Crítica: montagem é a grande falha de Luis Miguel: A série

por Enoe Lopes Pontes

Produzida pela MGM e a Gato Grande e distribuída pela Netflix, Luis Miguel – a Série alcançou um sucesso tão grande no México, que até uma matéria sobre o entusiasmo de seu público saiu no El País. Contando a trajetória do cantor internacional que dá título para a história, a produção mescla drama familiar, com romance e uma pitada de mistério. Toda a trama se baseia nos sucessos e derrotas de Luis (Diego Boneta), através de idas e vindas em sua vida, entre sua pré-adolescência até o início de sua juventude. Com um início instigante, a lógica da narrativa não se sustenta, porque ela perde sua força quando abusa da questão temporal.

Um dos elementos que acabam faltando por conta disto é a progressão dramática. A vida do cantor parece ter sempre sido marcada pelas opressões de seu pai, o também cantor, Luisito Rey (Óscar Jaenada). Até a sua morte, em 1992, Luis Miguel precisou lidar com os ultrajes de seu progenitor que lhe causaram perdas e ganhos enormes em sua carreira e desastres em sua vida pessoal. Por isso, é possível que a dinâmica seja logo vista, mas a empatia demora a acontecer e algumas reações das personagens não parecem justificáveis, até que se avance nos episódios. A estratégia poderia funcionar, porém as emoções são jogadas aos montes, deixando o tom das cenas à cima por tempo demasiado.

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Outros fatores não tão agradáveis são a montagem e a continuidade. Talvez, esta seja a grande questão da produção. Se uma reorganização das cenas fosse realizada, em cada episódio, a progressão e conexão com a trama conseguiriam crescer. Além disso, os cortes fazem o ritmo da exibição ir caindo e a fluidez da narrativa ir se perdendo. Resta uma ideia de que tudo que está sendo mostrado na tela é redundante e monótono. Por fim, as sequências foram realizadas com tanta falta de zelo que é possível notar erros de prosseguimento tão fortes que a questão até virou piada na internet – principalmente no Twitter, claro.

Contudo, existe uma questão que tem a capacidade de instigar o público a querer continuar sua maratona! O fator motivante para terminar a temporada é o mistério em relação ao sumiço de Marcela, mãe do protagonista. Entre as derrapadas de Luis e seu pai, a grande questão que desperta curiosidade é como vão mostrar a busca da personagem principal por um reencontro com Marcela e a razão pela qual ela sumiu. Inclusive, a atriz que a interpreta, Anna Favella, consegue estabelecer uma boa dinâmica com os dois atores que interpretam o cantor em sua fase de adolescente (Izan Llunas e Luis de La Rosa). As relações de olhar e toque, devido ao medo que os dois têm de Luisito ou alguma conquista maior de Luis, são logo notadas. O gestual de Favella fica mais suave quando sua personagem está ao lado do filho, e o mesmo demonstra segurança e tranquilidade quando acontecem interações entre os dois.

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Luis Miguel: A Série consegue enlaçar o espectador até o final da temporada por possuir uma investigação curiosa, que pode ser considerada o ponto alto do seriado. Contudo, se diluísse mais as idas e vindas da trajetória de Luis e enxugasse os episódios de treze para oito, talvez conseguisse reunir os fatos mais necessários para a trama e ganhasse impulso e brilho que um cantor que despertou tantos fãs mundialmente merecia.

 

Terror em Série: American Horror Story – uma nova temporada, uma nova história

A nova temporada de American Horror Story começou na última quarta (12) e a expectativa de ver personagens de temporadas anteriores foi quebrada, com um episódio focado somente numa história nunca vista anteriormente. Não vimos nenhum sinal de Cordelia Fox ou Constance Landgdon. De qualquer maneira, calma (!), Fox, Landgdon e tantas outras irão, eventualmente, aparecer. Isso já se é sabido.

Talvez, o Ryan Murphy e sua equipe tenha achado melhor apresentar logo pessoas novas para que o espectador possa de alguma forma se conectar com eles, sem preferência das personagens antigas, que já ganharam o carinho do público. Na carona dessa estreia, resolvemos trazer um comentário de cada temporada por mês, até chegarmos na oitava. Na coluna anterior, abordamos o início do seriado e a força na qual ele já começa. (Para quem quiser conferir o texto do mês passado, clique aqui!

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A segunda temporada de American Horror Story chama-se Asylum e é considerada por muitos fãs e críticos como a melhor temporada de todas. Isso se deve ao fato da mesma possuir uma trama muito bem amarrada e personagens que têm mais complexidade, com menos maniqueísmos. Ainda que estas sejam muito más, vê-se a motivação de cada uma. Os episódios vão levando o espectador em uma jornada profunda, num universo do pós-guerra dentro de um manicômio. Vê-se nesta temporada, conflitos clássicos do terror, como uma parte da trama dedicada a possessão de um jovem. Depois que Mary Eunice (Lily Rabe) morre, um demônio entra em seu corpo. A escolha de planos da cena do exorcismo, evoca a memória dos fãs de horror e traz num quarto escuro enquadramentos abertos e zenitais (como vistos de cima para baixo), mostrando toda a geografia da cena.

A irmã Jude, madre superiora do manicômio, que abusa ao extremo de seu pequeno poder por ali, vê-se na cena do exorcismo sem forças para lutar. Na sequência, a atriz Jéssica Lange imprime em seu olhar o medo de estar ao lado, verdadeiramente, de um demônio. E a série joga mais uma vez com a noção dos monstros interiores e humanos. Os homens são os vilões dessa temporada e na cena do exorcismo é quase como se ambos quisessem aquele demônio presente, como se a força sobrenatural soubesse que há uma cumplicidade entre os seres masculinos. Por isso, escolhe o corpo de uma mulher inocente para habitar, de uma freira boa onde teria mais espaço para corromper.

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O manicômio onde se passa a temporada é não somente sombrio, mas, cinzento, com paredes grossas e gélidas que, combinadas com planos mais fechados e quase sempre com movimentos, trazem a sensação de clausura e instabilidade. Lana Winters, a protagonista de Asylum, é uma jornalista lésbica, que é internada no hospício somente por ser homossexual. Vê-se então uma perspectiva do terror não somente pelo sobrenatural mas, mais uma vez, pela capacidade do ser humano de fazer o mal, de torturar psicológica e fisicamente. Winters se torna alvo de experimentos, castigos, como se houvesse nela vilania e é quem em ela mais confia que se mostra seu maior algoz.

Asylum possui uma mistura de linguagens consagradas pelo horror. Diferentemente de Murder House, onde se vê uma construção de linguagem única, na segunda temporada, vê-se uma união de alguns aspectos que são bem amarrados. Uma sucessão de conflitos que misturam filme de possessão, pegadas de Polanski em Bebê de Rosemary, de um universo desconhecido e escuro, onde a protagonista se torna espectadora de sua própria vida, a tortura física que lembra os filmes de Eli Roth (sendo que Roth atua na série e é justamente sua personagem que traz essa atmosfera).

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Há também o conflito com os nazistas e as cenas ficam com luzes mais artificiais, com uma direção de arte preocupada , que faz salas de experimento que são bem diferentes do resto do manicômio. Dr. Arthur, interpretado por James Cromwell, é um médico nazista disfarçado e em sua sala de cirurgia faz os experimentos mais variados com os pacientes do manicômio. Com poucos cortes, suas cenas têm uma amplitude do sentimento de medo, deixando os planos parados e abertos instalarem um sentimento de repulsa bem característico do horror. Esse sentimento reforça uma ambientação terrorífica, deixando claro que os fatos da trama estão mais perto da realidade do que se imagina.

Asylum possui uma competência em sua decupagem, mostrando um jogo de luz entre o que se vê e o que fica nas sombras, brincando com a imaginação do espectador. É uma temporada que utiliza de maneira ainda mais eficaz a linguagem do gênero para evidenciar o horror do cotidiano e das fronteiras das relações sociais que, quando ultrapassadas podem revelar um ser mais demoníaco do que qualquer entidade, o próprio ser humano.

 

 

*Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

 

Na trilha da série: A música em Grey’s Anatomy

A música é um elemento fundamental para a realização de qualquer produto audiovisual, podendo assumir funções variadas, como a transmissão de informações e emoções. Por conta disso, inauguramos hoje, no Série a Sério, a nova coluna Na trilha da série, onde falaremos sobre os diferentes usos desse recurso em produtos televisivos!!!*

Alguns seriados não são musicais e ainda assim utilizam a música de forma diferenciada: é o caso de Grey’s Anatomy (ABC, 2005–atualmente). Se encaminhando para a 15ª temporada, que estreia ainda no mês de setembro, nos EUA, este drama médico é criado pela célebre showrunner Shonda Rhimes. Seguindo a tradição de clássicos da televisão estadunidense – como E.R. (no Brasil conhecido como Plantão Médico, NBC, 1994-2009) – a produção traz as histórias de vida de profissionais de saúde intercaladas a casos médicos.

 

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Além de ter realizado um episódio plenamente musical em sua sétima temporada – que retomaremos em outra edição da coluna –, Grey’s traz como característica marcante o uso de nomes de canções para intitular seus episódios. A partir daí, os títulos dessas músicas podem indicar a ideia geral do episódio, a canção pode ser executada em momentos-chave da trama, ou a sua letra pode estar ligada ao desenvolvimento narrativo de cada exibição, por exemplo.

É importante dizer que as referências musicais estão nos títulos originais dos episódios, em inglês. Na tradução para o português, são realizadas interpretações livres. Daremos alguns exemplos em seguida (SPOILER ALERT! Fugimos de indicações diretas, porém explanamos alguns desenvolvimentos de personagens nos exemplos escolhidos).

 

 

1×01:

Vamos começar pelo piloto da série. Intitulado “A Hard Day’s Night”, referência à canção dos Beatles, o episódio lida com o primeiro dia de trabalho de um grupo de internos – incluindo a protagonista, Meredith Grey (Ellen Pompeo) – no hospital Seattle Grace. Seu primeiro turno tem a duração de 48 horas, nas quais eles devem trabalhar e atender às mais diversas demandas do local. Sendo assim, a canção evocada pelo título pretende fazer alusão ao que acontecerá durante o enredo do 1×01: uma jornada intensa, “uma noite de um dia duro” (tradução livre do título da música). A letra da canção se relaciona parcialmente com essa intenção, pois o eu-lírico afirma ter trabalhado como um cachorro, diz que deveria estar dormindo e anseia pelo reencontro com a pessoa que o espera em casa. No caso dos internos de Grey’s Anatomy, fica claro, no entanto, que o fator marcante em suas vidas é o labor intenso, que inclusive é um complicador para seus relacionamentos pessoais.

 

12×11:

Como o nome do episódio e seu teaser são anunciados antes da estreia, ter determinadas canções como título também ajuda a criar expectativa no público. Por exemplo, ao ver o anúncio de “Unbreak my heart”, o espectador que conhece a canção melodramática interpretada por Toni Braxton não tem como esperar que a trama se desenrole sem situações de muita tensão. Além disso, pode inferir que o desenvolvimento narrativo do episódio traga algo relativo a um relacionamento amoroso, como o tema da canção. Nesse caso, a suposição estaria certa: o episódio 12×11 traz a resolução do casamento turbulento de April Kepner e Jackson Avery, através do seu divórcio. Por ser um momento difícil, pensar em “desquebrar” um coração, como a canção sugere, é uma relação direta à dor da separação e ao estado mental desses personagens.

 

9×01:

Outras vezes a escolha da música pode ser contraditória ao sentimento do episódio. É o caso de “Going going gone”. A canção, de Maddi Poppe, traz uma melodia dançante e o ponto de vista de alguém que não conseguia agir por medo, mas decide acabar com esse comportamento. No entanto, ela foi escolhida como título do episódio inicial da nona temporada de Grey’s Anatomy, que traz os momentos posteriores a uma grande tragédia: uma queda de avião envolvendo médicos da equipe do hospital. Nesse episódio, um dos médicos mais carismáticos da série vem a óbito por consequência de seus ferimentos. Sendo assim, o sentimento da música é contraditório, porém seu título “Going, going, gone”, que pode ser traduzido livremente como “indo, indo, foi”, não. Contrariamente à libertação do eu-lírico da música, o título pode ser interpretado de outra maneira ao ser relacionado com a trajetória desse personagem, que acaba morrendo mesmo após ter resistido e conseguido ser resgatado do acidente ainda com vida.

Há muitos outros exemplos nos mais de trezentos episódios já exibidos dessa série – já clássica – de drama médico estadunidense. E vocês, identificam alguma relação entre música e episódio que gostariam de destacar em Grey’s Anatomy? Comentem e até a próxima!

 

*Hanna Nolasco é jornalista, cantora, pesquisadora e mestre em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia. A música é seu foco de estudo e algo que está ligado ao seu cotidiano também como um prazer!

Especial: Séries que tratam sobre militância

Por Enoe Lopes Pontes

Assistir seriados pode ser um momento de relaxamento, de desligar-se do mundo e curtir aquela maratona divertida. Mas, o lazer também tem a possibilidade de chegar com reflexões e pautas relevantes para a sociedade. Enquanto o espectador consome uma produção bacana, que prende a atenção, a representatividade e a luta das chamadas minorias sociais acrescentam qualidade ao seriado.

Pensando nisso, o Série a Sério traz agora uma lista com séries que tratam sobre militância de diversas formas. Aqui, a busca foi enumerar obras que abordam temas mais variados possíveis, que possuem um discurso coerente e que conseguem debater  questões importantes para serem fomentadas, trazendo soluções.

Lembrando que a ideia da lista veio de um sorteio com sugestões de nossos leitores pelo o instagram do site (@serie_a_serio). O público pode interagir e mandar dicas para a página sempre que desejar. Mas, por enquanto, fique ligadinho neste top 5, feito para você que curte estar engajado e informado!

 

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5 – Sense8 (2015-2018): Oito pessoas, espalhadas pelo mundo, estão conectadas entre si e conseguem viver situações e sentimentos iguais, ao mesmo tempo. Localizados em regiões distintas, a representatividade dentro do seriado começa pelas diferentes etnias do grupo. Contudo, o ponto alto de reflexão da série vem da personagem Nomi Marks (Jamie Clayton), uma garota transgênero que precisa lutar contra a família que não aceita a sua identidade. Além de ser trans, Nomi é lésbica, o que deixa ainda mais tensa a sua relação com os parentes. Mas, Sense8 tem outras questões relevantes como: a homossexualidade do ator famoso Lito (Miguel Silvestre), as dificuldades sociais e financeiras de Capheus (Aml Ameen) e o girl power de Sun (Bae Doona). Apesar de muitas pautas necessárias e uma premissa instigante, a produção ficou muito custosa e foi cancelada em 2018. Ainda assim, vale a pena conferi-la.

 

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4 –  The Fosters (2013-2018): Produzida por Jennifer Lopez e exibida pelo canal Freeform, a série conta jornada de uma família estadunidense não tão convencional. Duas mulheres são casadas e possuem três filhos. O garoto mais velho é fruto do primeiro matrimônio de Stef (Teri Polo). Já os gêmeos Jesus (Noah Centineo) e Mariana (Cierra Ramirez) são adotivos e de origem latina. De repente, Stef e Lena (Sherri Saum) precisam acolher mais duas crianças temporariamente: Callie (Maia Mitchell) e Jude (Hayden Byerly). Dentro deste contexto, é impressionante como o seriado tem a capacidade abarcar múltiplas discussões fortes e importantes da sociedade, em um tom cotidiano. Eles conseguem criar empatia, aproximando o espectador com a realidade daquelas personagens, trazendo isto em uma mãe muito rígida ou uma adolescente rebelde, por exemplo. Assim, assuntos como a descoberta da homossexualidade na adolescência, drogas, alcoolismo, racismo, lesbofobia, estupro, assédio sexual e moral são inseridos em cada episódio. Em alguns momentos, a exposição dos problemas fica um tanto didático, porém os roteiristas equilibram isto colocando instantes de intimidade entre os Fosters.

 

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3 – Faking It (2014-2016): Produzida e exibida pela MTV, Faking it mostra a história de uma escola na qual todas as minorias sociais são populares. Por esta razão, duas melhores amigas fingem ser um casal para chamar a atenção do colégio. A partir disto, Amy (Rita Volk) começa a notar que tem sentimentos reais por Karma (Katie Stevens). Mas, a garota sofre muito porque sua crush gosta de um garoto, o Liam (Greg Sulkin). A partir desta premissa, o seriado foca, inicialmente, em discutir sobre a sexualidade. As duas garotas se questionam sobre gostar de meninos e meninas e existe sempre uma tensão no que tangem a bissexualidade e a homossexualidade, mostrando que as duas orientações existem e precisam ser discutidas. Contudo, a produção avança ainda mais quando traz o tema da intersexualidade. Uma das personagens descobre que é intersexo e a forma como a série trata todo o processo da jovem é delicada e esclarecedora. Por fim, outros assuntos são mencionados em vários episódios, como o racismo, a gordofobia, a mobilidade e a visibilidade de deficientes, a quebra de expectativa em relação aos muçulmanos, entre outras coisas que valem cada minuto gasto!

 

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2 – Dear White people (2017-): Adaptação do filme homônimo de 2014, a série é uma realização da Netflix. Mostrando o dia a dia de uma famosa universidade dos Estados Unidos, na qual a maioria dos estudantes é branca, a produção mostra os desafios que os alunos negros passam no campus. As tensões aumentam após uma festa na qual o tema era blackface. Obviamente, a sugestão foi feita por caucasianos que não possuiam sensibilidade e/ou conhecimento para barrar um ato tão racista. A partir disto, cada episódio trata da perspectiva de uma das personagens do seriado. Dear White People torna-se uma obra muito relevante por trazer pautas essenciais para a comunidade negra, inclusive aquelas que muita gente gosta de fingir que não existem. A autora deste top 5 reconhece que este não é seu lugar de fala, no entanto sabe também da profunda importância da discussão promovida por DWP e, por isso, recomenda que todos a assistam, urgentemente.

 

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1 – The Bold Type (2017-): Racismo, homofobia, empoderamento feminino, intolerância religiosa, relação com tecnologia… Esta série consegue abarcar quase todas as pautas pertinentes para a sociedade contemporânea. Além de provocar reflexão e debate sobre assuntos importantes, a melhor coisa de The Bold Type é o como ela faz isso. Ambientada dentro de uma revista de moda, na maior parte do tempo as personagens principais precisam lidar com a rotina estressante, mas gratificante de seus trabalhos. Exibida pela Freeform, a produção encaixa-se no gênero adolescente e é esse o seu ganho. De maneira leve e divertida, ela consegue sinalizar grandes problemas sofridos pelas pessoas. Questões que parecem bobas, como o julgamento de uma garota pelo o que ela veste, até algo forte como a homossexualidade de uma mulher muçulmana são os destaques de cada episódio, durante as duas temporadas já exibidas. Aqui, o espectador vai se encontrar de alguma maneira. E, apesar dela ser voltada para os teens, The Bold Type consegue dialogar com uma faixa etária ampla. Ainda que a história seja sobre Sutton (Meghann Fahy), Kat (Aishaa Dee) e Jane (Katie Stevens), jovens em ascensão, outras narrativas são colocadas como importantes para o desenvolvimento do enredo. Assim, se você é uma menina que sonha por direitos iguais, é a chefe atenciosa ou alguém que luta para uma flexibilidade maior na sua religião ou cultura, existe a possibilidade de se sentir representada. O seriado ocupa a primeira posição por conseguir imprimir todo o sufocamento das minorias sociais de forma clara e objetiva e trazer também possíveis soluções para os problemas que afligem tanto algumas parcelas da sociedade. Vejam!

Maratone como uma garota: Sororidade e empoderamento em Good Girls

As meninas hoje podem ser tudo” – ecoa a abertura do episódio piloto de Good Girls, a nova comédia dramática da NBC, distribuída pela Netflix.

Criada e produzida por Jenna Bans, a série conta com uma história que envolve “cidadãos de bem” que se envolvem com drogas, armas e chefões do tráfico para levantar uma graninha em momentos de desespero. Este plot já nos é familiar, vide Breaking Bad. Mas, quando esse plano é levado a cabo por mães de família frustradas, com problemas financeiros, porém dispostas a tudo pelos filhos e por si mesmas, o resultado pode ser um enredo cheio de reviravoltas. Dentro deste contexto, Good Girls consegue apresentar um universo consistente, com personagens fortes e bem desenvolvidas. No Maratone como uma Garota de hoje, vamos falar sobre como o girl power e a sororidade* tornam a trama ainda mais cativante!

A história gira em torno de Beth Boland (Christina Hendricks), Annie Marks (Mae Whitman) e Ruby Hill (Retta), um trio de amigas que, com problemas pessoais, optam por um atalho não convencional a fim de coletar dinheiro para demandas emergenciais. O plano: um assalto ao mercado onde Annie trabalha. O que era para ser um episódio isolado acaba inserindo as personagens em uma sequência de acontecimentos perigosos, já que o dinheiro do cofre pertencia ao chefe do tráfico local, que vai buscar retaliação.

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Apesar de não ser completamente original, a premissa principal ganha aqui contornos interessantes, ao inserir e trabalhar os dramas pessoais de cada uma das protagonistas, tensionando questões femininas de forma crítica. Vários são os motivos para qualquer um grudar no sofá e devorar os dez episódios. A começar pela maneira como o piloto é bem construído. Mas, também pelo desenrolar dos twists inseridos no roteiro e as questões secundárias. Estes elementos garantem um ritmo que mantém o fôlego até o final. A proposta de dramédia acaba rendendo melhores momentos cômicos, enquanto certos pontos dramáticos, como assédio e estupro, por exemplo, carecem de aprofundamento. Vamos, porém, concentrar a atenção em um elemento essencial que diz respeito a como as questões de gênero são construídas no caminho traçado na temporada. 

O protagonismo feminino é o elemento mais evidente, porém a representatividade não se esgota aí. São todas mulheres e mães, mas as idades diferentes, as personalidades e experiências de vida bastante distintas conferem fluidez à narrativa. Beth é dona de casa, tem quatro filhos e acaba de descobrir que o marido, além de traí-la com sua secretária, uma caricata loira padrão mais jovem, gastou todo o dinheiro da hipoteca. Annie, irmã mais nova de Beth, é caixa do supermercado. Foi mãe ainda adolescente e briga pela guarda da sua filha de onze anos, Sadie, que não se encaixa nos padrões de gênero e se veste como menino, o que a torna vítima de bullying na escola. Já Ruby é mãe de dois filhos, negra, trabalha como garçonete e, junto ao marido que é estagiário na polícia, tenta pagar o tratamento da doença renal da filha mais velha.

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A decisão de assaltar o mercado parte não apenas das necessidades de cada uma, mas da comoção com os problemas das demais, principalmente, a doença da filha de Ruby. Esse é talvez o traço mais marcante da sororidade do trio, essa palavrinha especial que vem ganhando cada vez mais força. A união feminina aparece de forma bastante potente também (SPOILER ALERT!!!!!!!!!) quando Beth salva Annie, enquanto esta era estuprada pelo chefe Boomer (David Hornsby). Ela (Beth) não hesita em ameaçar e agredir o criminoso, afirmando que o NÃO de uma mulher deve ser respeitado. As três permanecem unidas no suceder dos acontecimentos e vão transformando-se nesse elo.

Discursos feministas são bastante recorrentes, sendo o tom de girl power bem explorado em muitos momentos. A filha de Ruby é uma ativista que sabe muito bem que as garotas podem tudo, como ela mesma afirma. O apoio de Annie à identidade de gênero da filha é um potente exemplo de empoderamento. Quem melhor encarna esse tom é Beth. Líder do grupo, ela é o estereótipo mais comum de dona de casa da classe média estadunidense: atraente, inteligente, membro da associação de pais do colégio e esposa prestativa. É ela quem desafia Rio (Manny Montana), o chefe do tráfico, e propõe o esquema de lavagem de dinheiro que conecta as amigas ao crime. É a personagem cuja transformação é a mais notável, principalmente o contorno que sua personalidade passa a assumir.

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A relação familiar é mote central de grande parte dos eventos, mas também convoca a reflexões sobre as mulheres na sociedade e ao que usualmente se espera do seu comportamento e escolhas, em especial, quando mães. Ao assumir o controle da economia do lar, Beth inverte a relação matrimonial que a oprimia. Annie representa as várias jovens que, sozinhas, tentam equilibrar a criação de um filho com o próprio crescimento. Em sua relação com Sadie, adolescente madura e responsável, ela encontra um suporte e companheirismo. Ruby vivencia diariamente o racismo, a angústia do sistema de saúde, e vê o casamento feliz e estável em risco ao envolver-se com o crime.

O desenvolvimento das personagens demonstra a intenção da direção em tentar brincar com os lugares de vilãs e mocinhas, em um debate moral, já que toda escolha transforma o ser humano, de alguma forma. Nota-se o cuidado com que a transição e transformação delas vai revelando nuances de suas personalidades e, por conseguinte, das mulheres reais. As “boas garotas” vão precisar lidar com as consequências das más escolhas na sequência, já confirmada para 2019.

O grande trunfo de Good Girls é, sem dúvida, a dinâmica do elenco, que conduz a trama com maestria. Muitos traços refletem a própria trajetória das atrizes. A interação entre elas é muito potente, especialmente na contra-cena, e garante o carisma do trio e humaniza a narrativa. O combo comédia com mulheres no crime garante uma boa maratona!

 


* Sororidade – do latim, soror -oris = irmã. Nome que se dá à união ou aliança entre as mulheres. É um conceito muito caro aos feminismos e está relacionado à empatia e companheirismo.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Terror em Série: American Horror Story e suas mil facetas

 

por Hilda Lopes Pontes*

Em setembro, o público recebe a oitava temporada da celebrada e aclamada série de terror American Horror Story. Criada por Ryan Murphy, o seriado possui uma história diferente por ano, com assuntos variados, sem desfazer o clima de mistério, suspense, medo e sustos. Desta forma, o espectador sempre conhece novas personagens e vê na tela alguns atores que estão presentes em toda ou quase todas as temporadas, como numa trupe de teatro ou algo parecido. Muda-se o cenário, a narrativa, os conflitos, mas o elenco quase não muda.

Apesar de cada tema possuir um enredo isolado, em alguns momentos foi possível encontrar papéis repetidos, dentro de novos contextos. Um exemplo foi Lana Winters. Originalmente, uma participante da segunda season, ela reaparece na sexta, assim como Billie Dean, quem veio da primeira e retorna na quinta. Ambas são interpretadas pela atriz Sarah Paulson.

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Apesar de já ter realizado crossover** entre as temporadas, este ano Murphy e sua equipe prometem algo muito mais entrelaçado, trazendo de volta uma quantidade maior de personagens e conflitos que já apareceram previamente. Sabe-se até agora que a questão deixada em aberto no fim da primeira vira à tona e também que as bruxas da terceira estarão presentes em algum momento. Já que a nova etapa do seriado trará papéis e fatos anteriores, decidimos fazer um recap dos anos anteriores de American Horror Story e analisar os elementos de terror e narrativa que mudam a cada história.

Murder House é o título da primeira temporada e mostra uma família que está tentando se reconstruir depois de passar por um momento conturbado no qual a protagonista, Vivien, acabara de perder um filho. Além disso, seu marido, Ben, tinha terminado recentemente seu caso extraconjugal. Nesse cenário, os dois e sua filha compram, por um preço módico, uma casa grande e bonita, em Los Angeles.

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Vê-se então delinear-se uma histórica bem típica do imaginário que passou desde o gótico, da mansão que abriga espíritos malignos que assombram aqueles que conseguiram uma boa propriedade tão barata e sem nenhuma competição por ela. Nos primeiros episódios, Murder House traz muitos establishing shots*** da casa do lado de fora, investindo na ambientação externa e interna desse local amaldiçoado.

Faz-se uma certa pressão de que é na casa que estão os maiores problemas que a família vai enfrentar. A angulação contribui para a construção deste imaginário sobre a residência. Os planos, ora filmados com lente grande angular, de baixo para cima (contra plongée) ou com câmera aberta, emulam um point of view, como se os protagonistas estivessem sendo constantemente vigiados. Esta estratégia, passa a sensação de que existe uma acentuação das deformidades nas personalidades dos novos moradores deste lar, que estão crescendo justamente pela presença deles neste lugar, deixando uma aura de mau presságio. A questão é que essa apresentação do local e das personagens se delonga e os primeiros episódios terminam se arrastando um pouco.

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A atmosfera da temporada é delineada rapidamente, contudo, a série parece não perceber e se estende em momentos de suspense repetitivos, com os mesmos planos já citados e com as mesmas conversas entre o casal protagonista sobre seus problemas conjugais. O seriado pode, inclusive, gerar algum desinteresse em quem assiste inicialmente porque parece que não vai muito longe, nem em termos de narrativa de horror (quem está na casa será assombrado até a morte), nem em termos estéticos.

Contudo, a medida em que os episódios vão se desenvolvendo, descobre-se que American Horror Story se apropria da linguagem do terror para construir personagens tridimensionais, que precisam lidar com questões existenciais e com a morte. O elemento sobrenatural entra na série para tratar de temas universais como problemas familiares, relacionamentos humanos e, principalmente, sobre a maternidade.

(SPOILER ALERT!!!!!!!)

A estranha gravidez de Vivien e o amor de mãe são pano de fundo para tratar a maneira como a gestão é um momento que pode ser muito sombrio e como a perspectiva maternal, de proteção de um bebê pode levar as pessoas ao extremo. A família se vê perturbada por fantasmas e seres misteriosos que querem para si uma criança que ainda inexiste socialmente. Não se sabe quem é ou será um dia essa criatura que ainda não veio ao mundo.

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E o desfecho da temporada prova justamente que aquela vida pela qual uma família inteira trocou a sua é uma criatura sobrenatural. Mais uma vez, a apropriação do universo já explorado pelo terror é usada na série. O bebê nada mais é que um ser misterioso, com habilidades sinistras e sua história irá se desenvolver no oitavo ano de American Horror Story.

A narrativa se amarra para dentro e deixa links para sete anos depois retornar. Ainda que com certas “barrigas” e uma demora no desenvolvimento da história, a primeira temporada do seriado traz personagens complexas, ainda que coadjuvantes e estabelece uma mitologia cuidadosa que aparece em outras temporadas e que agora parece que terá seu desfecho.

 

*Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

**Crossover: quando personagens, universos e/contextos de narrativas ficcionais distintas se encontram. Exemplo: Annalise Keating (Viola Davis) da série How to get away with murder estar presente em um episódio de Scandal.

***Estabalishing shot: plano que ambientaliza o espectador, mostrando o cenário em sua totalidade. A câmera fica distanciada do objeto.

Série em Pauta: Entrevista com a roteirista Amanda Aouad

Por Enoe Lopes Pontes*

Desde abril deste ano, está no ar a série baiana Tori, a detetive. Concebida por Maria Luiza Barros e Ducca Rios, a animação é exibida pelo canal ZooMoo diariamente, às 11h15 e 17h45. A produção narra o cotidiano de uma cachorrinha que adora investigar casos e desvendar mistérios, junto com seus amigos da vizinhança.

Dentro do processo de criação do desenho está a roteirista, pesquisadora, professora e crítica de cinema Amanda Aouad, que juntamente com Barros e Rios, deu vida ao universo de Tori. Tudo começou em 2015, quando Aouad foi convidada para participar do Núcleo Criativo Anima Bahia.O grupo é sócio da Origem Produtora de Conteúdo, empresa dos criadores do seriado.

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Durante a escrita dos episódios, a autora possuía contato direto com Ducca Rios. Os dois tinham em sua dinâmica o hábito de cada um fazer a metade do roteiro e depois trocarem para que pudessem contribuir um com o outro. “Escrevi parte dos roteiros. Como foi o primeiro projeto do núcleo que desenvolvemos, era só eu e Ducca, além da consultora Flávia Lins.”.

Após Tori, a detetive, Amanda Aouad continua seguindo com novos projetos. Em andamento, ela possui duas séries em fases distintas de produção. Sobre Todas as Coisas, material desenvolvido pela TV Show, já está com o texto completo e a equipe segue buscando capitalização para rodá-la. A Guardiã é um curta-metragem que será transformado em seriado, em breve, assim que os envolvidos também consigam recursos financeiros para realizar tal intento. “Essa é a vida de roteirista independente!”, brinca.

 

Em entrevista para o Série a Sério, Aouad contou com mais detalhes a sua participação em Tori, a detetive e como funciona o seu trabalho, Confira!

 

ENTREVISTA

Enoe Lopes Pontes – Amanda, me conta um pouco como foi que funcionou sua participação na série?

Amanda Aouad – Eu participei como roteirista da série. Escrevi a primeira versão de alguns roteiros e a segunda versão de outros. Foi um trabalho em conjunto com Ducca Rios.

 

ELP – Como funcionou o seu processo de criação?

AA – A série foi criada por Ducca e Luiza. Já tinha um argumento geral, pré-sinopses e o piloto, mas eu entrei no início do desenvolvimento, participei de toda a dinâmica da sala de roteiro, construindo o arco da temporada, o aprofundamento das personagens e a estrutura dos episódios.

 

ELP – Quais são suas principais etapas de trabalho no processo de escrita?

AA – A etapa inicial da ideia ou motivação do projeto varia muito. Mas, tirando isso, primeiro vem o desenvolvimento do projeto em si, o argumento, arco da temporada, aprofundamento do perfil das personagens. Em animação, temos uma vantagem em relação ao live action que é a etapa do animatic, pois podemos ver no rascunho da animação o ritmo, timing e repensar algumas questões do roteiro.

 

ELP – Em quais campos de atuação você trabalha, quando o assunto é roteiro?

AA – Faço um pouco de tudo. Escrevo, faço consultoria, ensino, estudo e analiso. Estou terminando o doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas estudando a construção dramatúrgica em séries publicitárias. Eu faço parte do grupo de pesquisa A-Tevê que analisa produtos seriados televisivos e onde surgiu o projeto de extensão Estação do Drama, que visa a formação de roteiristas. Sou professora de audiovisual na Uniceusa e de roteiro no Estação, onde também fiz parte da coordenação da Usina do Drama, sendo uma das tutoras dos projetos. Faço ainda consultoria de roteiros, atualmente estou como consultora de um projeto de série que passou no último Prodav 5, já fiz consultoria para alguns curtas também, além dos projetos da Usina do Drama 2017. Sou também crítica de cinema, editora do site CinePipocaCult e colunista da Revista CineMagazine. E roteirista freelancer. Participo do Núcleo Anima Bahia que está em sua segunda etapa com outros cinco projetos, mas também desenvolvo projetos próprios e em parcerias com outros roteiristas / produtoras. Participei do Núcleo Criativo TV Show (da DPE Produções), coordenado por Doc Comparato, com uma série original de ficção live action e tenho desenvolvido diversos projetos próprios em parceria com Ari Cabral, meu sócio na Sete Produtora de Conteúdo.

 

ELP – Quais seus principais trabalhos como roteirista?

AA – Atualmente, acredito que sejam as séries desenvolvidas no Anima Bahia, por estarem em canais de destaque e com alguma repercussão. Tori, a Detetive, que motivou essa entrevista e está no canal ZooMoo, mas tem também Turma da Harmonia exibida na Disney Júnior, Fábulas de Bulccan no ZooMoo e Play Kids. Além disso tem Bill, o Touro na TVE-BA e A Guardiã, um projeto próprio, em parceria com Ari Cabral que já teve o roteiro de um longa-metragem desenvolvido a partir de um edital estadual e agora estamos terminando a produção de um curta.

 

ELP – Existe algum gênero mais desafiante de roteirizar?

AA – Todos têm seus desafios próprios. Acho que o maior desafio é sempre o formato, criar algo que tenha esse frescor de novidade, ainda que o público precise identificar algo conhecido para se conectar. Nesse ponto, projetos na linha do factual são os mais complexos porque sempre correm o risco de cair no velho formato de documentário televisivo.  Mas todo novo projeto é um novo desafio.

 

*Créditos da foto principal: Gabrielle Guido

 

https://www.youtube.com/watch?v=snXxxPTNdLM

Orange is the New Black retorna em uma temporada burocrática e sem ritmo

por Enoe Lopes Pontes

Após cinco anos na prisão de segurança mínima de Litchfield, as detentas da série Orange is the New Black são levadas para o encarceramento na máxima. Com um cliffhanger tenso e desesperador, o seriado volta trazendo as respostas sobre os destinos de cada personagem presente no último plano do quinto ano. Contudo, a produção não entrega tudo de vez e vai desenvolvendo o enredo, entregando aos poucos os acontecimentos.

Mesclado aos dramas das presidiárias que o público já conhece, outro plot é introduzido. Desta forma, enquanto o espectador vai descobrindo os encaminhamentos das personagens já populares,  a narrativa recebe novos conflitos. O cruzamento destes novos problemas, juntamente com o desfecho da temporada, são elementos bem realizados e amarrados. Este fator mostra que há uma escolha consciente dos autores em utilizar novas tensões para trazer complexidade a narrativa e as vidas das personas vistas na tela e que a conclusão moverá as moças ainda mais para frente. A história não fica estagnada. Dividas em blocos B, C e D, a prisão possui gangues que se odeiam. A maneira como as relações se estabelecem neste contexto é o ponto alto da temporada. Afiliações, pactos, mentiras,esquemas e corrupções – traços clássicos da situações presentes em Orange – estão fervendo neste contexto.

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No entanto, ainda que a estratégia de colocar duas líderes das gangues da ala C e D brigando para dominar o local contribua para alavancar a trajetória das personagens principais, a própria história das bandidas e suas aliadas é pouco explorada. Durante os 13 novos episódios de Orange, alguns flashbacks são destinados a mostrar a vida pregressa das irmãs Carol (Henny Russel) e Barbara (Mackenzie Phillips) e de suas aliadas dentro de Litchfield – respectivamente – “Badison” (Amanda Fuller) e “Daddy” (Vicci Martinez). Contudo, eles não são necessários para o andamento da trama. Os traços de personalidade e caráter delas já estavam sendo mostrados nos acontecimentos do presente. Assim, resta uma sensação de filler ou desperdício de tempo, pois os roteiristas poderiam focar mais nas detentas firmadas na produção ou, pelo menos, mostrar apenas o que era preciso para o eneredo.

Em termos de atuação, o nível permanece o mesmo das temporadas anteriores, porém existe um destaque neste sexto ano. Danielle Brooks que interpreta a Tasha “Taystee” Jefferson traz as emoções da jovem com poucos movimentos, com olhares firmes e a voz que varia entre firme e embargada. As certezas e dúvidas de Taystee são postas em seu corpo que demonstra cansaço, mas sem perder a tonicidade. Os traços corpóreos de sua construção podem ser notados mais ainda quando comparados com seus flashbacks, no qual se vê uma Tasha confiante, alegre e esperançosa. Obviamente, o seu plot ajuda a trazer performarces dramáticas e intensas, mas o que importa aqui é que a atriz segura o peso de cada cena e não deixa de criar uma dinâmica com seus colegas de cena. Isso faz com que seus momentos sejam os mais emocionantes.

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Dentro de toda a carga que a vida de Taystee tem, faltou um pouco de alívio cômico desta vez. Orange é conhecida por ser uma dramédia. Durante seus anos de exibição, o drama foi tornando-se cada vez mais forte, mas a presença das cenas leves eram muito importante para a construção das tensões futuras. Contudo, o tom trágico superou o de comédia e o espectador pode se sentir cansado ao assistir a série. Este elemento trágico em desequilíbrio com o cômico retira um pouco de ritmo do seriado, porque não esse jogo que existia da linha tênue entre o riso e o choro, entre o animado e melancólico desaparece no mar de eventos ruins.

Analisando a sexta temporada de Orange is the New Black é possível notar que foi um ano no qual as histórias das detentas “originais” foram mostradas, desenvolvidas e resolvidas e até mesmo algumas das novas presidiárias obtiveram um ciclo fechadinho. São episódios redondos e bem costurados, nos quais as perguntas são lançadas e posteriormente as respostas são dadas. No entanto, é um ano morno porque falta ritmo e equilíbrio para ela possa ser chamada de dramédia outra vez e não fique entediante. Além de deixar de lado os momentos catárticos que faziam toda diferença, quando as

Maratone como uma garota: Let it bi, as minas bissexuais nas séries

por Letícia Moreira*

“Mas fulano não era gay/hetero?”

Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu essa frase!

 

A discussão voltada para o universo LGBTQI+ vem ganhando cada vez mais espaço na mídia. Na esteira das celebrações e militâncias, algo parece passar batido quase sempre que o assunto entra na roda: a invisibilidade dos sujeitos cuja sexualidade subverte a lógica binária monossexual, isto é, qualquer um que se sinta atraída/o por mais de um gênero, seja ao mesmo tempo, um de cada vez, ou com intensidades e intenções diferentes. “Bissexualidade” é o termo que se utiliza para designá-los e acaba servindo como guarda-chuva para incluir os pansexuais, fluidos, polissexuais, e algumas outras orientações.

A bissexualidade está quase sempre submetida a uma série de violências simbólicas, inclusive entre a própria comunidade LGBTQI+. A constante reprodução de estereótipos prejudiciais, como a rotulagem de “confusos”, e a recusa em reconhecê-los como membros da comunidade são exemplos ilustrativos. A isso dá-se o nome de “bifobia”. E como na cultura midiática a coisa não poderia ser diferente, essa estereotipação e invisibilidade acompanha a construção narrativa desses personagens.

Em filmes e séries, é bastante raro encontrar alguém bi que não seja tratado como um aventureiro curioso, um pervertido sedento ou alguém que se recusa a sair do armário. Mais raro ainda é que o personagem se assuma bi, afirmando de fato a sexualidade, vivendo feliz e tranquilo com isto.

Se tratando de personagens femininas, a questão das representações são ainda mais complexas, visto que recorrentemente a fetichização da bissexualidade está associada a uma função de deleite e prazer visual, especialmente para o imaginário masculino.

Para dar, então, visibilidade a esse grupo, dedico a estreia da coluna Maratone como uma Garota! ao tema. Selecionamos algumas personagens bissexuais das séries que amamos!

 

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PIPER CHAPMAN (Orange Is The New Black) – A personagem de Taylor Schilling é a protagonista da série, que volta na sexta temporada, próximo dia 27/07. Piper estava noiva de Larry Bloom (Jason Biggs). Quando entra para a cadeia, ela reencontra Alex Vause (Laura Prepon), um tórrido amor do passado e, ninguém mais ninguém menos, do que a pessoa que a colocou lá dentro. Primeiramente, ela é inspirada na verdadeira Piper (Kerman), que é uma mulher bissexual. Ok, a personagem pode ser bem chatinha às vezes e não é a favorita dos espectadores, mas a moça é claramente bissexual e já chegou a afirmar isso. Cabe a crítica de que a Piper se envolveu com a Alex apenas como uma aventura perigosa, mas ela não nega o amor que sente pela parceira, seja na prisão ou em liberdade. Aliás, nem só a Piper é bi/pan na série (temos a Soso, a Lorna Morello) mas ainda assim, o seriado nunca explicita essa identidade e parece às vezes reforçar que só se é lésbica ou hétero em Litchfield.

 

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STELLA GISBON (The Fall) – Aqui, vê-se mais uma protagonista bissexual! Stella (Gillian Anderson) é uma oficial da polícia britânica fod*na que está no comando da investigação de um serial killer em Belfast (Irlanda do Norte). Imponente, segura e com personalidade forte – em um ambiente majoritariamente masculino – ela é abertamente exploradora da sexualidade e já de início demonstra gostar de sexo casual com rapazes mais jovens. No correr da narrativa, desenvolve uma atração pela Dr. Reed Smith (Archie Panjabi), parceira de trabalho nas investigações. Esta química entre as duas não é algo desenvolvido na série (alerta Queerbating!!!), mas afirma a sexualidade de protagonista. Ficamos com gostinho de quero mais! (Preciso lembrar que a própria Gillian Anderson já declarou algumas vezes que é bissexual?)

 

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JOANNA BEAUCHAMP (Witches of East End) – Interpretada por Julia Ormond, Joanna é protagonista da série, que flopou tanto e foi cancelada. Mas ok, devemos reconhecer que foi interessante a inserção da bissexualidade na trama. Ela é uma bruxa imortal do mundo mágico de Asgard que vive na terra há alguns bons séculos. Nos dois episódio que contam com presença da personagem Alex (Michelle Hurd), descobrimos que as duas tiveram um romance de alguns anos no passado.

 

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KELLY (San Junipero/Black Mirror) – O episódio mais fofo de Black Mirror, e vencedor de dois Emmys, é estrelado por Mackenzie Davis (como Yorkie) e Gugu Mbatha-Raw (como Kelly). As duas se conhecem em San Junipero, uma vila na Califórnia, no ano de 1987, quando Kelly está tentando fugir de um ex-namorado. As duas se apaixonam depois de alguns encontros. San Junipero é uma cidade fantasia de um sistema de realidade simulada do ano de 2040, quando ambas já estão no fim da vida. Não importa como ou quando, o amor sempre transforma!

 

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EMALINE ADARIO (Everything Sucks) – Saudosista e ambientada nos anos 1990, Everything Sucks!, é protagonizada por adolescentes que acabaram de entrar no ensino médio, com seus dramas tipicamente adolescentes.Apesar da produção ter um conteúdo bacana, ela foi, infelizmente, cancelada. Na história, o público acompanha o desenvolvimento desta personagens, seus medos, lutas e conquistas. Contudo, nota-se que Emaline (Sydney Sweeney) é a personagem que mais se transforma. No início, ela é apresentada como uma atriz arrogante do teatro da escola, que é namorada do garoto popular. Ao decorrer da narrativa, ela se apaixona por Kate (Peyton Kennedy), que está em processo de se descobrir lésbica. A série tem seus furos de roteiro, e cabe a crítica de que a Emaline só se apaixona por uma menina depois de ter sido abandonada por um garoto. Mas, vale reconhecer que colocar a bissexualidade como uma existência possível, e em um momento de descobertas, foi bem significativo (e bem fofo!).

 

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XENA (Xena) – A heroína de infância que você respeita! Não é novidade para ninguém que muito mais que amigas, Xena (Lucy Lawless) e Gabrielle (Reneé O’Connor) compartilhavam um sentimento e uma ligação bem intensas – um casal implícito, em outras palavras. Uma, literalmente, morria pela outra. Já diziam as boas línguas que o romance só não era explícito devido aos costumes dos anos 1990. Tanto que quando um reboot da série quase foi aprovado pela NBC, ano passado (infelizmente o projeto morreu), foi anunciado que o romance seria mais explorado. De toda forma, a personagem era uma princesa guerreira e bissexual e é isso que importa por hoje!

 

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ANNELISE KEATING (How To Get Away With Murder) – A cereja do bolo fica no final, não é mesmo? Então temos aqui mais uma protagonista bissexual muito bem resolvida. Talvez a melhor representação bissexual em séries nos últimos anos, já que a temática é introduzida sem rodeios e sem justificativa/desculpa para nenhum outro evento. Annelise, a advogada e professora criminalista, negra e de origem humilde, é bastante segura com sua sexualidade e a expressa livremente. O romance com Eve Rothlo (Famke Janssen) foi bem intenso.

 

Nos campos de batalhas simbólicos, as representações nos meios de comunicação são super importantes para o reconhecimento das diversidades e das formas de ser e estar no mundo. Toda forma de amor é válida e o choro é livre!

 

E então, alguma personagem ficou de fora? Comente e compartilhe suas favoritas!

 

*Letícia Moreira é produtora de cinema, pesquisadora e crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Terror em Série: Buffy, a mocinha além de seu tempo

por Hilda Lopes Pontes

Proveniente do filme homônimo, de 1992, Buffy, a caça-vampiros concluía a sua última temporada na televisão estadunidense há quinze anos. Após sete anos de exibição, ela se tornou uma das séries que mais moveu o público do mundo inteiro e ressignificou o pensamento não apenas sobre a ideia do que é ser uma caça vampiros, mas também a lógica da mulher protagonista, principalmente, em séries de televisão.

A produção se consolidou entre os jovens da década de 1990 trazendo uma lógica diferente do que se via anteriormente. O primeiro ponto notável é escolha da personalidade da personagem de Joss Whedon. Ele subverte a ideia da mocinha presente no gênero de horror, quando mostra que a, supostamente, frágil líder de torcida, pode ser muito mais do que isso. Ela pode saber lutar, amar seus amigos e ser inteligente e estrategista. Além disso, a jovem não é a primeira a morrer, como na maioria dos filmes de terror. Summers é popular, bonita e sem problemas aparentes para quem a olha de longe.

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Todos os casos que aconteceram no longa de 1992, trazem uma Buffy um pouco mais amarga e irônica por ter que se mudar de sua cidade e ir morar em Sunnydale,  um local totalmente novo e diferente. A garota precisa aprender a lidar com essa nova realidade e novos vampiros que surgem, cada vez mais fortes. Whedon queria trazer a ideia de que o colegial era o inferno, realizando com monstros materiais a metáfora sobre as dificuldades vividas pelos adolescentes, mostrando que, ainda com a vida povoada de demônios e vampiros, difícil mesmo era lidar com as inseguranças e transformações vividas no colégio.

A garota interpretada por Sarah Michelle Gellar, trouxe em seus conflitos e lutas, tanto físicas como éticas, amorosas e morais, um feminismo que não era visto até então. Ela se bastava, conseguia lidar com todos os obstáculos em seu caminho com habilidade e ainda salvava sempre seus amigos e todos da cidade. Para ela, ser badass não era complicado, o difícil era equilibrar suas atividades como caça-vampiros e, ao mesmo tempo, ter dilemas típicos de adolescente.

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Para além da quebra do estereótipo da mocinha do horror, a série também rompeu modelos do imaginário sobre vampiros. O visual, muitas vezes belo das criaturas, é equilibrado com feições demoníacas. Eles não são as duas coisas ao mesmo tempo; figuras carismáticas e atraentes, que se tornam assustadoras numa fração de segundos. Vale ressaltar que os vilões homens possuíam sempre uma ambição mal controlada e não conseguiam desvendar Buffy, ainda que ela sofresse com os mesmos. Já as vilãs eram sempre mais misteriosas, com razões bem construídas para fazer o mal, deixando a protagonista mais desestabilizada.

Foi em Buffy que também se inaugurou algo muito forte em relação aos ships. Existiam duas torcidas, deixando os fãs dividos entre dois vampiros que disputavam o coração da mocinha: Angel e Spike. O primeiro era conhecido por ter um bom coração, mas, cheio de conflitos por seus erros do passado, uma figura complexa, que fugia sempre com medo de voltar a ser o demônio que se tornou quando virou vampiro. Já Skipe, tem uma trajetória oposta à de Angel. Ele detesta Buffy e tem como sonho mata-la. Contudo, acontecimentos em seu caminho e muitas derrotas, vão tornando ele uma “pessoa” melhor.

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A noção do vampiro em Buffy é de um ser possuído por uma energia de um demônio, que retira da pessoa toda e qualquer bondade. Por isso, havia a divisão no fandom, pois quando Angel se tornava demônio amaldiçoado novamente, ele mostra um lado cruel e sem piedade. Contudo, Spike, ainda que embebido dessa energia maligna em seu corpo, conseguia ter sentimentos bons, ternos.

Essa dualidade dos homens na vida de Buffy termina deixando a garota sempre solitária e se sentindo confusa em relação ao amor, contudo, os interesses românticos influenciam de uma maneira correta na vida da heroína, não são um foco constante na narrativa. Os conflitos de relacionamento são, inclusive, usados como ponte para dramas maiores, envolvendo a segurança dos moradores de Sunnydale, por exemplo.

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Essa característica, reforça ainda mais que o interesse do seriado é contar a história de uma mulher guerreira, da escolhida para salvar o mundo, que tem problemas maiores do que somente pensar em garotos. A Buffy termina se tornando o exemplo de representatividade mais próxima do ideal, mostrando uma mulher que possui crises parecidas com a de qualquer adolescente, mas que podia lutar, ser forte , ser imbatível e que nenhum homem poderia vencê-la.

 

*Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

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