Terror em Série – American Horror Story: Roanoke e suas múltiplas reviravoltas

A sexta temporada de American Horror Story (AHS) foi exibida em 2016 e trouxe uma tentativa de dar uma complexidade maior para suas tramas, focando em três camadas narrativas diferentes que vão se desenrolando durante os episódios. Além disso, paralelamente, ela mostra o passado da casa na qual a história está centrada.

A narrativa começa bem, mas deixa suspeitas de que talvez se encaminhe por um rumo um pouco repetitivo, trazendo ares muito semelhantes aos de Murder House. Na trama, o casal Matt e Shelby se mudam para uma misteriosa residência, que possui um secreto e sombrio passado. E a história daquele lugar remete bastante à atmosfera da terceira temporada (Coven), onde Kathy Bathes interpreta mais uma vez uma mulher sanguinária, a personagem Thomasin, a açougueira.

 

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Mesmo com as semelhanças, os episódios são consistentes e apresentam um elemento novo: no enredo, uma produção está realizando um documentário sobre os acontecimentos da casa. O tom quase metalinguístico, com pitadas de mocumentário, traz um tom de suspense e uma impressão de que tudo pode acontecer. O risco, algo visto nas obras de terror, se mostra maior, alimentando bem a curiosidade do espectador, dando poucas chaves e abrindo muitas possibilidades.

E aí que mora o maior problema de Roanoke. Muitas portas são abertas e é difícil se conectar com qualquer possibilidade. Após o sucesso da primeira temporada da série ficcional que o público vê na história do seriado, partimos para o segundo ano, agora, com atores interpretando todos os envolvidos na trama. A equipe realiza tudo na mesma casa onde todas as mortes aconteceram. A partir disto, a narrativa se modifica por completo e a metalinguagem e crítica aos realites shows, são substituídos por jump scares baratos e uma grande falta de coesão narrativa.

 

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A relação entre as personagens novas é mal construída e o valor das mesmas parece inexistente. Como elas não possuem um elo forte de ligação com o público, vão se amontoando em mortes diferentes a cada episódio, substituindo aquele suspense característico da série, pela constante procura em provocar medo com fantasmas e assombrações cada vez mais assustadores.

É essa tentativa constante de superar tudo antes já visto no seriado que destrói qualquer forma de conexão que poderia surgir, é extremamente forçada a busca de surpreender. Talvez o maior louro de Roanoke seja a crítica, até um pouco simplista, da sede de sangue que o público estadunidense possui de ver a desgraça alheia. Porém, nada que Black Mirror já não tenha feito em seus primórdios. O sexto ano de AHS fica um pouco no meio do caminho de tudo.

Sobre as intercessões com as temporadas anteriores, os principais destaques são: a primeira bruxa suprema – numa referência à Coven – e a presença de Lana Winters – de Asylum – uma escolha sempre acertada de Murphy. Para os fãs da série, só restou conferir os episódios e esperar pela temporada seguinte, muito superior e que traz de volta o suspense e os dramas que unem psicológico e sobrenatural, explorando o que American Horror Story faz de melhor: encontrar o terror dentro das pessoas mais inesperadas, desvendar almas sombrias de lugares menos prováveis. A quinta  e a sexta temporadas do seriado quase provocaram seu downfall, mas, a mesma se recupera com louvor. Mas, vamos deixar para o próximo mês!

 

Terror em Série: American Horror Story – Le Freak C’ést Chic

Em setembro, tivemos o início da oitava temporada de American Horror Story (AHS), finalizada, de maneira impactante, em novembro. Por conta desse novo ano do seriado, resolvemos fazer um especial sobre o programa de TV, criado por Ryan Murphy, comentando um pouco sobre cada um de seus anos. Este mês, vamos falar sobre a quarta temporada da série, Freak Show. A trama se passa majoritariamente dentro de um circo e traz personagens marcantes e linhas narrativas bem construídas.

O lado fantástico da produção é explorado com a presença do palhaço Twisty (John Carroll Lynch), que comete alguns assassinatos. Todo o plot deste ser macabro é o que quebra o certo tom mais melancólico de Freak Show, trazendo pegadas de gore e de trash para a série. A personagem, inclusive, é a única do quarta ano que aparece em temporadas futuras, até então. Em Cult, ele é retratado numa revista em quadrinhos de Oz, filho de Ally e Ivy.

 

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Além do palhaço Twisty, vemos um circo, bastante decadente, comandado por Elsa Mars (Jessica Lange). Logo no começo da narrativa dentro do circo, a atriz Jessica Lange canta Life on Mars*, numa performance que dita todo o tom do universo desta nova história em AHS, trazendo movimentos de câmera que se traduzem num ballet visual e mostram de maneira poética a vida do circo, unindo as figuras diferentes, que vivem à margem da sociedade com a beleza da cena que carrega em seus tons esverdeados.

As cores em Freak Show são bem exploradas, pois a direção de arte utiliza muitas tons claros e, supostamente, alegres, só que dessaturadas, trazendo uma ambientação melancólica e que elucida a emulação da alegria que há nas atividades circenses. A temporada trabalha bem as características de cada personagem, mostrando de maneira inteligente que o freak não é aquele com tipos físicos diferentes do que a sociedade costuma ver e sim aquele que tem uma crueldade dentro de si, uma maldade que transborda e se constrói numa personalidade distorcida e anormal. Freak Show é um tratado sobre como a natureza humana pode ser doentia.

 

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Os planos e enquadramentos das cenas acompanham esse pensamento. No início da temporada, as cenas com as personagens do circo possuem mais planos holandeses (câmera de lado), o uso do lens flare e do soft focus, criam uma ambientação que mescla o onírico e o estranho. Aos poucos, mesmo com uma fotografia sombria e com pouca saturação, os enquadramentos vão se tornando mais crus, traduzindo bem a curva dramática de Freak Show. Este fator faz com que a energia saia do fantástico e mergulhando num universo sombrio e cruel.

As duas personagens de Sarah Paulson, as irmãs siamesas, Bette e Dot, roubam a cena com suas personalidades bem delineadas, com uma construção minuciosa de Paulson, quebrando estigmas e clichês sobre a relação de gêmeas siamesas. Existe uma complexidade nos desejos das duas, que termina movendo a trama para frente em sua narrativa e atriz mostra a consciência da importância de suas personagens, quando vai fazendo-as crescer episódio por episódio, revelando nuances de cada uma delas.

 

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Freak Show se apresenta como uma sólida temporada, ambientando bem as contradições do universo circense, colocando mais uma vez as crueldades e distorções de personalidade nas personagens mais inesperadas e utilizando bem os aspectos visuais do audiovisual tanto para criar uma ambientação, quanto para construir personagens e justificar aspectos da trama.

 

 

* Life on Mars é uma música de David Bowie, de 1971.

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

 

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