e está relacionado à empatia e companheirismo.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Série em Pauta: Entrevista com a roteirista Amanda Aouad

Por Enoe Lopes Pontes*

Desde abril deste ano, está no ar a série baiana Tori, a detetive. Concebida por Maria Luiza Barros e Ducca Rios, a animação é exibida pelo canal ZooMoo diariamente, às 11h15 e 17h45. A produção narra o cotidiano de uma cachorrinha que adora investigar casos e desvendar mistérios, junto com seus amigos da vizinhança.

Dentro do processo de criação do desenho está a roteirista, pesquisadora, professora e crítica de cinema Amanda Aouad, que juntamente com Barros e Rios, deu vida ao universo de Tori. Tudo começou em 2015, quando Aouad foi convidada para participar do Núcleo Criativo Anima Bahia.O grupo é sócio da Origem Produtora de Conteúdo, empresa dos criadores do seriado.

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Durante a escrita dos episódios, a autora possuía contato direto com Ducca Rios. Os dois tinham em sua dinâmica o hábito de cada um fazer a metade do roteiro e depois trocarem para que pudessem contribuir um com o outro. “Escrevi parte dos roteiros. Como foi o primeiro projeto do núcleo que desenvolvemos, era só eu e Ducca, além da consultora Flávia Lins.”.

Após Tori, a detetive, Amanda Aouad continua seguindo com novos projetos. Em andamento, ela possui duas séries em fases distintas de produção. Sobre Todas as Coisas, material desenvolvido pela TV Show, já está com o texto completo e a equipe segue buscando capitalização para rodá-la. A Guardiã é um curta-metragem que será transformado em seriado, em breve, assim que os envolvidos também consigam recursos financeiros para realizar tal intento. “Essa é a vida de roteirista independente!”, brinca.

 

Em entrevista para o Série a Sério, Aouad contou com mais detalhes a sua participação em Tori, a detetive e como funciona o seu trabalho, Confira!

 

ENTREVISTA

Enoe Lopes Pontes – Amanda, me conta um pouco como foi que funcionou sua participação na série?

Amanda Aouad – Eu participei como roteirista da série. Escrevi a primeira versão de alguns roteiros e a segunda versão de outros. Foi um trabalho em conjunto com Ducca Rios.

 

ELP – Como funcionou o seu processo de criação?

AA – A série foi criada por Ducca e Luiza. Já tinha um argumento geral, pré-sinopses e o piloto, mas eu entrei no início do desenvolvimento, participei de toda a dinâmica da sala de roteiro, construindo o arco da temporada, o aprofundamento das personagens e a estrutura dos episódios.

 

ELP – Quais são suas principais etapas de trabalho no processo de escrita?

AA – A etapa inicial da ideia ou motivação do projeto varia muito. Mas, tirando isso, primeiro vem o desenvolvimento do projeto em si, o argumento, arco da temporada, aprofundamento do perfil das personagens. Em animação, temos uma vantagem em relação ao live action que é a etapa do animatic, pois podemos ver no rascunho da animação o ritmo, timing e repensar algumas questões do roteiro.

 

ELP – Em quais campos de atuação você trabalha, quando o assunto é roteiro?

AA – Faço um pouco de tudo. Escrevo, faço consultoria, ensino, estudo e analiso. Estou terminando o doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas estudando a construção dramatúrgica em séries publicitárias. Eu faço parte do grupo de pesquisa A-Tevê que analisa produtos seriados televisivos e onde surgiu o projeto de extensão Estação do Drama, que visa a formação de roteiristas. Sou professora de audiovisual na Uniceusa e de roteiro no Estação, onde também fiz parte da coordenação da Usina do Drama, sendo uma das tutoras dos projetos. Faço ainda consultoria de roteiros, atualmente estou como consultora de um projeto de série que passou no último Prodav 5, já fiz consultoria para alguns curtas também, além dos projetos da Usina do Drama 2017. Sou também crítica de cinema, editora do site CinePipocaCult e colunista da Revista CineMagazine. E roteirista freelancer. Participo do Núcleo Anima Bahia que está em sua segunda etapa com outros cinco projetos, mas também desenvolvo projetos próprios e em parcerias com outros roteiristas / produtoras. Participei do Núcleo Criativo TV Show (da DPE Produções), coordenado por Doc Comparato, com uma série original de ficção live action e tenho desenvolvido diversos projetos próprios em parceria com Ari Cabral, meu sócio na Sete Produtora de Conteúdo.

 

ELP – Quais seus principais trabalhos como roteirista?

AA – Atualmente, acredito que sejam as séries desenvolvidas no Anima Bahia, por estarem em canais de destaque e com alguma repercussão. Tori, a Detetive, que motivou essa entrevista e está no canal ZooMoo, mas tem também Turma da Harmonia exibida na Disney Júnior, Fábulas de Bulccan no ZooMoo e Play Kids. Além disso tem Bill, o Touro na TVE-BA e A Guardiã, um projeto próprio, em parceria com Ari Cabral que já teve o roteiro de um longa-metragem desenvolvido a partir de um edital estadual e agora estamos terminando a produção de um curta.

 

ELP – Existe algum gênero mais desafiante de roteirizar?

AA – Todos têm seus desafios próprios. Acho que o maior desafio é sempre o formato, criar algo que tenha esse frescor de novidade, ainda que o público precise identificar algo conhecido para se conectar. Nesse ponto, projetos na linha do factual são os mais complexos porque sempre correm o risco de cair no velho formato de documentário televisivo.  Mas todo novo projeto é um novo desafio.

 

*Créditos da foto principal: Gabrielle Guido

 

https://www.youtube.com/watch?v=snXxxPTNdLM

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