Categoria: colunas

Série em Pauta: O dia de Star Wars virou festa dupla em Salvador

Texto: Enoe Lopes Pontes

Fotos: Laís Prado

Numa galáxia não muito distante, Rey e Kylo-Ren se encontraram com o Darth Vader! Sabres de luzes piscaram, o Yoda apareceu com bastante frequência e vendedores comercializaram naves feitas em impressora 3D. As crianças correram vestidas com fantasias e blusas em homenagem a Luke Skywalker e Leia Organa. Os corpos foram gravados com tinta permanente, simbolizando a eternidade de suas paixões.

O lugar que deu espaço para este ambiente de fantasia foi o Portela Café, localizado no Rio Vermelho. Toda esta dinâmica aconteceu devido ao May the 4th. Inaugurado por George Lucas, criador de Star Wars (SW), o dia é exaltado pelos fãs da saga, que se reúnem para festejar a franquia. O motivo da data vem trocadilho da famosa frase “Que a força esteja com você”, em inglês: “may the force be with you”, que tem som semelhante ao 4 de maio, na língua inglesa.

Pensando na relevância da comemoração para o fandom deste universo, o Conselho Jedi Bahia organizou, pelo segundo ano, este acontecimento na cidade. Divida em duas etapas, uma pela tarde, o May the 4th Pop e outra à noite, a May the 4th Party. O objetivo foi reunir os fãs e trazer atividades lúdicas e divertidas, buscando fazer jus ao amor por SW. Paulo Metting é presidente do Conselho e assiste aos filmes desde criança. A ideia veio da vontade de propor algo que realmente marcasse o dia na lembrança dos fãs. “O pessoal da casa abraçou a ideia e foi um sucesso”.

 

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GRAVADO NA PELE E NA MEMÓRIA

Se a ideia do Conselho era fixar fortemente o ensejo na recordação de cada amante de Star Wars, ele conseguiu este intento! Pelo menos, na figura de Amanda Magalhães, 29. A jovem publicitária foi pedida em casamento no May the 4th de 2018 e, neste ano, resolveu fazer uma tatuagem dos bastante conhecidos Stormtroopers, soldados do Vader. O detalhe especial é que ela colocou duas orelhas de bulldog na figura, pois é fascinada pelo tipo de cão e tem três cachorros da raça.

O amor gravado na pele também é vivido por Nill Ojuara, 36. Espectador assíduo da saga, ele não só possui três tattos de personagens de SW, como também é tatuador. Concentrado em sua atividade, ele foi contando suas motivações para estar trabalhando naquele sábado. “O negócio aqui nem é lucrar, lucro menos em uma dia como esse. Faço pelas amizades com o Conselho e por gostar tanto de Star Wars”.

 

Na foto 01, Amanda Magalhães, 29, faz tatuagem com Nill Ojuara, 36. Nas imagens 02 e 03, Magalhães mostra o esboço de sua tatto.

 

Esse sentimento que motiva e encanta os fãs também é passado de geração para geração. Durante o evento foi possível ver muitas crianças fantasiadas, correndo pelo espaço, colorindo desenhos e brincando com os jogos ali propostos. Olhando ao redor, a equipe notou uma garotinha vestida de Princesa Leia. A sua acompanhante, a cantora Lorena Cerqueira, explicou que é dinda da menina e que foi ela quem apresentou para a afilhada este universo.

Contudo, Lorena garante que agora a jovem Padawan* é quem é a fã número 01 da família. “Enquanto todas as coleguinhas estão com mochila da Frozen, ela vem arrastando a dela, toda preta, do Darth Vader”. As duas fazem, eventualmente, noites especial com maratona dos longas e chamam de “Noite de Star Wars”.

 

Na foto 04, a afilhada de Lorena Cerqueira, 40, veste cosplay da Princesa Leia. Na imagem 05 está um dos desenhos que o Conselho Jedi Bahia disponibilizou para as crianças pintarem.

 

REUNIÃO DO FANDOM E O CONSUMO

De acordo com a professora doutora Adri Amaral, o compartilhamento de conteúdo e reunião entre o fandom ocupa um espaço de sociabilidade e afetividade na vida deles. Para a pesquisadora, a produção ocupa uma importância forte na vida dessas pessoas, gerando um consumo intenso.

“Tem até um certo nível de competição entre os fãs por conta de quem compra mais por exemplo gerando assim uma disputa de capital social e do próprio entendimento do que é ser fã a partir das coleções etc”, explica Amaral. No entanto, ela aponta que também existe muitas práticas solidárias dentro da comunidade, para ajudar os que não possuem recursos para adquirir a imensa quantidade de produtos ligados à saga.

 

Na fot0 06, Yasmin Uchôa, dona da Mimo Cadernos. Na foto 07, um Chewbacca e uma Leia de bisciot, do Mundo Biscuit.

 

TENDÊNCIA GEEK

Ligada no mercado do mundo nerd, a empresária Yasmin Uchôa decidiu embarcar na feitura de cadernos com símbolos de produções famosas. Desde o primeiro ano da May the 4th, ela expositora fiel de seus produtos em feiras voltadas para este tipo de público, justamente por considerar um grupo que gosta de investir em materiais focados em suas paixões.

Porém, comprar não é o foco exclusivo desta comunidade. Outras características habitam esta sociedade. Um destes elementos é o costume de fazer cosplays. Trajando as vestimentas de suas personagens preferidas, eles desfilam com suas elaboradas roupas, com expressões faciais que demonstram contentamento. Membro do Conselho Jedi da Bahia, Kauana Hervan, 29, queria muito se vestir de figuras que admirava nas telas e nos quadrinhos, mas nunca teve coragem. Contudo, já tem um ano que começou a incorporar a Rey, persona dos filmes mais novos de SW, e tem gostado muito desta experiência.

 

 

* Padawan é a criança que está em fase de treinamento para ser Jedi

**Essa matéria contou com a colaboração de apuração de Laís Prado

Colunas: Morte, sedução e evolução em Killing Eve (Primeira Temporada)

Quando comecei a pesquisar (academicamente) críticas feministas aos produtos culturais, me propus o exercício constante de, além de buscar aqueles que promovam o protagonismo feminino e que tragam mulheres nos cargos técnicos “principais” (como direção, roteiro e montagem), analisar também a qualidade, por assim dizer, dessa representação. Explico: acredito que devemos ser criticamente exigentes com o “nível” que as representatividades assumem nas narrativas, mais do que exigir somente uma presença em tela ou nos sets. Ou seja, não anseio uma série ou um filme protagonizado por mulheres mas com desenvolvimento raso das personagens, ou um roteiro que reproduz estruturas tradicionais* ou que pouco tensione os silenciamentos e os estereótipos que nós quase sempre sofremos. Quero mais. Espero personagens com personalidades complexas, cujas ações evoluam na trama e que as relações com as demais figuras femininas nos ofereçam outros olhares sobre sororidade e rivalidade.

 

Diante de um produto como Killing Eve, vemos como uma boa narrativa pode explorar nuances das suas personagens, fazer o roteiro evoluir junto à evolução destas, em suas performances e na relação construída entre elas, especialmente quando uma é psicopata e assassina de aluguel e a outra uma funcionária da Inteligência Inglesa (MI5) – posições centrais nas histórias de perseguição tradicionais que aqui adquirem contornos maiores do que o lado bom x lado mau. A série dramática é uma produção britânica para a BBC America, baseada nos romances seriados Codename Villanelle, de Luke Jennings, criada por Phoebe Waller-Bridge e estrelada por Sandra Oh (Cristina Yang, de Grey’s Anatomy) e Jodie Comer (de My Mad Fat Diary). A Maratone como uma Garota! discute um pouco a primeira temporada, especialmente a concepção das duas protagonistas!

 

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Eve (Sandra Oh) é uma agente da Inteligência Britânica muito sagaz, porém subestimada no trabalho, que tem uma fixação por assassinatos e mulheres criminosas e começa a investigar uma assassina profissional internacional, Villanelle (Jodie Comer). Logo, Eve se vê diante de uma grande organização do crime e Villanelle parece apreciar sua busca incessante. Elas vão adquirindo uma fixação mútua, o que move o roteiro, que economiza suspenses. Com 8 episódios, a velocidade das ações é rápida e as coisas se resolvem sem muitas delongas. O apelo ao espectador, aqui, vem muito menos do mistério e da ansiedade de revelações que um thriller policial normalmente oferece e mais de uma curiosidade para com as motivações e ações da antagonista e da protagonista.

 

Eve, envolta no prazer de estar à frente de algo tão grandioso (como ela diz, “salvar o mundo da assassina”), começa a romper barreiras éticas e revelar outros lados de sua personalidade. Ela vai “morrendo” aos poucos (Killing Eve traduz-se por “Matando Eve”) para renascer e experimentar outra vida, em outro nível de ação. E é em Villanelle que encontra um ponto de transformação. Sim, o trunfo da série é a interação narrativa e artística entre as duas atrizes principais, ainda que outras mulheres também assumam papéis de destaque. A esfera psicológica tem, portanto, um papel central no desenvolver da trama, movendo as personagens e desestabilizando expectativas do público. Tudo isso se expressa na montagem, especialmente no encadeamento de planos e contra-planos, que não se limitam a contrapor pontos de vista, mas engendrar a intimidade que sendo estabelecida, e nos enquadramentos que sempre revelam alguma nuance característica de cada uma.

 

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A premissa do jogo de perseguição policial – bandido está, aqui, recheada com o tom de imprevisibilidade que a psicopatia e frieza da antagonista, Villanelle, proporciona. O que esperar de alguém cujo prazer do trabalho de assassina não lhe impõe limites? Poucos clichês emergem, ainda que alguns pontos soltos eventualmente surjam, o que não atrapalha o desenrolar da história, justo porque Eve e Villanelle não são óbvias, não são arquétipos fixos e previsíveis. Assim, as incoerências na narrativa, como perseguições óbvias, viagens imprevistas, resoluções e recursos que não existiriam na prática, se tornam “irrelevantes” quando o que se sobressai é na verdade a lógica de dominação e sedução estabelecida. Ainda que seja um enredo de perseguição, as fronteiras do jogo se tornam nebulosas e já não se percebe tão nitidamente as reais motivações dessa busca.

Grande parte do êxito e da potência da produção está na performance das atrizes, incluindo aqui não somente Sandra e Jodie, mas também Fiona Shaw, que interpreta Carolyn, da inteligência russa e quem recruta Eve. Kirby Howell-Baptiste, única mulher negra da produção, interpreta Elena Felton, a assistente de Eve, e vai perdendo presença com o passar dos episódios, ponto em que a série peca, já que parece não valorar suas ações e subjugar sua trama. A estética corporal e a atuação carregam traços de personalidades – como os trejeitos ora joviais e despreocupados de Villanelle, ora violentos. Sandra Oh imprime no corpo a satisfação e a segurança que sua personagem vai desenvolvendo ao longo dos episódios.

Para quem aprecia histórias policiais, sem dúvida Killing Eve reserva uma experiência de suspense e envolvimento subjetivo muito interessante. A segunda temporada já está no ar e a série, que fez Sandra Oh ser a primeira atriz de origem asiática indicada ao prêmio Emmy de Melhor Atriz, já foi renovada para uma terceira!

 

 

 

* Por tradicionais, pretendo me referir aos modelos a que comumente as mulheres são associadas, como por exemplo: maternal, protetora, amável, o elo frágil do grupo, ou quando as ações de uma personagem, ou sua personalidade, são moldadas em função de um personagem masculino.

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Plano em Série: Sharp Objects – Um Olhar Sobre a Cinematografia

Desde o sucesso de Game Of Thrones (2011) a HBO tem investido em conteúdos originais cada vez mais sofisticados. Este também é o caso da série Sharp Objects (Objetos Cortantes, em português). Lançada em 2018, pelo canal fechado e estrelada por Amy Adams, a criação é assinada por Marti Noxon, uma produtora influente no universo seriado estadunidense. Noxon tem no seu currículo a produção executiva de Mad Men, Grey’s Anatomy, Prision Break e Buffy, a caça vampiros, por exemplo. O diretor dos oito episódios é o canadense Jean-Marc Vallée, o que mantém uma unidade interessante na mini-série, contrariando o modismo (ora produtivo, ora cansativo) de um diretor por episódio. Vallée já vinha da competente direção de Big Little Lies, outra mini-série premiada da HBO.

Sharp Objects conta a história da repórter Camille (Adams), jovem que precisa retornar à sua cidade natal para escrever uma matéria sobre o desaparecimento de uma garota. Em uma relação completamente instável com sua mãe, Adora (Patricia Clarkson), e sua meia-irmã, Amma (Eliza Scanlen), Camille vive o conflito do desaparecimento alheio no vórtice de seus problemas familiares de forma a intensificar a sua condição psicológica – ela sofre de auto-mutilação.

 

 

Para construir a personalidade e os displays comportamentais de Camille, a dupla de diretores de fotografia Ronald Plante e Yves Bélanger assumem estratégias eficientes assim como o time de montadores liderados por Jean-Marc Vallée. Aqui vale a pena uma dedicação aos princípios da cinematografia utilizados por Plante e Bélanger para compreender um pouco da engenhosidade dos episódios centrados em uma linguagem de suspense. A câmera majoritariamente utilizada foi uma Arri Alexa Mini e um conjunto de lentes Prime Arri Zeiss – e isso significa que a equipe conseguia um aspecto imagético mais escuro (subexposto) com segurança, além de escolher uma espécie de textura na imagem mais próxima da realidade, evitando luzes artificiais e fugindo da perfeição. Assumir essa estrutura imagética como linguagem facilitou, inclusive, o tratamento de colorização final, já que a cinematografia teve poucas exigências quanto as diferenças na luminosidade – mas não dispensou o rigor na aplicação do LUT (Look Up Table) que uniformizou o visual de toda a série.

As sequências externas foram filmadas com prioridade para a luz natural. Neste sentido, é possível perceber a diferença na intensidade da luz a depender do episódio. Há realidade em assumir que os dias e as nuvens interferem nos tons de pele e nos reflexos dos objetos, por exemplo. A luz era proveniente de janelas, sempre presentes na casa de Adora e de práticos (objetos de cena que projetam luz, como abajures, lustres, velas, lâmpadas, tubos fluorescentes, letreiros luminosos, etc.). Essa composição influencia absolutamente na relação que Camille tem com o espaço, como ela transita por ele, se relaciona com a sua dependência com o álcool e também com sua família. E para além das definições de luz, há um investimento na estratégia de utilização da câmera – ela está sempre na mão e sempre com Camille. A câmera não se distancia da protagonista mesmo durante os flashbacks frequentes ou quando ela visita memórias inconscientes, subjetivamente é possível ver o olhar de Camille e objetivamente é possível ver quase que através dela (há um acento no famoso POV – Point of View). Neste sentido há uma decupagem livre, acompanhando os desejos da personagem e suas ações de forma sensível e corajosa.

 

E a Arri Alexa Mini está na mão. Ela trepida, se mexe, se desestabiliza sempre. Assim como Camille está destroçada em reviver memórias difíceis, a câmera conversa com a protagonista ora como se fosse ela mesma, ora como se assumisse o seu alterego. Um trabalho impreciso e por isso precioso, sufocando a intimidade de Camille, arrebatando suas inseguranças e vivendo com ela todo o suspense que Sharp Objects deseja sustentar.

**Marina Lordelo é fotógrafa, crítica do audiovisual, pesquisadora e diretora de fotografia.

BR em Série: Coisa Mais Linda: Um retrato moderno da Bossa Nova

Existem inúmeras histórias sobre mulheres empreendedoras e a frente do seu tempo. Atualmente esse tipo de enredo tem adquirido maior sucesso e prestígio nos programas seriados, obtendo, inclusive, pontos positivos de audiência e crítica. Dentro nessa estimativa, a Netflix estreou a série brasileira Coisa Mais Linda, criada e produzida por Heather Roth, e Giuliano Cedroni, criador das séries (FDP) e Outros Tempo- Velhos, da HBO. A premissa principal é bem comum, representar um contexto histórico a partir da perspectiva de quatro mulheres bem diferentes, Maria Luiza (Maria Casadevall), Adélia (Patrícia Dejesus), Lígia (Fernanda Vasconcellos) e Thereza (Mel Lisboa). Nesse caso, o contexto é final de década de 50 e início dos anos 60, quando o Rio de Janeiro estava fervendo culturalmente e a política vivia um momento de esperança com Juscelino Kubitschek. Isto é emblemático e a escolha define não só o plot da série, como também toda sua construção narrativa e simbólica.

É nesse período que nasce a Bossa Nova, gênero musical brasileiro (ou seria melhor dizer carioca) que mistura samba com Jazz, e que se consagrou internacionalmente, sendo muitas vezes considerado “símbolo do Brasil”. Com o tempo, acarretou a imagem da boemia, de praia, de letras românticas e profundas, que foram compostas por jovens músicos de classe média alta. Mesmo sem viver essa época, nosso imaginário (brasileiro e qualquer pessoa que procure estudar/ler sobre esse gênero) já está carregado com esses símbolos, e também por muitos estereótipos.

 

 

O seriado traz justamente essa atmosfera da Bossa para construir sua narrativa, como fica explícito já no título, em homenagem a música mais marcante de Jobim e Vinícius de Moraes, “Garota de Ipanema”. Coisa Mais Linda tem um bom aparato técnico, como a fotografia, o figurino, a ambientação e, claro, a trilha sonora nostálgica. Escala atrizes jovens e bonitas, com personagens fortes e especiais, que nos trazem aquela sensação de esperança e fantasia. Em resumo, traz a típica da imagem de exportação do Rio turístico, ressaltando as atrações conhecidas pelos turistas, como o samba, as praias e pontos turísticos, valorizados  em plano aberto.

O problema não é essa ordinariedade, afinal, é bem sucedida em tentar captar seu objetivo e seu público alvo. Quem gosta de narrativas melodramáticas e despretensiosas, com certeza aproveita esses pontos positivos. O que quebra a lógica é justamente a série tentar, mas não assumir, o drama político que se propõe (como fica evidente por exemplo, na correria da trama em resolver as coisas). As questões de gêneros e feminismo, acabam se tornando quase como “citações”, justamente, talvez, por essa vontade de falar de tudo sem se aprofundar.

 

Música, referências e superação

 

 

Assim como os seriados As Telefonistas e Maravilhosa Sra. Maisel, Coisa Mais Linda deixa claro que o foco está nas histórias de vida e superação das mulheres protagonistas. É um artifício comum colocar mulheres diferentes (quase opostas) no jeito, personalidade e na aparência como um grupo de amigas, cúmplices, e que ajudam umas às outras a superarem seus desafios, que no caso, é a luta, enquanto mulheres, por sua independência e liberdade. Apesar da ingenuidade retratando essas relações, (ainda) é necessário ver mulheres nas telas não colocadas como rivais, e vê-las trabalhando juntas, mesmo que em um muitos casos, essa ideia de união não aprofunde questões íntimas e de desigualdade entre elas.

Por tanto, trata-se de uma série leve, do tipo que dá para se assistir de uma só vez, mesmo trazendo à discussão assuntos sérios como preconceito racial, abuso sexual e psicológico e violência. Isso porque a narrativa se constrói de maneira direta, os micro conflitos têm resoluções rápidas e simples. Além disso, é recheada de músicas da Bossa Nova, do samba e do jazz, além outras referências desse período (como o próprio nome das personagens e suas personalidades remeterem a músicas).

Você pode se perguntar, por que falar da lutas de mulheres com um gênero musical tão masculino, que justamente coloca as mulheres como musas e objeto de admiração? Acredito que a proposta da série seja justamente tentar subverter essa questão (inclusive, acho que vem daí a escolha da produção pela versão de Amy Winehouse da música de abertura, além do fato de ser mais interessante a versão em inglês para o público internacional). Não só a Bossa Nova, mas o samba, os meios de comunicação (inclusive os que falam e são para nós, como a revista que Thereza trabalha), tudo é comandado por homens, ou é mais valorizados se feitos por eles. E a série foca bastante nessa problemática, quando, por exemplo, o crítico famoso elogia o músico Chico e menospreza Lígia e Malu, ou, no desfecho da temporada, que simboliza essa eterna sabotagem da sociedade com as mulheres, que mesmo quando tudo vai bem, parece dar certo, somos negadas, roubadas e mortas, diversas vezes.

 

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Resoluções fáceis e problematizações frias

Apesar desses atributos convidativos, a série está longe de trazer grandes discussões e falha em tentar problematizar questões que não consegue sustentar. O primeiro grande problema, é a escolha da protagonista Malu. Isso não é um problema somente dessa narrativa, outras como, Orphan Black, fazem o enredo girar em torno de uma das mulheres ditas protagonistas (afinal o conflito principal começa com elas), só que na maioria dos casos, elas e seus conflitos se tornam chatos e superficiais. No caso de Malu ela ganha na comicidade, mas perde quando tentam forçadamente encaixar ela com a típica protagonista de comédias românticas, que é atrapalhada, mas inteligente, e vive dilemas amorosos com o galã (ou pior, mas não fica claro, criar aquela dúvida de ter que escolher entre dois caras).

Outro ponto sobre isso é o questionamento do por quê ela ser a escolhida para guiar a história, se seu arco é menos interessantes se pensarmos em Brasil. Mesmo com a cena instigante do embate entre Malu e Adélia, quando a primeira quer desistir do empreendimento, e em que se discute justamente questões como, lugar de fala, meritocracia, privilégios, Adélia (mas também as outras duas) não têm seu arco valorizado para além de cenas rápidas como essa. Tanto que, depois desse momento, que ocorre no início da série, não voltam a problematizar essa relação, pois, seguindo a lógica da narrativa, Malu parece se dar conta dos seus privilégios e tudo se resolve de maneira muito ingênua, sem mais embates nesse sentido. Adélia, uma mulher negra, solteira que trabalha como empregada, mas que é muito forte -a ponto de ficar em dúvida se casa com Capitão (Ícaro Silva) ou não-  também perde força, quando sua trama se volta quase que exclusivamente para quem é o pai da sua filha, e de novo esse conflito entre escolher entre dois homens é empregado.

 

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No fundo tudo se resume a essa correria narrativa, sentida na montagem (cortes bruscos) e no ritmo estranho, que concretiza um final apressado, e soluções pouco convincentes para os problemas que eram interessantes de acompanhar, como a questão do pai da filha de Conceição, ou a relação entre Thereza e Helô (Thaila Ayala). O equívoco poderia ser resolvido talvez com mais episódios, ou menos cenas de transição (cenas figurativas que não acrescentam nada à narrativa). A série propõe desenvolvimentos interessantes, mas tira o peso de algumas situações e problemas, como exemplo, todo drama de Lígia, que no começo sentimos seu sofrimento num casamento abusivo e o medo de sair dele, por conta do amor e por pressões da sociedade, mas todo esse impasse é resolvido e superado dentro de quase um episódio (até a discussão sobre aborto quase passa despercebido).

Além disso, a série ainda sofre com alguns vícios novelescos, como o excesso de falas explicativas, e não é por uma questão de atuação. A verborragia excessiva  torna o diálogo sem graça e óbvio, tirando a imersão do público, que mal tem tempo de pensar e já ganha respostas prontas. Outra questão é a marcação de núcleos com a trilha sonora. Se a cena está na praia, ou na classe média toca Bossa Nova, mas no morro, por exemplo, começa a tocar um samba. Sintoma de de pouca criatividade e reforço de estereótipos, mesmo que seja com a intenção de ambientar. A música fundo das cenas de romance, por exemplo, acabam chamando mais atenção por conta da repetição demasiada que cansa o espectador. Por isso, pode se dizer que Coisa Mais Linda é audiovisualização de uma Bossa Nova, só que essa com mulheres protagonistas.

 

 

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

Terror em Série – O horror na era pós Trump

Após seis temporadas lidando com temas ligados ao oculto e buscando metáforas entre o sobrenatural e os conflitos da convivência humana, o seriado criado por Ryan Murphy mergulha numa esfera mais realista e decide explorar o horror em sua mais pura forma, o horror da realidade. Nesta penúltima edição do nosso especial American Horror Story, chegamos na season do terror após a eleição de Donald Trump, chegamos em Cult.

A temporada começa estabelecendo quem são as personagens, mostrando um cenário polarizado, reflexo do período das eleições nos Estados Unidos. O primeiro episódio já começa revelando um clima de tensão e coloca em destaque ignorância x conhecimento, demonstrando o ódio daqueles que acreditam que estão perdendo muito ao ter que dividirem seus privilégios.

 

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Vemos na temporada essa dualidade o tempo inteiro. A protagonista, Ally (Sarah Paulson), tem estudo formal, tem consciência política, mas é mulher e lésbica, alguém que lutou muito por suas conquistas e que, por sua batalha e de outras pessoas, tem uma vida confortável, um casamento com outra mulher e um filho adotado. Devido ao seu passado, apesar de ter conforto financeiro e estabilidade, possui diversas fobias.

Já seu antagonista, é um homem branco, que, em sua primeira cena, comemora a eleição de Trump cheio de salgadinho laranja nas mãos, mostrando esse homem que procura culpar o outro pela sua falta de sucesso, como ele mesmo não pudesse ser responsabilizado pelos problemas que causou a si mesmo. A construção dessa dualidade é bem realizada e estabelecida no começo da série, contextualizando bem o enredo e os possíveis encaminhamentos.

 

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Murphy também sabe que o público, depois de sete temporadas, já está treinado e consciente de sua linguagem. Logo, ele tenta jogar com os códigos já entendidos por seus fãs. Os enquadramentos mais fechados nas cenas de Ally, traduzem esse sufocamento da personagem, mas também, deixa o espectador mais confuso sobre a sanidade de sua protagonista. Todos as conspirações, elementos sobrenaturais, coisas estranhas que sempre foram realidade na série, podem nessa temporada ser somente ilusão e a linguagem reforça essa impressão.

A primeira metade da temporada sabe conectar suas personagens, sabe segurar a tensão dos acontecimentos e une trama e visual numa viagem sobre o horror cotidiano, sobre o perigo iminente que são as pessoas ao redor, as pessoas de bem. O Culto, termina sendo o menos forte de certa maneira, porque suas cenas são desnecessariamente alegóricas e quando começamos a ver coisas demais, perde-se a metáfora do inimigo invisível, do olhar ao redor e se perguntar: “será que a aquele cara na outra rua votou em Trump? E se votou, do que ele é capaz?

 

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Por isso, a segunda parte da série se perde um pouco, ainda que mantenha certa qualidade, porque ao invés de se manter criticando um aglomerado de pessoas ególatras, capazes de fazerem mal para toda humanidade para manter o que as fazem felizes, sem pensar nas consequências, a série parte para se focar na vilania de Kai e relativizando todos os erros das outras personagens, tão sedenta por reviravoltas que termina quebrando um pouco o pacto com o espectador, quando o tempo inteiro o confunde com as intenções de suas personagens.

O maior louro de Cult é traduzir em imagens o que está na mente de cada eleitor de Hilary, de cada minoria social que vê a onda conservadora vindo como um tsunami desesperado para apaga-los da humanidade e também a mensagem final de que, quem sofre a vida inteira sem privilégios tem uma única vantagem, a vantagem de saber lutar, de saber esperar calmamente o contra- ataque, deixando uma mensagem de esperança para seu público.

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

BR em Série: Nem 8 nem 80, distopia brasileira “3%” apresenta inovações, mas mantém velhas problemáticas

A série 3%, desde seu lançamento em 2016, dividiu opiniões e proporcionou debates a respeito das produções nacionais. O seriado já caminha para sua terceira temporada, em 2019, tendo sido a série de língua não-inglesa mais assistida dos EUA, além de ser uma das séries brasileiras da Netflix de maior sucesso. É impossível não se questionar o que proporciona esse efeito se, por outro lado, tantas foram as críticas desfavoráveis por grande parte do público e da crítica brasileira. Uma conclusão mais ingênua levaria a velha falácia, “falem mal, mas falem de mim”, isto é, todo o burburinho em torno da série teria influenciado na sua visibilidade. Essa afirmação não é de todo falsa, porém, esse não é único responsável. Dois pontos podem ser considerados importantes para pensar essa recepção: primeiro, trata-se de uma trama que mistura gêneros clássicos e populares, um mundo ficcional distópico carregado de ação, aventura e suspense; e segundo, a exigência por narrativas mais coesas e coerentes.

O enredo é típico das histórias sobre mundos ou futuros ficcionais edificados sob uma organização política-social que representa a antítese da utopia ou uma “utopia negativa”, a chamada distopia. Esse tipo de enredo não é novo, ficou famoso principalmente na literatura com George Orwell e Aldous Huxley, e no meio audiovisual se consagrou e persiste até hoje. Muitos compararam, inclusive, 3% à saga Jogos Vorazes, que também retrata uma distopia política e social e que obteve muito sucesso de público. Contudo, no seriado temos marcas de uma distopia contextual, no caso, bem brasileira. Mesmo se passando num universo fantasioso, a trama encara vestígios do Brasil real e atual. Nesse universo, os habitantes do lugar chamado Continente, ao completarem 20 anos, podem se inscrever em um processo seletivo cruel em que apenas três por cento deles são aprovados e aceitos para irem ao outro lado (Maralto), bom e perfeito. Criada pelo jovem Pedro Aguilera – que pensou a trama em 2011 e colocou três episódios no youtube com esperança que comprassem sua ideia – e dirigida na sua primeira temporada por Daina Giannecchini e o fotógrafo César Charlone (Cidade de Deus), a série em princípio carrega um caráter ensaístico, mas vai ganhando contornos e profundidade à medida que avança, por outro lado, desmonta nos detalhes e em aspectos básicos do roteiro, como diálogos e construção de personagens.

 

Crítica política com metáforas comuns 

O ponto chave da série é trazer os aspectos do gênero ficção, futurismo, e distopia para o Brasil, tanto narrativamente quanto na produção. A Rede Globo ensaiou algumas outras séries nesse sentido, mas sem dúvida a Netflix conseguiu produzir uma das maiores histórias de ficção científica seriada brasileira até agora. Nesse sentido, é injusto criticar o enredo como um todo. Finalmente temos um fim de mundo brasileiro, subtramas de infiltrados, conspiração, anarquia, num lugar fictício, mas notadamente uma metáfora do país. Mesmo que não esteja explícito na série, fica claro que a história se passa num lugar como Brasil. O plot principal, “O Processo”, é quase uma alegoria do vestibular e todo discurso sobre meritocracia e desigualdade social.

 

 

O que muitos chamam de “clichê”, são artifícios típicos do gênero, ou recriações de outras produções – que podem, inclusive, funcionar inclusive como referências (como é o caso da série Strange Things). Porém, não se pode atribuir todas as críticas a chamada “síndrome de vira-lata”, que vê os produtos nacionais com pessimismo e como inferiores.  Essa “síndrome” ainda é muito forte e real, mas a Netflix vem quebrando essa regra produzindo séries em diversos países e muitas com alta qualidade. Por outro lado, as narrativas muitas vezes acabam se enquadrando num padrão trivial e globalizado, influenciado bastante pela plataforma, que é o caso de 3%. O enredo simples e convencional, e muitas vezes redundante, acaba funcionando como uma crítica superficial, mas não deixa de ser atrativo, ainda mais porque foi lançado no momento da polarização política que tem consequências até hoje. Do meio para o final das temporadas, começa a se rechear a trama com ação e suspense, o que eleva a narrativa a um bom entretenimento para quem gosta do gênero. Claro, fica difícil ver isso, quando se compara outras narrativas desse tipo. Poderia ser feito algo mais filosófico, estilo Black Mirror, por exemplo, mas, perderia, talvez, essa carga simplória e melodramática.

Quanto aos termos mais técnicos, para uma produção com pouco dinheiro, consegue-se criar uma atmosfera de ficção científica, principalmente com a montagem e fotografia. O figurino e o cenário do Continente (lado pobre), muitas vezes é forçado para apresentar essa desordem e caos, mas por outro lado, vê-se que há um cuidado com os detalhes. Já no Maralto, acontece o contrário, poucos detalhes e uma representação muito lugar-comum desse “paraíso”. Porém, este poderá ser mais desenvolvido na terceira temporada.

 

Complexidade e Profundidade: Conceitos menosprezados

A principal crítica é sem dúvida ao roteiro. É muito comum ver séries, novelas e minisséries brasileiras muito interessantes de conteúdo, produção e elenco, porém, sempre parece que se dá pouca atenção ao roteiro, principalmente na profundidade dos personagens e diálogos. Problemas no roteiro também geram a sensação de excesso, com muita coisa desnecessária e inútil, que acaba por cansar o público. Da mesma forma parece que tentam preencher “buracos” ou criar situações para agradar o público, típico de muitas produções mais comerciais. Por exemplo, colocando um casal que não faz sentido, simples e puramente porque o público gosta (ou porque acha que o público gosta). É comum esse tipo de estratégia em produções do melodrama, pois o objetivo é emocionar, com um sentimentalismo exagerado, mas aqui se torna trivial, até para o provável público alvo, os adolescentes.

 

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Os erros de roteiro criam personagens artificiais e estereotipados, sem qualquer indício de sutilezas emocionais ou ambiguidades psicológicas. A dramaturgia é frouxa e há pouca ligação entre fatos, atitudes dos personagens e diálogos. Não se espera um grande enigma ou tese, mas espera-se que as coisas façam sentido. Tudo isso deixa grande parte dos personagens chatos e pouco interessantes, como o caso do personagem Fernando (Michel Gomes) que tem um enredo inicial interessante, mas acaba se tornando o mero par romântico, o herói apaixonado.

Não se trata de atuação como muitos tentaram justificar, temos atores célebres desde o elenco principal, como o baiano João Miguel e a própria Bianca Comparato. O problema não são os atores e atrizes, são os personagens e os diálogos. O roteiro tem furos, e os personagens também parece que querem “preencher buraco”, deixando as ações rasas e muitas vezes previsíveis. Em outros momentos, os personagens agem de forma aleatória, como por exemplo, o “vai e volta” da personagem Michele (Bianca). Os diálogos são supérfluos, curtos e sem carga. A melhor personagem com pouco tempo de aparição é Zezé Mota (inclusive um personagem que precisa ser mais explorado). Os antagonistas são sempre muito maniqueístas, quando tentam dar um lado humano a eles, construir um arco a partir de suas relações e histórias de vida (como com Ezequiel e sua mulher Julia), se perdem, e na segunda temporada isso volta se repetir com a personagem Marcela (Laila Garin).

O problema com atuação pode ser atribuído mesmo, a figuração e aos atores secundários (problema de muitas produções brasileiras), que parecem ser pouco preparados e, por isso, agem de forma caricata e exagerada. Não se trata de dar explicações para tudo, você até aceita o mundo que eles criam (mesmo sem necessidade de falar como aconteceu para virar esse cenário distópico), mas por conta do roteiro fraco, não cria laços afetivos com os personagens.

 

Amadurecimento e alegorias

 

 

Em compensação, a partir do meio da temporada, a série ganha maior ritmo de suspense e ação, com micro-tramas interessantes, como a relação com os infiltrados. Aliás, toda a trama da Causa, movimento que propõe a derrubada do modo tradicional, que ganha força na temporada, é bem desenvolvida, mesmo que personagens como Michele e Fernando ainda estejam perdidos.

A crítica metafórica ao Brasil também se fortalece. Com o foco no Continente, vemos surgir pautas como a violência e sujeição  policial, e a atuação de milícias (sim, com esse mesmo nome), debates sobre corrupção e desigualdade se aprofundam, e debate as formas de resistência e revolução com um viés mais filosófico. Tratam também de religiosidade, ainda que superficial para falar de alienação, e do carnaval (com uma cena com música e performance da cantora Liniker), com intuito de tratar da ideia de pão e circo. Apesar disso, ainda se percebe que muita coisa do roteiro é pensado para conectar o público a realidade brasileira, mas, por exemplo, na cena do que se configura como um carnaval, apesar de belíssima, não faz diferença nenhuma para a trama como um todo, se configurando quase como um videoclipe.

Dentro da Causa, os personagens vão ganhando mais contorno, aliados a pensamentos de ideologia que questionam a lógica revolucionária, como por exemplo como ministrar a sociedade após a quebra do sistema, e o debate sobre individualismo e egocentrismo, representado por alguns integrantes que são impulsionados muito mais por motivos particulares que por uma teoria revolucionária.

A terceira temporada estreia ainda esse ano. Segundo informações da produção, esta irá focar no Concha, um terceiro lugar, representando a esperança.  A questão que fica é, se tivéssemos o poder para recomeçar, fazer algo novo, conseguiríamos fazer diferente? É esperar para ver! Abaixo o link da primeira e da terceira temporada.

 

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

Maratone como uma Garota: É tempo de sermos heroínas!

Que o universo da cultura nerd sempre foi bastante machista, muita gente já está ciente. Dá pra notar, porém, que isso vem sendo questionado e exposto com certa frequência. Na esteira de um fortalecimento dos ativismos feministas, especialmente nas redes sociais, e com um esforço coletivo de espectadoras em revelar as facetas da dominação patriarcal nas narrativas ficcionais, temos visto cada vez mais personagens femininas que parecem responder a antigos anseios por representações justas e diversas (e menos sexualizadas!). No mundo dos heróis, cujo apelo à identificação é bem forte, a gente sentia falta de modelos empoderadores de heroínas para ver na tela. A Maratone como uma Garota! de hoje é dedicada a toda garota que um dia desejou lutar contra o mal, conquistar as galáxias, salvar o mundo e voar pelos céus. Esse momento é nosso!

Em menos de um mês desde sua estreia, o primeiro longa da Capitã Marvel (21º filme do UCM*) chegou à lista dos filmes de heróis mais lucrativos, dando um tapa na cara da indústria que se negou por anos a investir em projetos com mulheres protagonistas (ou com mulheres na direção!). Ainda que correspondendo ao padrão hegemônico heterossexual branco colonial, quando Mulher Maravilha (da DC Comics) estreou, em 2017, um marco havia sido instaurado: o protagonismo feminino além de lucrativo, é empoderador e tem um alcance potente. A direção de Patty Jenkins entregou uma obra com um primor técnico incrível.

 

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Mulher Maravilha, dir.: Patty Jenkins, 2017

Carol Denvers (Capitã Marvel) e Diana Prince (Mulher Maravilha) não são as únicas heroínas do cinema ou da TV, isso é claro, e tão pouco representam um ganho no que tange à diversidade, porém, são personagens expoentes nesse universo não apenas por ocuparem um lugar quase sempre masculino, o de protagonismo, mas também pela construção de suas histórias, com personalidades complexas, anseios próprios e por seus papéis no roteiro não estarem em função de um homem, como acessório na trama ou ainda como deleite sexual para os espectadores. Natasha Romanov (Viúva Negra), Tempestade, entre outras, já tinham destaque em filmes anteriores e foram por muito tempo as principais referências de heroínas para muitas espectadoras. Natasha, por exemplo, é central para os Vingadores. A Vespa assumiu o protagonismo com o Homem-Formiga em seu último longa.

Jessica Jones é outro exemplo forte, já que seu jeito rebelde, seus traumas do passado, fogem do ideal de docilidade e simpatia esperados em uma mulher e preenchem camadas de uma pessoa com um existência “real”. Kara Zor-El, a Supergirl, é muito mais do que um rostinho angelical, é uma líder justa e valente. Misty Knight, da série Luke Cage, tem sido uma das heroínas mais marcantes dos últimos anos. Sem superpoderes, a policial do Harlem é uma mulher negra que conquistou um lugar super importante no seu universo, bem com Colleen Wing, da série Punho de Ferro. Nas séries animadas, Carmen Sandiego é uma ladra internacional que recupera objetos roubados por vilões. Personagem icônica e nostálgica, ela foi readaptada pela Netflix recentemente, talvez justamente em diálogo com o momento de tentar dar voz ao girl power.  

 

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Misty Knight, na série Luke Cage (2016-2018), da Netflix.

Quando destacamos a importância da presença e da representação de mulheres nestes universos é justamente por entender que, enquanto produtos que circulam mundo afora, ocupam um lugar estratégico na construção dos imaginários sociais e culturais e nas imagens que construímos sobre os outros. Somos marcados pelo que vemos e, quase sempre, os personagens que acompanhamos acabam ocupando um papel central em nossos comportamentos e expectativas. Para além das protagonistas, certas personagens secundárias também são inspiração e modelo, com uma visibilidade e um potencial de desenvolvimento de questões mais amplas para demandas de um público tão diverso. Foi um grande avanço quando, em Deadpool, tivemos um casal de heroínas lésbicas (Míssil e Yukio), assim como em Supergirl, com Alex Danvers (irmã da Kara) e Meggie Sayer. Mais do que realizar um inventário das principais heroínas de todos os tempos, espero motivar a reflexão sobre nosso tempo e nosso lugar de mulheres, espectadoras críticas e/ou fãs.

Nos quadrinhos, no cinema ou na TV, é inegável o poder de atração das histórias de heróis. Elas nos atingem, nos motivam, nos levam a lugares onde tudo é possível, onde somos fortes e destemidas. Todo esse clichê é coisa séria! A entrega emocional que muitas e muitos dedicam a estes produtos faz com estes sejam parte importante de sua existência no mundo. Note-se que os exemplos trazidos são produtos estadunidenses, destacando o peso que sua influência (ainda por cima) tem nesse campo mainstream*. A questão é: não queremos ser salvas, queremos salvar o mundo e queremos fazer isso sendo donas da nossa história.

 

*UCM – Universo Cinematográfico da Marvel →  

*Mainstream → Termo em inglês que geralmente se refere à cultura de massas, produtos comercialmente hegemônicos.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Maratone como uma Garota!: 5 séries para derrubar a rivalidade feminina

Desde muito cedo, independente da sua identidade de gênero, mas especialmente se você se identifica (ou tenha sido identificado em algum momento) como mulher, muito provavelmente você foi socializada/o em um contexto cultural em que a rivalidade feminina é considerada quase uma condição intrínseca a nós mulheres. Essa noção às vezes está tão enraizada que chega a ser difícil reconhecê-la em nossos padrões de comportamento e expectativas. Espera-se e incentiva-se que as mulheres estejam em constante competição: por homens, por um look melhor, para chamar mais atenção.

O fato é que isso nada mais é do que uma lenda que o patriarcado inventou para enfraquecer a união e os laços que a gente pode (e deve!) cultivar sempre umas com as outras. De todo modo, desde que as mídias e produtos culturais, como filmes e séries, se tornaram parte de nossas rotinas, nossos imaginários são também formados a partir da relação que estabelecemos com eles. É por isso que quase sempre levamos muito mais do que apenas entretenimento com nossos personagens, autores e histórias favoritas. Levamos modos de pensar, de agir, de se vestir, mas também nos inspiramos com suas batalhas, seus sonhos, seus amores, em como perseguem objetivos e cultivam amizades. Pensa comigo: quantas vezes você se sentiu motivada/o ou impulsionada/o por alguma história? Aposto que algo veio a sua cabeça agora!

 

Graças ao fortalecimento que pautas feministas vêm tomando nos últimos anos, muitos padrões de opressão têm sido questionados. Algumas séries recentes de muito sucesso, como Sex Education e Good Girl, se encarregaram de desmistificar essa ideia de rivalidade feminina, especialmente entre personagens de diferentes estilos ou universos. Se você foi criança ou adolescente nos anos 2000, você teve o privilégio de poder acompanhar algumas boas histórias que provaram que o patriarcado não bate uma boa amizade. É por isso que na Maratone como uma Garota! de hoje vamos relembrar algumas séries que marcaram nossos corações e nos provaram que rivalidade com a gente não tem vez!

 

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1º Friends

Vamos começar com a mais clássica! Friends foi ao ar entre 1994 – 2004, mas continua sendo uma dos sitcoms mais assistidas até os dias atuais. Como o próprio nome sugere (friends é “amigos”, em português), a amizade é tema central e é impossível não amar o trio de amigas Rachel, Monica e Phoebe. Três mulheres bem diferentes, mas que estão sempre incentivando e torcendo umas para as outras. Monica e Rachel são um exemplo de amizade que se fortaleceu e amadureceu com o tempo. Phoebe tem um espírito amável e sempre presente.

 

 

2º The L Word

Parada quase obrigatória para as lésbicas e bis, essa é uma das séries mais interessantes para o público feminino, especialmente as LGBTQ+, não apenas por trazer no centro as relações entre casais femininos, mas também por discutir com lucidez questões relacionadas a padrões de gênero e sexualidade (ainda que tenha escorregado em retratar a bissexualidade como algo transitório ou incerto). Além de um roteiro fortemente feminista e de ter sido criada e produzida por uma mulher (Ilene Chaiken), The L Word se esforçou em demonstrar como as mulheres podem ser parceiras e confidentes. Existe um laço de apoio e compreensão entre muitas personagens, especialmente no núcleo central, como Tina, Alice, Dana, Kit, Bette e Shane. Uma nova temporada foi confirmada!

 

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3º Sob Nova Direção

Sitcom nacional de grande popularidade entre 2004 – 2007, a história trazia duas amigas sócias que tentavam recuperar um bar falido. Protagonizado por Heloísa Périssé e Ingrid Guimarães, a série mostrava não só a amizade, mas o empreendedorismo de duas mulheres independentes, ainda que em tom de (muita) comédia.

 

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4º Xena – A Princesa Guerreira

Não seria uma coluna minha se não tivesse essa série de marcou o coração de muita gente! Foi ao ar entre 1995-2001, mas continua reprisando no Brasil e em muitos países. Na Grécia antiga, Xena, uma guerreira em busca de redenção por seu passado violento, encontra em sua jornada a jovem Gabriele, que se torna sua melhor amiga e companheira de viagem. As cenas de luta e a coragem delas empoderou muitas garotas. A popularidade da série ao redor do mundo conseguiu reunir um Fandom* fiel e ativo. As protagonistas tinham um laço afetivo muito forte. Uma nova versão estava confirmada para os próximos anos e, conforme os produtores, as duas protagonistas seriam assumidamente homossexual. Mas para a tristeza geral na nação, o projeto foi cancelado!

 

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5º Três Espiãs Demais

Que atire a primeira pedra quem nunca brigou para ser Sam, Alex ou Clover (eu era a Sam!). Um dos desenhos animados mais populares da TV, era protagonizado por três adolescentes distintas que além de super amigas, eram super espiãs e estavam sempre vencendo vilões e ganhando batalhas. Além de provar que meninas podem fazer tudo – e de salto! (desculpa, não pude evitar), mostrou como as mulheres são versáteis, inteligentes, independentes e autossuficientes. Dá pra levar boas lições com o trio e até mesmo com a Mandy, sua principal rival, que possui camadas de sensibilidade.

 

Nunca é tarde para rever certos conceitos e questionar alguns padrões que nos foram impostos. Se mesmo depois dessa lista você ainda acredita de as mulheres nunca podem ser verdadeiramente amigas, tá aí a oportunidade de maratonar alguns episódios! E para quem já viu alguma(s), aproveita para matar a saudade e analisar com novos olhos.

*Fandom -> União dos termos em inglês Fan (fã) e Kingdom (Reino), resultando em “reino de fãs”. É uma expressão utilizada para designar um grupo de pessoas que são fãs de algum produto ou artista.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Terror em Série – American Horror Story: Roanoke e suas múltiplas reviravoltas

A sexta temporada de American Horror Story (AHS) foi exibida em 2016 e trouxe uma tentativa de dar uma complexidade maior para suas tramas, focando em três camadas narrativas diferentes que vão se desenrolando durante os episódios. Além disso, paralelamente, ela mostra o passado da casa na qual a história está centrada.

A narrativa começa bem, mas deixa suspeitas de que talvez se encaminhe por um rumo um pouco repetitivo, trazendo ares muito semelhantes aos de Murder House. Na trama, o casal Matt e Shelby se mudam para uma misteriosa residência, que possui um secreto e sombrio passado. E a história daquele lugar remete bastante à atmosfera da terceira temporada (Coven), onde Kathy Bathes interpreta mais uma vez uma mulher sanguinária, a personagem Thomasin, a açougueira.

 

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Mesmo com as semelhanças, os episódios são consistentes e apresentam um elemento novo: no enredo, uma produção está realizando um documentário sobre os acontecimentos da casa. O tom quase metalinguístico, com pitadas de mocumentário, traz um tom de suspense e uma impressão de que tudo pode acontecer. O risco, algo visto nas obras de terror, se mostra maior, alimentando bem a curiosidade do espectador, dando poucas chaves e abrindo muitas possibilidades.

E aí que mora o maior problema de Roanoke. Muitas portas são abertas e é difícil se conectar com qualquer possibilidade. Após o sucesso da primeira temporada da série ficcional que o público vê na história do seriado, partimos para o segundo ano, agora, com atores interpretando todos os envolvidos na trama. A equipe realiza tudo na mesma casa onde todas as mortes aconteceram. A partir disto, a narrativa se modifica por completo e a metalinguagem e crítica aos realites shows, são substituídos por jump scares baratos e uma grande falta de coesão narrativa.

 

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A relação entre as personagens novas é mal construída e o valor das mesmas parece inexistente. Como elas não possuem um elo forte de ligação com o público, vão se amontoando em mortes diferentes a cada episódio, substituindo aquele suspense característico da série, pela constante procura em provocar medo com fantasmas e assombrações cada vez mais assustadores.

É essa tentativa constante de superar tudo antes já visto no seriado que destrói qualquer forma de conexão que poderia surgir, é extremamente forçada a busca de surpreender. Talvez o maior louro de Roanoke seja a crítica, até um pouco simplista, da sede de sangue que o público estadunidense possui de ver a desgraça alheia. Porém, nada que Black Mirror já não tenha feito em seus primórdios. O sexto ano de AHS fica um pouco no meio do caminho de tudo.

Sobre as intercessões com as temporadas anteriores, os principais destaques são: a primeira bruxa suprema – numa referência à Coven – e a presença de Lana Winters – de Asylum – uma escolha sempre acertada de Murphy. Para os fãs da série, só restou conferir os episódios e esperar pela temporada seguinte, muito superior e que traz de volta o suspense e os dramas que unem psicológico e sobrenatural, explorando o que American Horror Story faz de melhor: encontrar o terror dentro das pessoas mais inesperadas, desvendar almas sombrias de lugares menos prováveis. A quinta  e a sexta temporadas do seriado quase provocaram seu downfall, mas, a mesma se recupera com louvor. Mas, vamos deixar para o próximo mês!

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

BR em Série: Webséries brasileiras oferecem narrativas diversificadas e ganham espaço em premiações

Há algumas décadas, seriados audiovisuais eram apenas televisivos. Hoje, não os associamos mais somente à canais de TV (apesar de no Brasil a TV aberta ainda ser dominante) senão também à internet, principalmente com o crescimento dos serviços de streaming*, como a Netflix. Com o desenvolvimento tecnológico, essas mudanças revolucionaram não só as formas de assistir a séries, como também formatos e tipos de produções. Além deste serviço, existem outros estilos de produções audiovisuais surgindo e crescendo no mundo, como aquelas feitas para redes sociais e sites de vídeos. O Vimeo e o Youtube são exemplos disso. Estes materiais são popularmente conhecidos como webséries, que tem não só possibilitado produções mais acessíveis, como também uma maior pluralidade de temas.

Webséries ou seriados digitais são produtos serializados distribuídos online e com episódios mais curtos que os das séries televisivas comuns. Surgem no final da década de 1990, nos EUA, a partir do processo de convergência da web com a televisão, que depois consagrou-se enquanto formato com narrativa e especificidades próprias. Elas surgem pela necessidade do espectador consumir um conteúdo que poderia ser assistido casualmente. Por isso, variam entre 3 e 20 minutos de duração, mantendo uma narrativa mais simples, com histórias não muito complexas, que não exijam atenção total do espectador. A distribuição pela internet também possibilita uma maior liberdade criativa, pois não enfrentam as mesmas limitações de um conteúdo televisionado, o que incentiva a geração de conteúdos mais livres, a transformando em um formato midiático com oportunidades nos mais diversos nichos.

 

 

Em contrapartida, não há modelos de negócios e divulgação que tornem as webséries rentáveis, o que desincentiva muitos produtores. Por outro lado, assim como os curtas-metragens, os festivais são espaços possíveis de ganhar visibilidade e prêmios. O número de webfests têm crescido pelo mundo, e mesmo os festivais tradicionais de TV e Cinema com o Emmy e Cannes já abriram novas categorias visando essas produções. No Brasil, o maior é Rio WebFest, que teve sua edição inaugural realizada em 2015. Sediado desde 2016 na Cidade das Artes, se consolida como um dos maiores do mundo. A última edição aconteceu em novembro 2018, e premiou produções de diversas partes do Brasil.

 

Abaixo pequenas resenhas de algumas webséries com temáticas interessantes e que chamaram atenção nos festivais.

 

 

O Som do Amor: A Bahia em música e simplicidade

 

 

Não existe fórmula mais eficaz em atrair um público comercial do que histórias de romance. Um dos gêneros mais antigos, da comédia ao drama, as histórias de amor tem como forte, as relações amorosas e conflitos para viver o amor. A websérie  baiana, O Som do Amor, traz essa receita com muita simplicidade, aliado a outro forte artifício do melodrama: a música. Uma história de amor que se desenrola rápido, com um conflito usual, mas sem um drama exagerado, comum de produções assim. Tudo isso dá a produção um aspecto de ordinariedade. Porém, este logo se mostra ser o propósito da série, ou seja, retratar uma vida comum com o amor e a amizade. Marina e Dito, o casal protagonista, também conseguem trazer essa naturalidade a história. São 5 episódios de até 5 minutos que constroem relações que nós nos identificamos. O cenário, então, é bem romântico, com imagens lindas da cidade de Salvador. Talvez o que falte seja talvez circular por mais espaços, são poucos cenários por onde os personagens trafegam, como, por exemplo, a maioria das cenas acontece no mesmo bar. Isso não é de todo um problema, pois existem séries sobre grupos de amigos que fazem a mesma coisa, como os seriados Friends e How I Met Your Mother. Dado a realidade das séries digitais, com tempo curtos e baixo orçamento, é compreensível que se estruture uma narrativa mais concentrada e dê foco aos personagens principais. Falta desenvolver, talvez, os personagens secundários, que surgem quase como figurantes. O seriado ganhou Melhor Série Brasileira no Rio Web Fest e em breve terá lançamento da sua segunda temporada. Confira o trailer aqui:

 

 

Punho Negro: Uma história de super-herói contemporânea e brasileira

 

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Uma outra fórmula que também tem atraído um vasto público comercial são as narrativas de super-heróis. Apesar disso, o Brasil não tem muitas produções com essa temática. Uma justificativa usual para isso, é que essas produções normalmente são muito caras. De maneira engraçada e inteligente, a websérie baiana Punho Negro, traz uma super-heroína contemporânea, cheias de críticas a sociedade, sem deixar de rechear com cenas de ação e fantasia típicos do gênero. Os efeitos e a arte da série são uma questão a parte, com uma paleta de cores complementar ao figurino da protagonista, que também se adequam a arte dos créditos e da abertura que funcionam bem com a música. Efeitos simples, mas que não recaem sobre uma artificialidade (muito comum em produções que abusam de efeitos de computador gráfica). O projeto fica por conta do coletivo independente Êpa Filmes e traz personagens e situações, que, aliados com boas atuações, não deixam a desejar, tudo parece funcionar muito bem. Punho ganhou prêmio de melhor ideia original no Rio Web Fest, porém, ainda não há notícias sobre uma segunda temporada.

 

Link da serie no youtube:

 

Eixos: Narrativa distópica com uma produção majoritariamente de mulheres

 

 

Quem disse que Brasília não poderia viver um futuro distópico? Com uma fotografia, arte, maquiagem e figurino excelente, a websérie Eixos apresenta a capital do país em 2060, onde conflitos políticos e revoltas violentas levaram ao desmoronamento da ordem mundial, deixando a população a sua própria sorte. Imagens de ruínas, sujeira, calor e desesperado deixam a cidade irreconhecível. A narrativa que veio dos quadrinhos, com direção, roteiro e arte de mulheres, tem como protagonistas Cássia. A personagem é uma mulher forte, aventureira e dura e, junto com Inês, de personalidade mais leve, decide procurar seus amigos desaparecidos. A relação entre elas, que horas beira a uma relação amorosa, constrói uma história de luta e fé mesmo num mundo destruído. O problema que acontece em muitas narrativas desse tipo, é que muitas vezes se perdem nos detalhes. Os personagens secundários também enriquecem a narrativa, como Chico e Mãe Obá. Eixos foi indicada a melhor fotografia, melhor maquiagem e melhor série de ação no Rio Web Fest 2017. Link do trailer:

 

* Streaming Media é uma tecnologia sobre transmissão de conteúdos audiovisuais adquiridos  através de pacotes da internet, em que as informações não são armazenadas pelo usuário em seu próprio computador. odo vídeo “on demand” é transmitido via streaming. Mas nem todo conteúdo por streaming está sendo enviado sob demanda, ou seja conceitualmente é tudo o mesmo.

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

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