Colunas: Morte, sedução e evolução em Killing Eve (Primeira Temporada)

Quando comecei a pesquisar (academicamente) críticas feministas aos produtos culturais, me propus o exercício constante de, além de buscar aqueles que promovam o protagonismo feminino e que tragam mulheres nos cargos técnicos “principais” (como direção, roteiro e montagem), analisar também a qualidade, por assim dizer, dessa representação. Explico: acredito que devemos ser criticamente exigentes com o “nível” que as representatividades assumem nas narrativas, mais do que exigir somente uma presença em tela ou nos sets. Ou seja, não anseio uma série ou um filme protagonizado por mulheres mas com desenvolvimento raso das personagens, ou um roteiro que reproduz estruturas tradicionais* ou que pouco tensione os silenciamentos e os estereótipos que nós quase sempre sofremos. Quero mais. Espero personagens com personalidades complexas, cujas ações evoluam na trama e que as relações com as demais figuras femininas nos ofereçam outros olhares sobre sororidade e rivalidade.

 

Diante de um produto como Killing Eve, vemos como uma boa narrativa pode explorar nuances das suas personagens, fazer o roteiro evoluir junto à evolução destas, em suas performances e na relação construída entre elas, especialmente quando uma é psicopata e assassina de aluguel e a outra uma funcionária da Inteligência Inglesa (MI5) – posições centrais nas histórias de perseguição tradicionais que aqui adquirem contornos maiores do que o lado bom x lado mau. A série dramática é uma produção britânica para a BBC America, baseada nos romances seriados Codename Villanelle, de Luke Jennings, criada por Phoebe Waller-Bridge e estrelada por Sandra Oh (Cristina Yang, de Grey’s Anatomy) e Jodie Comer (de My Mad Fat Diary). A Maratone como uma Garota! discute um pouco a primeira temporada, especialmente a concepção das duas protagonistas!

 

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Eve (Sandra Oh) é uma agente da Inteligência Britânica muito sagaz, porém subestimada no trabalho, que tem uma fixação por assassinatos e mulheres criminosas e começa a investigar uma assassina profissional internacional, Villanelle (Jodie Comer). Logo, Eve se vê diante de uma grande organização do crime e Villanelle parece apreciar sua busca incessante. Elas vão adquirindo uma fixação mútua, o que move o roteiro, que economiza suspenses. Com 8 episódios, a velocidade das ações é rápida e as coisas se resolvem sem muitas delongas. O apelo ao espectador, aqui, vem muito menos do mistério e da ansiedade de revelações que um thriller policial normalmente oferece e mais de uma curiosidade para com as motivações e ações da antagonista e da protagonista.

 

Eve, envolta no prazer de estar à frente de algo tão grandioso (como ela diz, “salvar o mundo da assassina”), começa a romper barreiras éticas e revelar outros lados de sua personalidade. Ela vai “morrendo” aos poucos (Killing Eve traduz-se por “Matando Eve”) para renascer e experimentar outra vida, em outro nível de ação. E é em Villanelle que encontra um ponto de transformação. Sim, o trunfo da série é a interação narrativa e artística entre as duas atrizes principais, ainda que outras mulheres também assumam papéis de destaque. A esfera psicológica tem, portanto, um papel central no desenvolver da trama, movendo as personagens e desestabilizando expectativas do público. Tudo isso se expressa na montagem, especialmente no encadeamento de planos e contra-planos, que não se limitam a contrapor pontos de vista, mas engendrar a intimidade que sendo estabelecida, e nos enquadramentos que sempre revelam alguma nuance característica de cada uma.

 

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A premissa do jogo de perseguição policial – bandido está, aqui, recheada com o tom de imprevisibilidade que a psicopatia e frieza da antagonista, Villanelle, proporciona. O que esperar de alguém cujo prazer do trabalho de assassina não lhe impõe limites? Poucos clichês emergem, ainda que alguns pontos soltos eventualmente surjam, o que não atrapalha o desenrolar da história, justo porque Eve e Villanelle não são óbvias, não são arquétipos fixos e previsíveis. Assim, as incoerências na narrativa, como perseguições óbvias, viagens imprevistas, resoluções e recursos que não existiriam na prática, se tornam “irrelevantes” quando o que se sobressai é na verdade a lógica de dominação e sedução estabelecida. Ainda que seja um enredo de perseguição, as fronteiras do jogo se tornam nebulosas e já não se percebe tão nitidamente as reais motivações dessa busca.

Grande parte do êxito e da potência da produção está na performance das atrizes, incluindo aqui não somente Sandra e Jodie, mas também Fiona Shaw, que interpreta Carolyn, da inteligência russa e quem recruta Eve. Kirby Howell-Baptiste, única mulher negra da produção, interpreta Elena Felton, a assistente de Eve, e vai perdendo presença com o passar dos episódios, ponto em que a série peca, já que parece não valorar suas ações e subjugar sua trama. A estética corporal e a atuação carregam traços de personalidades – como os trejeitos ora joviais e despreocupados de Villanelle, ora violentos. Sandra Oh imprime no corpo a satisfação e a segurança que sua personagem vai desenvolvendo ao longo dos episódios.

Para quem aprecia histórias policiais, sem dúvida Killing Eve reserva uma experiência de suspense e envolvimento subjetivo muito interessante. A segunda temporada já está no ar e a série, que fez Sandra Oh ser a primeira atriz de origem asiática indicada ao prêmio Emmy de Melhor Atriz, já foi renovada para uma terceira!

 

 

 

* Por tradicionais, pretendo me referir aos modelos a que comumente as mulheres são associadas, como por exemplo: maternal, protetora, amável, o elo frágil do grupo, ou quando as ações de uma personagem, ou sua personalidade, são moldadas em função de um personagem masculino.

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Maratone como uma Garota: É tempo de sermos heroínas!

Que o universo da cultura nerd sempre foi bastante machista, muita gente já está ciente. Dá pra notar, porém, que isso vem sendo questionado e exposto com certa frequência. Na esteira de um fortalecimento dos ativismos feministas, especialmente nas redes sociais, e com um esforço coletivo de espectadoras em revelar as facetas da dominação patriarcal nas narrativas ficcionais, temos visto cada vez mais personagens femininas que parecem responder a antigos anseios por representações justas e diversas (e menos sexualizadas!). No mundo dos heróis, cujo apelo à identificação é bem forte, a gente sentia falta de modelos empoderadores de heroínas para ver na tela. A Maratone como uma Garota! de hoje é dedicada a toda garota que um dia desejou lutar contra o mal, conquistar as galáxias, salvar o mundo e voar pelos céus. Esse momento é nosso!

Em menos de um mês desde sua estreia, o primeiro longa da Capitã Marvel (21º filme do UCM*) chegou à lista dos filmes de heróis mais lucrativos, dando um tapa na cara da indústria que se negou por anos a investir em projetos com mulheres protagonistas (ou com mulheres na direção!). Ainda que correspondendo ao padrão hegemônico heterossexual branco colonial, quando Mulher Maravilha (da DC Comics) estreou, em 2017, um marco havia sido instaurado: o protagonismo feminino além de lucrativo, é empoderador e tem um alcance potente. A direção de Patty Jenkins entregou uma obra com um primor técnico incrível.

 

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Mulher Maravilha, dir.: Patty Jenkins, 2017

Carol Denvers (Capitã Marvel) e Diana Prince (Mulher Maravilha) não são as únicas heroínas do cinema ou da TV, isso é claro, e tão pouco representam um ganho no que tange à diversidade, porém, são personagens expoentes nesse universo não apenas por ocuparem um lugar quase sempre masculino, o de protagonismo, mas também pela construção de suas histórias, com personalidades complexas, anseios próprios e por seus papéis no roteiro não estarem em função de um homem, como acessório na trama ou ainda como deleite sexual para os espectadores. Natasha Romanov (Viúva Negra), Tempestade, entre outras, já tinham destaque em filmes anteriores e foram por muito tempo as principais referências de heroínas para muitas espectadoras. Natasha, por exemplo, é central para os Vingadores. A Vespa assumiu o protagonismo com o Homem-Formiga em seu último longa.

Jessica Jones é outro exemplo forte, já que seu jeito rebelde, seus traumas do passado, fogem do ideal de docilidade e simpatia esperados em uma mulher e preenchem camadas de uma pessoa com um existência “real”. Kara Zor-El, a Supergirl, é muito mais do que um rostinho angelical, é uma líder justa e valente. Misty Knight, da série Luke Cage, tem sido uma das heroínas mais marcantes dos últimos anos. Sem superpoderes, a policial do Harlem é uma mulher negra que conquistou um lugar super importante no seu universo, bem com Colleen Wing, da série Punho de Ferro. Nas séries animadas, Carmen Sandiego é uma ladra internacional que recupera objetos roubados por vilões. Personagem icônica e nostálgica, ela foi readaptada pela Netflix recentemente, talvez justamente em diálogo com o momento de tentar dar voz ao girl power.  

 

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Misty Knight, na série Luke Cage (2016-2018), da Netflix.

Quando destacamos a importância da presença e da representação de mulheres nestes universos é justamente por entender que, enquanto produtos que circulam mundo afora, ocupam um lugar estratégico na construção dos imaginários sociais e culturais e nas imagens que construímos sobre os outros. Somos marcados pelo que vemos e, quase sempre, os personagens que acompanhamos acabam ocupando um papel central em nossos comportamentos e expectativas. Para além das protagonistas, certas personagens secundárias também são inspiração e modelo, com uma visibilidade e um potencial de desenvolvimento de questões mais amplas para demandas de um público tão diverso. Foi um grande avanço quando, em Deadpool, tivemos um casal de heroínas lésbicas (Míssil e Yukio), assim como em Supergirl, com Alex Danvers (irmã da Kara) e Meggie Sayer. Mais do que realizar um inventário das principais heroínas de todos os tempos, espero motivar a reflexão sobre nosso tempo e nosso lugar de mulheres, espectadoras críticas e/ou fãs.

Nos quadrinhos, no cinema ou na TV, é inegável o poder de atração das histórias de heróis. Elas nos atingem, nos motivam, nos levam a lugares onde tudo é possível, onde somos fortes e destemidas. Todo esse clichê é coisa séria! A entrega emocional que muitas e muitos dedicam a estes produtos faz com estes sejam parte importante de sua existência no mundo. Note-se que os exemplos trazidos são produtos estadunidenses, destacando o peso que sua influência (ainda por cima) tem nesse campo mainstream*. A questão é: não queremos ser salvas, queremos salvar o mundo e queremos fazer isso sendo donas da nossa história.

 

*UCM – Universo Cinematográfico da Marvel →  

*Mainstream → Termo em inglês que geralmente se refere à cultura de massas, produtos comercialmente hegemônicos.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Maratone como uma Garota!: 5 séries para derrubar a rivalidade feminina

Desde muito cedo, independente da sua identidade de gênero, mas especialmente se você se identifica (ou tenha sido identificado em algum momento) como mulher, muito provavelmente você foi socializada/o em um contexto cultural em que a rivalidade feminina é considerada quase uma condição intrínseca a nós mulheres. Essa noção às vezes está tão enraizada que chega a ser difícil reconhecê-la em nossos padrões de comportamento e expectativas. Espera-se e incentiva-se que as mulheres estejam em constante competição: por homens, por um look melhor, para chamar mais atenção.

O fato é que isso nada mais é do que uma lenda que o patriarcado inventou para enfraquecer a união e os laços que a gente pode (e deve!) cultivar sempre umas com as outras. De todo modo, desde que as mídias e produtos culturais, como filmes e séries, se tornaram parte de nossas rotinas, nossos imaginários são também formados a partir da relação que estabelecemos com eles. É por isso que quase sempre levamos muito mais do que apenas entretenimento com nossos personagens, autores e histórias favoritas. Levamos modos de pensar, de agir, de se vestir, mas também nos inspiramos com suas batalhas, seus sonhos, seus amores, em como perseguem objetivos e cultivam amizades. Pensa comigo: quantas vezes você se sentiu motivada/o ou impulsionada/o por alguma história? Aposto que algo veio a sua cabeça agora!

 

Graças ao fortalecimento que pautas feministas vêm tomando nos últimos anos, muitos padrões de opressão têm sido questionados. Algumas séries recentes de muito sucesso, como Sex Education e Good Girl, se encarregaram de desmistificar essa ideia de rivalidade feminina, especialmente entre personagens de diferentes estilos ou universos. Se você foi criança ou adolescente nos anos 2000, você teve o privilégio de poder acompanhar algumas boas histórias que provaram que o patriarcado não bate uma boa amizade. É por isso que na Maratone como uma Garota! de hoje vamos relembrar algumas séries que marcaram nossos corações e nos provaram que rivalidade com a gente não tem vez!

 

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1º Friends

Vamos começar com a mais clássica! Friends foi ao ar entre 1994 – 2004, mas continua sendo uma dos sitcoms mais assistidas até os dias atuais. Como o próprio nome sugere (friends é “amigos”, em português), a amizade é tema central e é impossível não amar o trio de amigas Rachel, Monica e Phoebe. Três mulheres bem diferentes, mas que estão sempre incentivando e torcendo umas para as outras. Monica e Rachel são um exemplo de amizade que se fortaleceu e amadureceu com o tempo. Phoebe tem um espírito amável e sempre presente.

 

 

2º The L Word

Parada quase obrigatória para as lésbicas e bis, essa é uma das séries mais interessantes para o público feminino, especialmente as LGBTQ+, não apenas por trazer no centro as relações entre casais femininos, mas também por discutir com lucidez questões relacionadas a padrões de gênero e sexualidade (ainda que tenha escorregado em retratar a bissexualidade como algo transitório ou incerto). Além de um roteiro fortemente feminista e de ter sido criada e produzida por uma mulher (Ilene Chaiken), The L Word se esforçou em demonstrar como as mulheres podem ser parceiras e confidentes. Existe um laço de apoio e compreensão entre muitas personagens, especialmente no núcleo central, como Tina, Alice, Dana, Kit, Bette e Shane. Uma nova temporada foi confirmada!

 

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3º Sob Nova Direção

Sitcom nacional de grande popularidade entre 2004 – 2007, a história trazia duas amigas sócias que tentavam recuperar um bar falido. Protagonizado por Heloísa Périssé e Ingrid Guimarães, a série mostrava não só a amizade, mas o empreendedorismo de duas mulheres independentes, ainda que em tom de (muita) comédia.

 

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4º Xena – A Princesa Guerreira

Não seria uma coluna minha se não tivesse essa série de marcou o coração de muita gente! Foi ao ar entre 1995-2001, mas continua reprisando no Brasil e em muitos países. Na Grécia antiga, Xena, uma guerreira em busca de redenção por seu passado violento, encontra em sua jornada a jovem Gabriele, que se torna sua melhor amiga e companheira de viagem. As cenas de luta e a coragem delas empoderou muitas garotas. A popularidade da série ao redor do mundo conseguiu reunir um Fandom* fiel e ativo. As protagonistas tinham um laço afetivo muito forte. Uma nova versão estava confirmada para os próximos anos e, conforme os produtores, as duas protagonistas seriam assumidamente homossexual. Mas para a tristeza geral na nação, o projeto foi cancelado!

 

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5º Três Espiãs Demais

Que atire a primeira pedra quem nunca brigou para ser Sam, Alex ou Clover (eu era a Sam!). Um dos desenhos animados mais populares da TV, era protagonizado por três adolescentes distintas que além de super amigas, eram super espiãs e estavam sempre vencendo vilões e ganhando batalhas. Além de provar que meninas podem fazer tudo – e de salto! (desculpa, não pude evitar), mostrou como as mulheres são versáteis, inteligentes, independentes e autossuficientes. Dá pra levar boas lições com o trio e até mesmo com a Mandy, sua principal rival, que possui camadas de sensibilidade.

 

Nunca é tarde para rever certos conceitos e questionar alguns padrões que nos foram impostos. Se mesmo depois dessa lista você ainda acredita de as mulheres nunca podem ser verdadeiramente amigas, tá aí a oportunidade de maratonar alguns episódios! E para quem já viu alguma(s), aproveita para matar a saudade e analisar com novos olhos.

*Fandom -> União dos termos em inglês Fan (fã) e Kingdom (Reino), resultando em “reino de fãs”. É uma expressão utilizada para designar um grupo de pessoas que são fãs de algum produto ou artista.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Maratone como uma Garota!: Tabus, liberdade e sexualidade feminina em Sex Education

Sex Education é muito mais do que pode parecer! A comédia dramática britânica, que está entre as queridinhas do público, se passa em um colégio cheio de adolescentes e tem como tema central: Sexo! Na infinidade de clichês que poderia emergir daí, a série, criada por Laurie Nunn, surpreende pela lucidez com que aborda temas e tabus que a maioria dos jovens vive, viveu ou vai viver um dia. A diversidade de questões apresentadas, como homossexualidade, aborto, sororidade, masturbação feminina, orgasmo e virgindade, bem como a complexidade na construção das personagens, são alguns dos trunfos. A Maratone como uma garota! de hoje vai discutir a importância de se abordar a sexualidade feminina e a liberdade sexual das mulheres em produtos para um público mais jovem.

 

O enredo centra-se em Otis (Asa Butterfield), típico adolescente nerd de 16 anos, que é um grande conhecedor de sexo, só que na teoria! Ele é filho da terapeuta sexual Jean (Gillian Anderson), com quem tem uma relação próxima, mas um tanto complexa. Otis, que além de virgem tem problemas para se masturbar, entra em uma sociedade com Maeve (Emma Mackey), após dar conselhos sexuais ao valentão do colégio. Maeve propõe que Otis seja um consultor sexual em troca de dinheiro. É nesse consultório “clandestino” que começam a emergir reflexões, dúvidas e situações inusitadas que envolvem sexo, jovens e relacionamentos. A virgindade, por exemplo, é abordada de modo cômico, mas sempre trazendo a reflexão: por que o sexo é tão importante (ou não) para cada um?

 

 

Maeve tem o protagonismo feminino na série. Sua (im)popularidade se deu por boatos envolvendo sua intimidade sexual. Apresentando-se como rebelde e anti social, a personagem é uma das mais bem desenvolvidas e ricas. A segurança com que lida com a própria liberdade sexual demonstra não só maturidade pessoal, mas conhecimento teórico e histórico sobre feminismos e literatura, mostrando como somos multifacetados e rompendo com certa tendência de reduzir as mulheres a certos estereótipos limitantes (a “nerd feia”, a “gostosa popular”, a “loira burra”, e quantos mais se lembrar). Além da amizade secreta com a popular Aimee Gibbs (Aimee Lou Wood), tem uma relação casual com Jackson (Kedar Williams-Stirling), o rapaz mais popular do colégio, que está apaixonado por ela. *SPOILER ALERT*. O drama da gravidez na adolescência é um tema delicado, especialmente quando envolve a escolha pessoal de optar por interrompê-la. A escolha do aborto é retratada de modo direto, sem julgamentos morais e sem diminuir a complexidade do ato, com uma lucidez que merece reconhecimento.

Sororidade, aquela palavrinha que vira e mexe aparece por aí, e que já abordamos em outras colunas, marca grandes momentos na série. A “união entre mulheres”, como se define, ganhou contornos bem significativos na trama. Maeve e Allison, por exemplo, pertencentes a mundos completamente diferentes, não só compartilham confidências, mas respeitam a individualidade, fortalecem e incentivam uma a outra. Isso é fundamental para que as adolescentes vejam as diferenças por uma ótica mais celebrativa e inclusiva. Allison, que sempre se esforça em agradar os parceiros, busca ajuda com Otis para tentar descobrir o que de fato lhe agradaria sexualmente e a orientação que recebe é bem simples, mas um dos maiores tabus dos séculos –*SPOILER ALERT*: a masturbação feminina. A prática não só ajudou-a a conhecer seus prazeres e preferências, mas a si mesma, tornando-a mais segura em suas ações. Muitas mulheres não conhecem o próprio corpo (como Maeve, que não localizou o hímen no desenho educativo) e isso é parte de um sistema de violência de gênero educacional.

 

 

O ponto alto de como a sororidade pode ser revolucionária vem quando o vazamento de uma foto íntima de uma garota e a chantagem sexual gera um clima de tensão no colégio.  *SPOILER ALERT* O desfecho é uma mobilização coletiva para enfraquecer a ameaça masculina de revelar a identidade da garota da foto. “It’s my vagina!” (ou: a vagina é minha!) começa a ecoar no auditório, por todos os cantos. Não importava de fato quem fosse a vítima, se amiga ou não, conhecida ou não, o patriarcado jamais pode ameaçar e violentar uma mulher e sair impune, então, a vagina é de todas nós!

Há um pequeno espaço também para pensarmos as relações entre casais lésbicos. Se no mundo em que a heteronormatividade reina já não se discute tanto a sexualidade das mulheres nas relações heteroafetivas, a invisibilidade da lesbiandade é nítida. Um exemplo é como, durante as aulas de educação sexual (na série), os alunos são sempre ensinados a utilizar o preservativo masculino. Como encontrar prazer e segurança para se relacionar com outra mulher se crescemos em um mundo em que se condena tal ato? Outra personagem marcante é Ola (Patricia Allison), cuja personalidade forte a faz romper vários padrões de gênero, como convidar o Otis para o baile e usar terno e gravata, levar e buscar o pai no trabalho.

 

 

Ainda que o centro da série seja os adolescentes e seus dramas sexuais, Jean, a real terapeuta sexual, tem seus momentos de roubar a cena. Mãe liberal, com sexualidade livre e abertura para todo tipo de conversa, ela não deixa de ter uma relação confusa com o filho, assim como também tem suas próprias dificuldades e entraves com relacionamentos. A personagem, porém, tem uma aparição que deixa um gosto de quero mais. Sex Education ainda rende muito mais discussões e essa temporada terminou deixando o público ansioso para a continuação, ainda que não esteja confirmada. Se tomarmos os produtos culturais massivos como grandes formadores de opinião, podemos comemorar a popularidade dessa série, pois precisamos tratar a sexualidade com mais naturalidade e menos tabus.

 

 

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Maratone como uma garota: Sororidade e empoderamento em Good Girls

As meninas hoje podem ser tudo” – ecoa a abertura do episódio piloto de Good Girls, a nova comédia dramática da NBC, distribuída pela Netflix.

Criada e produzida por Jenna Bans, a série conta com uma história que envolve “cidadãos de bem” que se envolvem com drogas, armas e chefões do tráfico para levantar uma graninha em momentos de desespero. Este plot já nos é familiar, vide Breaking Bad. Mas, quando esse plano é levado a cabo por mães de família frustradas, com problemas financeiros, porém dispostas a tudo pelos filhos e por si mesmas, o resultado pode ser um enredo cheio de reviravoltas. Dentro deste contexto, Good Girls consegue apresentar um universo consistente, com personagens fortes e bem desenvolvidas. No Maratone como uma Garota de hoje, vamos falar sobre como o girl power e a sororidade* tornam a trama ainda mais cativante!

A história gira em torno de Beth Boland (Christina Hendricks), Annie Marks (Mae Whitman) e Ruby Hill (Retta), um trio de amigas que, com problemas pessoais, optam por um atalho não convencional a fim de coletar dinheiro para demandas emergenciais. O plano: um assalto ao mercado onde Annie trabalha. O que era para ser um episódio isolado acaba inserindo as personagens em uma sequência de acontecimentos perigosos, já que o dinheiro do cofre pertencia ao chefe do tráfico local, que vai buscar retaliação.

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Apesar de não ser completamente original, a premissa principal ganha aqui contornos interessantes, ao inserir e trabalhar os dramas pessoais de cada uma das protagonistas, tensionando questões femininas de forma crítica. Vários são os motivos para qualquer um grudar no sofá e devorar os dez episódios. A começar pela maneira como o piloto é bem construído. Mas, também pelo desenrolar dos twists inseridos no roteiro e as questões secundárias. Estes elementos garantem um ritmo que mantém o fôlego até o final. A proposta de dramédia acaba rendendo melhores momentos cômicos, enquanto certos pontos dramáticos, como assédio e estupro, por exemplo, carecem de aprofundamento. Vamos, porém, concentrar a atenção em um elemento essencial que diz respeito a como as questões de gênero são construídas no caminho traçado na temporada. 

O protagonismo feminino é o elemento mais evidente, porém a representatividade não se esgota aí. São todas mulheres e mães, mas as idades diferentes, as personalidades e experiências de vida bastante distintas conferem fluidez à narrativa. Beth é dona de casa, tem quatro filhos e acaba de descobrir que o marido, além de traí-la com sua secretária, uma caricata loira padrão mais jovem, gastou todo o dinheiro da hipoteca. Annie, irmã mais nova de Beth, é caixa do supermercado. Foi mãe ainda adolescente e briga pela guarda da sua filha de onze anos, Sadie, que não se encaixa nos padrões de gênero e se veste como menino, o que a torna vítima de bullying na escola. Já Ruby é mãe de dois filhos, negra, trabalha como garçonete e, junto ao marido que é estagiário na polícia, tenta pagar o tratamento da doença renal da filha mais velha.

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A decisão de assaltar o mercado parte não apenas das necessidades de cada uma, mas da comoção com os problemas das demais, principalmente, a doença da filha de Ruby. Esse é talvez o traço mais marcante da sororidade do trio, essa palavrinha especial que vem ganhando cada vez mais força. A união feminina aparece de forma bastante potente também (SPOILER ALERT!!!!!!!!!) quando Beth salva Annie, enquanto esta era estuprada pelo chefe Boomer (David Hornsby). Ela (Beth) não hesita em ameaçar e agredir o criminoso, afirmando que o NÃO de uma mulher deve ser respeitado. As três permanecem unidas no suceder dos acontecimentos e vão transformando-se nesse elo.

Discursos feministas são bastante recorrentes, sendo o tom de girl power bem explorado em muitos momentos. A filha de Ruby é uma ativista que sabe muito bem que as garotas podem tudo, como ela mesma afirma. O apoio de Annie à identidade de gênero da filha é um potente exemplo de empoderamento. Quem melhor encarna esse tom é Beth. Líder do grupo, ela é o estereótipo mais comum de dona de casa da classe média estadunidense: atraente, inteligente, membro da associação de pais do colégio e esposa prestativa. É ela quem desafia Rio (Manny Montana), o chefe do tráfico, e propõe o esquema de lavagem de dinheiro que conecta as amigas ao crime. É a personagem cuja transformação é a mais notável, principalmente o contorno que sua personalidade passa a assumir.

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A relação familiar é mote central de grande parte dos eventos, mas também convoca a reflexões sobre as mulheres na sociedade e ao que usualmente se espera do seu comportamento e escolhas, em especial, quando mães. Ao assumir o controle da economia do lar, Beth inverte a relação matrimonial que a oprimia. Annie representa as várias jovens que, sozinhas, tentam equilibrar a criação de um filho com o próprio crescimento. Em sua relação com Sadie, adolescente madura e responsável, ela encontra um suporte e companheirismo. Ruby vivencia diariamente o racismo, a angústia do sistema de saúde, e vê o casamento feliz e estável em risco ao envolver-se com o crime.

O desenvolvimento das personagens demonstra a intenção da direção em tentar brincar com os lugares de vilãs e mocinhas, em um debate moral, já que toda escolha transforma o ser humano, de alguma forma. Nota-se o cuidado com que a transição e transformação delas vai revelando nuances de suas personalidades e, por conseguinte, das mulheres reais. As “boas garotas” vão precisar lidar com as consequências das más escolhas na sequência, já confirmada para 2019.

O grande trunfo de Good Girls é, sem dúvida, a dinâmica do elenco, que conduz a trama com maestria. Muitos traços refletem a própria trajetória das atrizes. A interação entre elas é muito potente, especialmente na contra-cena, e garante o carisma do trio e humaniza a narrativa. O combo comédia com mulheres no crime garante uma boa maratona!

 


* Sororidade – do latim, soror -oris = irmã. Nome que se dá à união ou aliança entre as mulheres. É um conceito muito caro aos feminismos e está relacionado à empatia e companheirismo.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

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