Na Trilha da Série: The Four Brasil – primeiras impressões

Na última quarta-feira (6), estreou mais um reality show musical na televisão brasileira: o The Four Brasil, da Rede Record. O programa é apresentado por Xuxa Meneghel, e tem como equipe de jurados o cantor sertanejo Leo Chaves – previamente técnico do The Voice Kids, junto a seu irmão e dupla musical, Victor –, a cantora Aline Wirley, do grupo Rouge, e o produtor musical e empresário João Marcello Bôscoli. Com versão original israelense, o formato é estruturado na escolha prévia de quatro finalistas pela produção e jurados do programa – por isso o nome The Four, traduzido por “os quatro” –, que precisam defender suas cadeiras de desafiantes a cada semana.

A premissa de que o The Four já comece na última fase, visto que os quatro finalistas já estariam selecionados, de fato se diferencia de outros programas de reality musical, que funcionam geralmente em um ciclo que passa por audições à processual eliminação de candidatos, culminando na coroação do vencedor. Na realidade, como há desafiantes a esse top 4, a rotatividade de candidatos também será grande, só se chegará ao vencedor de uma forma diferente. O processo do desafiante conquistar uma das cadeiras dos finalistas é o seguinte: o cantor precisa inicialmente se apresentar para os jurados, que decidem de forma unânime se ele merece a chance de desafiar um dos The Four em batalha ou não; se sim, o desafiante escolhe um desafiado, e ambos se apresentam com canções diferentes, para posterior decisão do público presente no estúdio (via aparelhos de votação) sobre qual merece permanecer no programa.

 

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O formato do The Four remete imediatamente ao desafio das seis cadeiras, fase do programa X Factor onde todos os candidatos cantam, e vão sendo colocados e/ou retirados das seis cadeiras que representam as vagas finais nos times de seus técnicos. É uma das etapas com maior emoção e cortes mais marcantes desse reality. Essa escolhade um formato similar por parte dos produtores do The Four como uma garantia de emoção em cada programa, com o objetivo de prender a atenção do público. Inclusive, segundo a lógica desse produto, os quatro finalistas que iniciam um episódio podem ser totalmente substituídos por desafiantes desconhecidos ao fim do mesmo.

Os quatro finalistas que iniciaram o programa de estreia, escolhidos por produção e técnicos, foram Erik Moraes, Bruna Oliver, Fernando Manso e Stanya, que traziam o traço comum de possuírem carreiras desenvolvidas, por vezes já com CDs lançados ou composições com artistas estabelecidos no mercado. Após breve apresentação de cada um e um número musical dos quatro juntos, foram iniciados os desafios: um total de seis cantores nesse primeiro programa, que, após a votação da equipe de jurados, deram origem a três batalhas com membros do The Four. (SPOILER ALERT!) Houve prova que a rotatividade será alta: já nesse primeiro episódio, dois dos finalistas perderam suas cadeiras e foram eliminados do reality. De forma geral, vocalmente, os participantes, até então, pareceram competentes, sem grandes desafinadas ou deméritos, de forma similar ao que encontramos em outros programas de calouros como The Voice Brasil ou Ídolos. Uma apresentação que pode ser um destaque para o espectador é a do cantor Arthur Olliver, que interpretou a canção Fallin, de Alicia Keys. Acompanhe abaixo o vídeo, além do processo de análise dos jurados se o candidato poderia ou não realizar a batalha com um membro do The Four:

 

 

No The Four, chamam a atenção alguns detalhes, como a escolha do repertório dos participantes. No decorrer do programa, somente uma candidata optou por cantar uma música brasileira – inclusive com boa apresentação, porém foi eliminada pelos jurados. Uma canção de forró, “Xodó”, em um universo de doze números musicais. A escolha foi ainda questionada por um dos competidores e um dos jurados, em comentários, como possivelmente equivocada para um programa com tanta relevância de escolha de repertório. Creio que seja uma questão que merece ser destacada sendo que o programa se passa no Brasil.

Outra questão que pode surgir, assistindo ao programa, é a decisão da produção de dar a possibilidade de voto à plateia in loco, não envolvendo os telespectadores. Como gerar engajamento com o programa sendo que o público de casa não terá qualquer poder de decisão sobre a permanência de seus candidatos preferidos? No entanto, o fato da hashtag #thefourbrasil ter estado em primeiro lugar nos trending topics do Twitter no mundo (informação apresentada durante a exibição do programa) pode indicar também um cenário promissor em relação ao interesse do público. E você, se interessou pelo programa? Se sim, deixe um comentário com suas impressões!

 

*Hanna Nolasco é jornalista, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e desenvolve pesquisas sobre o uso da música em produtos televisivos.

 

Na trilha da série: Walt Disney Company e o lançamento de carreiras musicais

A Walt Disney é uma empresa de grande envolvimento com o gênero musical, tanto nos cinemas quanto na televisão. Suas animações musicais marcaram a infância de várias gerações, e sua ação também trouxe fama a artistas hoje célebres, impactando o mercado fonográfico estadunidense no decorrer das décadas. No Na trilha da série de hoje, destacaremos alguns artistas que iniciaram suas carreiras na Disney.

 

Mickey Mouse Club

 

Christina Aguilera, Britney Spears, Justin Timberlake. Quem acompanha a carreira desses cantores pop hoje, não imagina que sua trajetória se iniciou ainda na infância no Mickey Mouse Club, o clube do Mickey Mouse. Realizado pela Disney e exibido pela ABC e Disney Channel, esse programa esteve no ar em períodos diversos entre as décadas de 1950 e 1990.

Sendo um programa de variedades, os episódios do clube compreendiam esquetes de comédia, participação de celebridades, além de diversos números musicais. A versão lançada em 1989, estrelada pelos famosos cantores supracitados, além de outros artistas relevantes – Keri Russel, protagonista de The Americans, também fez parte da equipe desse programa em sua adolescência, por exemplo – foi denominada como o “novíssimo” clube do Mickey Mouse, apontando para uma renovação do estilo desse show.

Os números musicais variavam entre solos, duetos e números de coro, que compreendiam uma quantidade maior de artistas. Em destaque após se apresentar no Star Search, um reality show musical, com apenas 9 anos, Christina Aguilera mostrava no clube seu alcance e variedade vocal desde criança, apresentando alguns solos ao vivo como a seguinte canção de Aretha Franklin:

 

Outros números tinham vocais pré-gravados, sendo apresentados em playback (um tipo de dublagem) e com grande enfoque em coreografias. Um exemplo é o dueto de “I’ll take you there” apresentado por Britney Spears e Justin Timberlake:

 

 

Miley Cyrus e Hannah Montana

Quase duas décadas depois, um dos programas musicais recentes mais exitosos do Disney Channel, Hannah Montana, esteve no ar. Exibido entre 2006 e 2011, ele deu origem também a um filme homônimo. Estrelada por Miley Cyrus, a série acompanhava a história de uma garota que possuía vida comum durante o dia, porém à noite se transformava na estrela musical Hannah Montana.

O programa trazia alguns pontos de consonância com a vida pessoal de Miley: seu nome era o mesmo da protagonista, e seu pai, Billy Ray Cyrus – um cantor de música country- interpretava também o pai dessa personagem, que possuía a mesma carreira na ficção.

O sucesso de Hannah Montana alavancou a carreira musical de Miley Cyrus, que iniciou os trabalhos da série ainda com 14 anos. Sua trajetória familiar já trazia o ambiente da música, não só por seu pai, mas também por sua madrinha, uma das maiores cantoras do country estadunidense: Dolly Parton. No entanto, foi após a exposição que alcançou na série da Disney que a cantora lançou seu primeiro CD solo, Meet Miley Cyrus, em 2007. Desde então, desenvolveu sólida carreira musical perpassando vários gêneros de música.

“The Climb”, uma das canções mais famosas da carreira de Cyrus, foi lançada como single e utilizada no momento de ápice do filme Hannah Montana:

 

Artistas teens dos anos 2010

Após o sucesso da série anterior, a Disney investiu ainda mais em uma variedade de programas para o público adolescente, incluindo também filmes. Alguns exemplos são High School Musical, construído em uma trilogia, e Camp Rock, sequência de duas obras, todos sendo filmes musicais.

Este último título, lançado em 2008, destacou a performance musical dos artistas Demi Lovato e Jonas Brothers. Após o filme, eles saíram em turnê musical juntos, já desvinculados de seus papeis ficcionais. Demi continuou a fazer seriados no Disney Channel, enquanto tocava sua carreira musical. Já os Jonas Brothers, trio de irmãos cantores, alcançaram uma base de fãs tão expressiva que a emissora lançou Jonas L.A, uma série com formato de reality show, que acompanhava a rotina desses artistas.

Selena Gomez é outra artista contemporânea que possui trajetória similar à de Demi Lovato. Ela já havia atuado em televisão, mas foi protagonizando a série de fantasia do Disney Channel, Os Feiticeiros de Waverly Place, que ganhou mais notoriedade. Um ano depois do lançamento da série, Selena iniciou sua carreira musical com a banda The Scene. Seu primeiro álbum solo, no entanto, só foi lançado em 2013.

Além dos cantores citados aqui, muitos outros artistas tiveram carreiras lançadas pela Disney. Sendo assim, essa empresa trouxe impacto para a indústria fonográfica, também através da grande variedade e vendagem dos CDs de trilha de seus programas.

*Hanna Nolasco é mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e desenvolve pesquisas sobre o uso da música em produtos televisivos

Na trilha da série: Glee, Wicked e a luta por direitos

POR HANNA NOLASCO

O musical é um gênero que foi muitas vezes menosprezado por críticos e pesquisadores por ser encarado como mero entretenimento. No entanto, as temáticas sociais permeiam o enredo de seus produtos desde seu surgimento. Indo do teatro à televisão, o assunto foi abordado de diversas maneiras: a questão da diferença de classes era pano de fundo de My Fair Lady (teatros, 1956; cinema, 1964); as gangues de Nova Iorque e suas diferenças étnicas, base do enredo de West Side Story (cinema, 1961); e até filmes musicais infantojuvenis trouxeram discussões que perpassam o respeito ao próximo e a aproximação do diferente (A Bela e a Fera, 1991), os posicionamentos machistas de uma sociedade e a história de uma mulher que salva a China (Mulan, 1998) e também um governo ditatorial que assume o poder através do assassinato de um líder (O Rei Leão, 1994). Isso, além da guinada, a partir da década de 1970, de discussões mais abertas de temáticas sociais em musicais devido ao contexto histórico: Hair (1979), por exemplo, retratou a comunidade hippie estadunidense durante os anos 1960 e realizou uma crítica política à guerra do Vietnã. 

Mais especificamente em relação à discussão de preconceitos e de minorias sociais nos musicais, o tema do Na Trilha da Série de hoje é o seriado Glee e seu entrelaçamento com o musical da Broadway WickedGlee foi uma série musical de sucesso produzida pela FOX, com seis temporadas, exibida entre 2009 e 2015. O enredo se desenvolvia em um colégio no interior dos Estados Unidos, enfocando o Glee Club – coral – e seus membros. Nesse país, este tipo de grupo é apresentado como uma instituição marginalizada, que agrega jovens considerados nerds. A produção se apropria dessa discussão ao apresentar um grupo de estudantes guiados pelo professor Will Schuester, que saem de uma situação de preconceito escolar e constrangimento social ao prestígio entre os pares, através do sucesso em competições e divulgação da escola. Sendo assim, a narrativa mostra a transformação desse clube e da vida de seus participantes, abarcando temáticas como envolvimentos românticos, gravidez na adolescência e homossexualidade.

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A lista de músicas desse seriado abarcava grande quantidade de versões, indo do cancioneiro clássico estadunidense até hits da atualidade. Também havia uma aproximação grande com os musicais de teatro e cinema, visto que dois dos protagonistas, Rachel Berry e Kurt Hummel, almejavam ser atores da Broadway. É justamente na interação entre esses dois personagens, no nono episódio da primeira temporada de Glee, que foi realizada a versão de “Defying Gravity”, do musical teatral Wicked.

Esta canção é emblemática em Wicked: a história não contada das bruxas de Oz, obra que se passa na terra de Oz antes da ida de Dorothy – de O Mágico de Oz (1939). A peça trata da relação de amizade entre duas bruxas: Glinda, rotulada posteriormente como “bruxa boa” e Elphaba, posteriormente indicada como “bruxa má”. Acompanhando as duas bruxas desde a infância, o musical discute rótulos, questões de preconceito, corrupção na sociedade, além das próprias definições de boa/má: enquanto Glinda é branca e loira, Elphaba é verde, fator que sempre trouxe um estranhamento dos cidadãos de Oz em relação a ela. Esta produção, portanto, traz uma reflexão do que realmente é ser wicked (malvado), construindo assim uma crítica interessante a problemas vigentes em nossa sociedade, utilizando como metáfora essa terra fictícia.

 

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A canção “Defying Gravity” é utilizada no fim do primeiro ato da peça, marcando o momento em que Elphaba descobre que o Mágico de Oz, idolatrado por todos, não era um herói: pelo contrário, possuía planos sinistros para os animais de Oz. Sendo assim, a bruxa decide fazer tudo em seu poder para impedi-lo, mesmo enquanto os moradores de Oz a ridicularizam e vilanizam. Nesse momento, Elphaba canta sobre viver sem limites e ir de encontro a regras, desafiando a gravidade (tradução do título da canção), como podemos notar no trecho a seguir:

 

           “I’m through accepting limits                                                “Cansei de aceitar limites
‘Cuz someone says they’re so                          Porque alguém diz que eles existem
Some things I cannot change                          Algumas coisas eu não posso mudar
But till I try, I’ll never know”                                  Mas até eu tentar, nunca saberei”

 

Em Glee, no episódio 1×09, “Defying Gravity” marca um posicionamento do personagem Kurt, que luta pelo direito de interpretar essa canção na apresentação do coral, pois o professor Will deu o papel a Rachel somente por ser uma música tradicionalmente cantada por uma mulher. A mensagem da letra representa o momento vivido por Kurt, que tinha acabado de se assumir gay e se posiciona em face de uma decisão arbitrária, lutando por direitos iguais a solos em músicas independentemente de questões de gênero. Ao mesmo tempo, o episódio traz também um contexto do tratamento de homossexuais e suas famílias: o pai de Kurt, que o ajudou a ter a oportunidade de fazer a audição ao denunciar a atitude discriminatória ao diretor da escola, passa a receber telefonemas anônimos de cunho homofóbico.

 

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Sendo assim, durante a audição, Kurt erra propositalmente a nota mais aguda da canção, para que não seja selecionado por seus pares e seu pai não sofra mais ataques. Dessa forma, o episódio mostra não só um momento relevante de debate, mas também a realidade do preconceito de determinadas pessoas em relação àqueles que são diferentes.

Confiram aqui a apresentação de Idina Menzel e Kristin Chenoweth, da formação original de Wicked, na premiação Tony Awards, em 2004. Uma curiosidade: as duas atrizes participaram posteriormente de Glee, interpretando, respectivamente, a mãe biológica de Rachel e uma amiga de colégio do professor Will Schuester.

 

 

*Hanna Nolasco é jornalista, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e desenvolve pesquisas sobre o uso da música em produtos televisivos.

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