Colunas: Morte, sedução e evolução em Killing Eve (Primeira Temporada)

Quando comecei a pesquisar (academicamente) críticas feministas aos produtos culturais, me propus o exercício constante de, além de buscar aqueles que promovam o protagonismo feminino e que tragam mulheres nos cargos técnicos “principais” (como direção, roteiro e montagem), analisar também a qualidade, por assim dizer, dessa representação. Explico: acredito que devemos ser criticamente exigentes com o “nível” que as representatividades assumem nas narrativas, mais do que exigir somente uma presença em tela ou nos sets. Ou seja, não anseio uma série ou um filme protagonizado por mulheres mas com desenvolvimento raso das personagens, ou um roteiro que reproduz estruturas tradicionais* ou que pouco tensione os silenciamentos e os estereótipos que nós quase sempre sofremos. Quero mais. Espero personagens com personalidades complexas, cujas ações evoluam na trama e que as relações com as demais figuras femininas nos ofereçam outros olhares sobre sororidade e rivalidade.

 

Diante de um produto como Killing Eve, vemos como uma boa narrativa pode explorar nuances das suas personagens, fazer o roteiro evoluir junto à evolução destas, em suas performances e na relação construída entre elas, especialmente quando uma é psicopata e assassina de aluguel e a outra uma funcionária da Inteligência Inglesa (MI5) – posições centrais nas histórias de perseguição tradicionais que aqui adquirem contornos maiores do que o lado bom x lado mau. A série dramática é uma produção britânica para a BBC America, baseada nos romances seriados Codename Villanelle, de Luke Jennings, criada por Phoebe Waller-Bridge e estrelada por Sandra Oh (Cristina Yang, de Grey’s Anatomy) e Jodie Comer (de My Mad Fat Diary). A Maratone como uma Garota! discute um pouco a primeira temporada, especialmente a concepção das duas protagonistas!

 

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Eve (Sandra Oh) é uma agente da Inteligência Britânica muito sagaz, porém subestimada no trabalho, que tem uma fixação por assassinatos e mulheres criminosas e começa a investigar uma assassina profissional internacional, Villanelle (Jodie Comer). Logo, Eve se vê diante de uma grande organização do crime e Villanelle parece apreciar sua busca incessante. Elas vão adquirindo uma fixação mútua, o que move o roteiro, que economiza suspenses. Com 8 episódios, a velocidade das ações é rápida e as coisas se resolvem sem muitas delongas. O apelo ao espectador, aqui, vem muito menos do mistério e da ansiedade de revelações que um thriller policial normalmente oferece e mais de uma curiosidade para com as motivações e ações da antagonista e da protagonista.

 

Eve, envolta no prazer de estar à frente de algo tão grandioso (como ela diz, “salvar o mundo da assassina”), começa a romper barreiras éticas e revelar outros lados de sua personalidade. Ela vai “morrendo” aos poucos (Killing Eve traduz-se por “Matando Eve”) para renascer e experimentar outra vida, em outro nível de ação. E é em Villanelle que encontra um ponto de transformação. Sim, o trunfo da série é a interação narrativa e artística entre as duas atrizes principais, ainda que outras mulheres também assumam papéis de destaque. A esfera psicológica tem, portanto, um papel central no desenvolver da trama, movendo as personagens e desestabilizando expectativas do público. Tudo isso se expressa na montagem, especialmente no encadeamento de planos e contra-planos, que não se limitam a contrapor pontos de vista, mas engendrar a intimidade que sendo estabelecida, e nos enquadramentos que sempre revelam alguma nuance característica de cada uma.

 

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A premissa do jogo de perseguição policial – bandido está, aqui, recheada com o tom de imprevisibilidade que a psicopatia e frieza da antagonista, Villanelle, proporciona. O que esperar de alguém cujo prazer do trabalho de assassina não lhe impõe limites? Poucos clichês emergem, ainda que alguns pontos soltos eventualmente surjam, o que não atrapalha o desenrolar da história, justo porque Eve e Villanelle não são óbvias, não são arquétipos fixos e previsíveis. Assim, as incoerências na narrativa, como perseguições óbvias, viagens imprevistas, resoluções e recursos que não existiriam na prática, se tornam “irrelevantes” quando o que se sobressai é na verdade a lógica de dominação e sedução estabelecida. Ainda que seja um enredo de perseguição, as fronteiras do jogo se tornam nebulosas e já não se percebe tão nitidamente as reais motivações dessa busca.

Grande parte do êxito e da potência da produção está na performance das atrizes, incluindo aqui não somente Sandra e Jodie, mas também Fiona Shaw, que interpreta Carolyn, da inteligência russa e quem recruta Eve. Kirby Howell-Baptiste, única mulher negra da produção, interpreta Elena Felton, a assistente de Eve, e vai perdendo presença com o passar dos episódios, ponto em que a série peca, já que parece não valorar suas ações e subjugar sua trama. A estética corporal e a atuação carregam traços de personalidades – como os trejeitos ora joviais e despreocupados de Villanelle, ora violentos. Sandra Oh imprime no corpo a satisfação e a segurança que sua personagem vai desenvolvendo ao longo dos episódios.

Para quem aprecia histórias policiais, sem dúvida Killing Eve reserva uma experiência de suspense e envolvimento subjetivo muito interessante. A segunda temporada já está no ar e a série, que fez Sandra Oh ser a primeira atriz de origem asiática indicada ao prêmio Emmy de Melhor Atriz, já foi renovada para uma terceira!

 

 

 

* Por tradicionais, pretendo me referir aos modelos a que comumente as mulheres são associadas, como por exemplo: maternal, protetora, amável, o elo frágil do grupo, ou quando as ações de uma personagem, ou sua personalidade, são moldadas em função de um personagem masculino.

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Especial Ships Femslash nas Séries

Por Enoe Lopes Pontes

Você sabe o que é ship femslash? Sim, isso mesmo! São os casais LGBTQ+ que envolvem mulheres!!! Em algumas histórias, eles aparecem em maior ou menor grau, de forma satisfatória ou não. A conversa é complexa, mas existem formas de começar a descobrir o melhor caminho para representar estes pares na ficção. No caso deste site, na séries. E para você que vê as tramas quase prendendo a respiração, esperando a representatividade aparecer e berra quando isso acontece, este é um post especial sobre o tema e acabou de chegar! Então, pegue a sua pipoca, se ajeite na cadeira e foca no texto do Série a Sério! Hoje, vamos elencar os melhores casais lésbicos da TV!!!

Os critérios de análise passaram por plot da dupla, desenvolvimento da história, se é fanon ou canon – ninguém quer ser enganado aqui, né, queridxs? -, como os autores tratam o casal e o seu fandom e, claro, os shippers!!!! Tudo isso para trazer uma seleção equilibrada, tendo coração e razão envolvidos. Afinal, a importância destes ships está também ligada ao que eles representam! E para a experiência ser completa, no final você confere um pequeno glossário com essas palavrinhas da internet, maravilhosas, que são usadas para descrever este e outros universos!

Mas, nem tudo são flores! Infelizmente, quem acompanha narrativas ficcionais, seja série, filme, livro etc, sabe que a existem algumas probabilidades negativas quando o assunto é a representação de ships LGBTQ+. Opções preocupantes: ser Queerbaiting e ficar no fanon para sempre ou alguém do casal morrer. Por esta razão, a forma como o romance femlash aconteceu e se desenvolveu no seriado foi o foco do texto. Ah, obviamente, a fofura também foi contabilizada!

 

Confira!

 

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5 – Doccubus – Formado por Bo (Anna Silk) e a Dra. Lauren (Zoie Palmer), o ship fazia parte da série Lost Girl. Com a protagonista fazendo parte deste casal, o seriado conseguia trazer plots e tensões interessantes para a dupla, tratando-as como um par romântico efetivo, sem tornar o fato de elas serem duas mulheres uma preocupação para a estabilidade entre elas.

 

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4 – Cophine – vivido pelas personagens Cosima Niehaus (Tatiana Maslany) e Delphine Cormier (Évelyne Brochu), o par femslash vivia numa montanha russa de emoções. Mas, isso não estava relacionado à sexualidade das duas – o que já são 100 pontos para a Grifinória!!! O importante na tela, quando o assunto era o romance do casal, eram as dificuldades e felicidades que elas poderiam ter dentro da narrativa. Os conflitos e cliffhangers eram justificados pela história, fomentavam a complexidade do envolvimento delas e ninguém precisou morrer no final.

 

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3 – Brittana – A série Glee (2009-2015) ficou conhecida como uma produção que valorizava múltiplas etnias, sexualidades e identidades de gênero. Neste universo, existia um casal de meninas que foi ganhando espaço dentro do enredo, ao longo das temporadas do seriado. Brittany Pierce e Santana Lopez eram duas líderes de torcida que possuíam uma relação escondida. Contudo, a escola inteira acaba descobrindo o caso das duas e, processualmente, elas vão se assumindo. O desenvolvimento de como Brittana vira um ship canon, os problemas enfrentados no colégio, a passagem pra faculdade, até a chegada na vida adulta e o casamento delas completam uma espécie de ciclo. A sensação que o espectador pode ter é de completude e realidade. O maior ganho aqui é ver o cotidiano de Santana e Britany. Coisas simples e bobas de casal mesmo!

 

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2 – Calzona – Abaixa que é tiro! Quem assiste Grey’s Anatomy (2004-) já está acostumado com os intensos e contínuos plots twists, as tragédias, perdas e ganhos dentro da trama. Ainda com todo esse misto de emoções e tensões, o casal Callie (Sara Ramirez) e Arizona (Jessica Capshaw) é um dos maiores ships que a televisão já viu. Por quê? As duas são médicas no mesmo hospital,isso faz com que dividam interesses semelhantes, rotinas intensas e se entendem dentro dessa dinâmica. Além disso, o par é mostrado de forma séria. Elas casam, formam uma família e mostram para o público os desejos e realizações quando duas mulheres se apaixonam e se unem.

 

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1 – Stef e Lena – Em 2013, a emissora Freeform lançou uma série como nunca antes vista! Com sensibilidade, a produção mostrava a rotina de duas esposas que possuíam uma família enorme, cheia de filhos. Como a maioria deles era adotivo, existiam muitas tensões com os tramites e pais biológicos. Contudo, o foco maior eram o estresses do cotidiano mesmo. Stef (Teri Polo) é uma policial e Lena (Sherri Saum) professora e coordenadora de colégio. As duas, juntas, fazem toda uma dinâmica “good cop/bad cop”, que acaba sendo muito fofo! Exatamente como toda família, sempre existe umx mãe/pai mais tranquilo e outrx mais rígido. E são justamente estes detalhes da rotina familiar que encantam no seriado. A forma como elas criam as crianças, se relacionam entre si e têm o olhar apurado para os entes queridos e para o mundo toca o coração e fazem deste ship o femlash mais OTP de todos os tempos!

 

BONUS: Dicas de ships femlash INDISPENSÁVEIS para conhecer – Willow e Tara (Buffy – A caça vampiros); Carol e Susan (Friends); Alex e Piper (Orange is the New Black); Morello e Nicky (Orange is the New Black); Thereza e Helô (Coisa mais Linda); Alex e Maggie (Supergirl); Lexa e Clarke (The 100); Karma e Amy (Faking it); Clara e Marina (Em família); Bette e Tina (The L Word); Dana e Alice (The L Word); Alison e Emily (Pretty Little Liars); Emily e Paige (Pretty Little Liars); Carlota e Sara (As Telefonistas); Waverly e Nicole (Wynonna Earp); Nomi e Amanita (Sense 8).

 

GLOSSÁRIO

Canon – acontece dentro da narrativa original

Fandom – grupo de fãs

Fanon – acontece apenas dentro de material, fóruns e debates de fãs.

Femslash – casais LGBTQ+ entre mulheres

OTP – One true pairing – um par único

Ship – Casal

Shipper – quem torce para casais

Queerbaiting – Isca para LGBTQ+, a representatividade parece que vai acontecer, mas nunca ocorre.

 

Top 5 – Clones de Orphan Black

por Enoe Lopes Pontes

A quinta temporada de Orphan Black (2013-) está no ar e nas redes. A série canadense, produção da BBC America, conta a trajetória de Sarah Manning e a bizarra descoberta que a moça faz no metrô de sua cidade, ao ver uma mulher igualzinha a ela se suicidar. Como Manning estava fugindo do ex-namorado bandido, ela resolve roubar a identidade de Elizabeth Childs, a suicida, o que acaba sendo o início do plot do programa e que gera a consequência do encontro da fugitiva com nada mais nada menos que diversos clones.

Assim, desde o princípio, o público sabe que a produção lida com a temática de clones e, aos poucos o espectador vai desvendando alguns mistérios da trama e conhecendo novas figuras que possuem a mesma face, todas interpretadas por Tatiana Maslany (Being Erica) que, inclusive, conquistou o Emmy Awards de melhor atriz de série dramática em 2016.

Pensando nas diversas personas clonadas do seriado, o Série a Sério traz agora uma lista dos cinco melhores clones vividos por Tatiana Maslany em Orphan Black. Confira o ranking e descubra se sua favorita está por aqui!

5) Krystal Goderitch – A divertida manicure aparece na terceira temporada de Orphan Black. Krystal faz o estilo perua. Com seus longos cabelos loiros, unhas perfeitas e vestidos justos, a moça não aparece muito na série, mas ocupa a quinta posição por sua simpatia e por não deixar que o estereótipo de mulher muito arrumada diminua sua sagacidade.

 

4) Helena – Eita clone complicado! Talvez essa seja a personagem mais complexa da série. Apresentando uma personalidade difícil de lidar, Helena cuida muito bem daqueles que ama e não mede esforços para protegê-los, destruindo qualquer coisa ou pessoa para realizar este objetivo. Ela foi criada de forma pouco convencional e separada de sua irmã gêmea (sim, além de clone ela é gêmea). Os pontos altos da personagem são quando ela está ao lado da “sestra” (irmã) fazendo com que as duas tenham um laço um mais forte do que com outros clones. Helena ocupa o terceiro lugar pela sua personalidade única, sua força e coragem e pela fé cênica da Tatiana Maslany que consegue fazer com o que o público compre suas construções de personagem.

3) Sarah Manning – Se existe algum clone protagonista esta é Sarah. Desde o início do programa é ela que faz as descobertas, que introduz o espectador ao estranho universo dos clones e todos os mistérios da narrativa. A bad girl, que se disfarça da policial Elizabeth, é a chave para uma resposta que ninguém dentro ou fora do programa sabe. Manning e sua gêmea são capazes de engravidar, sendo que nenhuma das outras mulheres clonadas consegue realizar o feito. Esse fato pode ser a resposta para muitas questões da série.

2) Cosima Niehaus – Cientista brilhante, Cosima é uma das personagens mais amadas de Orphan Black. Além do charme e simpatia da garota nerd, ela protagoniza um romance complexo e intenso com uma outra geek de laboratória, Delphine Cormier, dando origem ao ship Cophine. Marcada pelos belos dreads, ela é o ponto de equilíbrio no seriado. Enquanto todos podem agir de forma passional, Niehaus pensa em estratégias, é racional. Seu eu de exatas só balança quando se trata de Delphine e é aí que mora a complexidade da personagem.

1) Alison Hendrix – À primeira vista, Alison Hendrix parece mais uma daquelas “soccer moms”(mães do futebol, termo comum nos Estados Unidos e Canadá para falar das donas de casa dedicadas), mas ela é muito mais que isso. Para além da sua paranoia e vontade excessiva de consumir álcool, Hendrix é a personagem mais cativante de Orphan Black. Cheia de camadas e complexidades, ela consegue com que os espectadores se identifiquem e se distanciem dela a todo instante. Ali é quem faz o público lembrar que aquela poderia ser uma história próxima do nosso cotidiano, mas que também não é. Engraçada, carismática e cheia de facetas, Alison ocupa o primeiro lugar do ranking do Clube dos Clones.

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