Categoria: Maratone como uma Garota

Colunas: Morte, sedução e evolução em Killing Eve (Primeira Temporada)

Quando comecei a pesquisar (academicamente) críticas feministas aos produtos culturais, me propus o exercício constante de, além de buscar aqueles que promovam o protagonismo feminino e que tragam mulheres nos cargos técnicos “principais” (como direção, roteiro e montagem), analisar também a qualidade, por assim dizer, dessa representação. Explico: acredito que devemos ser criticamente exigentes com o “nível” que as representatividades assumem nas narrativas, mais do que exigir somente uma presença em tela ou nos sets. Ou seja, não anseio uma série ou um filme protagonizado por mulheres mas com desenvolvimento raso das personagens, ou um roteiro que reproduz estruturas tradicionais* ou que pouco tensione os silenciamentos e os estereótipos que nós quase sempre sofremos. Quero mais. Espero personagens com personalidades complexas, cujas ações evoluam na trama e que as relações com as demais figuras femininas nos ofereçam outros olhares sobre sororidade e rivalidade.

 

Diante de um produto como Killing Eve, vemos como uma boa narrativa pode explorar nuances das suas personagens, fazer o roteiro evoluir junto à evolução destas, em suas performances e na relação construída entre elas, especialmente quando uma é psicopata e assassina de aluguel e a outra uma funcionária da Inteligência Inglesa (MI5) – posições centrais nas histórias de perseguição tradicionais que aqui adquirem contornos maiores do que o lado bom x lado mau. A série dramática é uma produção britânica para a BBC America, baseada nos romances seriados Codename Villanelle, de Luke Jennings, criada por Phoebe Waller-Bridge e estrelada por Sandra Oh (Cristina Yang, de Grey’s Anatomy) e Jodie Comer (de My Mad Fat Diary). A Maratone como uma Garota! discute um pouco a primeira temporada, especialmente a concepção das duas protagonistas!

 

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Eve (Sandra Oh) é uma agente da Inteligência Britânica muito sagaz, porém subestimada no trabalho, que tem uma fixação por assassinatos e mulheres criminosas e começa a investigar uma assassina profissional internacional, Villanelle (Jodie Comer). Logo, Eve se vê diante de uma grande organização do crime e Villanelle parece apreciar sua busca incessante. Elas vão adquirindo uma fixação mútua, o que move o roteiro, que economiza suspenses. Com 8 episódios, a velocidade das ações é rápida e as coisas se resolvem sem muitas delongas. O apelo ao espectador, aqui, vem muito menos do mistério e da ansiedade de revelações que um thriller policial normalmente oferece e mais de uma curiosidade para com as motivações e ações da antagonista e da protagonista.

 

Eve, envolta no prazer de estar à frente de algo tão grandioso (como ela diz, “salvar o mundo da assassina”), começa a romper barreiras éticas e revelar outros lados de sua personalidade. Ela vai “morrendo” aos poucos (Killing Eve traduz-se por “Matando Eve”) para renascer e experimentar outra vida, em outro nível de ação. E é em Villanelle que encontra um ponto de transformação. Sim, o trunfo da série é a interação narrativa e artística entre as duas atrizes principais, ainda que outras mulheres também assumam papéis de destaque. A esfera psicológica tem, portanto, um papel central no desenvolver da trama, movendo as personagens e desestabilizando expectativas do público. Tudo isso se expressa na montagem, especialmente no encadeamento de planos e contra-planos, que não se limitam a contrapor pontos de vista, mas engendrar a intimidade que sendo estabelecida, e nos enquadramentos que sempre revelam alguma nuance característica de cada uma.

 

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A premissa do jogo de perseguição policial – bandido está, aqui, recheada com o tom de imprevisibilidade que a psicopatia e frieza da antagonista, Villanelle, proporciona. O que esperar de alguém cujo prazer do trabalho de assassina não lhe impõe limites? Poucos clichês emergem, ainda que alguns pontos soltos eventualmente surjam, o que não atrapalha o desenrolar da história, justo porque Eve e Villanelle não são óbvias, não são arquétipos fixos e previsíveis. Assim, as incoerências na narrativa, como perseguições óbvias, viagens imprevistas, resoluções e recursos que não existiriam na prática, se tornam “irrelevantes” quando o que se sobressai é na verdade a lógica de dominação e sedução estabelecida. Ainda que seja um enredo de perseguição, as fronteiras do jogo se tornam nebulosas e já não se percebe tão nitidamente as reais motivações dessa busca.

Grande parte do êxito e da potência da produção está na performance das atrizes, incluindo aqui não somente Sandra e Jodie, mas também Fiona Shaw, que interpreta Carolyn, da inteligência russa e quem recruta Eve. Kirby Howell-Baptiste, única mulher negra da produção, interpreta Elena Felton, a assistente de Eve, e vai perdendo presença com o passar dos episódios, ponto em que a série peca, já que parece não valorar suas ações e subjugar sua trama. A estética corporal e a atuação carregam traços de personalidades – como os trejeitos ora joviais e despreocupados de Villanelle, ora violentos. Sandra Oh imprime no corpo a satisfação e a segurança que sua personagem vai desenvolvendo ao longo dos episódios.

Para quem aprecia histórias policiais, sem dúvida Killing Eve reserva uma experiência de suspense e envolvimento subjetivo muito interessante. A segunda temporada já está no ar e a série, que fez Sandra Oh ser a primeira atriz de origem asiática indicada ao prêmio Emmy de Melhor Atriz, já foi renovada para uma terceira!

 

 

 

* Por tradicionais, pretendo me referir aos modelos a que comumente as mulheres são associadas, como por exemplo: maternal, protetora, amável, o elo frágil do grupo, ou quando as ações de uma personagem, ou sua personalidade, são moldadas em função de um personagem masculino.

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Maratone como uma Garota: É tempo de sermos heroínas!

Que o universo da cultura nerd sempre foi bastante machista, muita gente já está ciente. Dá pra notar, porém, que isso vem sendo questionado e exposto com certa frequência. Na esteira de um fortalecimento dos ativismos feministas, especialmente nas redes sociais, e com um esforço coletivo de espectadoras em revelar as facetas da dominação patriarcal nas narrativas ficcionais, temos visto cada vez mais personagens femininas que parecem responder a antigos anseios por representações justas e diversas (e menos sexualizadas!). No mundo dos heróis, cujo apelo à identificação é bem forte, a gente sentia falta de modelos empoderadores de heroínas para ver na tela. A Maratone como uma Garota! de hoje é dedicada a toda garota que um dia desejou lutar contra o mal, conquistar as galáxias, salvar o mundo e voar pelos céus. Esse momento é nosso!

Em menos de um mês desde sua estreia, o primeiro longa da Capitã Marvel (21º filme do UCM*) chegou à lista dos filmes de heróis mais lucrativos, dando um tapa na cara da indústria que se negou por anos a investir em projetos com mulheres protagonistas (ou com mulheres na direção!). Ainda que correspondendo ao padrão hegemônico heterossexual branco colonial, quando Mulher Maravilha (da DC Comics) estreou, em 2017, um marco havia sido instaurado: o protagonismo feminino além de lucrativo, é empoderador e tem um alcance potente. A direção de Patty Jenkins entregou uma obra com um primor técnico incrível.

 

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Mulher Maravilha, dir.: Patty Jenkins, 2017

Carol Denvers (Capitã Marvel) e Diana Prince (Mulher Maravilha) não são as únicas heroínas do cinema ou da TV, isso é claro, e tão pouco representam um ganho no que tange à diversidade, porém, são personagens expoentes nesse universo não apenas por ocuparem um lugar quase sempre masculino, o de protagonismo, mas também pela construção de suas histórias, com personalidades complexas, anseios próprios e por seus papéis no roteiro não estarem em função de um homem, como acessório na trama ou ainda como deleite sexual para os espectadores. Natasha Romanov (Viúva Negra), Tempestade, entre outras, já tinham destaque em filmes anteriores e foram por muito tempo as principais referências de heroínas para muitas espectadoras. Natasha, por exemplo, é central para os Vingadores. A Vespa assumiu o protagonismo com o Homem-Formiga em seu último longa.

Jessica Jones é outro exemplo forte, já que seu jeito rebelde, seus traumas do passado, fogem do ideal de docilidade e simpatia esperados em uma mulher e preenchem camadas de uma pessoa com um existência “real”. Kara Zor-El, a Supergirl, é muito mais do que um rostinho angelical, é uma líder justa e valente. Misty Knight, da série Luke Cage, tem sido uma das heroínas mais marcantes dos últimos anos. Sem superpoderes, a policial do Harlem é uma mulher negra que conquistou um lugar super importante no seu universo, bem com Colleen Wing, da série Punho de Ferro. Nas séries animadas, Carmen Sandiego é uma ladra internacional que recupera objetos roubados por vilões. Personagem icônica e nostálgica, ela foi readaptada pela Netflix recentemente, talvez justamente em diálogo com o momento de tentar dar voz ao girl power.  

 

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Misty Knight, na série Luke Cage (2016-2018), da Netflix.

Quando destacamos a importância da presença e da representação de mulheres nestes universos é justamente por entender que, enquanto produtos que circulam mundo afora, ocupam um lugar estratégico na construção dos imaginários sociais e culturais e nas imagens que construímos sobre os outros. Somos marcados pelo que vemos e, quase sempre, os personagens que acompanhamos acabam ocupando um papel central em nossos comportamentos e expectativas. Para além das protagonistas, certas personagens secundárias também são inspiração e modelo, com uma visibilidade e um potencial de desenvolvimento de questões mais amplas para demandas de um público tão diverso. Foi um grande avanço quando, em Deadpool, tivemos um casal de heroínas lésbicas (Míssil e Yukio), assim como em Supergirl, com Alex Danvers (irmã da Kara) e Meggie Sayer. Mais do que realizar um inventário das principais heroínas de todos os tempos, espero motivar a reflexão sobre nosso tempo e nosso lugar de mulheres, espectadoras críticas e/ou fãs.

Nos quadrinhos, no cinema ou na TV, é inegável o poder de atração das histórias de heróis. Elas nos atingem, nos motivam, nos levam a lugares onde tudo é possível, onde somos fortes e destemidas. Todo esse clichê é coisa séria! A entrega emocional que muitas e muitos dedicam a estes produtos faz com estes sejam parte importante de sua existência no mundo. Note-se que os exemplos trazidos são produtos estadunidenses, destacando o peso que sua influência (ainda por cima) tem nesse campo mainstream*. A questão é: não queremos ser salvas, queremos salvar o mundo e queremos fazer isso sendo donas da nossa história.

 

*UCM – Universo Cinematográfico da Marvel →  

*Mainstream → Termo em inglês que geralmente se refere à cultura de massas, produtos comercialmente hegemônicos.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Maratone como uma Garota!: 5 séries para derrubar a rivalidade feminina

Desde muito cedo, independente da sua identidade de gênero, mas especialmente se você se identifica (ou tenha sido identificado em algum momento) como mulher, muito provavelmente você foi socializada/o em um contexto cultural em que a rivalidade feminina é considerada quase uma condição intrínseca a nós mulheres. Essa noção às vezes está tão enraizada que chega a ser difícil reconhecê-la em nossos padrões de comportamento e expectativas. Espera-se e incentiva-se que as mulheres estejam em constante competição: por homens, por um look melhor, para chamar mais atenção.

O fato é que isso nada mais é do que uma lenda que o patriarcado inventou para enfraquecer a união e os laços que a gente pode (e deve!) cultivar sempre umas com as outras. De todo modo, desde que as mídias e produtos culturais, como filmes e séries, se tornaram parte de nossas rotinas, nossos imaginários são também formados a partir da relação que estabelecemos com eles. É por isso que quase sempre levamos muito mais do que apenas entretenimento com nossos personagens, autores e histórias favoritas. Levamos modos de pensar, de agir, de se vestir, mas também nos inspiramos com suas batalhas, seus sonhos, seus amores, em como perseguem objetivos e cultivam amizades. Pensa comigo: quantas vezes você se sentiu motivada/o ou impulsionada/o por alguma história? Aposto que algo veio a sua cabeça agora!

 

Graças ao fortalecimento que pautas feministas vêm tomando nos últimos anos, muitos padrões de opressão têm sido questionados. Algumas séries recentes de muito sucesso, como Sex Education e Good Girl, se encarregaram de desmistificar essa ideia de rivalidade feminina, especialmente entre personagens de diferentes estilos ou universos. Se você foi criança ou adolescente nos anos 2000, você teve o privilégio de poder acompanhar algumas boas histórias que provaram que o patriarcado não bate uma boa amizade. É por isso que na Maratone como uma Garota! de hoje vamos relembrar algumas séries que marcaram nossos corações e nos provaram que rivalidade com a gente não tem vez!

 

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1º Friends

Vamos começar com a mais clássica! Friends foi ao ar entre 1994 – 2004, mas continua sendo uma dos sitcoms mais assistidas até os dias atuais. Como o próprio nome sugere (friends é “amigos”, em português), a amizade é tema central e é impossível não amar o trio de amigas Rachel, Monica e Phoebe. Três mulheres bem diferentes, mas que estão sempre incentivando e torcendo umas para as outras. Monica e Rachel são um exemplo de amizade que se fortaleceu e amadureceu com o tempo. Phoebe tem um espírito amável e sempre presente.

 

 

2º The L Word

Parada quase obrigatória para as lésbicas e bis, essa é uma das séries mais interessantes para o público feminino, especialmente as LGBTQ+, não apenas por trazer no centro as relações entre casais femininos, mas também por discutir com lucidez questões relacionadas a padrões de gênero e sexualidade (ainda que tenha escorregado em retratar a bissexualidade como algo transitório ou incerto). Além de um roteiro fortemente feminista e de ter sido criada e produzida por uma mulher (Ilene Chaiken), The L Word se esforçou em demonstrar como as mulheres podem ser parceiras e confidentes. Existe um laço de apoio e compreensão entre muitas personagens, especialmente no núcleo central, como Tina, Alice, Dana, Kit, Bette e Shane. Uma nova temporada foi confirmada!

 

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3º Sob Nova Direção

Sitcom nacional de grande popularidade entre 2004 – 2007, a história trazia duas amigas sócias que tentavam recuperar um bar falido. Protagonizado por Heloísa Périssé e Ingrid Guimarães, a série mostrava não só a amizade, mas o empreendedorismo de duas mulheres independentes, ainda que em tom de (muita) comédia.

 

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4º Xena – A Princesa Guerreira

Não seria uma coluna minha se não tivesse essa série de marcou o coração de muita gente! Foi ao ar entre 1995-2001, mas continua reprisando no Brasil e em muitos países. Na Grécia antiga, Xena, uma guerreira em busca de redenção por seu passado violento, encontra em sua jornada a jovem Gabriele, que se torna sua melhor amiga e companheira de viagem. As cenas de luta e a coragem delas empoderou muitas garotas. A popularidade da série ao redor do mundo conseguiu reunir um Fandom* fiel e ativo. As protagonistas tinham um laço afetivo muito forte. Uma nova versão estava confirmada para os próximos anos e, conforme os produtores, as duas protagonistas seriam assumidamente homossexual. Mas para a tristeza geral na nação, o projeto foi cancelado!

 

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5º Três Espiãs Demais

Que atire a primeira pedra quem nunca brigou para ser Sam, Alex ou Clover (eu era a Sam!). Um dos desenhos animados mais populares da TV, era protagonizado por três adolescentes distintas que além de super amigas, eram super espiãs e estavam sempre vencendo vilões e ganhando batalhas. Além de provar que meninas podem fazer tudo – e de salto! (desculpa, não pude evitar), mostrou como as mulheres são versáteis, inteligentes, independentes e autossuficientes. Dá pra levar boas lições com o trio e até mesmo com a Mandy, sua principal rival, que possui camadas de sensibilidade.

 

Nunca é tarde para rever certos conceitos e questionar alguns padrões que nos foram impostos. Se mesmo depois dessa lista você ainda acredita de as mulheres nunca podem ser verdadeiramente amigas, tá aí a oportunidade de maratonar alguns episódios! E para quem já viu alguma(s), aproveita para matar a saudade e analisar com novos olhos.

*Fandom -> União dos termos em inglês Fan (fã) e Kingdom (Reino), resultando em “reino de fãs”. É uma expressão utilizada para designar um grupo de pessoas que são fãs de algum produto ou artista.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Maratone como uma Garota!: Tabus, liberdade e sexualidade feminina em Sex Education

Sex Education é muito mais do que pode parecer! A comédia dramática britânica, que está entre as queridinhas do público, se passa em um colégio cheio de adolescentes e tem como tema central: Sexo! Na infinidade de clichês que poderia emergir daí, a série, criada por Laurie Nunn, surpreende pela lucidez com que aborda temas e tabus que a maioria dos jovens vive, viveu ou vai viver um dia. A diversidade de questões apresentadas, como homossexualidade, aborto, sororidade, masturbação feminina, orgasmo e virgindade, bem como a complexidade na construção das personagens, são alguns dos trunfos. A Maratone como uma garota! de hoje vai discutir a importância de se abordar a sexualidade feminina e a liberdade sexual das mulheres em produtos para um público mais jovem.

 

O enredo centra-se em Otis (Asa Butterfield), típico adolescente nerd de 16 anos, que é um grande conhecedor de sexo, só que na teoria! Ele é filho da terapeuta sexual Jean (Gillian Anderson), com quem tem uma relação próxima, mas um tanto complexa. Otis, que além de virgem tem problemas para se masturbar, entra em uma sociedade com Maeve (Emma Mackey), após dar conselhos sexuais ao valentão do colégio. Maeve propõe que Otis seja um consultor sexual em troca de dinheiro. É nesse consultório “clandestino” que começam a emergir reflexões, dúvidas e situações inusitadas que envolvem sexo, jovens e relacionamentos. A virgindade, por exemplo, é abordada de modo cômico, mas sempre trazendo a reflexão: por que o sexo é tão importante (ou não) para cada um?

 

 

Maeve tem o protagonismo feminino na série. Sua (im)popularidade se deu por boatos envolvendo sua intimidade sexual. Apresentando-se como rebelde e anti social, a personagem é uma das mais bem desenvolvidas e ricas. A segurança com que lida com a própria liberdade sexual demonstra não só maturidade pessoal, mas conhecimento teórico e histórico sobre feminismos e literatura, mostrando como somos multifacetados e rompendo com certa tendência de reduzir as mulheres a certos estereótipos limitantes (a “nerd feia”, a “gostosa popular”, a “loira burra”, e quantos mais se lembrar). Além da amizade secreta com a popular Aimee Gibbs (Aimee Lou Wood), tem uma relação casual com Jackson (Kedar Williams-Stirling), o rapaz mais popular do colégio, que está apaixonado por ela. *SPOILER ALERT*. O drama da gravidez na adolescência é um tema delicado, especialmente quando envolve a escolha pessoal de optar por interrompê-la. A escolha do aborto é retratada de modo direto, sem julgamentos morais e sem diminuir a complexidade do ato, com uma lucidez que merece reconhecimento.

Sororidade, aquela palavrinha que vira e mexe aparece por aí, e que já abordamos em outras colunas, marca grandes momentos na série. A “união entre mulheres”, como se define, ganhou contornos bem significativos na trama. Maeve e Allison, por exemplo, pertencentes a mundos completamente diferentes, não só compartilham confidências, mas respeitam a individualidade, fortalecem e incentivam uma a outra. Isso é fundamental para que as adolescentes vejam as diferenças por uma ótica mais celebrativa e inclusiva. Allison, que sempre se esforça em agradar os parceiros, busca ajuda com Otis para tentar descobrir o que de fato lhe agradaria sexualmente e a orientação que recebe é bem simples, mas um dos maiores tabus dos séculos –*SPOILER ALERT*: a masturbação feminina. A prática não só ajudou-a a conhecer seus prazeres e preferências, mas a si mesma, tornando-a mais segura em suas ações. Muitas mulheres não conhecem o próprio corpo (como Maeve, que não localizou o hímen no desenho educativo) e isso é parte de um sistema de violência de gênero educacional.

 

 

O ponto alto de como a sororidade pode ser revolucionária vem quando o vazamento de uma foto íntima de uma garota e a chantagem sexual gera um clima de tensão no colégio.  *SPOILER ALERT* O desfecho é uma mobilização coletiva para enfraquecer a ameaça masculina de revelar a identidade da garota da foto. “It’s my vagina!” (ou: a vagina é minha!) começa a ecoar no auditório, por todos os cantos. Não importava de fato quem fosse a vítima, se amiga ou não, conhecida ou não, o patriarcado jamais pode ameaçar e violentar uma mulher e sair impune, então, a vagina é de todas nós!

Há um pequeno espaço também para pensarmos as relações entre casais lésbicos. Se no mundo em que a heteronormatividade reina já não se discute tanto a sexualidade das mulheres nas relações heteroafetivas, a invisibilidade da lesbiandade é nítida. Um exemplo é como, durante as aulas de educação sexual (na série), os alunos são sempre ensinados a utilizar o preservativo masculino. Como encontrar prazer e segurança para se relacionar com outra mulher se crescemos em um mundo em que se condena tal ato? Outra personagem marcante é Ola (Patricia Allison), cuja personalidade forte a faz romper vários padrões de gênero, como convidar o Otis para o baile e usar terno e gravata, levar e buscar o pai no trabalho.

 

 

Ainda que o centro da série seja os adolescentes e seus dramas sexuais, Jean, a real terapeuta sexual, tem seus momentos de roubar a cena. Mãe liberal, com sexualidade livre e abertura para todo tipo de conversa, ela não deixa de ter uma relação confusa com o filho, assim como também tem suas próprias dificuldades e entraves com relacionamentos. A personagem, porém, tem uma aparição que deixa um gosto de quero mais. Sex Education ainda rende muito mais discussões e essa temporada terminou deixando o público ansioso para a continuação, ainda que não esteja confirmada. Se tomarmos os produtos culturais massivos como grandes formadores de opinião, podemos comemorar a popularidade dessa série, pois precisamos tratar a sexualidade com mais naturalidade e menos tabus.

 

 

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Maratone como uma Garota! – Sororidade e Profissionalismo em Suits

Suits poderia ser mais uma produção dramática cuja trama percorre tribunais e escritórios de advocacia, mas a série, que chegou à 8ª temporada em 2018, reserva personagens femininas complexas e intensas, que passam longe de meros acessórios na história e subvertem alguns estereótipos do gênero. Deixando de lado os Homens de Terno (tradução brasileira para Suits), a Maratone como uma Garota! vai abordar e a representação feminina, especialmente as relações entre mulheres, no ambiente profissional.

A série gira em torno de um escritório de advocacia corporativo de Manhattan. Até a temporada anterior, o enredo centrava-se em Harvey Specter (Gabriel Match), melhor advogado de NY, e Mike Ross (Patrick J. Adams), um rapaz com memória fotográfica que fingia ser advogado formado em Harvard. Com a saída de alguns atores do elenco, o protagonismo se dispersa e a história foca agora nas tensões e conciliações dentro da Zane Specter Litt.

 

 

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Apesar do protagonismo Specter-Ross, Suits já demarca, desde os primeiros episódios, que quem manda na coisa toda é Jessica Pearson (Gina Torres). Ela é basicamente a rainha suprema, talvez a personagem cuja construção mais evoluiu, sendo desde o início uma mulher firme, inteligente, chefe e advogada implacável e que preza por quem está ao seu lado, sempre atenta aos sentimentos dos outros. Some-se a tudo isso o fato de que além de mulher, ela é negra. E a questão racial recebe a devida atenção, de modo sutil (ao longo de momentos chaves), sem se tornar uma tecla constante, mas sem passar batido. Esse conjunto de atributos situam a personagem entre uma das melhores representações dos anos recentes. Superando o papel da mulher negra forte, Jessica, assim como Annalise Keating e Olivia Pope, são cheias de traços de personalidade e profissionais que subvertem a estrutura social e reivindicam seu lugar de direito.

Ao lado de Jéssica, Donna Paulsen é a mais querida da série. “Eu sou Donna” é o seu “Eu sei de tudo”. De fato, Donna sabe tudo, já que é bastante sagaz, responsável e hábil para negociações. Inicialmente ocupando o cargo de secretária pessoal de Harvey Specter, a personagem sempre foi central no desenrolar dos casos. Donna e Harvey nutrem um sentimento intenso, mais que amizade, o que os torna o ship mais fofo da série, ainda que o casal nunca tenha ficado junto. Essa relação clichê chefe-secretária, muito estigmatizada em filmes e séries, é bem desenvolvida aqui, principalmente pela construção de Donna como o campo sensato e racional, além de uma mulher com valores e visão bastante feministas. A personagem cresce a partir desses valores e de uma boa dose de empoderamento – (ALERTA DE SPOILER) -, chegando ao cargo de COO (chefe de operações) por sua determinação e exigência.

 

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Donna é quase sempre o elo que preza pela união das personagens femininas ao longo das temporadas. Sua relação com Jessica Pearson é de mútuo respeito e confiança. Soma-se ao time das protagonistas Rachel Zane (Meghan, Duquesa de Sussex, a nova membro da família real britânica), filha de um dos principais advogados de NY, mas que decide traçar seu caminho por conta própria e por isso vai trabalhar na Pearson Hardman (nome inicial da firma). Rachel é insegura, porém decidida. A personagem não consegue entrar em Harvard, requisito para ser associada, mas por sua dedicação à firma, consegue que seja revogada essa exigência. A paixão por Mike sempre esteve central no desenvolvimento da personagem e parece que estamos um pouco sem paciência para mulheres apaixonadas, já que Rachel era uma das menos queridas pelo público. Ainda assim, o seu crescimento profissional, a maturidade e competência que desenvolve, merecem o reconhecimento, visto que mulheres jovens e belas nem sempre são respeitadas em tramas assim. 

Rachel e Donna logo se tornam melhores amigas. Donna esteve sempre impulsionando-a, afinal, uma sobe e leva a outra, né mesmo? No ambiente profissional, ambas se empenham em cuidar dos interesses da firma antes de tudo. Há um notável equilíbrio entre o afeto pessoal e profissional, o que torna a relação das duas admirável ao público. Jessica reconhece em Rachel seu potencial como advogada mas, mais que isso, reconhece a força e determinação da jovem, que, sendo mulher e negra, vai percorrer um caminho semelhante ao que ela (Jessica) teve de trilhar. Ou seja, a empatia entre ambas se fortalece e estreita sua relação. Rachel, que via em Jessica seu modelo e inspiração, sendo ela um dos motivos pelo qual quis estar no escritório, teve Jessica também como mentora.

 

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O conceito de sororidade recebe, entre Jessica e Rachel, contornos bastante sensíveis e muito admiráveis na série. A questão de gênero e raça ganham força, remetendo à importância da afetividade e irmandade entre mulheres negras em sua construção política e social. Além de Jessica, Donna e Rachel, que diversas vezes trabalham em conjunto, a série apresenta mais mulheres que não podem ser esquecidas. Katrina Bennet (Amanda Schull) é uma das advogadas associadas mais ferozes e determinadas. Katrina retorna a 8ª temporada como elenco principal. Estreita sua relação com Donna, quem também a impulsionou profissionalmente. Sheila Sazs (Rachael Harris) também torna-se elenco principal. Sheila, agora casada com Louis, opta por tornar-se mãe, algo que recusava veementemente nas temporadas anteriores, e afirma que a maternidade não deverá interferir nas suas aspirações profissionais e que seu desempenho jamais será inferior por ser mãe.

A saída de Rachel (devido ao casamento real de Meghan, agora não mais atriz) e Ross foi compensada, na última temporada, com a entrada de novos personagens e a volta de antigos. Samantha Wheeler (Katherine Heigl) é uma das novas protagonistas. Braço direito de Robert Zane, é uma das melhores advogadas de Nova York. Jovem, esperta e capaz de tudo para vencer, a personalidade de Samantha vai sendo reveladas aos poucos. A relação entre ela e Donna é um dos traços mais interessantes da 8ª temporada. Donna percebe que Samantha, que não é muito de amizades, talvez precise de alguém em quem confiar, pessoal e profissionalmente, de modo que consegue tornar-se íntima.

 

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Chimamanda Ngozi Adichie, no livro Sejamos Todas Feministas (no trecho incorporado na música Flawless, da Beyoncé), afirma que nós (as sociedades) costumamos criar as mulheres para competir umas com as outras, não por empregos ou realizações, o que a autora julga uma coisa boa, mas pela atenção dos homens. Qualquer mulher sabe que, desde crianças, somos incentivadas a competir por atributos físicos, a ver as outras mulheres como rivais, e não parceiras, a desconfiar e rivalizar com nossas companheiras. Ao contrário da  “brotheragem” masculina. Pois bem, Suits abre espaço para essa discussão com uma firmeza que não passa batida em meio aos processos jurídicos. Desde o início, suas personagens refletem que não estão ali para passar pano ao patriarcado e sabem muito bem que competição e rivalidade não devem cair nas armadilhas machistas.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Maratone como uma Garota: As Mulheres Poderosas e suas representações

Com o dia das eleições chegando, muito tem se discutido sobre as questões voltadas para temáticas sobre “representatividade” e “empoderamento”. Nada como relembrarmos, então, daquelas personagens que ressignificaram para nós o sentido de “mulheres empoderadas” (ou “mulheres poderosas”, já que o termo “empoderada” se popularizou mais recentemente).

Como normalmente elas são construídas nas séries? Quais traços de personalidade e estilo usuais? Por que, por exemplo, é comum pairar sobre elas o fantasma da superioridade ou dos relacionamentos fracassados? E melhor, por que é importante falar sobre como muitas delas roubam nossos corações e se tornam uma inspiração de vida? O Maratone como uma garota! do mês passado falou sobre o empowerment na série Good Girls. Seguindo o tema, hoje vamos trazer algumas personagens badass*¹ e discutir um pouco sobre a representação desses “arquétipos” em seriados populares.  

 

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Elas são advogadas, médicas, jornalistas, primeiras-damas, chefes de polícia, e, porque não, presidentes da maior potência do mundo. É impossível, claro, assumir que há um padrão definitivo, porém, alguns atributos e estratégias narrativas acabam sendo recorrentes. Representações ideais estão ainda bem distantes, dada a força do imaginário patriarcal nos produtos midiáticos, mas não se pode negar que mulheres com personalidades fortes, bem construídas e com papéis centrais nas tramas e, muitas protagonistas, têm aparecido com mais frequência, especialmente em trabalhos de profissionais incríveis, como Shonda Rhimes.

Comecemos pensando em como, quase sempre, elas são mulheres com um ar de superioridade e arrogância. Ok, é muito comum que muitas de nós acabe criando uma “capa de pedantismo” como estratégia para resistir à desvalorização no trabalho, aos desmerecimentos, assédios, e por aí vai. Porém, quando se trata de personagens para um grande público, reforçar esses estereótipos negativos pode ser perigoso, criando um senso geral de que, para ser respeitada, não se pode ser dócil, sorridente, amável, enfim. Tal fato cria, inclusive, uma tensão em torno da ideia de “feminilidade” (que nem é preciso explicar quão machista é).

 

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Tomemos como exemplo a Cat Grant (Calista Flockhart) , a chefe da Supergirl e toda poderosa de National City. Cat é, praticamente, a Miranda Priestly da DC Comics, implacável e temida. Inicialmente fria e arrogante, aos poucos a série vai revelando nuances de seu “lado humano”. O mesmo acontece com as rainhas dos tribunais da atualidade. Olivia Pope (Kerry Washington) e Annalise Keating (Viola Davis), protagonizaram o crossover do milênio. Ambas são temidas, andam sempre em ternos suntuosos e com imponência na voz. Entre entradas triunfais, cada qual à sua maneira, lidam com as pessoas ao redor de modo impositivo e autoritário.

Algo que não pode passar batido se refere aos traumas e dramas pessoais desses sujeitos. É raro encontrar uma mulher que não tenha uma família desestabilizada, relacionamentos fracassados, ou sofrido violências e traumas de infância. Mais uma vez, esse padrão carrega o perigo de utilizar situações drásticas como motores únicos para o sucesso e muitas vezes serve como justificativa para comportamentos ariscos, o vício em trabalho, entre outro. É o caso de violências sexuais. É comum que roteiristas (homens, especialmente) que se apropriem de um estupro para humanizar as personagens, ou colocá-las como mulheres frias e impiedosas.

 

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Jessica Jones (Krysten Ritter), super-heroína da Marvel, é antissocial e pessimista. O fato de ter sido vítima do vilão Killgrave é tomado em alguns momentos da série como justificativa para sua força e desejo de vingança. O mesmo acontece com Mellie Grant (Bellamy Young), de Scandal, a primeira dama amargurada e irritante passa a ser humanizada quando se revela um abuso sofrido. Meredith Grey (Ellen Popeo) já sofreu perdas dolorosas e inclusive ataque por um paciente. Não esqueçamos de Claire Underwood (Robin Wright), de House Of Cards, cuja popularidade exponencial com o público não decorre disso, mas ganhou um destaque político quando revelou nacionalmente ter sido vítima de um estupro, do qual decorreu um aborto. Ainda que não seja bem assim (no enredo), a série colocou em pauta questões complexas que não deu conta de trabalhar como merecia.

É óbvio que tais acontecimentos deixam marcas e que não é obrigatoriamente um problema que eles sejam parte da história de um personagem. Não se trata puramente de abominar a “vitimização”, mas o discurso torna-se perigoso quando se explora esses fatos com fins de estereotipar ou “motivar” as mulheres, explorando uma experiência traumática que atinge muitas mulheres reais.

 

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Como toda história tem dois lados, nem tudo está perdido. Ms. Pope e Ms. Keating têm muito mais em comum do que as aparências indicam, sendo reverenciadas pela audiência, que vibra ao som dos seus saltos. Olivia pode ter a Casa Branca aos seus pés em um estalo de dedos, já que é uma estrategista implacável e conhecedora do direito e da política como poucas. Annalise é decidida, segura e pronta para as batalhas. Se Claire Underwood chegou à presidência não foi somente pelas circunstâncias complicadas que os produtores da série enfrentaram (a expulsão de Kevin Spacey após os escândalos de abusos), mas porque a personagem sempre foi fundamental para a ascensão política do marido e sempre esteve decisiva nas ações do plot.

O fato de serem independentes, seguras, inteligentes e jamais abaixar a cabeça para homem algum são alguns pontos que ganham a simpatia de quem afirma sentir-se mais “empoderada” por elas. Talvez por vivemos rodeadas de estereótipos e expectativas que tendem a nos subjugar, forçando-nos a esconder todo o tempo as nossas potências, habilidades e impondo limites sobre nossos corpos, vemos nessas personagens não somente aquilo que queremos ser, mas também aquilo que, em algum lugar, já somos!

 
*¹ – Bad Ass é uma gíria estadunidense para “Fodonas”

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Maratone como uma garota: Sororidade e empoderamento em Good Girls

As meninas hoje podem ser tudo” – ecoa a abertura do episódio piloto de Good Girls, a nova comédia dramática da NBC, distribuída pela Netflix.

Criada e produzida por Jenna Bans, a série conta com uma história que envolve “cidadãos de bem” que se envolvem com drogas, armas e chefões do tráfico para levantar uma graninha em momentos de desespero. Este plot já nos é familiar, vide Breaking Bad. Mas, quando esse plano é levado a cabo por mães de família frustradas, com problemas financeiros, porém dispostas a tudo pelos filhos e por si mesmas, o resultado pode ser um enredo cheio de reviravoltas. Dentro deste contexto, Good Girls consegue apresentar um universo consistente, com personagens fortes e bem desenvolvidas. No Maratone como uma Garota de hoje, vamos falar sobre como o girl power e a sororidade* tornam a trama ainda mais cativante!

A história gira em torno de Beth Boland (Christina Hendricks), Annie Marks (Mae Whitman) e Ruby Hill (Retta), um trio de amigas que, com problemas pessoais, optam por um atalho não convencional a fim de coletar dinheiro para demandas emergenciais. O plano: um assalto ao mercado onde Annie trabalha. O que era para ser um episódio isolado acaba inserindo as personagens em uma sequência de acontecimentos perigosos, já que o dinheiro do cofre pertencia ao chefe do tráfico local, que vai buscar retaliação.

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Apesar de não ser completamente original, a premissa principal ganha aqui contornos interessantes, ao inserir e trabalhar os dramas pessoais de cada uma das protagonistas, tensionando questões femininas de forma crítica. Vários são os motivos para qualquer um grudar no sofá e devorar os dez episódios. A começar pela maneira como o piloto é bem construído. Mas, também pelo desenrolar dos twists inseridos no roteiro e as questões secundárias. Estes elementos garantem um ritmo que mantém o fôlego até o final. A proposta de dramédia acaba rendendo melhores momentos cômicos, enquanto certos pontos dramáticos, como assédio e estupro, por exemplo, carecem de aprofundamento. Vamos, porém, concentrar a atenção em um elemento essencial que diz respeito a como as questões de gênero são construídas no caminho traçado na temporada. 

O protagonismo feminino é o elemento mais evidente, porém a representatividade não se esgota aí. São todas mulheres e mães, mas as idades diferentes, as personalidades e experiências de vida bastante distintas conferem fluidez à narrativa. Beth é dona de casa, tem quatro filhos e acaba de descobrir que o marido, além de traí-la com sua secretária, uma caricata loira padrão mais jovem, gastou todo o dinheiro da hipoteca. Annie, irmã mais nova de Beth, é caixa do supermercado. Foi mãe ainda adolescente e briga pela guarda da sua filha de onze anos, Sadie, que não se encaixa nos padrões de gênero e se veste como menino, o que a torna vítima de bullying na escola. Já Ruby é mãe de dois filhos, negra, trabalha como garçonete e, junto ao marido que é estagiário na polícia, tenta pagar o tratamento da doença renal da filha mais velha.

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A decisão de assaltar o mercado parte não apenas das necessidades de cada uma, mas da comoção com os problemas das demais, principalmente, a doença da filha de Ruby. Esse é talvez o traço mais marcante da sororidade do trio, essa palavrinha especial que vem ganhando cada vez mais força. A união feminina aparece de forma bastante potente também (SPOILER ALERT!!!!!!!!!) quando Beth salva Annie, enquanto esta era estuprada pelo chefe Boomer (David Hornsby). Ela (Beth) não hesita em ameaçar e agredir o criminoso, afirmando que o NÃO de uma mulher deve ser respeitado. As três permanecem unidas no suceder dos acontecimentos e vão transformando-se nesse elo.

Discursos feministas são bastante recorrentes, sendo o tom de girl power bem explorado em muitos momentos. A filha de Ruby é uma ativista que sabe muito bem que as garotas podem tudo, como ela mesma afirma. O apoio de Annie à identidade de gênero da filha é um potente exemplo de empoderamento. Quem melhor encarna esse tom é Beth. Líder do grupo, ela é o estereótipo mais comum de dona de casa da classe média estadunidense: atraente, inteligente, membro da associação de pais do colégio e esposa prestativa. É ela quem desafia Rio (Manny Montana), o chefe do tráfico, e propõe o esquema de lavagem de dinheiro que conecta as amigas ao crime. É a personagem cuja transformação é a mais notável, principalmente o contorno que sua personalidade passa a assumir.

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A relação familiar é mote central de grande parte dos eventos, mas também convoca a reflexões sobre as mulheres na sociedade e ao que usualmente se espera do seu comportamento e escolhas, em especial, quando mães. Ao assumir o controle da economia do lar, Beth inverte a relação matrimonial que a oprimia. Annie representa as várias jovens que, sozinhas, tentam equilibrar a criação de um filho com o próprio crescimento. Em sua relação com Sadie, adolescente madura e responsável, ela encontra um suporte e companheirismo. Ruby vivencia diariamente o racismo, a angústia do sistema de saúde, e vê o casamento feliz e estável em risco ao envolver-se com o crime.

O desenvolvimento das personagens demonstra a intenção da direção em tentar brincar com os lugares de vilãs e mocinhas, em um debate moral, já que toda escolha transforma o ser humano, de alguma forma. Nota-se o cuidado com que a transição e transformação delas vai revelando nuances de suas personalidades e, por conseguinte, das mulheres reais. As “boas garotas” vão precisar lidar com as consequências das más escolhas na sequência, já confirmada para 2019.

O grande trunfo de Good Girls é, sem dúvida, a dinâmica do elenco, que conduz a trama com maestria. Muitos traços refletem a própria trajetória das atrizes. A interação entre elas é muito potente, especialmente na contra-cena, e garante o carisma do trio e humaniza a narrativa. O combo comédia com mulheres no crime garante uma boa maratona!

 


* Sororidade – do latim, soror -oris = irmã. Nome que se dá à união ou aliança entre as mulheres. É um conceito muito caro aos feminismos e está relacionado à empatia e companheirismo.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Maratone como uma garota: Let it bi, as minas bissexuais nas séries

por Letícia Moreira*

“Mas fulano não era gay/hetero?”

Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu essa frase!

 

A discussão voltada para o universo LGBTQI+ vem ganhando cada vez mais espaço na mídia. Na esteira das celebrações e militâncias, algo parece passar batido quase sempre que o assunto entra na roda: a invisibilidade dos sujeitos cuja sexualidade subverte a lógica binária monossexual, isto é, qualquer um que se sinta atraída/o por mais de um gênero, seja ao mesmo tempo, um de cada vez, ou com intensidades e intenções diferentes. “Bissexualidade” é o termo que se utiliza para designá-los e acaba servindo como guarda-chuva para incluir os pansexuais, fluidos, polissexuais, e algumas outras orientações.

A bissexualidade está quase sempre submetida a uma série de violências simbólicas, inclusive entre a própria comunidade LGBTQI+. A constante reprodução de estereótipos prejudiciais, como a rotulagem de “confusos”, e a recusa em reconhecê-los como membros da comunidade são exemplos ilustrativos. A isso dá-se o nome de “bifobia”. E como na cultura midiática a coisa não poderia ser diferente, essa estereotipação e invisibilidade acompanha a construção narrativa desses personagens.

Em filmes e séries, é bastante raro encontrar alguém bi que não seja tratado como um aventureiro curioso, um pervertido sedento ou alguém que se recusa a sair do armário. Mais raro ainda é que o personagem se assuma bi, afirmando de fato a sexualidade, vivendo feliz e tranquilo com isto.

Se tratando de personagens femininas, a questão das representações são ainda mais complexas, visto que recorrentemente a fetichização da bissexualidade está associada a uma função de deleite e prazer visual, especialmente para o imaginário masculino.

Para dar, então, visibilidade a esse grupo, dedico a estreia da coluna Maratone como uma Garota! ao tema. Selecionamos algumas personagens bissexuais das séries que amamos!

 

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PIPER CHAPMAN (Orange Is The New Black) – A personagem de Taylor Schilling é a protagonista da série, que volta na sexta temporada, próximo dia 27/07. Piper estava noiva de Larry Bloom (Jason Biggs). Quando entra para a cadeia, ela reencontra Alex Vause (Laura Prepon), um tórrido amor do passado e, ninguém mais ninguém menos, do que a pessoa que a colocou lá dentro. Primeiramente, ela é inspirada na verdadeira Piper (Kerman), que é uma mulher bissexual. Ok, a personagem pode ser bem chatinha às vezes e não é a favorita dos espectadores, mas a moça é claramente bissexual e já chegou a afirmar isso. Cabe a crítica de que a Piper se envolveu com a Alex apenas como uma aventura perigosa, mas ela não nega o amor que sente pela parceira, seja na prisão ou em liberdade. Aliás, nem só a Piper é bi/pan na série (temos a Soso, a Lorna Morello) mas ainda assim, o seriado nunca explicita essa identidade e parece às vezes reforçar que só se é lésbica ou hétero em Litchfield.

 

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STELLA GISBON (The Fall) – Aqui, vê-se mais uma protagonista bissexual! Stella (Gillian Anderson) é uma oficial da polícia britânica fod*na que está no comando da investigação de um serial killer em Belfast (Irlanda do Norte). Imponente, segura e com personalidade forte – em um ambiente majoritariamente masculino – ela é abertamente exploradora da sexualidade e já de início demonstra gostar de sexo casual com rapazes mais jovens. No correr da narrativa, desenvolve uma atração pela Dr. Reed Smith (Archie Panjabi), parceira de trabalho nas investigações. Esta química entre as duas não é algo desenvolvido na série (alerta Queerbating!!!), mas afirma a sexualidade de protagonista. Ficamos com gostinho de quero mais! (Preciso lembrar que a própria Gillian Anderson já declarou algumas vezes que é bissexual?)

 

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JOANNA BEAUCHAMP (Witches of East End) – Interpretada por Julia Ormond, Joanna é protagonista da série, que flopou tanto e foi cancelada. Mas ok, devemos reconhecer que foi interessante a inserção da bissexualidade na trama. Ela é uma bruxa imortal do mundo mágico de Asgard que vive na terra há alguns bons séculos. Nos dois episódio que contam com presença da personagem Alex (Michelle Hurd), descobrimos que as duas tiveram um romance de alguns anos no passado.

 

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KELLY (San Junipero/Black Mirror) – O episódio mais fofo de Black Mirror, e vencedor de dois Emmys, é estrelado por Mackenzie Davis (como Yorkie) e Gugu Mbatha-Raw (como Kelly). As duas se conhecem em San Junipero, uma vila na Califórnia, no ano de 1987, quando Kelly está tentando fugir de um ex-namorado. As duas se apaixonam depois de alguns encontros. San Junipero é uma cidade fantasia de um sistema de realidade simulada do ano de 2040, quando ambas já estão no fim da vida. Não importa como ou quando, o amor sempre transforma!

 

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EMALINE ADARIO (Everything Sucks) – Saudosista e ambientada nos anos 1990, Everything Sucks!, é protagonizada por adolescentes que acabaram de entrar no ensino médio, com seus dramas tipicamente adolescentes.Apesar da produção ter um conteúdo bacana, ela foi, infelizmente, cancelada. Na história, o público acompanha o desenvolvimento desta personagens, seus medos, lutas e conquistas. Contudo, nota-se que Emaline (Sydney Sweeney) é a personagem que mais se transforma. No início, ela é apresentada como uma atriz arrogante do teatro da escola, que é namorada do garoto popular. Ao decorrer da narrativa, ela se apaixona por Kate (Peyton Kennedy), que está em processo de se descobrir lésbica. A série tem seus furos de roteiro, e cabe a crítica de que a Emaline só se apaixona por uma menina depois de ter sido abandonada por um garoto. Mas, vale reconhecer que colocar a bissexualidade como uma existência possível, e em um momento de descobertas, foi bem significativo (e bem fofo!).

 

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XENA (Xena) – A heroína de infância que você respeita! Não é novidade para ninguém que muito mais que amigas, Xena (Lucy Lawless) e Gabrielle (Reneé O’Connor) compartilhavam um sentimento e uma ligação bem intensas – um casal implícito, em outras palavras. Uma, literalmente, morria pela outra. Já diziam as boas línguas que o romance só não era explícito devido aos costumes dos anos 1990. Tanto que quando um reboot da série quase foi aprovado pela NBC, ano passado (infelizmente o projeto morreu), foi anunciado que o romance seria mais explorado. De toda forma, a personagem era uma princesa guerreira e bissexual e é isso que importa por hoje!

 

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ANNELISE KEATING (How To Get Away With Murder) – A cereja do bolo fica no final, não é mesmo? Então temos aqui mais uma protagonista bissexual muito bem resolvida. Talvez a melhor representação bissexual em séries nos últimos anos, já que a temática é introduzida sem rodeios e sem justificativa/desculpa para nenhum outro evento. Annelise, a advogada e professora criminalista, negra e de origem humilde, é bastante segura com sua sexualidade e a expressa livremente. O romance com Eve Rothlo (Famke Janssen) foi bem intenso.

 

Nos campos de batalhas simbólicos, as representações nos meios de comunicação são super importantes para o reconhecimento das diversidades e das formas de ser e estar no mundo. Toda forma de amor é válida e o choro é livre!

 

E então, alguma personagem ficou de fora? Comente e compartilhe suas favoritas!

 

*Letícia Moreira é produtora de cinema, pesquisadora e crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

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