Crítica: Segunda temporada de Samantha! é mais divertida e intensa que anterior

por Enoe Lopes Pontes

 

Neste mês, a Netflix, como de praxe, disponibilizou o conteúdo inteiro do segundo ano da série nacional Samantha! Com sete episódios, a produção conseguiu crescer por apresentar um equilíbrio maior em seu ritmo. Isto, porque a narrativa mesclou os tempos de cena de cada conflito com uma atmosfera dos sentimentos das pessoas mostradas na tela, seus desejos secreto e sensações pessoais. E é aqui que está o grande ganho do seriado! Além de ter as gags e situações divertidas esperadas de Samantha (Emanuelle Araújo), Dodói (Douglas Silva), Cindy (Sabrina Nonata) e Brandon (Cauã Gonçalves), o público descobre também questões do íntimo deles, principalmente da protagonista. Talvez, tenha sido até uma estratégia positiva primeiro apresentar arquétipos de figuras típicas do imaginário brasileiro, como a estrela mirim dos anos 1980 ou o jogador de futebol enrolado, para depois ir mais a fundo nos detalhes sobre elas.

Os roteiristas (Paula Knudsen, Felipe Braga etc) vão colocando pinceladas de informação, lentamente. O espectador vai tendo contanto com a trajetória da “mocinha” e seus problemas na infância. Aos poucos, é possível montar o quebra-cabeça com as peças dadas por eles. Na história, Samantha começa a traçar seu caminho para crescer verdadeiramente e fazer papéis mais sérios, além de buscar ser boa mãe também. Este ápice acontece no 2×06 quando, finalmente, é explicada a relação da artista com a TV e pouco de suas origens.

 

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Araújo traz alguns detalhes em seus olhares que demonstram este amadurecimento e coloca até pequenas modificações de postura corporal, em momentos mais profundos. Contudo, todas as marcas que fazem parte de sua personalidade anteriormente continuam presentes, não se perdem. Assim como Samantha; Dodói, Cindy e Brandon recebem arcos com mais complexidade. Estas são de menor grau, é bem verdade, mas ganham. Porém, os atores não acrescentaram nada de diferente. Não que isto seja um ponto muito negativo. Contudo, poderia ter acontecido um desenvolvimento mais forte na atuação.

Uma possibilidade seria um trabalho do corpo que mostrasse um Dodói com uma pitada de sisudo, porque começou a cursar a faculdade de Direito. Ou, Cindy – que entrou, de fato, na adolescência – e Brandon – que decidiu aceitar que é mesmo uma criança -, poderiam trazer um pesar e uma leveza nas suas interpretações ou qualquer nuance de mudança. Afinal, eles passaram e estão passando por coisas que os afetaram, pelo menos isto aparece no texto que eles dizem, que confirma emoções e decisões novas. Mas, este fator pode ser uma falta de atenção e delicadeza da direção também, que colocou o foco maior na protagonista.

 

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Contudo, esse fato não compromete e coisas como não ter muito filler chamam mais atenção. Todos os acontecimentos são muitos justinhos dentro da trama. Samantha precisa crescer! Este é seu objetivo e toda a narrativa deste ano foca nisso, juntamente com subtramas que, ao invés de atrapalhar, ajudam a levantar o enredo principal. O relacionamento de mãe e filha entre Samantha e Cindy, a nova carreira de Dodói e os medos de Brandon, tudo isso fomenta o nó central, o desenlace e o cliffhanger do final.

Ainda que existam pequenas questões como dicção dass crianças e coadjuvantes de personalidade chapada, Samantha! se superou. A dinâmica entre o elenco continua a funcionar e camadas de complexidade foram colocadas, mostrando que a antiga artista mirim é muito mais do que quem assiste esperava, ela é uma OR…

 

 

BR em Série: Coisa Mais Linda: Um retrato moderno da Bossa Nova

Existem inúmeras histórias sobre mulheres empreendedoras e a frente do seu tempo. Atualmente esse tipo de enredo tem adquirido maior sucesso e prestígio nos programas seriados, obtendo, inclusive, pontos positivos de audiência e crítica. Dentro nessa estimativa, a Netflix estreou a série brasileira Coisa Mais Linda, criada e produzida por Heather Roth, e Giuliano Cedroni, criador das séries (FDP) e Outros Tempo- Velhos, da HBO. A premissa principal é bem comum, representar um contexto histórico a partir da perspectiva de quatro mulheres bem diferentes, Maria Luiza (Maria Casadevall), Adélia (Patrícia Dejesus), Lígia (Fernanda Vasconcellos) e Thereza (Mel Lisboa). Nesse caso, o contexto é final de década de 50 e início dos anos 60, quando o Rio de Janeiro estava fervendo culturalmente e a política vivia um momento de esperança com Juscelino Kubitschek. Isto é emblemático e a escolha define não só o plot da série, como também toda sua construção narrativa e simbólica.

É nesse período que nasce a Bossa Nova, gênero musical brasileiro (ou seria melhor dizer carioca) que mistura samba com Jazz, e que se consagrou internacionalmente, sendo muitas vezes considerado “símbolo do Brasil”. Com o tempo, acarretou a imagem da boemia, de praia, de letras românticas e profundas, que foram compostas por jovens músicos de classe média alta. Mesmo sem viver essa época, nosso imaginário (brasileiro e qualquer pessoa que procure estudar/ler sobre esse gênero) já está carregado com esses símbolos, e também por muitos estereótipos.

 

 

O seriado traz justamente essa atmosfera da Bossa para construir sua narrativa, como fica explícito já no título, em homenagem a música mais marcante de Jobim e Vinícius de Moraes, “Garota de Ipanema”. Coisa Mais Linda tem um bom aparato técnico, como a fotografia, o figurino, a ambientação e, claro, a trilha sonora nostálgica. Escala atrizes jovens e bonitas, com personagens fortes e especiais, que nos trazem aquela sensação de esperança e fantasia. Em resumo, traz a típica da imagem de exportação do Rio turístico, ressaltando as atrações conhecidas pelos turistas, como o samba, as praias e pontos turísticos, valorizados  em plano aberto.

O problema não é essa ordinariedade, afinal, é bem sucedida em tentar captar seu objetivo e seu público alvo. Quem gosta de narrativas melodramáticas e despretensiosas, com certeza aproveita esses pontos positivos. O que quebra a lógica é justamente a série tentar, mas não assumir, o drama político que se propõe (como fica evidente por exemplo, na correria da trama em resolver as coisas). As questões de gêneros e feminismo, acabam se tornando quase como “citações”, justamente, talvez, por essa vontade de falar de tudo sem se aprofundar.

 

Música, referências e superação

 

 

Assim como os seriados As Telefonistas e Maravilhosa Sra. Maisel, Coisa Mais Linda deixa claro que o foco está nas histórias de vida e superação das mulheres protagonistas. É um artifício comum colocar mulheres diferentes (quase opostas) no jeito, personalidade e na aparência como um grupo de amigas, cúmplices, e que ajudam umas às outras a superarem seus desafios, que no caso, é a luta, enquanto mulheres, por sua independência e liberdade. Apesar da ingenuidade retratando essas relações, (ainda) é necessário ver mulheres nas telas não colocadas como rivais, e vê-las trabalhando juntas, mesmo que em um muitos casos, essa ideia de união não aprofunde questões íntimas e de desigualdade entre elas.

Por tanto, trata-se de uma série leve, do tipo que dá para se assistir de uma só vez, mesmo trazendo à discussão assuntos sérios como preconceito racial, abuso sexual e psicológico e violência. Isso porque a narrativa se constrói de maneira direta, os micro conflitos têm resoluções rápidas e simples. Além disso, é recheada de músicas da Bossa Nova, do samba e do jazz, além outras referências desse período (como o próprio nome das personagens e suas personalidades remeterem a músicas).

Você pode se perguntar, por que falar da lutas de mulheres com um gênero musical tão masculino, que justamente coloca as mulheres como musas e objeto de admiração? Acredito que a proposta da série seja justamente tentar subverter essa questão (inclusive, acho que vem daí a escolha da produção pela versão de Amy Winehouse da música de abertura, além do fato de ser mais interessante a versão em inglês para o público internacional). Não só a Bossa Nova, mas o samba, os meios de comunicação (inclusive os que falam e são para nós, como a revista que Thereza trabalha), tudo é comandado por homens, ou é mais valorizados se feitos por eles. E a série foca bastante nessa problemática, quando, por exemplo, o crítico famoso elogia o músico Chico e menospreza Lígia e Malu, ou, no desfecho da temporada, que simboliza essa eterna sabotagem da sociedade com as mulheres, que mesmo quando tudo vai bem, parece dar certo, somos negadas, roubadas e mortas, diversas vezes.

 

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Resoluções fáceis e problematizações frias

Apesar desses atributos convidativos, a série está longe de trazer grandes discussões e falha em tentar problematizar questões que não consegue sustentar. O primeiro grande problema, é a escolha da protagonista Malu. Isso não é um problema somente dessa narrativa, outras como, Orphan Black, fazem o enredo girar em torno de uma das mulheres ditas protagonistas (afinal o conflito principal começa com elas), só que na maioria dos casos, elas e seus conflitos se tornam chatos e superficiais. No caso de Malu ela ganha na comicidade, mas perde quando tentam forçadamente encaixar ela com a típica protagonista de comédias românticas, que é atrapalhada, mas inteligente, e vive dilemas amorosos com o galã (ou pior, mas não fica claro, criar aquela dúvida de ter que escolher entre dois caras).

Outro ponto sobre isso é o questionamento do por quê ela ser a escolhida para guiar a história, se seu arco é menos interessantes se pensarmos em Brasil. Mesmo com a cena instigante do embate entre Malu e Adélia, quando a primeira quer desistir do empreendimento, e em que se discute justamente questões como, lugar de fala, meritocracia, privilégios, Adélia (mas também as outras duas) não têm seu arco valorizado para além de cenas rápidas como essa. Tanto que, depois desse momento, que ocorre no início da série, não voltam a problematizar essa relação, pois, seguindo a lógica da narrativa, Malu parece se dar conta dos seus privilégios e tudo se resolve de maneira muito ingênua, sem mais embates nesse sentido. Adélia, uma mulher negra, solteira que trabalha como empregada, mas que é muito forte -a ponto de ficar em dúvida se casa com Capitão (Ícaro Silva) ou não-  também perde força, quando sua trama se volta quase que exclusivamente para quem é o pai da sua filha, e de novo esse conflito entre escolher entre dois homens é empregado.

 

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No fundo tudo se resume a essa correria narrativa, sentida na montagem (cortes bruscos) e no ritmo estranho, que concretiza um final apressado, e soluções pouco convincentes para os problemas que eram interessantes de acompanhar, como a questão do pai da filha de Conceição, ou a relação entre Thereza e Helô (Thaila Ayala). O equívoco poderia ser resolvido talvez com mais episódios, ou menos cenas de transição (cenas figurativas que não acrescentam nada à narrativa). A série propõe desenvolvimentos interessantes, mas tira o peso de algumas situações e problemas, como exemplo, todo drama de Lígia, que no começo sentimos seu sofrimento num casamento abusivo e o medo de sair dele, por conta do amor e por pressões da sociedade, mas todo esse impasse é resolvido e superado dentro de quase um episódio (até a discussão sobre aborto quase passa despercebido).

Além disso, a série ainda sofre com alguns vícios novelescos, como o excesso de falas explicativas, e não é por uma questão de atuação. A verborragia excessiva  torna o diálogo sem graça e óbvio, tirando a imersão do público, que mal tem tempo de pensar e já ganha respostas prontas. Outra questão é a marcação de núcleos com a trilha sonora. Se a cena está na praia, ou na classe média toca Bossa Nova, mas no morro, por exemplo, começa a tocar um samba. Sintoma de de pouca criatividade e reforço de estereótipos, mesmo que seja com a intenção de ambientar. A música fundo das cenas de romance, por exemplo, acabam chamando mais atenção por conta da repetição demasiada que cansa o espectador. Por isso, pode se dizer que Coisa Mais Linda é audiovisualização de uma Bossa Nova, só que essa com mulheres protagonistas.

 

 

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

BR em Série: Webséries brasileiras oferecem narrativas diversificadas e ganham espaço em premiações

Há algumas décadas, seriados audiovisuais eram apenas televisivos. Hoje, não os associamos mais somente à canais de TV (apesar de no Brasil a TV aberta ainda ser dominante) senão também à internet, principalmente com o crescimento dos serviços de streaming*, como a Netflix. Com o desenvolvimento tecnológico, essas mudanças revolucionaram não só as formas de assistir a séries, como também formatos e tipos de produções. Além deste serviço, existem outros estilos de produções audiovisuais surgindo e crescendo no mundo, como aquelas feitas para redes sociais e sites de vídeos. O Vimeo e o Youtube são exemplos disso. Estes materiais são popularmente conhecidos como webséries, que tem não só possibilitado produções mais acessíveis, como também uma maior pluralidade de temas.

Webséries ou seriados digitais são produtos serializados distribuídos online e com episódios mais curtos que os das séries televisivas comuns. Surgem no final da década de 1990, nos EUA, a partir do processo de convergência da web com a televisão, que depois consagrou-se enquanto formato com narrativa e especificidades próprias. Elas surgem pela necessidade do espectador consumir um conteúdo que poderia ser assistido casualmente. Por isso, variam entre 3 e 20 minutos de duração, mantendo uma narrativa mais simples, com histórias não muito complexas, que não exijam atenção total do espectador. A distribuição pela internet também possibilita uma maior liberdade criativa, pois não enfrentam as mesmas limitações de um conteúdo televisionado, o que incentiva a geração de conteúdos mais livres, a transformando em um formato midiático com oportunidades nos mais diversos nichos.

 

 

Em contrapartida, não há modelos de negócios e divulgação que tornem as webséries rentáveis, o que desincentiva muitos produtores. Por outro lado, assim como os curtas-metragens, os festivais são espaços possíveis de ganhar visibilidade e prêmios. O número de webfests têm crescido pelo mundo, e mesmo os festivais tradicionais de TV e Cinema com o Emmy e Cannes já abriram novas categorias visando essas produções. No Brasil, o maior é Rio WebFest, que teve sua edição inaugural realizada em 2015. Sediado desde 2016 na Cidade das Artes, se consolida como um dos maiores do mundo. A última edição aconteceu em novembro 2018, e premiou produções de diversas partes do Brasil.

 

Abaixo pequenas resenhas de algumas webséries com temáticas interessantes e que chamaram atenção nos festivais.

 

 

O Som do Amor: A Bahia em música e simplicidade

 

 

Não existe fórmula mais eficaz em atrair um público comercial do que histórias de romance. Um dos gêneros mais antigos, da comédia ao drama, as histórias de amor tem como forte, as relações amorosas e conflitos para viver o amor. A websérie  baiana, O Som do Amor, traz essa receita com muita simplicidade, aliado a outro forte artifício do melodrama: a música. Uma história de amor que se desenrola rápido, com um conflito usual, mas sem um drama exagerado, comum de produções assim. Tudo isso dá a produção um aspecto de ordinariedade. Porém, este logo se mostra ser o propósito da série, ou seja, retratar uma vida comum com o amor e a amizade. Marina e Dito, o casal protagonista, também conseguem trazer essa naturalidade a história. São 5 episódios de até 5 minutos que constroem relações que nós nos identificamos. O cenário, então, é bem romântico, com imagens lindas da cidade de Salvador. Talvez o que falte seja talvez circular por mais espaços, são poucos cenários por onde os personagens trafegam, como, por exemplo, a maioria das cenas acontece no mesmo bar. Isso não é de todo um problema, pois existem séries sobre grupos de amigos que fazem a mesma coisa, como os seriados Friends e How I Met Your Mother. Dado a realidade das séries digitais, com tempo curtos e baixo orçamento, é compreensível que se estruture uma narrativa mais concentrada e dê foco aos personagens principais. Falta desenvolver, talvez, os personagens secundários, que surgem quase como figurantes. O seriado ganhou Melhor Série Brasileira no Rio Web Fest e em breve terá lançamento da sua segunda temporada. Confira o trailer aqui:

 

 

Punho Negro: Uma história de super-herói contemporânea e brasileira

 

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Uma outra fórmula que também tem atraído um vasto público comercial são as narrativas de super-heróis. Apesar disso, o Brasil não tem muitas produções com essa temática. Uma justificativa usual para isso, é que essas produções normalmente são muito caras. De maneira engraçada e inteligente, a websérie baiana Punho Negro, traz uma super-heroína contemporânea, cheias de críticas a sociedade, sem deixar de rechear com cenas de ação e fantasia típicos do gênero. Os efeitos e a arte da série são uma questão a parte, com uma paleta de cores complementar ao figurino da protagonista, que também se adequam a arte dos créditos e da abertura que funcionam bem com a música. Efeitos simples, mas que não recaem sobre uma artificialidade (muito comum em produções que abusam de efeitos de computador gráfica). O projeto fica por conta do coletivo independente Êpa Filmes e traz personagens e situações, que, aliados com boas atuações, não deixam a desejar, tudo parece funcionar muito bem. Punho ganhou prêmio de melhor ideia original no Rio Web Fest, porém, ainda não há notícias sobre uma segunda temporada.

 

Link da serie no youtube:

 

Eixos: Narrativa distópica com uma produção majoritariamente de mulheres

 

 

Quem disse que Brasília não poderia viver um futuro distópico? Com uma fotografia, arte, maquiagem e figurino excelente, a websérie Eixos apresenta a capital do país em 2060, onde conflitos políticos e revoltas violentas levaram ao desmoronamento da ordem mundial, deixando a população a sua própria sorte. Imagens de ruínas, sujeira, calor e desesperado deixam a cidade irreconhecível. A narrativa que veio dos quadrinhos, com direção, roteiro e arte de mulheres, tem como protagonistas Cássia. A personagem é uma mulher forte, aventureira e dura e, junto com Inês, de personalidade mais leve, decide procurar seus amigos desaparecidos. A relação entre elas, que horas beira a uma relação amorosa, constrói uma história de luta e fé mesmo num mundo destruído. O problema que acontece em muitas narrativas desse tipo, é que muitas vezes se perdem nos detalhes. Os personagens secundários também enriquecem a narrativa, como Chico e Mãe Obá. Eixos foi indicada a melhor fotografia, melhor maquiagem e melhor série de ação no Rio Web Fest 2017. Link do trailer:

 

* Streaming Media é uma tecnologia sobre transmissão de conteúdos audiovisuais adquiridos  através de pacotes da internet, em que as informações não são armazenadas pelo usuário em seu próprio computador. odo vídeo “on demand” é transmitido via streaming. Mas nem todo conteúdo por streaming está sendo enviado sob demanda, ou seja conceitualmente é tudo o mesmo.

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

BR em Série: “Irmão do Jorel”, a animação original brasileira que é, literalmente, para toda a família.

Há quem diga que desenhos animados possuem um conteúdo infantil e bobo, voltado somente para crianças. Porém, a vasta e diversa produção e o público para filmes e séries animadas nos últimos tempos, tem mostrado o contrário. Um exemplo, é a série brasileira Irmão do Jorel, criada pelo quadrinista, apresentador, ator e roteirista Juliano Enrico e co-produzida pela Cartoon Network Brasil e a Copa Studio. Apesar das características ressaltantes sugerirem uma história mais infantilizada, seus personagens e enredos carregados de humor escrachado, dão profundidade à narrativa, atrelado as referências que constroem uma representatividade nacional que muito ainda falta aos desenhos infanto-juvenis.

 

A história do Brasil com animações seriadas para TV é recente. Mesmo com alguns sucessos no cinema, pode se afirmar que houve um crescimento grande de produções desse tipo a partir dos anos 2000, com a aprovação da lei 12.485/2011, conhecida como “Lei da TV Paga”  que estabeleceu um novo marco legal para a TV por assinatura no Brasil, garantindo a presença da produção audiovisual brasileira na maioria dos canais. Nesse período, a indústria da animação se desenvolveu bastante e uma das séries nacionais de maior destaque foi Peixonauta, que estreou no canal Discovery Kids em abril de 2009. O sucesso foi grande, contudo seu conteúdo é totalmente voltado para o público infantil (ou melhor, pré-escolar). No mesmo ano, o canal pago Cartoon Network, tradicional canal americano de animação comprou os direitos para produzir a série. Em 2014, estreou Irmão do Jorel que indicava como como faixa etária crianças entre 7 e 11 anos de idade mas, que conquistou um público muito mais amplo. O desenho original da série é o primeiro do canal na América Latina, ficando conhecido e sendo transmitido inclusive fora do Brasil. E em julho de 2018, estreou sua terceira temporada com mais 26 episódios que foram exibidos às segundas-feiras às 19:15 no Cartoon Network.

 

A família do irmão do Jorel, os personagens principais da série. Parodiando outra série brasileira “uma família muito unida, mas também muito ouriçada”

Aparentemente a narrativa é simplória: um menino de 8 anos que está crescendo e aprendendo a amadurecer. No entanto, é nessa simplicidade e generalidade que fica seu maior triunfo. Um protagonista tão comum que ninguém sabe seu nome, sendo conhecido somente através de seu irmão perfeito Jorel; uma família típica e tradicional; conflitos universais; aliado a uma representatividade nostálgica da infância, e mais ainda, de elementos da cultura brasileira, torna a séria atrativa para quem curte esse gênero de comédias leves. Em cada episódio nos deparamos com os conflitos vividos pelo protagonista. Tensões reais, aventuradas por uma criança fantasiosa, que a partir das relações com os outros personagens e com o ambiente em que vive, vai construindo uma narrativa engraçada e reflexiva que faz o público se apaixonar, mesmo com um toque escrachado e muitas vezes grotescos.

 

Personagens cativantes, numa narrativa sobre crescer numa família tipicamente brasileira.

 

É fato que uma boa série normalmente traz personagens interessantes e bem construídos e fazem o público se identificar com eles e com seus arcos dramáticos, mesmo que eles sejam vilões ou controversos. O desenho animado, Irmão do Jorel, consegue fazer isso com muita destreza. É impossível não amar os personagens da série e não identificar um pouquinho deles em nós e nas pessoas à nossa volta. Uma das explicações para isso, é que a história tem traços fortemente autobiográficos. O diretor Juliano afirmou em entrevistas que baseou várias situações e personagens em suas próprias experiências, porém, nega que o irmão do Jorel seja ele mesmo.

Irmão do Jorel pode ser definida como série comédia familiar. O núcleo principal é composto pela família do irmão do Jorel, cada um seguindo essa lógica dúbia do comum e ilógico, fantástico e trivial que permeia toda a construção da narrativa. Como foi colocado, é impossível não se identificar (ou identificar características) com os personagens. Um pai revolucionário, que sonhava em ser artista e vive reclamando do capitalismo, apesar de não resistir a ele; uma mãe cuidadosa, que vive enchendo o filho de sucos e comidas ruins, mas, que é muito forte, pilota sua moto e toma as decisões mais difíceis; os irmãos mais velhos, um perfeito, o queridinho da família e da escola, mas que nunca fala nada, e o outro, um roqueiro de cabelo grande e desleixado; e, claro, as avós que trazem toda uma relação de afeto, porém se contrapõe quase mimeticamente, fazendo o público enxergar um pouco de cada uma em suas vidas. Além deles, Juliano brinca também com os outros personagens e situações da vida real de uma criança, como a relação com a diretora e a professora, a menina bonita da escola, o ídolo, a melhor amiga. Cada personagem, apesar de uma estética caricata e muitas vezes repetitiva de se comportar, sofre, ri, transforma-se, tornando-os únicos e representativos.

 

Da esquerda para direita, Vovó Gigi, irmão do Jorel e vovó Juju, no episódio em referência ao filme Thelma e Louise.

 

Além disso, os personagens questionam algumas noções de gêneros, quando através do humor, trazem personagens diversos cheios de questionamentos, como por exemplo, mulheres fortes, homens que choram. O maior exemplo talvez seja a melhor amiga do irmão do Jorel, Lara, que é uma menina que não gosta de rosa, leva o amigo de bicicleta, gosta de jogar futebol e é muito independente.

O único ponto que fica um pouco excedente é a abundância do didatismo, comum em desenhos animados que trazem assuntos para educar as crianças. Por exemplo, na terceira temporada, se foca bastante na questão da poluição do oceano, que na série se dá por meio de uma fábrica de refrigerantes. Essa relação um tanto maniqueísta entre empresários, representado pela grande corporação da cidade, e os protagonistas, é amenizada com a carga irônica dada à algumas situações e a peculiaridade caricata dos personagens.

 

Ironias adultas x uma linguagem infantilizada.

 

Apesar do humor irônico, a série não contém tom pesado e nem usa do humor politicamente incorreto de animações mais adultas, como Rick e Morty, Family Guy e até mesmo Os Simpsons. Isso acontece, porque para a série ser exibida no Cartoon Network, algumas mudanças tiveram de ser feitas no visual e falas que os personagens tinham nas tirinhas originais. Mesmo assim, qualquer olhar mais maduro percebe, por exemplo, que o pirulito verde na boca da Vovó Gigi, é, na verdade um cigarro.

 

Irmão do Jorel e vovó Gigi são viciados em TV e principalmente nos filmes e programas do ídolo favorito deles, Steve Magal. O nome é uma referência ao cantor Sidney Magal e ao ator Steven Seagal.

 

O mundo visto pela perspectiva do irmão do Jorel é imaginativo, fantasioso, cheio de dilemas e situações comuns ao universo infantil, que contrapõe-se e contextualiza-se com as várias referências políticas e sociais do Brasil principalmente nos anos 80 e 90, como a memória da ditadura militar, os pais revolucionários “comunistas”, a influência da cultura norte-americana e a globalização, como por exemplo, na inauguração do shopping center, que se torna o evento mais marcante da cidade. O cenário e objetos também são todos pensados de maneira a referenciar/contextualizar esse período, como o vício pela TV e VHS, as construções modernas como o aeroporto, a cultura do rock, entre outras. A própria ironia metalinguística com o mundo pop, como os programas de televisão de ação e violência, episódios e cenas parodiando filmes, bandas, pessoas e músicas, atrai crianças e adultos nostálgicos. No meio de todas essas referências, ainda há espaço para  trazer ditados, gírias e personagens tipicamente brasileiros, como o comentários “típicos de vó”, situações como pegar piolho, o enredo sobre festa junina, etc. A dublagem cheia de sotaques também trazem o tom nostálgico de identificação, apesar da pouca variedade de dubladores. Essa relação entre uma linguagem infantil com humor irônico e as representações cria uma atmosfera bem humorada e não cansativa (os episódios ficam em torno dos 20 minutos), capaz de entreter toda família.

 

As duas primeiras temporadas estão disponíveis no Netflix. A terceira temporada  encerrou em 2018, e por enquanto ainda não há informações sobre onde poderá ser encontrada legalmente. Apesar de cada episódio ter seu arco principal finalizado- o que permite assistir e entender qualquer episódio sem necessariamente seguir a sequência numérica- na segunda temporada constrói-se uma serialidade mais complexa, com arcos maiores e referências a situações e detalhes da própria narrativa. Essa última temporada continua com participações especiais como a do rapper Criolo logo no primeiro episódio, após a participação de Emicida na segunda temporada, e muito,muito mais referências da cultura pop. Depois de tudo isso, para quem está em dúvida se vale a pena, dá uma conferida no trailer da 3 temporada abaixo:

 

 

** Vilma Martins é jornalista, cineasta, pesquisadora e mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia (PósCom/UFBA).

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