Crítica de Vingadores: Ultimato SEM SPOILERS

por Enoe Lopes Pontes

 

Em 2008, o Universo Cinematográfico Marvel (MCU) deu largada em suas produções, com o longa Homem de Ferro. O filme foi um sucesso e outros super-heróis deles ganharam espaço nas telonas. Cuidadosamente, foram sendo lançadas as tramas solo das personagens. Ainda que nem todas as projeções fossem boas, elas seguiam um nível básico de qualidade, conseguiam, pelo menos, introduzir figuras importantes da HQ para os novos consumidores e agradar os fãs das comics também. Em 2012, o primeiro Vingadores foi lançado. Onze anos depois do início desta trajetória, chega aos cinemas Vingadores: Ultimato.

Aqui, é possível notar uma ode ao MCU. Durante as longas horas de exibição, é possível encontrar muitas referências e memórias de outros materiais deste Universo. O reencontro com algumas personas já conhecidas pelo público e a maneira como é possível ter contato com a evolução da personalidade delas é o traço mais marcante de Ultimato. Sem pressa, ele revela os lamentos e a busca para se reerguer dos indivíduos escolhidos como principais nesta trama. Sem spoilers, pode-se dizer que todos os mocinhos com enfoque neste último “capítulo” recebem no roteiro aquela “fórmula” da jornada do herói. Incluindo estratégias elaboradas para a saída de alguns deles.

 

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No entanto, se tem uma coisa que Vingadores: Ultimato não é de jeito nenhum é enxuto. Cheio de gorduras, algumas cenas parecem mais dilatadas do que deveriam ser. Não pensem que isto se dá ao fato de que cada conflito interior das personagens de destaque nesta projeção que faz com isso aconteça. Na verdade, é o como isso se dá que interfere no ritmo do longa. Porque o desenvolvimento de personagem é algo importante, mas pode ser feito sem interferir negativamente no todo. A mescla de dinâmicas é que dá o tom não entediante de alguma produção. E isso não quer dizer, no entanto, que uma série de explosões e sequências “animadas” tenham que ser inseridas. Pelo contrário, é o equilíbrio das duas coisas.

Por este motivo que o novo Avengers peca. Ele passa tempos longos em momentos de intensa lentidão ou aceleração, sem casar bem uma coisa com a outra. Inclusive, apesar da grandiosidade e plot twists impressionantes na cena da batalha final, por exemplo, pode ficar uma sensação de que o espectador não consegue de fato acompanhar todas as lutas, porque as explosões e subtramas do embate fazem com que não se possa aproveitar tudo. Sem contar o que acontece, pode-se dizer que a construção demorada e lenta de algumas situações não estão no ápice do enredo e outras aparecem apenas ali.

 

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Outro ponto questionável é a utilização do vilão. Uma aura de medo e tensão foi construída ao redor de Thanos (Josh Brolin) em Guera Infinita (2018). Isto se perdeu no meio de reviravoltas, na fisicalização da personagem e em como ele realiza suas ações. A ideia que pode aparentar é que deixaram ele um tanto ingênuo, nem o seu corpo nem o que sai de sua boca parece ser equivalente em fortaleza e certeza que vinham sendo demonstradas anteriormente.

Contudo, é preciso ressaltar um elemento positivo em Ultimato. A forma com que a equipe conseguiu finalizar todo o caminho que fizeram desde 2008. É como se ficasse claro quem foi o protagonista durante todos esses anos e como o desfecho disso encerra um ciclo com coerência e, até mesmo, referências lá do primeiro longa. Pontas soltas da saga também foram resolvidas, ainda que as gorduras estivessem presentes, as soluções de conflitos exteriores e interiores foram postos na tela.

Vingadores: Ultimato é uma projeção voltada para agradar os fãs e finalizar uma era. Durante três horas de exibição, altos e baixos podem ser visualizados e cenas como a Viúva Negra comendo um sanduíche com o Capitão América, pensando “na morte da bezerra” dão oportunidade do público aproveitar para dar aquela ida ao banheiro. Ainda assim, o filme não é nenhuma vergonha e encerra com alguma dignidade a trilha de sucesso que a Marvel instaurou para si em seu MCU.

 

Com indecisão de plot e falta de ritmo, Jessica Jones tem uma temporada morna

por Enoe Lopes Pontes

Após três anos de hiato, Jessica Jones finalmente chegou ao catálogo da Netflix. Continuando a explorar traumas da protagonista para impulsionar a sua história, a segunda temporada da série demora de engatar e parece enrolar o espectador da pior forma. Isto porque a decisão de qual conflito será explorado e quem a protagonista vai enfrentar vai sendo adiado e muitas personagens vão sendo inseridas ao mesmo tempo, podendo deixar o espectador perdido e/ou entediado. Há uma confusão sobre qual é o caminho que a narrativa vai seguir, o que pode deixar o acompanhamento dos três primeiros episódio uma tarefa cansativa.

Um dos elementos que contribuem para a falta de rumo do plot são os micro conflitos deste segundo ano do seriado, que envolvem os coadjuvantes! Ok, explorar o que acontece com a vida dos que cercam JJ poderia ser positivo, mas o roteiro e as atuações não exploram com profundidade seus sentimentos, problemas e emoções. As questões que envolvem Jeri Hogarth (Carrie-Anne Moss) e Malcom Ducasse (Eka Darville), por exemplo, são entregues a conta gotas, as soluções das peças deste um quebra-cabeça são óbvias desde o início, porque são clichês  e já muito utilizadas (sem spoilers). Há também uma direção falha, por deixar que o trabalho de ator de Moss e Darville pareça forçado e “apelão”, como numa tentativa para cativar o público, mas que, no fim, soa não orgânico. A única personagem secundária que se destaca em sua narrativa e interpretação é Patrícia/Trish Walker (Rachel Taylor). Sem entregar muito, talvez esta seja a parte mais instigante da trama.

 

 

Patrícia deixa ser uma figura plana, aquela que é apenas a melhor amiga da mocinha e passa a ocupar uma relevância dentro das teias que o enredo vai formando. Há uma complexidade nova em Walker. Isto pode ser visto na Taylor, através de seus movimentos de corpo, que exploram ritmos combinados ou descombinados com as ações que se passam na tela e as suas gesticulações que chamam a atenção a depender da idade da moça. A sua construção deixa clara as motivações da personagem e as marcas que a sua vida pregressa deixou em seu olhar e postura corporal. É por isso que os flashbacks enriquecem ainda mais o entendimento sobre a Trish Walker e preparam o espectador para a sua última cena da temporada! (Sem spoilers!!).

Mas, voltando para a Jessica! Aqui, vemos uma ampliação também dos elementos que formam a personalidade da JJ. Ao mostrar seu passado, a série coloca suas fragilidades expostas, assim como na primeira temporada. Contudo, estas revelações refletem no presente de Jones de uma forma que a deixa mais sensível, mostrando até um lado mais doce dela. Neste sentido, Krysten Ritter é bem sucedida. A artista não perde o que já foi estabelecido da heroína anteriormente, porém coloca camadas de sentido novos, com olhares mais demorados em suas contra cenas e pesando ainda mais na energia e nos movimentos na frente das telas.

 

 

Apesar de Trish, Jessica e a relação das duas serem bem abordadas pelos roteiristas e pelas atrizes, a quantidade de fillers* em cada episódio quebra o ritmo da narrativa, deixando o público fatigado. As cenas de ação também parecem pequenas, em comparação com o primeiro ano de JJ. Tampouco há uma criação de tensão que seja sustentada por um tempo grande. A sensação que a temporada deixa é uma indecisão sobre o plot principal.

Com um conflito que demora em se estabelecido e ritmos desnivelados, a segunda temporada de Jessica Jones é uma história sobre relações sentimentais entre familiares e amigos. Apesar de tentar enriquecer a complexidade das cenas e de suas personagens, a série apenas enche linguiça e pode deixar o espectador entediado até a sua metade.

 

*Filler: encheção de linguiça

 

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