Br em Série: Cordel Encantado, a novela que vale a pena ver de novo e de novo

Como falar de produtos seriados brasileiros e não falar de telenovelas? Apesar das mudanças que vêm ocorrendo no consumo televisivo nos últimos anos, e da permanência do preconceito estético em relação à enredos melodramáticos (ou “novelescos”), que supostamente elencam discussões sobre manipulação e alienação, elas ainda estão entre os principais gênero audiovisuais consumidos no Brasil.

Por certo, levando se em conta a longa história e quantidade de novelas produzidas, é compreensível, que assim como as séries, nem todas tenham sucesso, ou sejam produtos minimamente interessantes. O fato de serem exibidas em canais televisivos, ou seja, seguirem uma programação de horários fixos diários, tem contribuído para subtrair cada vez mais o número de espectadores que migram para as plataformas streaming. Porém, ainda é possível ver algumas “quebra-regras” como no caso da novela Cordel Encantado, escrita por Duca Rachid e Thelma Guedes.

 

 

A novela Cordel Encantado nos apresenta uma fábula que se estabelece a partir do encontro de dois universos fictícios, um reino europeu, Seráfia, e o sertão nordestino, Brogodó. A trama oferece referências, misticismo, humor e romance, na mistura de literatura de cordel (cultura popular) com a tradição europeia. A obra não só obteve bastante sucesso de público e crítica em sua primeira exibição na Globo em 2011, no horário de 18h, como também deixou sua marca no horário da tarde, finalizando com notável sucesso, no 03 de maio 2019, sua curta reprise no Vale a Pena Ver de Novo.

 

Inovações narrativas com base na mistura de clássicos

Oito anos depois, a novela de direção de Amora Mautner, mostrou que seu sucesso não foi pontual. Exibida no programa Vale a Pena Ver de Novo, bateu recordes de audiência, em um horário de pouco valor (entre 15h e 17h). Esse sucesso alcançado por Cordel Encantado se explica, logicamente, por suas muitas qualidades, primeiramente narrativas, visíveis desde o primeiro capítulo, e também como um sinal do cansaço do público com o modelo que tem dado a tônica da maioria das novelas nos últimos anos.

Ao invés do uso abusivo de realismo e naturalismo próprio da maioria das telenovelas, Cordel apostou em criar um mundo encantado próprio, da combinação dos contos de fadas com uma ambientação bem regional. O enredo traz elementos da literatura de cordel e das histórias do sertão, relembrando a celebridade que carrega esse tipo trama, como, por exemplo, Auto da Compadecida. O ritmo instigante e ágil, mas que não deixava de dar tempo necessário para que o público conhecesse os personagens e embarcasse na história, é sentido do primeiro ao último capítulo.

 

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A favor da novela também pesa o quesito tempo, na comparação com as novelas, teve a duração mais curta dos capítulos (40 minutos) e um menor tempo de permanência no ar (cinco meses). As autoras não adiaram nenhuma resolução. As tramas eram propostas e logo solucionadas de maneira adequada. Isso não só ocorreu com as subtramas, mas também o mote principal, como por exemplo, a revelação que Açucena (Bianca Bin) era a princesa perdida, ainda logo no início da novela. É comum ver novelas se arrastando com tramas simples por vários capítulos, ou mudando o enredo apenas pelo sucesso da obra com o público (o tão falado hoje, “fanservice”).

No entanto, esta “ligeireza” foi responsável, mais para o final da narrativa, por cair na famosa “enrolação”. Houve uma fase em que, semanalmente, o vilão o Timóteo (Bruno Gagliasso) tramava alguma emboscada ou malvadeza e Jesuíno (Cauã Reymond), o herói, descobria e salvava a princesa e/ou a cidade. Porém, para quem gosta (ou no mínimo sente nostalgia) dos contos de fadas, isso não interfere na apreciação da obra, principalmente porque esse suposto chicerismo se quebra quando se percebe que a princesa é uma nordestina, o mocinho é filho de cangaceiro e o vilão um louco mimado filho de coronel.

A expressão fanservice tem sua origem no universo dos animes e consiste na introdução de elementos supérfluos, com o simples objetivo de entreter o público. No entanto, o termo foi sendo gradativamente incorporado por outros domínios fictícios, agregando mais e mais amplitude ao seu significado. Diálogos pretensiosos, casais extremamente forçados, personagens tendo suas personalidades radicalmente alteradas do nada. Esses são alguns exemplos de fan services mais recorrentes dos produtos seriados (lembrou de algum?). A intenção esse tipo de estratégia é manter o público fiel e extrair dele reações positivas para conservar e até elevar o hype do programa.

 

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A diversão oferecida ao longo dos meses superou, de longe, esta limitação. O saldo de Cordel Encantado é positivo e  entra para o seleto grupo de novelas que o espectador lamenta quando termina, não é à toa que voltou à Globo. A reprise, inclusive, causou menos a sensação de enrolação, pois foi reeditada para o horário da tarde, e perdeu esses “excessos”.

Outra inovação narrativa é a inversão da ordem de exibição do último e do penúltimo capítulo. O da véspera é típico dos finais novelescos, cheio de emoção e desfechos, incluindo a morte do vilão Timóteo e o casamento de Jesuíno e Açucena em Seráfia. Já o final, praticamente não tem emoção nem surpresas, exceto pela apresentação de um novo vilão, dando brecha, quem sabe (talvez) para uma continuação.

 

Qualidade e cuidado ao detalhes: Música, figurinos e inovações tecnológicas

 

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Além dessas inovações narrativas, e de um elenco bem escalado, a direção de Amora Mautner e de Ricardo Waddington foi feliz em muitos outros aspectos, como em trazer o padrão de cinema (24 quadros por segundo) para a fotografia (inclusive com cenas aéreas belíssimas dos dois cenários e closes generosos no elenco). Também a qualidade dos figurinos, e da iluminação não ficam atrás. As vestimentas primorosas de época poderiam ilustrar modernos editoriais de moda. Por sinal, um elogio as personagens femininas, que mesmo numa trama de princesas, sertão e cangaço, são fortes cada uma em seu jeito particular. Daria para escrever um artigo sobre cada personagem.

O que fica um pouco problemático é a questão da regionalidade. Vê-se que há uma pesquisa e cuidado quando se trata de situações da história do sertão nordestino (ainda mais se referindo a um período antigo), e o fato de se passar em uma cidade fictícia, tira um pouco o peso da representação. Mesmo assim, é possível ver alguns sotaques mais exagerados e estereotipados. Também faz falta mais atores e atrizes nordestinas, apesar de este ser, o melhor papel da vida de muitos atores do elenco.

 

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Outra questão é em relação a trilha sonora, artifício forte das telenovelas. Algumas pessoas sentiram falta de músicas e músicos mais tradicionais do cordel e do sertão (o que seria uma ótima forma de divulgação), porém, creio que trazer, Alceu Valença, Karina Buhr, Lenine, Zé Ramalho, Núria Mallena, entre outros, efetiva essa sensação de nostalgia e regionalismo da trama. Inclusive a abertura, cantada e contada por Gilberto Gil e Roberta Sá, consagram a combinação entre regional e moderno.

A novela se despediu mais uma vez levando seus personagens, cenários e músicas. Foi se embora com seu conto de fadas, suas referências literárias, à História, e a filmes famosos, com seu toque pop e moderno. Só resta esperar por outra reprise, ou quem sabe uma continuação, e lembrar que até as novelas, com criatividade e respeito a nossa história e tradições, podem ser muito mais que melodramas manipulativos ou sem conteúdo.

 

BR em Série: Coisa Mais Linda: Um retrato moderno da Bossa Nova

Existem inúmeras histórias sobre mulheres empreendedoras e a frente do seu tempo. Atualmente esse tipo de enredo tem adquirido maior sucesso e prestígio nos programas seriados, obtendo, inclusive, pontos positivos de audiência e crítica. Dentro nessa estimativa, a Netflix estreou a série brasileira Coisa Mais Linda, criada e produzida por Heather Roth, e Giuliano Cedroni, criador das séries (FDP) e Outros Tempo- Velhos, da HBO. A premissa principal é bem comum, representar um contexto histórico a partir da perspectiva de quatro mulheres bem diferentes, Maria Luiza (Maria Casadevall), Adélia (Patrícia Dejesus), Lígia (Fernanda Vasconcellos) e Thereza (Mel Lisboa). Nesse caso, o contexto é final de década de 50 e início dos anos 60, quando o Rio de Janeiro estava fervendo culturalmente e a política vivia um momento de esperança com Juscelino Kubitschek. Isto é emblemático e a escolha define não só o plot da série, como também toda sua construção narrativa e simbólica.

É nesse período que nasce a Bossa Nova, gênero musical brasileiro (ou seria melhor dizer carioca) que mistura samba com Jazz, e que se consagrou internacionalmente, sendo muitas vezes considerado “símbolo do Brasil”. Com o tempo, acarretou a imagem da boemia, de praia, de letras românticas e profundas, que foram compostas por jovens músicos de classe média alta. Mesmo sem viver essa época, nosso imaginário (brasileiro e qualquer pessoa que procure estudar/ler sobre esse gênero) já está carregado com esses símbolos, e também por muitos estereótipos.

 

 

O seriado traz justamente essa atmosfera da Bossa para construir sua narrativa, como fica explícito já no título, em homenagem a música mais marcante de Jobim e Vinícius de Moraes, “Garota de Ipanema”. Coisa Mais Linda tem um bom aparato técnico, como a fotografia, o figurino, a ambientação e, claro, a trilha sonora nostálgica. Escala atrizes jovens e bonitas, com personagens fortes e especiais, que nos trazem aquela sensação de esperança e fantasia. Em resumo, traz a típica da imagem de exportação do Rio turístico, ressaltando as atrações conhecidas pelos turistas, como o samba, as praias e pontos turísticos, valorizados  em plano aberto.

O problema não é essa ordinariedade, afinal, é bem sucedida em tentar captar seu objetivo e seu público alvo. Quem gosta de narrativas melodramáticas e despretensiosas, com certeza aproveita esses pontos positivos. O que quebra a lógica é justamente a série tentar, mas não assumir, o drama político que se propõe (como fica evidente por exemplo, na correria da trama em resolver as coisas). As questões de gêneros e feminismo, acabam se tornando quase como “citações”, justamente, talvez, por essa vontade de falar de tudo sem se aprofundar.

 

Música, referências e superação

 

 

Assim como os seriados As Telefonistas e Maravilhosa Sra. Maisel, Coisa Mais Linda deixa claro que o foco está nas histórias de vida e superação das mulheres protagonistas. É um artifício comum colocar mulheres diferentes (quase opostas) no jeito, personalidade e na aparência como um grupo de amigas, cúmplices, e que ajudam umas às outras a superarem seus desafios, que no caso, é a luta, enquanto mulheres, por sua independência e liberdade. Apesar da ingenuidade retratando essas relações, (ainda) é necessário ver mulheres nas telas não colocadas como rivais, e vê-las trabalhando juntas, mesmo que em um muitos casos, essa ideia de união não aprofunde questões íntimas e de desigualdade entre elas.

Por tanto, trata-se de uma série leve, do tipo que dá para se assistir de uma só vez, mesmo trazendo à discussão assuntos sérios como preconceito racial, abuso sexual e psicológico e violência. Isso porque a narrativa se constrói de maneira direta, os micro conflitos têm resoluções rápidas e simples. Além disso, é recheada de músicas da Bossa Nova, do samba e do jazz, além outras referências desse período (como o próprio nome das personagens e suas personalidades remeterem a músicas).

Você pode se perguntar, por que falar da lutas de mulheres com um gênero musical tão masculino, que justamente coloca as mulheres como musas e objeto de admiração? Acredito que a proposta da série seja justamente tentar subverter essa questão (inclusive, acho que vem daí a escolha da produção pela versão de Amy Winehouse da música de abertura, além do fato de ser mais interessante a versão em inglês para o público internacional). Não só a Bossa Nova, mas o samba, os meios de comunicação (inclusive os que falam e são para nós, como a revista que Thereza trabalha), tudo é comandado por homens, ou é mais valorizados se feitos por eles. E a série foca bastante nessa problemática, quando, por exemplo, o crítico famoso elogia o músico Chico e menospreza Lígia e Malu, ou, no desfecho da temporada, que simboliza essa eterna sabotagem da sociedade com as mulheres, que mesmo quando tudo vai bem, parece dar certo, somos negadas, roubadas e mortas, diversas vezes.

 

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Resoluções fáceis e problematizações frias

Apesar desses atributos convidativos, a série está longe de trazer grandes discussões e falha em tentar problematizar questões que não consegue sustentar. O primeiro grande problema, é a escolha da protagonista Malu. Isso não é um problema somente dessa narrativa, outras como, Orphan Black, fazem o enredo girar em torno de uma das mulheres ditas protagonistas (afinal o conflito principal começa com elas), só que na maioria dos casos, elas e seus conflitos se tornam chatos e superficiais. No caso de Malu ela ganha na comicidade, mas perde quando tentam forçadamente encaixar ela com a típica protagonista de comédias românticas, que é atrapalhada, mas inteligente, e vive dilemas amorosos com o galã (ou pior, mas não fica claro, criar aquela dúvida de ter que escolher entre dois caras).

Outro ponto sobre isso é o questionamento do por quê ela ser a escolhida para guiar a história, se seu arco é menos interessantes se pensarmos em Brasil. Mesmo com a cena instigante do embate entre Malu e Adélia, quando a primeira quer desistir do empreendimento, e em que se discute justamente questões como, lugar de fala, meritocracia, privilégios, Adélia (mas também as outras duas) não têm seu arco valorizado para além de cenas rápidas como essa. Tanto que, depois desse momento, que ocorre no início da série, não voltam a problematizar essa relação, pois, seguindo a lógica da narrativa, Malu parece se dar conta dos seus privilégios e tudo se resolve de maneira muito ingênua, sem mais embates nesse sentido. Adélia, uma mulher negra, solteira que trabalha como empregada, mas que é muito forte -a ponto de ficar em dúvida se casa com Capitão (Ícaro Silva) ou não-  também perde força, quando sua trama se volta quase que exclusivamente para quem é o pai da sua filha, e de novo esse conflito entre escolher entre dois homens é empregado.

 

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No fundo tudo se resume a essa correria narrativa, sentida na montagem (cortes bruscos) e no ritmo estranho, que concretiza um final apressado, e soluções pouco convincentes para os problemas que eram interessantes de acompanhar, como a questão do pai da filha de Conceição, ou a relação entre Thereza e Helô (Thaila Ayala). O equívoco poderia ser resolvido talvez com mais episódios, ou menos cenas de transição (cenas figurativas que não acrescentam nada à narrativa). A série propõe desenvolvimentos interessantes, mas tira o peso de algumas situações e problemas, como exemplo, todo drama de Lígia, que no começo sentimos seu sofrimento num casamento abusivo e o medo de sair dele, por conta do amor e por pressões da sociedade, mas todo esse impasse é resolvido e superado dentro de quase um episódio (até a discussão sobre aborto quase passa despercebido).

Além disso, a série ainda sofre com alguns vícios novelescos, como o excesso de falas explicativas, e não é por uma questão de atuação. A verborragia excessiva  torna o diálogo sem graça e óbvio, tirando a imersão do público, que mal tem tempo de pensar e já ganha respostas prontas. Outra questão é a marcação de núcleos com a trilha sonora. Se a cena está na praia, ou na classe média toca Bossa Nova, mas no morro, por exemplo, começa a tocar um samba. Sintoma de de pouca criatividade e reforço de estereótipos, mesmo que seja com a intenção de ambientar. A música fundo das cenas de romance, por exemplo, acabam chamando mais atenção por conta da repetição demasiada que cansa o espectador. Por isso, pode se dizer que Coisa Mais Linda é audiovisualização de uma Bossa Nova, só que essa com mulheres protagonistas.

 

 

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

BR em Série: Nem 8 nem 80, distopia brasileira “3%” apresenta inovações, mas mantém velhas problemáticas

A série 3%, desde seu lançamento em 2016, dividiu opiniões e proporcionou debates a respeito das produções nacionais. O seriado já caminha para sua terceira temporada, em 2019, tendo sido a série de língua não-inglesa mais assistida dos EUA, além de ser uma das séries brasileiras da Netflix de maior sucesso. É impossível não se questionar o que proporciona esse efeito se, por outro lado, tantas foram as críticas desfavoráveis por grande parte do público e da crítica brasileira. Uma conclusão mais ingênua levaria a velha falácia, “falem mal, mas falem de mim”, isto é, todo o burburinho em torno da série teria influenciado na sua visibilidade. Essa afirmação não é de todo falsa, porém, esse não é único responsável. Dois pontos podem ser considerados importantes para pensar essa recepção: primeiro, trata-se de uma trama que mistura gêneros clássicos e populares, um mundo ficcional distópico carregado de ação, aventura e suspense; e segundo, a exigência por narrativas mais coesas e coerentes.

O enredo é típico das histórias sobre mundos ou futuros ficcionais edificados sob uma organização política-social que representa a antítese da utopia ou uma “utopia negativa”, a chamada distopia. Esse tipo de enredo não é novo, ficou famoso principalmente na literatura com George Orwell e Aldous Huxley, e no meio audiovisual se consagrou e persiste até hoje. Muitos compararam, inclusive, 3% à saga Jogos Vorazes, que também retrata uma distopia política e social e que obteve muito sucesso de público. Contudo, no seriado temos marcas de uma distopia contextual, no caso, bem brasileira. Mesmo se passando num universo fantasioso, a trama encara vestígios do Brasil real e atual. Nesse universo, os habitantes do lugar chamado Continente, ao completarem 20 anos, podem se inscrever em um processo seletivo cruel em que apenas três por cento deles são aprovados e aceitos para irem ao outro lado (Maralto), bom e perfeito. Criada pelo jovem Pedro Aguilera – que pensou a trama em 2011 e colocou três episódios no youtube com esperança que comprassem sua ideia – e dirigida na sua primeira temporada por Daina Giannecchini e o fotógrafo César Charlone (Cidade de Deus), a série em princípio carrega um caráter ensaístico, mas vai ganhando contornos e profundidade à medida que avança, por outro lado, desmonta nos detalhes e em aspectos básicos do roteiro, como diálogos e construção de personagens.

 

Crítica política com metáforas comuns 

O ponto chave da série é trazer os aspectos do gênero ficção, futurismo, e distopia para o Brasil, tanto narrativamente quanto na produção. A Rede Globo ensaiou algumas outras séries nesse sentido, mas sem dúvida a Netflix conseguiu produzir uma das maiores histórias de ficção científica seriada brasileira até agora. Nesse sentido, é injusto criticar o enredo como um todo. Finalmente temos um fim de mundo brasileiro, subtramas de infiltrados, conspiração, anarquia, num lugar fictício, mas notadamente uma metáfora do país. Mesmo que não esteja explícito na série, fica claro que a história se passa num lugar como Brasil. O plot principal, “O Processo”, é quase uma alegoria do vestibular e todo discurso sobre meritocracia e desigualdade social.

 

 

O que muitos chamam de “clichê”, são artifícios típicos do gênero, ou recriações de outras produções – que podem, inclusive, funcionar inclusive como referências (como é o caso da série Strange Things). Porém, não se pode atribuir todas as críticas a chamada “síndrome de vira-lata”, que vê os produtos nacionais com pessimismo e como inferiores.  Essa “síndrome” ainda é muito forte e real, mas a Netflix vem quebrando essa regra produzindo séries em diversos países e muitas com alta qualidade. Por outro lado, as narrativas muitas vezes acabam se enquadrando num padrão trivial e globalizado, influenciado bastante pela plataforma, que é o caso de 3%. O enredo simples e convencional, e muitas vezes redundante, acaba funcionando como uma crítica superficial, mas não deixa de ser atrativo, ainda mais porque foi lançado no momento da polarização política que tem consequências até hoje. Do meio para o final das temporadas, começa a se rechear a trama com ação e suspense, o que eleva a narrativa a um bom entretenimento para quem gosta do gênero. Claro, fica difícil ver isso, quando se compara outras narrativas desse tipo. Poderia ser feito algo mais filosófico, estilo Black Mirror, por exemplo, mas, perderia, talvez, essa carga simplória e melodramática.

Quanto aos termos mais técnicos, para uma produção com pouco dinheiro, consegue-se criar uma atmosfera de ficção científica, principalmente com a montagem e fotografia. O figurino e o cenário do Continente (lado pobre), muitas vezes é forçado para apresentar essa desordem e caos, mas por outro lado, vê-se que há um cuidado com os detalhes. Já no Maralto, acontece o contrário, poucos detalhes e uma representação muito lugar-comum desse “paraíso”. Porém, este poderá ser mais desenvolvido na terceira temporada.

 

Complexidade e Profundidade: Conceitos menosprezados

A principal crítica é sem dúvida ao roteiro. É muito comum ver séries, novelas e minisséries brasileiras muito interessantes de conteúdo, produção e elenco, porém, sempre parece que se dá pouca atenção ao roteiro, principalmente na profundidade dos personagens e diálogos. Problemas no roteiro também geram a sensação de excesso, com muita coisa desnecessária e inútil, que acaba por cansar o público. Da mesma forma parece que tentam preencher “buracos” ou criar situações para agradar o público, típico de muitas produções mais comerciais. Por exemplo, colocando um casal que não faz sentido, simples e puramente porque o público gosta (ou porque acha que o público gosta). É comum esse tipo de estratégia em produções do melodrama, pois o objetivo é emocionar, com um sentimentalismo exagerado, mas aqui se torna trivial, até para o provável público alvo, os adolescentes.

 

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Os erros de roteiro criam personagens artificiais e estereotipados, sem qualquer indício de sutilezas emocionais ou ambiguidades psicológicas. A dramaturgia é frouxa e há pouca ligação entre fatos, atitudes dos personagens e diálogos. Não se espera um grande enigma ou tese, mas espera-se que as coisas façam sentido. Tudo isso deixa grande parte dos personagens chatos e pouco interessantes, como o caso do personagem Fernando (Michel Gomes) que tem um enredo inicial interessante, mas acaba se tornando o mero par romântico, o herói apaixonado.

Não se trata de atuação como muitos tentaram justificar, temos atores célebres desde o elenco principal, como o baiano João Miguel e a própria Bianca Comparato. O problema não são os atores e atrizes, são os personagens e os diálogos. O roteiro tem furos, e os personagens também parece que querem “preencher buraco”, deixando as ações rasas e muitas vezes previsíveis. Em outros momentos, os personagens agem de forma aleatória, como por exemplo, o “vai e volta” da personagem Michele (Bianca). Os diálogos são supérfluos, curtos e sem carga. A melhor personagem com pouco tempo de aparição é Zezé Mota (inclusive um personagem que precisa ser mais explorado). Os antagonistas são sempre muito maniqueístas, quando tentam dar um lado humano a eles, construir um arco a partir de suas relações e histórias de vida (como com Ezequiel e sua mulher Julia), se perdem, e na segunda temporada isso volta se repetir com a personagem Marcela (Laila Garin).

O problema com atuação pode ser atribuído mesmo, a figuração e aos atores secundários (problema de muitas produções brasileiras), que parecem ser pouco preparados e, por isso, agem de forma caricata e exagerada. Não se trata de dar explicações para tudo, você até aceita o mundo que eles criam (mesmo sem necessidade de falar como aconteceu para virar esse cenário distópico), mas por conta do roteiro fraco, não cria laços afetivos com os personagens.

 

Amadurecimento e alegorias

 

 

Em compensação, a partir do meio da temporada, a série ganha maior ritmo de suspense e ação, com micro-tramas interessantes, como a relação com os infiltrados. Aliás, toda a trama da Causa, movimento que propõe a derrubada do modo tradicional, que ganha força na temporada, é bem desenvolvida, mesmo que personagens como Michele e Fernando ainda estejam perdidos.

A crítica metafórica ao Brasil também se fortalece. Com o foco no Continente, vemos surgir pautas como a violência e sujeição  policial, e a atuação de milícias (sim, com esse mesmo nome), debates sobre corrupção e desigualdade se aprofundam, e debate as formas de resistência e revolução com um viés mais filosófico. Tratam também de religiosidade, ainda que superficial para falar de alienação, e do carnaval (com uma cena com música e performance da cantora Liniker), com intuito de tratar da ideia de pão e circo. Apesar disso, ainda se percebe que muita coisa do roteiro é pensado para conectar o público a realidade brasileira, mas, por exemplo, na cena do que se configura como um carnaval, apesar de belíssima, não faz diferença nenhuma para a trama como um todo, se configurando quase como um videoclipe.

Dentro da Causa, os personagens vão ganhando mais contorno, aliados a pensamentos de ideologia que questionam a lógica revolucionária, como por exemplo como ministrar a sociedade após a quebra do sistema, e o debate sobre individualismo e egocentrismo, representado por alguns integrantes que são impulsionados muito mais por motivos particulares que por uma teoria revolucionária.

A terceira temporada estreia ainda esse ano. Segundo informações da produção, esta irá focar no Concha, um terceiro lugar, representando a esperança.  A questão que fica é, se tivéssemos o poder para recomeçar, fazer algo novo, conseguiríamos fazer diferente? É esperar para ver! Abaixo o link da primeira e da terceira temporada.

 

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

BR em Série: Webséries brasileiras oferecem narrativas diversificadas e ganham espaço em premiações

Há algumas décadas, seriados audiovisuais eram apenas televisivos. Hoje, não os associamos mais somente à canais de TV (apesar de no Brasil a TV aberta ainda ser dominante) senão também à internet, principalmente com o crescimento dos serviços de streaming*, como a Netflix. Com o desenvolvimento tecnológico, essas mudanças revolucionaram não só as formas de assistir a séries, como também formatos e tipos de produções. Além deste serviço, existem outros estilos de produções audiovisuais surgindo e crescendo no mundo, como aquelas feitas para redes sociais e sites de vídeos. O Vimeo e o Youtube são exemplos disso. Estes materiais são popularmente conhecidos como webséries, que tem não só possibilitado produções mais acessíveis, como também uma maior pluralidade de temas.

Webséries ou seriados digitais são produtos serializados distribuídos online e com episódios mais curtos que os das séries televisivas comuns. Surgem no final da década de 1990, nos EUA, a partir do processo de convergência da web com a televisão, que depois consagrou-se enquanto formato com narrativa e especificidades próprias. Elas surgem pela necessidade do espectador consumir um conteúdo que poderia ser assistido casualmente. Por isso, variam entre 3 e 20 minutos de duração, mantendo uma narrativa mais simples, com histórias não muito complexas, que não exijam atenção total do espectador. A distribuição pela internet também possibilita uma maior liberdade criativa, pois não enfrentam as mesmas limitações de um conteúdo televisionado, o que incentiva a geração de conteúdos mais livres, a transformando em um formato midiático com oportunidades nos mais diversos nichos.

 

 

Em contrapartida, não há modelos de negócios e divulgação que tornem as webséries rentáveis, o que desincentiva muitos produtores. Por outro lado, assim como os curtas-metragens, os festivais são espaços possíveis de ganhar visibilidade e prêmios. O número de webfests têm crescido pelo mundo, e mesmo os festivais tradicionais de TV e Cinema com o Emmy e Cannes já abriram novas categorias visando essas produções. No Brasil, o maior é Rio WebFest, que teve sua edição inaugural realizada em 2015. Sediado desde 2016 na Cidade das Artes, se consolida como um dos maiores do mundo. A última edição aconteceu em novembro 2018, e premiou produções de diversas partes do Brasil.

 

Abaixo pequenas resenhas de algumas webséries com temáticas interessantes e que chamaram atenção nos festivais.

 

 

O Som do Amor: A Bahia em música e simplicidade

 

 

Não existe fórmula mais eficaz em atrair um público comercial do que histórias de romance. Um dos gêneros mais antigos, da comédia ao drama, as histórias de amor tem como forte, as relações amorosas e conflitos para viver o amor. A websérie  baiana, O Som do Amor, traz essa receita com muita simplicidade, aliado a outro forte artifício do melodrama: a música. Uma história de amor que se desenrola rápido, com um conflito usual, mas sem um drama exagerado, comum de produções assim. Tudo isso dá a produção um aspecto de ordinariedade. Porém, este logo se mostra ser o propósito da série, ou seja, retratar uma vida comum com o amor e a amizade. Marina e Dito, o casal protagonista, também conseguem trazer essa naturalidade a história. São 5 episódios de até 5 minutos que constroem relações que nós nos identificamos. O cenário, então, é bem romântico, com imagens lindas da cidade de Salvador. Talvez o que falte seja talvez circular por mais espaços, são poucos cenários por onde os personagens trafegam, como, por exemplo, a maioria das cenas acontece no mesmo bar. Isso não é de todo um problema, pois existem séries sobre grupos de amigos que fazem a mesma coisa, como os seriados Friends e How I Met Your Mother. Dado a realidade das séries digitais, com tempo curtos e baixo orçamento, é compreensível que se estruture uma narrativa mais concentrada e dê foco aos personagens principais. Falta desenvolver, talvez, os personagens secundários, que surgem quase como figurantes. O seriado ganhou Melhor Série Brasileira no Rio Web Fest e em breve terá lançamento da sua segunda temporada. Confira o trailer aqui:

 

 

Punho Negro: Uma história de super-herói contemporânea e brasileira

 

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Uma outra fórmula que também tem atraído um vasto público comercial são as narrativas de super-heróis. Apesar disso, o Brasil não tem muitas produções com essa temática. Uma justificativa usual para isso, é que essas produções normalmente são muito caras. De maneira engraçada e inteligente, a websérie baiana Punho Negro, traz uma super-heroína contemporânea, cheias de críticas a sociedade, sem deixar de rechear com cenas de ação e fantasia típicos do gênero. Os efeitos e a arte da série são uma questão a parte, com uma paleta de cores complementar ao figurino da protagonista, que também se adequam a arte dos créditos e da abertura que funcionam bem com a música. Efeitos simples, mas que não recaem sobre uma artificialidade (muito comum em produções que abusam de efeitos de computador gráfica). O projeto fica por conta do coletivo independente Êpa Filmes e traz personagens e situações, que, aliados com boas atuações, não deixam a desejar, tudo parece funcionar muito bem. Punho ganhou prêmio de melhor ideia original no Rio Web Fest, porém, ainda não há notícias sobre uma segunda temporada.

 

Link da serie no youtube:

 

Eixos: Narrativa distópica com uma produção majoritariamente de mulheres

 

 

Quem disse que Brasília não poderia viver um futuro distópico? Com uma fotografia, arte, maquiagem e figurino excelente, a websérie Eixos apresenta a capital do país em 2060, onde conflitos políticos e revoltas violentas levaram ao desmoronamento da ordem mundial, deixando a população a sua própria sorte. Imagens de ruínas, sujeira, calor e desesperado deixam a cidade irreconhecível. A narrativa que veio dos quadrinhos, com direção, roteiro e arte de mulheres, tem como protagonistas Cássia. A personagem é uma mulher forte, aventureira e dura e, junto com Inês, de personalidade mais leve, decide procurar seus amigos desaparecidos. A relação entre elas, que horas beira a uma relação amorosa, constrói uma história de luta e fé mesmo num mundo destruído. O problema que acontece em muitas narrativas desse tipo, é que muitas vezes se perdem nos detalhes. Os personagens secundários também enriquecem a narrativa, como Chico e Mãe Obá. Eixos foi indicada a melhor fotografia, melhor maquiagem e melhor série de ação no Rio Web Fest 2017. Link do trailer:

 

* Streaming Media é uma tecnologia sobre transmissão de conteúdos audiovisuais adquiridos  através de pacotes da internet, em que as informações não são armazenadas pelo usuário em seu próprio computador. odo vídeo “on demand” é transmitido via streaming. Mas nem todo conteúdo por streaming está sendo enviado sob demanda, ou seja conceitualmente é tudo o mesmo.

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

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