BR em Série: “Irmão do Jorel”, a animação original brasileira que é, literalmente, para toda a família.

Há quem diga que desenhos animados possuem um conteúdo infantil e bobo, voltado somente para crianças. Porém, a vasta e diversa produção e o público para filmes e séries animadas nos últimos tempos, tem mostrado o contrário. Um exemplo, é a série brasileira Irmão do Jorel, criada pelo quadrinista, apresentador, ator e roteirista Juliano Enrico e co-produzida pela Cartoon Network Brasil e a Copa Studio. Apesar das características ressaltantes sugerirem uma história mais infantilizada, seus personagens e enredos carregados de humor escrachado, dão profundidade à narrativa, atrelado as referências que constroem uma representatividade nacional que muito ainda falta aos desenhos infanto-juvenis.

 

A história do Brasil com animações seriadas para TV é recente. Mesmo com alguns sucessos no cinema, pode se afirmar que houve um crescimento grande de produções desse tipo a partir dos anos 2000, com a aprovação da lei 12.485/2011, conhecida como “Lei da TV Paga”  que estabeleceu um novo marco legal para a TV por assinatura no Brasil, garantindo a presença da produção audiovisual brasileira na maioria dos canais. Nesse período, a indústria da animação se desenvolveu bastante e uma das séries nacionais de maior destaque foi Peixonauta, que estreou no canal Discovery Kids em abril de 2009. O sucesso foi grande, contudo seu conteúdo é totalmente voltado para o público infantil (ou melhor, pré-escolar). No mesmo ano, o canal pago Cartoon Network, tradicional canal americano de animação comprou os direitos para produzir a série. Em 2014, estreou Irmão do Jorel que indicava como como faixa etária crianças entre 7 e 11 anos de idade mas, que conquistou um público muito mais amplo. O desenho original da série é o primeiro do canal na América Latina, ficando conhecido e sendo transmitido inclusive fora do Brasil. E em julho de 2018, estreou sua terceira temporada com mais 26 episódios que foram exibidos às segundas-feiras às 19:15 no Cartoon Network.

 

A família do irmão do Jorel, os personagens principais da série. Parodiando outra série brasileira “uma família muito unida, mas também muito ouriçada”

Aparentemente a narrativa é simplória: um menino de 8 anos que está crescendo e aprendendo a amadurecer. No entanto, é nessa simplicidade e generalidade que fica seu maior triunfo. Um protagonista tão comum que ninguém sabe seu nome, sendo conhecido somente através de seu irmão perfeito Jorel; uma família típica e tradicional; conflitos universais; aliado a uma representatividade nostálgica da infância, e mais ainda, de elementos da cultura brasileira, torna a séria atrativa para quem curte esse gênero de comédias leves. Em cada episódio nos deparamos com os conflitos vividos pelo protagonista. Tensões reais, aventuradas por uma criança fantasiosa, que a partir das relações com os outros personagens e com o ambiente em que vive, vai construindo uma narrativa engraçada e reflexiva que faz o público se apaixonar, mesmo com um toque escrachado e muitas vezes grotescos.

 

Personagens cativantes, numa narrativa sobre crescer numa família tipicamente brasileira.

 

É fato que uma boa série normalmente traz personagens interessantes e bem construídos e fazem o público se identificar com eles e com seus arcos dramáticos, mesmo que eles sejam vilões ou controversos. O desenho animado, Irmão do Jorel, consegue fazer isso com muita destreza. É impossível não amar os personagens da série e não identificar um pouquinho deles em nós e nas pessoas à nossa volta. Uma das explicações para isso, é que a história tem traços fortemente autobiográficos. O diretor Juliano afirmou em entrevistas que baseou várias situações e personagens em suas próprias experiências, porém, nega que o irmão do Jorel seja ele mesmo.

Irmão do Jorel pode ser definida como série comédia familiar. O núcleo principal é composto pela família do irmão do Jorel, cada um seguindo essa lógica dúbia do comum e ilógico, fantástico e trivial que permeia toda a construção da narrativa. Como foi colocado, é impossível não se identificar (ou identificar características) com os personagens. Um pai revolucionário, que sonhava em ser artista e vive reclamando do capitalismo, apesar de não resistir a ele; uma mãe cuidadosa, que vive enchendo o filho de sucos e comidas ruins, mas, que é muito forte, pilota sua moto e toma as decisões mais difíceis; os irmãos mais velhos, um perfeito, o queridinho da família e da escola, mas que nunca fala nada, e o outro, um roqueiro de cabelo grande e desleixado; e, claro, as avós que trazem toda uma relação de afeto, porém se contrapõe quase mimeticamente, fazendo o público enxergar um pouco de cada uma em suas vidas. Além deles, Juliano brinca também com os outros personagens e situações da vida real de uma criança, como a relação com a diretora e a professora, a menina bonita da escola, o ídolo, a melhor amiga. Cada personagem, apesar de uma estética caricata e muitas vezes repetitiva de se comportar, sofre, ri, transforma-se, tornando-os únicos e representativos.

 

Da esquerda para direita, Vovó Gigi, irmão do Jorel e vovó Juju, no episódio em referência ao filme Thelma e Louise.

 

Além disso, os personagens questionam algumas noções de gêneros, quando através do humor, trazem personagens diversos cheios de questionamentos, como por exemplo, mulheres fortes, homens que choram. O maior exemplo talvez seja a melhor amiga do irmão do Jorel, Lara, que é uma menina que não gosta de rosa, leva o amigo de bicicleta, gosta de jogar futebol e é muito independente.

O único ponto que fica um pouco excedente é a abundância do didatismo, comum em desenhos animados que trazem assuntos para educar as crianças. Por exemplo, na terceira temporada, se foca bastante na questão da poluição do oceano, que na série se dá por meio de uma fábrica de refrigerantes. Essa relação um tanto maniqueísta entre empresários, representado pela grande corporação da cidade, e os protagonistas, é amenizada com a carga irônica dada à algumas situações e a peculiaridade caricata dos personagens.

 

Ironias adultas x uma linguagem infantilizada.

 

Apesar do humor irônico, a série não contém tom pesado e nem usa do humor politicamente incorreto de animações mais adultas, como Rick e Morty, Family Guy e até mesmo Os Simpsons. Isso acontece, porque para a série ser exibida no Cartoon Network, algumas mudanças tiveram de ser feitas no visual e falas que os personagens tinham nas tirinhas originais. Mesmo assim, qualquer olhar mais maduro percebe, por exemplo, que o pirulito verde na boca da Vovó Gigi, é, na verdade um cigarro.

 

Irmão do Jorel e vovó Gigi são viciados em TV e principalmente nos filmes e programas do ídolo favorito deles, Steve Magal. O nome é uma referência ao cantor Sidney Magal e ao ator Steven Seagal.

 

O mundo visto pela perspectiva do irmão do Jorel é imaginativo, fantasioso, cheio de dilemas e situações comuns ao universo infantil, que contrapõe-se e contextualiza-se com as várias referências políticas e sociais do Brasil principalmente nos anos 80 e 90, como a memória da ditadura militar, os pais revolucionários “comunistas”, a influência da cultura norte-americana e a globalização, como por exemplo, na inauguração do shopping center, que se torna o evento mais marcante da cidade. O cenário e objetos também são todos pensados de maneira a referenciar/contextualizar esse período, como o vício pela TV e VHS, as construções modernas como o aeroporto, a cultura do rock, entre outras. A própria ironia metalinguística com o mundo pop, como os programas de televisão de ação e violência, episódios e cenas parodiando filmes, bandas, pessoas e músicas, atrai crianças e adultos nostálgicos. No meio de todas essas referências, ainda há espaço para  trazer ditados, gírias e personagens tipicamente brasileiros, como o comentários “típicos de vó”, situações como pegar piolho, o enredo sobre festa junina, etc. A dublagem cheia de sotaques também trazem o tom nostálgico de identificação, apesar da pouca variedade de dubladores. Essa relação entre uma linguagem infantil com humor irônico e as representações cria uma atmosfera bem humorada e não cansativa (os episódios ficam em torno dos 20 minutos), capaz de entreter toda família.

 

As duas primeiras temporadas estão disponíveis no Netflix. A terceira temporada  encerrou em 2018, e por enquanto ainda não há informações sobre onde poderá ser encontrada legalmente. Apesar de cada episódio ter seu arco principal finalizado- o que permite assistir e entender qualquer episódio sem necessariamente seguir a sequência numérica- na segunda temporada constrói-se uma serialidade mais complexa, com arcos maiores e referências a situações e detalhes da própria narrativa. Essa última temporada continua com participações especiais como a do rapper Criolo logo no primeiro episódio, após a participação de Emicida na segunda temporada, e muito,muito mais referências da cultura pop. Depois de tudo isso, para quem está em dúvida se vale a pena, dá uma conferida no trailer da 3 temporada abaixo:

 

Na trilha da série: The Voice (EUA) e a força da country music

O reality show musical The Voice encerrou, em dezembro, sua décima quinta temporada nos Estados Unidos, e já tem data de estreia da temporada 16 agendada para o mês de fevereiro de 2019. O argumento original desse longevo reality vem da Holanda, e foi criado por John de Mol, o fundador da Endemol e da Talpa Media Group, empresas responsáveis por outros grandes sucessos de TV de realidade, como Big Brother e Masterchef, por exemplo.

Apesar de ter sido adaptado em diversos países ao redor do mundo, foi nos EUA que o The Voice teve maior durabilidade e disseminação. Contando com 49 indicações e 7 vitórias nos Emmy Awards – incluindo as conquistas de melhor série de competição de reality em 2013, 2015, 2016 e 2017 – esse produto se estabeleceu no topo do tão variado mercado estadunidense de programas de realidade.

A premissa do programa – e que o diferencia em relação a outros formatos de reality musical, como por exemplo o American Idol – é que a seleção de candidatos para a competição de canto seja somente baseada na voz, e não em qualquer outra avaliação, como por exemplo de gênero, aparência ou idade dos competidores. Sendo assim, as audições são feitas às cegas, com os técnicos virados de costas para os cantores. Eles só podem ver de quem se trata se baterem o botão e escolherem essa pessoa para seus times.

Muitos técnicos célebres já passaram pelo The Voice: Christina Aguilera, Cee Lo Green, Usher, Shakira, Gwen Stefani, Pharrell Williams, Miley Cyrus, Alicia Keys, Jennifer Hudson, Kelly Clarkson, além do novato John Legend, cuja estreia no programa ocorrerá na 16ª temporada. No entanto, dois técnicos estão presentes desde o início da atração em 2011: Adam Levine, do Maroon 5, e o cantor country Blake Shelton. Destacaremos na coluna de hoje o papel desse último técnico, suas vitórias, além da relevância da música country na história desse programa.

A country music é um gênero musical bastante relevante na história dos Estados Unidos. Poderíamos realizar, com ressalvas, uma aproximação da música country nos Estados Unidos com o mercado sertanejo no Brasil. É um gênero antigo, que nasceu como representação da vida interiorana no país, e que hoje compreende diversos subgêneros. A cidade que representa a força desse gênero é Nashville, no Tennessee, que inclusive dá nome a uma série musical que traz as nuances desse mercado nos EUA [série Nashville, 2012-2018].

A série Nashville foi inclusive cancelada pela ABC e posteriormente resgatada para suas últimas temporadas pela CMT – a Country Music Television, um canal privado cuja programação se baseia especificamente na música country. Esse é só um exemplo de como o mercado de música country nos Estados Unidos se estabelece de forma marcante e independente, contando também com seus próprios mecanismos de premiação [Country Music Association Awards, desde 1967] e gravadoras específicas do gênero [diversas, como a Big Machine Records e a Capitol Records Nashville], por exemplo.

The Voice e Blake Shelton

No The Voice, a country music está representada, desde a estreia, pelo técnico Blake Shelton. O cantor, que possui mais de 20 anos de carreira, só não teve representantes de seu time na final do programa uma vez. Em 7 das 15 temporadas, levou inclusive não só um, mas dois participantes para a grande final. Saiu vencedor em 6 temporadas do reality, não exclusivamente com cantores country, porém sempre destacando esse tipo de artista em seu time.

Raras vezes os artistas country, quando possuem o poder de escolha – no caso de mais de um técnico virar a cadeira para o cantor – não escolhem Blake. É uma busca comum, também pelo senso de comunidade desse gênero que é passado por Shelton: por diversas vezes o técnico já falou em um sentimento de família, afirmando que apoia a carreira dos artistas de seu time em um momento posterior ao programa. A escolha por Blake é, portanto, vista como uma oportunidade de maior visibilidade e ascensão na indústria country.

Alguns artistas country que se destacaram no programa são os vencedores Danielle Bradberry (4ª temporada), Craig Wayne Boyd (7ª temporada) e Sundance Head (11ª temporada). Ressalto também a vencedora Cassadee Pope (3ª temporada), parte do time Blake Shelton, que, apesar de ter entrado no The Voice como vocalista de uma banda de pop punk, investiu em outra vertente de carreira, na country music, após o término do programa.

É comum, no The Voice, que os artistas country permaneçam bem votados até as últimas fases da competição, muitas vezes também chegando à final. Em 11 das 15 finais até hoje, houve a presença de pelo menos um artista country, sendo que, na última temporada, três dos quatro finalistas eram artistas desse gênero.

The Voice temporada 15: a estreia de Kelsea Ballerini e a vitória de Kelly Clarkson

Outro ponto a se ressaltar sobre a relevância do country para o programa é que, na 15ª temporada, o The Voice estreou um quadro chamado “The Comeback Stage”, no qual uma quinta técnica convocava alguns dos participantes rejeitados nas audições às cegas e os treinava paralelamente, selecionando um deles para retornar à competição durante os shows ao vivo. A técnica convidada foi mais uma cantora de country: Kelsea Ballerini, da vertente pop country contemporânea, em destaque no cenário atual. Kelsea inclusive sairá em turnê esse ano com Kelly Clarkson, outra técnica do reality.

E foi justamente Kelly que trouxe outro momento importante para a 15ª temporada do The Voice: a técnica saiu vencedora dessa edição com Chevel Shepherd, uma cantora country de 16 anos. Um momento histórico, visto que foi a primeira vez que outro técnico venceu o programa com um artista country – feito apenas realizado outras três vezes por Blake Shelton. Clarkson inclusive disputou Chevel com Shelton durante as audições, e saiu vencedora – já aí um grande choque inicial para os espectadores.

Além disso, essa foi a segunda vitória consecutiva de Kelly como técnica, sendo ela mesma uma artista oriunda de reality show musical (a vencedora da primeira temporada do American Idol, ainda no início dos anos 2000). Fica então o questionamento: será que a vitória de Kelly Clarkson fará com que mais artistas country desejem fazer parte de seu time, trazendo competição ao veterano Blake Shelton? Só assistindo a 16ª temporada para conferir! Por enquanto, vejam aqui a audição às cegas da mais recente vencedora do programa:

 

*Hanna Nolasco é jornalista, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e desenvolve pesquisas sobre o uso da música em produtos televisivos.

 

Terror em Série: American Horror Story – Le Freak C’ést Chic

Em setembro, tivemos o início da oitava temporada de American Horror Story (AHS), finalizada, de maneira impactante, em novembro. Por conta desse novo ano do seriado, resolvemos fazer um especial sobre o programa de TV, criado por Ryan Murphy, comentando um pouco sobre cada um de seus anos. Este mês, vamos falar sobre a quarta temporada da série, Freak Show. A trama se passa majoritariamente dentro de um circo e traz personagens marcantes e linhas narrativas bem construídas.

O lado fantástico da produção é explorado com a presença do palhaço Twisty (John Carroll Lynch), que comete alguns assassinatos. Todo o plot deste ser macabro é o que quebra o certo tom mais melancólico de Freak Show, trazendo pegadas de gore e de trash para a série. A personagem, inclusive, é a única do quarta ano que aparece em temporadas futuras, até então. Em Cult, ele é retratado numa revista em quadrinhos de Oz, filho de Ally e Ivy.

 

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Além do palhaço Twisty, vemos um circo, bastante decadente, comandado por Elsa Mars (Jessica Lange). Logo no começo da narrativa dentro do circo, a atriz Jessica Lange canta Life on Mars*, numa performance que dita todo o tom do universo desta nova história em AHS, trazendo movimentos de câmera que se traduzem num ballet visual e mostram de maneira poética a vida do circo, unindo as figuras diferentes, que vivem à margem da sociedade com a beleza da cena que carrega em seus tons esverdeados.

As cores em Freak Show são bem exploradas, pois a direção de arte utiliza muitas tons claros e, supostamente, alegres, só que dessaturadas, trazendo uma ambientação melancólica e que elucida a emulação da alegria que há nas atividades circenses. A temporada trabalha bem as características de cada personagem, mostrando de maneira inteligente que o freak não é aquele com tipos físicos diferentes do que a sociedade costuma ver e sim aquele que tem uma crueldade dentro de si, uma maldade que transborda e se constrói numa personalidade distorcida e anormal. Freak Show é um tratado sobre como a natureza humana pode ser doentia.

 

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Os planos e enquadramentos das cenas acompanham esse pensamento. No início da temporada, as cenas com as personagens do circo possuem mais planos holandeses (câmera de lado), o uso do lens flare e do soft focus, criam uma ambientação que mescla o onírico e o estranho. Aos poucos, mesmo com uma fotografia sombria e com pouca saturação, os enquadramentos vão se tornando mais crus, traduzindo bem a curva dramática de Freak Show. Este fator faz com que a energia saia do fantástico e mergulhando num universo sombrio e cruel.

As duas personagens de Sarah Paulson, as irmãs siamesas, Bette e Dot, roubam a cena com suas personalidades bem delineadas, com uma construção minuciosa de Paulson, quebrando estigmas e clichês sobre a relação de gêmeas siamesas. Existe uma complexidade nos desejos das duas, que termina movendo a trama para frente em sua narrativa e atriz mostra a consciência da importância de suas personagens, quando vai fazendo-as crescer episódio por episódio, revelando nuances de cada uma delas.

 

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Freak Show se apresenta como uma sólida temporada, ambientando bem as contradições do universo circense, colocando mais uma vez as crueldades e distorções de personalidade nas personagens mais inesperadas e utilizando bem os aspectos visuais do audiovisual tanto para criar uma ambientação, quanto para construir personagens e justificar aspectos da trama.

 

 

* Life on Mars é uma música de David Bowie, de 1971.

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

 

Na trilha da série: Walt Disney Company e o lançamento de carreiras musicais

A Walt Disney é uma empresa de grande envolvimento com o gênero musical, tanto nos cinemas quanto na televisão. Suas animações musicais marcaram a infância de várias gerações, e sua ação também trouxe fama a artistas hoje célebres, impactando o mercado fonográfico estadunidense no decorrer das décadas. No Na trilha da série de hoje, destacaremos alguns artistas que iniciaram suas carreiras na Disney.

 

Mickey Mouse Club

 

Christina Aguilera, Britney Spears, Justin Timberlake. Quem acompanha a carreira desses cantores pop hoje, não imagina que sua trajetória se iniciou ainda na infância no Mickey Mouse Club, o clube do Mickey Mouse. Realizado pela Disney e exibido pela ABC e Disney Channel, esse programa esteve no ar em períodos diversos entre as décadas de 1950 e 1990.

Sendo um programa de variedades, os episódios do clube compreendiam esquetes de comédia, participação de celebridades, além de diversos números musicais. A versão lançada em 1989, estrelada pelos famosos cantores supracitados, além de outros artistas relevantes – Keri Russel, protagonista de The Americans, também fez parte da equipe desse programa em sua adolescência, por exemplo – foi denominada como o “novíssimo” clube do Mickey Mouse, apontando para uma renovação do estilo desse show.

Os números musicais variavam entre solos, duetos e números de coro, que compreendiam uma quantidade maior de artistas. Em destaque após se apresentar no Star Search, um reality show musical, com apenas 9 anos, Christina Aguilera mostrava no clube seu alcance e variedade vocal desde criança, apresentando alguns solos ao vivo como a seguinte canção de Aretha Franklin:

 

Outros números tinham vocais pré-gravados, sendo apresentados em playback (um tipo de dublagem) e com grande enfoque em coreografias. Um exemplo é o dueto de “I’ll take you there” apresentado por Britney Spears e Justin Timberlake:

 

 

Miley Cyrus e Hannah Montana

Quase duas décadas depois, um dos programas musicais recentes mais exitosos do Disney Channel, Hannah Montana, esteve no ar. Exibido entre 2006 e 2011, ele deu origem também a um filme homônimo. Estrelada por Miley Cyrus, a série acompanhava a história de uma garota que possuía vida comum durante o dia, porém à noite se transformava na estrela musical Hannah Montana.

O programa trazia alguns pontos de consonância com a vida pessoal de Miley: seu nome era o mesmo da protagonista, e seu pai, Billy Ray Cyrus – um cantor de música country- interpretava também o pai dessa personagem, que possuía a mesma carreira na ficção.

O sucesso de Hannah Montana alavancou a carreira musical de Miley Cyrus, que iniciou os trabalhos da série ainda com 14 anos. Sua trajetória familiar já trazia o ambiente da música, não só por seu pai, mas também por sua madrinha, uma das maiores cantoras do country estadunidense: Dolly Parton. No entanto, foi após a exposição que alcançou na série da Disney que a cantora lançou seu primeiro CD solo, Meet Miley Cyrus, em 2007. Desde então, desenvolveu sólida carreira musical perpassando vários gêneros de música.

“The Climb”, uma das canções mais famosas da carreira de Cyrus, foi lançada como single e utilizada no momento de ápice do filme Hannah Montana:

 

Artistas teens dos anos 2010

Após o sucesso da série anterior, a Disney investiu ainda mais em uma variedade de programas para o público adolescente, incluindo também filmes. Alguns exemplos são High School Musical, construído em uma trilogia, e Camp Rock, sequência de duas obras, todos sendo filmes musicais.

Este último título, lançado em 2008, destacou a performance musical dos artistas Demi Lovato e Jonas Brothers. Após o filme, eles saíram em turnê musical juntos, já desvinculados de seus papeis ficcionais. Demi continuou a fazer seriados no Disney Channel, enquanto tocava sua carreira musical. Já os Jonas Brothers, trio de irmãos cantores, alcançaram uma base de fãs tão expressiva que a emissora lançou Jonas L.A, uma série com formato de reality show, que acompanhava a rotina desses artistas.

Selena Gomez é outra artista contemporânea que possui trajetória similar à de Demi Lovato. Ela já havia atuado em televisão, mas foi protagonizando a série de fantasia do Disney Channel, Os Feiticeiros de Waverly Place, que ganhou mais notoriedade. Um ano depois do lançamento da série, Selena iniciou sua carreira musical com a banda The Scene. Seu primeiro álbum solo, no entanto, só foi lançado em 2013.

Além dos cantores citados aqui, muitos outros artistas tiveram carreiras lançadas pela Disney. Sendo assim, essa empresa trouxe impacto para a indústria fonográfica, também através da grande variedade e vendagem dos CDs de trilha de seus programas.

*Hanna Nolasco é mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e desenvolve pesquisas sobre o uso da música em produtos televisivos

Especial – Melhores Episódios de Natal

por Enoe Lopes Pontes

Ho ho ho!!! O Natal chegou e nada mais aconchegante que um prato cheio de comidas e a TV ligada no seu seriado preferido! Mas, como várias produções possuem especiais de final de ano, como decidir o que ver durante o feriado? Pensando nisso, o Série a Sério resolveu te ajudar e trazer uma lista dos melhores episódios natalinos para ver com a/o crush, a família, os amigos ou, também, na melhor companhia possível: você mesmo!

 

LISTA

 

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5 – Grandma Got Run by a Reindeer (2×12 – Grey’s Anatomy): Em meio as alas do Seattle Grace Hospital e pacientes sendo atendidos a todo momento, o clima de Natal está no ar, principalmente – quase exclusivamente – com Izzie (Katherine Heigl). A jovem se empolga nas decorações natalinas e adora os festejo. Já seus colegas, não são tão fãs do feriado. Contudo, até o final do episódio muitas reflexões e discussões são feitas e vidas são salvas!

 

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4 – The Bracebridge Dinner (2×10 – Gilmore Girls) – Pegue a sua maior caneca de café, uma pilha de guloseimas e assista a um dos melhores episódios de Gilmore Girls da série inteira! Numa inesperada mudança climática, a convenção que Lorelai (Lauren Graham) estava preparando é arruinada! Nenhum hóspede consegue chegar ao Independece Inn, pousada que ela e alguns de seus amigos trabalham. Por esta razão, todos os moradores de Stars Hollow são convidados a participar do evento que já estava pronto, mas sem ninguém para usufruir. É no 2×10 que acontece o passeio de trenó inesquecível entre Lorelai e Luke (Scott Patterson). É aqui também que Rory (Alexis Bledel) está quase no ápice de sua confusão de saber se gosta mais de Dean (Jarred Padalecki) ou Jess (Milo Ventimiglia).

 

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3 – Extraordinary Merry Christmas (3×09 – Glee) – Como é de costume durante a produção inteira, neste episódio de Natal, o público também vai encontrar muita música e dança. Na narrativa do 3×09, os integrantes do Glee Club são convidados para se apresentar em dois eventos diferentes, mas que são no mesmo horário. Um vai beneficiar a aparência e as carreiras deles. O outro, vai ajudar quem passa por necessidades durante o feriado natalino. Com este problema nas mãos, eles precisam tomar uma decisão. Além de tudo isso, os anseios, dramas e tensões da vida de Rachel Berry  têm destaque aqui, mas nada que atrapalhe a diversão da cantoria e alegria dos artistas adolescentes!

 

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2 – How Lily Stole Christmas (2×11 – How I met Your Mother) – Ted (Josh Radnor) xingou Lily (Alyson Hannigan) de um nome terrível que rima com Grinch em inglês, quando ela tinha terminado o noivado com seu melhor amigo! Depois que tudo já estava bem novamente, a jovem descobre isto e retira toda a decoração de Natal do apartamento de Ted e seu parceiro, Marshall (Jason Segell), levando tudo para sua própria casa. A ação de Lily rende muitas piadas e situações engraçadas, como é típico da série.

 

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1 –The One with the Routine (6×10 – Friends) – Friends possui diversos episódios incríveis de Natal, mas, este consegue ser o mais engraçado e divertido de todos. Além disso, o 6×10 junta o clima de Natal e Ano Novo com muito humor e piadas características de cada personagem. O destaque fica para a dupla Monica (Courteney Cox) e Ross (David Schwimmer) e a dança especial que eles criaram desde a infância. Os passos coreografados pela dupla são o maior mico e eles acham que estão arrasando! Claro que aí é que está a graça toda da situação. Do outro lado, o público vê Phoebe (Lisa Kudrow), Rachel (Jennifer Aniston) e Chandler (Matthew Perry) procurando os presentes natalinos que Monica escondeu no apartamento! Por fim, Joey (Matt leBlanc) está passando por momentos de tensão com a nova garota que está apaixonado, claro! Cada pequeno plot do 6×10 é bem aproveitado e a mais da dinâmica entre as personagens é estabelecida, fazendo da produção o que ela é, umas das melhores comédias estadunidenses da TV.

Maratone como uma Garota! – Sororidade e Profissionalismo em Suits

Suits poderia ser mais uma produção dramática cuja trama percorre tribunais e escritórios de advocacia, mas a série, que chegou à 8ª temporada em 2018, reserva personagens femininas complexas e intensas, que passam longe de meros acessórios na história e subvertem alguns estereótipos do gênero. Deixando de lado os Homens de Terno (tradução brasileira para Suits), a Maratone como uma Garota! vai abordar e a representação feminina, especialmente as relações entre mulheres, no ambiente profissional.

A série gira em torno de um escritório de advocacia corporativo de Manhattan. Até a temporada anterior, o enredo centrava-se em Harvey Specter (Gabriel Match), melhor advogado de NY, e Mike Ross (Patrick J. Adams), um rapaz com memória fotográfica que fingia ser advogado formado em Harvard. Com a saída de alguns atores do elenco, o protagonismo se dispersa e a história foca agora nas tensões e conciliações dentro da Zane Specter Litt.

 

 

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Apesar do protagonismo Specter-Ross, Suits já demarca, desde os primeiros episódios, que quem manda na coisa toda é Jessica Pearson (Gina Torres). Ela é basicamente a rainha suprema, talvez a personagem cuja construção mais evoluiu, sendo desde o início uma mulher firme, inteligente, chefe e advogada implacável e que preza por quem está ao seu lado, sempre atenta aos sentimentos dos outros. Some-se a tudo isso o fato de que além de mulher, ela é negra. E a questão racial recebe a devida atenção, de modo sutil (ao longo de momentos chaves), sem se tornar uma tecla constante, mas sem passar batido. Esse conjunto de atributos situam a personagem entre uma das melhores representações dos anos recentes. Superando o papel da mulher negra forte, Jessica, assim como Annalise Keating e Olivia Pope, são cheias de traços de personalidade e profissionais que subvertem a estrutura social e reivindicam seu lugar de direito.

Ao lado de Jéssica, Donna Paulsen é a mais querida da série. “Eu sou Donna” é o seu “Eu sei de tudo”. De fato, Donna sabe tudo, já que é bastante sagaz, responsável e hábil para negociações. Inicialmente ocupando o cargo de secretária pessoal de Harvey Specter, a personagem sempre foi central no desenrolar dos casos. Donna e Harvey nutrem um sentimento intenso, mais que amizade, o que os torna o ship mais fofo da série, ainda que o casal nunca tenha ficado junto. Essa relação clichê chefe-secretária, muito estigmatizada em filmes e séries, é bem desenvolvida aqui, principalmente pela construção de Donna como o campo sensato e racional, além de uma mulher com valores e visão bastante feministas. A personagem cresce a partir desses valores e de uma boa dose de empoderamento – (ALERTA DE SPOILER) -, chegando ao cargo de COO (chefe de operações) por sua determinação e exigência.

 

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Donna é quase sempre o elo que preza pela união das personagens femininas ao longo das temporadas. Sua relação com Jessica Pearson é de mútuo respeito e confiança. Soma-se ao time das protagonistas Rachel Zane (Meghan, Duquesa de Sussex, a nova membro da família real britânica), filha de um dos principais advogados de NY, mas que decide traçar seu caminho por conta própria e por isso vai trabalhar na Pearson Hardman (nome inicial da firma). Rachel é insegura, porém decidida. A personagem não consegue entrar em Harvard, requisito para ser associada, mas por sua dedicação à firma, consegue que seja revogada essa exigência. A paixão por Mike sempre esteve central no desenvolvimento da personagem e parece que estamos um pouco sem paciência para mulheres apaixonadas, já que Rachel era uma das menos queridas pelo público. Ainda assim, o seu crescimento profissional, a maturidade e competência que desenvolve, merecem o reconhecimento, visto que mulheres jovens e belas nem sempre são respeitadas em tramas assim. 

Rachel e Donna logo se tornam melhores amigas. Donna esteve sempre impulsionando-a, afinal, uma sobe e leva a outra, né mesmo? No ambiente profissional, ambas se empenham em cuidar dos interesses da firma antes de tudo. Há um notável equilíbrio entre o afeto pessoal e profissional, o que torna a relação das duas admirável ao público. Jessica reconhece em Rachel seu potencial como advogada mas, mais que isso, reconhece a força e determinação da jovem, que, sendo mulher e negra, vai percorrer um caminho semelhante ao que ela (Jessica) teve de trilhar. Ou seja, a empatia entre ambas se fortalece e estreita sua relação. Rachel, que via em Jessica seu modelo e inspiração, sendo ela um dos motivos pelo qual quis estar no escritório, teve Jessica também como mentora.

 

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O conceito de sororidade recebe, entre Jessica e Rachel, contornos bastante sensíveis e muito admiráveis na série. A questão de gênero e raça ganham força, remetendo à importância da afetividade e irmandade entre mulheres negras em sua construção política e social. Além de Jessica, Donna e Rachel, que diversas vezes trabalham em conjunto, a série apresenta mais mulheres que não podem ser esquecidas. Katrina Bennet (Amanda Schull) é uma das advogadas associadas mais ferozes e determinadas. Katrina retorna a 8ª temporada como elenco principal. Estreita sua relação com Donna, quem também a impulsionou profissionalmente. Sheila Sazs (Rachael Harris) também torna-se elenco principal. Sheila, agora casada com Louis, opta por tornar-se mãe, algo que recusava veementemente nas temporadas anteriores, e afirma que a maternidade não deverá interferir nas suas aspirações profissionais e que seu desempenho jamais será inferior por ser mãe.

A saída de Rachel (devido ao casamento real de Meghan, agora não mais atriz) e Ross foi compensada, na última temporada, com a entrada de novos personagens e a volta de antigos. Samantha Wheeler (Katherine Heigl) é uma das novas protagonistas. Braço direito de Robert Zane, é uma das melhores advogadas de Nova York. Jovem, esperta e capaz de tudo para vencer, a personalidade de Samantha vai sendo reveladas aos poucos. A relação entre ela e Donna é um dos traços mais interessantes da 8ª temporada. Donna percebe que Samantha, que não é muito de amizades, talvez precise de alguém em quem confiar, pessoal e profissionalmente, de modo que consegue tornar-se íntima.

 

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Chimamanda Ngozi Adichie, no livro Sejamos Todas Feministas (no trecho incorporado na música Flawless, da Beyoncé), afirma que nós (as sociedades) costumamos criar as mulheres para competir umas com as outras, não por empregos ou realizações, o que a autora julga uma coisa boa, mas pela atenção dos homens. Qualquer mulher sabe que, desde crianças, somos incentivadas a competir por atributos físicos, a ver as outras mulheres como rivais, e não parceiras, a desconfiar e rivalizar com nossas companheiras. Ao contrário da  “brotheragem” masculina. Pois bem, Suits abre espaço para essa discussão com uma firmeza que não passa batida em meio aos processos jurídicos. Desde o início, suas personagens refletem que não estão ali para passar pano ao patriarcado e sabem muito bem que competição e rivalidade não devem cair nas armadilhas machistas.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Especial: Os Melhores e os Piores Spin-offs de Todos os Tempos

 

Por Enoe Lopes Pontes

Depois de The Vampire Diaries e The Originals, o canal CW traz para os fãs das séries outra série dentro deste mesmo universo! Legacies é mais uma continuação da história sobre os vampiros e criaturas mágicas da emissora e pretende narrar a trajetória da filha da personagem Klaus, a Hope Mikaelson. Além disto, o enredo também mostrará as aventuras dos outros seres sobrenaturais da geração da Hope e easter eggs dos seriados originais, incluindo a revelação do destino de Elena (Nina Dobrev) e Damon (Ian Somerhalder).

Aproveitando o gancho da nova estreia da CW, o Série a Sério preparou um especial com os três melhores e piores spin-offs de todos os tempos da televisão. Curiosamente, foram pensadas produções de outras localidades, como o Brasil e a Inglaterra, mas os conteúdos dos Estados Unidos ocuparam as posições iniciais por terem continuações com plots mais independentes e arriscados e, ainda assim, conseguirem superar o original, seja para melhor ou pior! Contudo, adicionamos alguns nomes extras no final da lista, caso o leitor fique curioso para descobrir ou evitar algumas tramas!

 

MELHORES

 

 

3. Angel (1999-2004): Em 1997, entrava na programação da TV dos Estados Unidos Buffy – A caça vampiros. Com uma trama que misturava aventura, romance e suspense, a produção possuía um público fiel, conseguindo manter uma média de 5 a 7 milhões de espectadores por episódio, em todas as suas temporada. Dentro da narrativa, Buffy (Sarah Michelle Gellar), a heroína protagonista, vivia um romance complicado com um vampiro, Angel (David Boreanaz). A personagem do namorado da mocinha fez tanto sucesso que ele ganhou um seriado solo, com seu nome no título. O ponto alto da série é que ela talvez seja a que mais conseguia manter o estilo do enredo original, sem perder a sua própria personalidade. Além disso, o  principal possuía carisma, as tramas “monstro da semana” e do arco geral eram instigantes e os crossover entre Buffy e seu spin-off faziam eram bem elaborados, com sentido, criação de tensões e incentivo para seu público ter a vontade consumir as duas produções, pois elas se interligavam, em alguns momentos. Angel ficou no ar durante cinco anos, com uma média de público de quase 5 milhões de pessoas.

 

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2. Better Call Saul (2015-): Ainda em exibição e com quatro temporadas, até o momento, a série é um spin-off da famosa e cultuada Breaking Bad (BB). Com uma pegada mais leve que sua original, o seriado foca na história do advogado trambiqueiro Saul Goodman (Bobby Odenkirk), quando ele ainda era conhecido como Kimmy McGill. Apesar de ter altos e baixos, em alguns momentos, Better Call Saul consegue desenvolver a trajetória de Jimmy, revelando gradativamente sua transformação em Saul. Além disso, o roteiro consegue trazer um equilíbrio entre o dramático e cômico, explorando a personalidade sarcástica do protagonista, sem deixar de mostrar que embaixo da ponta do iceberg existe a degradação humana encarnada na figura do principal e de outros que o cercam. Odenkirk também é um destaque por ter habilidade de “voltar no tempo” e mostrar completamente o McGill, sabendo dosar os inserts de Goodman, aos poucos, sem entregar o resultado final que ele já havia mostrado antes, em sua aparição anterior. A sua performance vem sendo agraciada por elogios da crítica e indicações em premiações como Globo de Ouro e Emmy Awards.  Por fim, ainda têm uma questão: os fan services para os fãs de BB! Muitas das tragédias e confusões que explodem em Breaking Bad têm suas trajetórias mostradas nesta continuação.

 

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1.Frasier (1994-2003): Com o final do seriado Cheers – que ficou no ar por onze anos, teve 275 episódios e ganhou 28 Emmy Awards -, os fãs da sitcom ficaram órfãos. Porém, a NBC, emissora responsável pela produção, trouxe o seu spin-off, intitulado de Frasier. Com oito temporadas, no total, a história girava em torno de Dr. Frasier Crane, personagem presente desde a terceira temporada do seriado original, e seu irmão. Os dois são psiquiatras. As tensões e disputas entre a dupla gera os momentos mais engraçados da série. Quando Frasier começou a ser exibida, existia certa tensão, pois o seu sucessor possuía sucesso de crítica e público. Contudo, a comédia conseguiu manter a graça e algumas características de Cheers, porém repaginando a cidade e seus os ambientes principais. Por exemplo, enquanto uma se passa majoritariamente em um bar, a outra fica mais na casa de Dr. Frasier e na rádio que ele trabalha. Isto muda o tom em certos aspectos, pois as situações e o comportamento das pessoas são diferentes a depender do local que elas estão. Contudo, o time das piadas permanece e o fato de existirem questões amorosas com destaque forte também. Ainda existe um fato curioso sobre o seriado, ele é o maior vencedor de Emmys de todos os tempos, recebendo 39 troféus, em 12 anos!

Outras dicas boas: Cidade dos Homens (Original/2002 e Continuação/2018); Carga Pesada (Original/1979 e Continuação/2003); As Cariocas/As Brasileiras; Doctor Who (Original 1963/Continuação/2005) e Torchwood.

 

PIORES

 

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3. Once Upon a Time in Wonderland (2013-2014): Quando Once Upon a Time (2011-2018) entrou em sua terceira temporada, os showrunners Adam Horowitz e Edward Kitsis anunciaram o spin-off da série. Com um plot que focava em Alice no País das Maravilhas, e pitadas de Aladin, a produção foi considerada um fiasco por não alcançar uma boa média de público, tendo menos de 6 milhões de espectadores por episódios. Comparada com a sua original, que chegava ao dobro disso, o seriado não rendia bons frutos para a emissora ABC e foi cancelada em seu primeiro ano. Talvez, a razão para a falta de fidelização dos espectadores seja a qualidade técnica de OUAT in Wonderland mesmo! A protagonista, interpretada por Sophie Lowe (The Returned), era pouco expressiva e sem carisma, o seu ship – o gênio da lâmpada Cyrus (Queen of South) e Alice – não tinha química, os plot twists eram tantos que acompanhar o enredo ficava entediante e os efeitos especiais eram horrendos (coisa que a sua antecessora também não brilhava).

 

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2. Joey (2004-2006): Considerada uma das melhores séries de todos os tempos pelo público e por veículos como a Rolling Stones e o Hollywood Reporter, Friends (1994-2004) foi um hit em seu período de exibição e continua sendo cultuada e assistida até hoje em canais de TV fechados, DVD’s e streamings. Pensando neste sucesso, dois roteiristas do seriado, Shana Goldberg-Meehan e Scott Silveri, criaram o spin-off Joey. Ele mostrava a vida do ator Joey Tribbiani (Matt Le Blanc), que previamente ficou conhecido um dos seis amigos da narrativa antecessora. Curiosamente, muitos episódios foram dirigidos pelo Kevin S. Bright, um dos criadores de Friends, e por David Schwimmer, que fazia o Ross Geller na trama original. Ainda que a história não tenha tanta graça, com apenas um dos companheiros da turma, as piadas sejam óbvias e o lado mais clichê de Joey seja explorado, deixando-o raso, Le Blanc recebeu uma indicação ao Globo de Ouro pelo papel. Contudo, este fator não salva o conteúdo desastroso e entediante de Joey e não é também uma grande surpresa, já que o artista interpretava Tribbiani por mais de uma década.

 

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1. DC Legends of Tomorrow (2016-): A grande vencedora – ou perdedora – da lista de piores spin-offs com certeza é Legends of Tomorrow. Sucessora de produções como Arrow e The Flash, a série é exibida pela CW, nos Estados Unidos e pelo Warner Channel, no Brasil. O seriado peca, principalmente, na falta de habilidade em administrar a quantidade de herói colocados na trama. Eles não conseguem explorar com profundidade nenhuma personagem, deixando que a própria condução da narrativa se contamine, ficando óbvia e tediosa, pois traz problemas e soluções já esperadas. Para finalizar, as cenas de ação são o que tem de menos empolgante, numa produção sobre Super-heróis. Talvez, a emissora só deseje expandir o conteúdo da temática no canal, mas poderiam fazer de forma menos preguiçosa.

 

Terror em Série: American Horror Story e o mistério da Suprema

 

A nova temporada de American Horror Story está em seu sétimo episódio e, até então, retornamos a ver as histórias  que os fãs tanto esperavam, trazendo de volta personagens emblemáticas da primeira, da terceira e, até, da quinta temporada.

Deixamos um pouco de lado o futuro distópico, arruinado, até onde podemos saber e entender, pelo filho do mal, Michael Langdon. A temporada, nesse momento, se foca em mostrar como foi que chegou-se ao ponto de destruição total e como Langdon conseguiu ascender e chegar ao poder, sendo um Supremo, fato bem incomum, já que as mulheres herdam a supremacia, já que são herdeiras das bruxas de Salém.

 

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Aproveitando o lançamento de Apocalypse, sétimo ano da produção, aproveitamos para trazer um comentário de cada temporada por mês, até chegarmos a oitava. Murder House e Asylum já foram comentadas e você pode conferir os textos aqui e aqui. Desta vez, relembraremos um pouco de Coven e suas personagens. A história mostrava duas épocas distintas.  No presente, as bruxas descendentes de Salém, buscam proteção e auxílio para o controle de seus poderes, além da fuga da extinção e, encontram como refúgio, a Academia para Excepcionais Jovens Garotas da Madame Robichaux. A espécie de escola é comandada por Fiona Goode, mãe de Cordelia Foxx. Goode, interpretada por Jessica Lange, está no fim da linha como Suprema e perdendo seus poderes, enfraquecendo. Por isso, precisa encontrar sua sucessora e começa a treinar aprendizes.

No passado, personagens do período da escravidão, que realmente existiram em Nova Orleans, entram em conflito. A série une a socialite e assassina em série Delphine Lalaurie, que torturava seus escravos e a Rainha do Vodu, Marie Laveau. A última consegue vingança contra Lalaurie, mas, quando Goode busca a vida eterna, ela liberta Lalaurie e quebra o pacto de trégua entre as bruxas e as praticantes do vodu.

 

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O estilo de cada época é bem demarcado pela fotografia, pela arte e, claro, pelos figurinos. Se no passado os tons de vermelho e marrom fortes realçavam ambientes duais entre a riqueza e o horror do sangue e da violência, no presente, tons azulados e leves, demarcam uma era de perversidades veladas, onde a crueldade e atos inumanos são realizados com um sorriso no rosto.

Os assassinatos do século XIX possuem uma atmosfera mais sombria, trazendo uma iluminação que busca um naturalismo e que estabelece um ambiente pouco aconchegante. A direção de arte capricha na quantidade elementos cênicos, deixando sempre as locações preenchidas, colocando os corpos dos torturados como parte do cenário, muitas vezes, pendurados. Isto evidencia como a Lalaurie via seus escravos, como animais ou objetos insignificantes. Se existe algo de positivo em todas as temporadas da série é como a mesma consegue unir sua estética bem delineada, com seu discurso. A equipe consegue se apropriar ao máximo da meta de que tudo que aparece em cena deve ter um sentido.

 

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A Academia de bruxas possui poucos móveis e traz numa casa rodeada por um jardim iluminado, corredores e salas enormes e vazias, destacando a solidão que existe ali, mostrando que aquele lugar foi projetado um dia para morarem muitas mulheres, evidenciando assim, que as bruxas estão desaparecendo. O seriado tem uma de suas temporadas mais leves, com uma forte dose de humor, trazendo personagens bem construídas e com características bem delineadas. Cada uma das bruxas possui seus talentos, defeitos e dúvidas, fazendo com que seja difícil identificar a nova Suprema. Mesmo com atrizes novas na série até então, o elenco não deixa de ter sintonia e traz momentos potentes como a morte de Fiona ou quando Myrtle é queimada na fogueira.

É também uma temporada que celebra a força das mulheres, o girl power, sem etiquetar cada uma delas em clichês óbvios da feminilidade. A mãe pode amar sua filha e, ainda assim, se importar mais consigo mesma do que com qualquer outro, a atriz de Hollywood fútil, pode ser forte e inteligente e dentro de cada mulher existe muito mais companheirismo pela outro do que pode-se imaginar. Somos todas um pouco bruxas e, juntas, somos bem mais fortes. Coven talvez tenha uma dose alta de reviravoltas, trazendo um tom folhetinesco exagerado e deixa certa inconstância na qualidade de seus episódios. Mas, não perde seu charme e tem personagens e frases icônicas que trouxeram muitos fãs para American Horror Story.

 

 

*Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Na trilha da série: Glee, Wicked e a luta por direitos

POR HANNA NOLASCO

O musical é um gênero que foi muitas vezes menosprezado por críticos e pesquisadores por ser encarado como mero entretenimento. No entanto, as temáticas sociais permeiam o enredo de seus produtos desde seu surgimento. Indo do teatro à televisão, o assunto foi abordado de diversas maneiras: a questão da diferença de classes era pano de fundo de My Fair Lady (teatros, 1956; cinema, 1964); as gangues de Nova Iorque e suas diferenças étnicas, base do enredo de West Side Story (cinema, 1961); e até filmes musicais infantojuvenis trouxeram discussões que perpassam o respeito ao próximo e a aproximação do diferente (A Bela e a Fera, 1991), os posicionamentos machistas de uma sociedade e a história de uma mulher que salva a China (Mulan, 1998) e também um governo ditatorial que assume o poder através do assassinato de um líder (O Rei Leão, 1994). Isso, além da guinada, a partir da década de 1970, de discussões mais abertas de temáticas sociais em musicais devido ao contexto histórico: Hair (1979), por exemplo, retratou a comunidade hippie estadunidense durante os anos 1960 e realizou uma crítica política à guerra do Vietnã. 

Mais especificamente em relação à discussão de preconceitos e de minorias sociais nos musicais, o tema do Na Trilha da Série de hoje é o seriado Glee e seu entrelaçamento com o musical da Broadway WickedGlee foi uma série musical de sucesso produzida pela FOX, com seis temporadas, exibida entre 2009 e 2015. O enredo se desenvolvia em um colégio no interior dos Estados Unidos, enfocando o Glee Club – coral – e seus membros. Nesse país, este tipo de grupo é apresentado como uma instituição marginalizada, que agrega jovens considerados nerds. A produção se apropria dessa discussão ao apresentar um grupo de estudantes guiados pelo professor Will Schuester, que saem de uma situação de preconceito escolar e constrangimento social ao prestígio entre os pares, através do sucesso em competições e divulgação da escola. Sendo assim, a narrativa mostra a transformação desse clube e da vida de seus participantes, abarcando temáticas como envolvimentos românticos, gravidez na adolescência e homossexualidade.

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A lista de músicas desse seriado abarcava grande quantidade de versões, indo do cancioneiro clássico estadunidense até hits da atualidade. Também havia uma aproximação grande com os musicais de teatro e cinema, visto que dois dos protagonistas, Rachel Berry e Kurt Hummel, almejavam ser atores da Broadway. É justamente na interação entre esses dois personagens, no nono episódio da primeira temporada de Glee, que foi realizada a versão de “Defying Gravity”, do musical teatral Wicked.

Esta canção é emblemática em Wicked: a história não contada das bruxas de Oz, obra que se passa na terra de Oz antes da ida de Dorothy – de O Mágico de Oz (1939). A peça trata da relação de amizade entre duas bruxas: Glinda, rotulada posteriormente como “bruxa boa” e Elphaba, posteriormente indicada como “bruxa má”. Acompanhando as duas bruxas desde a infância, o musical discute rótulos, questões de preconceito, corrupção na sociedade, além das próprias definições de boa/má: enquanto Glinda é branca e loira, Elphaba é verde, fator que sempre trouxe um estranhamento dos cidadãos de Oz em relação a ela. Esta produção, portanto, traz uma reflexão do que realmente é ser wicked (malvado), construindo assim uma crítica interessante a problemas vigentes em nossa sociedade, utilizando como metáfora essa terra fictícia.

 

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A canção “Defying Gravity” é utilizada no fim do primeiro ato da peça, marcando o momento em que Elphaba descobre que o Mágico de Oz, idolatrado por todos, não era um herói: pelo contrário, possuía planos sinistros para os animais de Oz. Sendo assim, a bruxa decide fazer tudo em seu poder para impedi-lo, mesmo enquanto os moradores de Oz a ridicularizam e vilanizam. Nesse momento, Elphaba canta sobre viver sem limites e ir de encontro a regras, desafiando a gravidade (tradução do título da canção), como podemos notar no trecho a seguir:

 

           “I’m through accepting limits                                                “Cansei de aceitar limites
‘Cuz someone says they’re so                          Porque alguém diz que eles existem
Some things I cannot change                          Algumas coisas eu não posso mudar
But till I try, I’ll never know”                                  Mas até eu tentar, nunca saberei”

 

Em Glee, no episódio 1×09, “Defying Gravity” marca um posicionamento do personagem Kurt, que luta pelo direito de interpretar essa canção na apresentação do coral, pois o professor Will deu o papel a Rachel somente por ser uma música tradicionalmente cantada por uma mulher. A mensagem da letra representa o momento vivido por Kurt, que tinha acabado de se assumir gay e se posiciona em face de uma decisão arbitrária, lutando por direitos iguais a solos em músicas independentemente de questões de gênero. Ao mesmo tempo, o episódio traz também um contexto do tratamento de homossexuais e suas famílias: o pai de Kurt, que o ajudou a ter a oportunidade de fazer a audição ao denunciar a atitude discriminatória ao diretor da escola, passa a receber telefonemas anônimos de cunho homofóbico.

 

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Sendo assim, durante a audição, Kurt erra propositalmente a nota mais aguda da canção, para que não seja selecionado por seus pares e seu pai não sofra mais ataques. Dessa forma, o episódio mostra não só um momento relevante de debate, mas também a realidade do preconceito de determinadas pessoas em relação àqueles que são diferentes.

Confiram aqui a apresentação de Idina Menzel e Kristin Chenoweth, da formação original de Wicked, na premiação Tony Awards, em 2004. Uma curiosidade: as duas atrizes participaram posteriormente de Glee, interpretando, respectivamente, a mãe biológica de Rachel e uma amiga de colégio do professor Will Schuester.

 

 

*Hanna Nolasco é jornalista, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e desenvolve pesquisas sobre o uso da música em produtos televisivos.

Maratone como uma Garota: As Mulheres Poderosas e suas representações

Com o dia das eleições chegando, muito tem se discutido sobre as questões voltadas para temáticas sobre “representatividade” e “empoderamento”. Nada como relembrarmos, então, daquelas personagens que ressignificaram para nós o sentido de “mulheres empoderadas” (ou “mulheres poderosas”, já que o termo “empoderada” se popularizou mais recentemente).

Como normalmente elas são construídas nas séries? Quais traços de personalidade e estilo usuais? Por que, por exemplo, é comum pairar sobre elas o fantasma da superioridade ou dos relacionamentos fracassados? E melhor, por que é importante falar sobre como muitas delas roubam nossos corações e se tornam uma inspiração de vida? O Maratone como uma garota! do mês passado falou sobre o empowerment na série Good Girls. Seguindo o tema, hoje vamos trazer algumas personagens badass*¹ e discutir um pouco sobre a representação desses “arquétipos” em seriados populares.  

 

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Elas são advogadas, médicas, jornalistas, primeiras-damas, chefes de polícia, e, porque não, presidentes da maior potência do mundo. É impossível, claro, assumir que há um padrão definitivo, porém, alguns atributos e estratégias narrativas acabam sendo recorrentes. Representações ideais estão ainda bem distantes, dada a força do imaginário patriarcal nos produtos midiáticos, mas não se pode negar que mulheres com personalidades fortes, bem construídas e com papéis centrais nas tramas e, muitas protagonistas, têm aparecido com mais frequência, especialmente em trabalhos de profissionais incríveis, como Shonda Rhimes.

Comecemos pensando em como, quase sempre, elas são mulheres com um ar de superioridade e arrogância. Ok, é muito comum que muitas de nós acabe criando uma “capa de pedantismo” como estratégia para resistir à desvalorização no trabalho, aos desmerecimentos, assédios, e por aí vai. Porém, quando se trata de personagens para um grande público, reforçar esses estereótipos negativos pode ser perigoso, criando um senso geral de que, para ser respeitada, não se pode ser dócil, sorridente, amável, enfim. Tal fato cria, inclusive, uma tensão em torno da ideia de “feminilidade” (que nem é preciso explicar quão machista é).

 

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Tomemos como exemplo a Cat Grant (Calista Flockhart) , a chefe da Supergirl e toda poderosa de National City. Cat é, praticamente, a Miranda Priestly da DC Comics, implacável e temida. Inicialmente fria e arrogante, aos poucos a série vai revelando nuances de seu “lado humano”. O mesmo acontece com as rainhas dos tribunais da atualidade. Olivia Pope (Kerry Washington) e Annalise Keating (Viola Davis), protagonizaram o crossover do milênio. Ambas são temidas, andam sempre em ternos suntuosos e com imponência na voz. Entre entradas triunfais, cada qual à sua maneira, lidam com as pessoas ao redor de modo impositivo e autoritário.

Algo que não pode passar batido se refere aos traumas e dramas pessoais desses sujeitos. É raro encontrar uma mulher que não tenha uma família desestabilizada, relacionamentos fracassados, ou sofrido violências e traumas de infância. Mais uma vez, esse padrão carrega o perigo de utilizar situações drásticas como motores únicos para o sucesso e muitas vezes serve como justificativa para comportamentos ariscos, o vício em trabalho, entre outro. É o caso de violências sexuais. É comum que roteiristas (homens, especialmente) que se apropriem de um estupro para humanizar as personagens, ou colocá-las como mulheres frias e impiedosas.

 

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Jessica Jones (Krysten Ritter), super-heroína da Marvel, é antissocial e pessimista. O fato de ter sido vítima do vilão Killgrave é tomado em alguns momentos da série como justificativa para sua força e desejo de vingança. O mesmo acontece com Mellie Grant (Bellamy Young), de Scandal, a primeira dama amargurada e irritante passa a ser humanizada quando se revela um abuso sofrido. Meredith Grey (Ellen Popeo) já sofreu perdas dolorosas e inclusive ataque por um paciente. Não esqueçamos de Claire Underwood (Robin Wright), de House Of Cards, cuja popularidade exponencial com o público não decorre disso, mas ganhou um destaque político quando revelou nacionalmente ter sido vítima de um estupro, do qual decorreu um aborto. Ainda que não seja bem assim (no enredo), a série colocou em pauta questões complexas que não deu conta de trabalhar como merecia.

É óbvio que tais acontecimentos deixam marcas e que não é obrigatoriamente um problema que eles sejam parte da história de um personagem. Não se trata puramente de abominar a “vitimização”, mas o discurso torna-se perigoso quando se explora esses fatos com fins de estereotipar ou “motivar” as mulheres, explorando uma experiência traumática que atinge muitas mulheres reais.

 

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Como toda história tem dois lados, nem tudo está perdido. Ms. Pope e Ms. Keating têm muito mais em comum do que as aparências indicam, sendo reverenciadas pela audiência, que vibra ao som dos seus saltos. Olivia pode ter a Casa Branca aos seus pés em um estalo de dedos, já que é uma estrategista implacável e conhecedora do direito e da política como poucas. Annalise é decidida, segura e pronta para as batalhas. Se Claire Underwood chegou à presidência não foi somente pelas circunstâncias complicadas que os produtores da série enfrentaram (a expulsão de Kevin Spacey após os escândalos de abusos), mas porque a personagem sempre foi fundamental para a ascensão política do marido e sempre esteve decisiva nas ações do plot.

O fato de serem independentes, seguras, inteligentes e jamais abaixar a cabeça para homem algum são alguns pontos que ganham a simpatia de quem afirma sentir-se mais “empoderada” por elas. Talvez por vivemos rodeadas de estereótipos e expectativas que tendem a nos subjugar, forçando-nos a esconder todo o tempo as nossas potências, habilidades e impondo limites sobre nossos corpos, vemos nessas personagens não somente aquilo que queremos ser, mas também aquilo que, em algum lugar, já somos!

 
*¹ – Bad Ass é uma gíria estadunidense para “Fodonas”

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

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