Crítica: Nem boa e nem ruim! Minissérie “Maniac” quase chega lá!

Por Enoe Lopes Pontes

Produzida pela Netflix e criada por Cary Fukunaga (It: A Coisa) e Patrick Somerville (The Leftover), Maniac é uma produção um tanto complexa de se descrever e adjetivar. A sua narrativa não possui unidade, é dispersa e cada enredo que eles criaram é mal aproveitado. Quando o público assiste ao piloto, a impressão é a de que o protagonista é Jonah Hill (Anjos da Lei) e que existirá um mistério a ser contado durante a temporada: o que Owen vê e diz é verdade ou não? Muito bem!

Em seguida, há uma quebra de expectativa – que poderia ter sido bem explorada, obviamente – e o segundo episódio é focado em Annie (Emma Stone). A partir daí, o espectador começa a pensar que irá montar o quebra-cabeça da relação de Annie com a irmã e o que isto tem a ver com Owen  dentro do enredo. Contudo, apesar do 01×02 ser bem executado, impactante, principalmente na forma de conduzir o conflito principal da personagem de Stone, ainda não é ali que a questão mais importante é posta. O que realmente o seriado vai contar é um experimento de uma empresa farmacêutica da qual os jovens interpretados por Stone e Hill irão ser cobaias. Saber que o processo e resultado disto é o que importa apenas fica claro… Bem, no final da série.

 

Resultado de imagem para maniac

O problema é que, ao invés de tentar contar com clareza o experimento e até mesmo usar as informações das personagens que são descobertas nas duas primeiras partes da trama, pequenas partículas de historinhas imaginárias são postas demasiadamente. O roteiro começa a parecer o mesmo labirinto mental que Owen e Annie estão, mas não de uma forma positiva. O tempo que é gasto com as fantasias das cabeças da dupla não têm ritmo, porque ficam estagnadas em um único tom, sem equilibrar aceleração com tensões ou calmaria, as falas são monocórdicas. Quando Maniac chega no final, a conclusão é de ela poderia se resolver em cinco episódios e ser mais impactante ou ter os dez que ele possui, mas que explorasse menos peripécias e desenvolvesse melhor o que importa: a saúde mental de Owen e o conflito de Annie com a irmã – sem spoilers!

Porém, não é possível dizer que a minissérie é ruim! A primeira coisa que chama a atenção é a experimentação de gêneros cinematográficos. Enquanto as cobaias estão desacordadas, elas vivem em mundos imaginários. Neles são mostrados romances, lutas, brigas, gangsters, dramas familiares, suspense, investigação. O tom, os figurinos, as temperaturas e as fotografias seguem bem cada estilo. O ponto alto é a história de máfia, vivida por Owen, que parece uma mistura de Os Bons Companheiros (1990, Martin Scorsese), com Baby Driver (2017, Edgar Wright). Mesmo fugindo da história principal que deveria ser contada, aqui o episódio consegue ser mais fluído graças ao ritmo imprenso nas fantasias de Owen. Inclusive, é quando a narrativa começa a voltar para o prumo e se encaminhar para um desfecho.

 

Resultado de imagem para maniac

 

Outro ponto positivo é a dinâmica entre Emma Stone e Jonah Hill. Os dois separadamente estão equilibrados, conseguem captar bem a essência das personagens fixas que fazem, bem como mostram outras facetas quando estão vivendo as pessoas da realidade paralela. Vozes marcantes, postura corporal, malemolência ou dureza, os atores trazem em cada persona uma figura diferente. Mas, as cenas crescem mesmo quando a dupla está junta. A vivacidade de Annie contamina a melancolia de Owen e tanto a dupla quanto os acontecimentos ao redor deles ganha equilíbrio, deixando que a energia seja apenas uma. Além, claro que a trama fica menos dispersa quando os dois se encontram.

Por fim, o clima de futurismo dos anos 1980, numa pegada Blade Runner (1982), é um plus para o seriado, que busca desconectar-se temporalmente. A ideia que se existia no século XX de máquina com sentimentos e pensamentos é colocada a todo vapor em Maniac. Inclusive, a trajetória da personagem/computador, dublada por Sally Fiel (Brothers and Sisters), é a que vai fazendo mais sentido durante as horas de exibição. Assim, a série vira um produto distraído, que pode ser consumido lentamente, sem maratonas, para não ficar entediante.

Crítica: montagem é a grande falha de Luis Miguel: A série

por Enoe Lopes Pontes

Produzida pela MGM e a Gato Grande e distribuída pela Netflix, Luis Miguel – a Série alcançou um sucesso tão grande no México, que até uma matéria sobre o entusiasmo de seu público saiu no El País. Contando a trajetória do cantor internacional que dá título para a história, a produção mescla drama familiar, com romance e uma pitada de mistério. Toda a trama se baseia nos sucessos e derrotas de Luis (Diego Boneta), através de idas e vindas em sua vida, entre sua pré-adolescência até o início de sua juventude. Com um início instigante, a lógica da narrativa não se sustenta, porque ela perde sua força quando abusa da questão temporal.

Um dos elementos que acabam faltando por conta disto é a progressão dramática. A vida do cantor parece ter sempre sido marcada pelas opressões de seu pai, o também cantor, Luisito Rey (Óscar Jaenada). Até a sua morte, em 1992, Luis Miguel precisou lidar com os ultrajes de seu progenitor que lhe causaram perdas e ganhos enormes em sua carreira e desastres em sua vida pessoal. Por isso, é possível que a dinâmica seja logo vista, mas a empatia demora a acontecer e algumas reações das personagens não parecem justificáveis, até que se avance nos episódios. A estratégia poderia funcionar, porém as emoções são jogadas aos montes, deixando o tom das cenas à cima por tempo demasiado.

Resultado de imagem para luis miguel a serie

Outros fatores não tão agradáveis são a montagem e a continuidade. Talvez, esta seja a grande questão da produção. Se uma reorganização das cenas fosse realizada, em cada episódio, a progressão e conexão com a trama conseguiriam crescer. Além disso, os cortes fazem o ritmo da exibição ir caindo e a fluidez da narrativa ir se perdendo. Resta uma ideia de que tudo que está sendo mostrado na tela é redundante e monótono. Por fim, as sequências foram realizadas com tanta falta de zelo que é possível notar erros de prosseguimento tão fortes que a questão até virou piada na internet – principalmente no Twitter, claro.

Contudo, existe uma questão que tem a capacidade de instigar o público a querer continuar sua maratona! O fator motivante para terminar a temporada é o mistério em relação ao sumiço de Marcela, mãe do protagonista. Entre as derrapadas de Luis e seu pai, a grande questão que desperta curiosidade é como vão mostrar a busca da personagem principal por um reencontro com Marcela e a razão pela qual ela sumiu. Inclusive, a atriz que a interpreta, Anna Favella, consegue estabelecer uma boa dinâmica com os dois atores que interpretam o cantor em sua fase de adolescente (Izan Llunas e Luis de La Rosa). As relações de olhar e toque, devido ao medo que os dois têm de Luisito ou alguma conquista maior de Luis, são logo notadas. O gestual de Favella fica mais suave quando sua personagem está ao lado do filho, e o mesmo demonstra segurança e tranquilidade quando acontecem interações entre os dois.

Resultado de imagem para luis miguel la serie micky y marcela

Luis Miguel: A Série consegue enlaçar o espectador até o final da temporada por possuir uma investigação curiosa, que pode ser considerada o ponto alto do seriado. Contudo, se diluísse mais as idas e vindas da trajetória de Luis e enxugasse os episódios de treze para oito, talvez conseguisse reunir os fatos mais necessários para a trama e ganhasse impulso e brilho que um cantor que despertou tantos fãs mundialmente merecia.

 

Especial: Séries que tratam sobre militância

Por Enoe Lopes Pontes

Assistir seriados pode ser um momento de relaxamento, de desligar-se do mundo e curtir aquela maratona divertida. Mas, o lazer também tem a possibilidade de chegar com reflexões e pautas relevantes para a sociedade. Enquanto o espectador consome uma produção bacana, que prende a atenção, a representatividade e a luta das chamadas minorias sociais acrescentam qualidade ao seriado.

Pensando nisso, o Série a Sério traz agora uma lista com séries que tratam sobre militância de diversas formas. Aqui, a busca foi enumerar obras que abordam temas mais variados possíveis, que possuem um discurso coerente e que conseguem debater  questões importantes para serem fomentadas, trazendo soluções.

Lembrando que a ideia da lista veio de um sorteio com sugestões de nossos leitores pelo o instagram do site (@serie_a_serio). O público pode interagir e mandar dicas para a página sempre que desejar. Mas, por enquanto, fique ligadinho neste top 5, feito para você que curte estar engajado e informado!

 

Resultado de imagem para sense8

 

5 – Sense8 (2015-2018): Oito pessoas, espalhadas pelo mundo, estão conectadas entre si e conseguem viver situações e sentimentos iguais, ao mesmo tempo. Localizados em regiões distintas, a representatividade dentro do seriado começa pelas diferentes etnias do grupo. Contudo, o ponto alto de reflexão da série vem da personagem Nomi Marks (Jamie Clayton), uma garota transgênero que precisa lutar contra a família que não aceita a sua identidade. Além de ser trans, Nomi é lésbica, o que deixa ainda mais tensa a sua relação com os parentes. Mas, Sense8 tem outras questões relevantes como: a homossexualidade do ator famoso Lito (Miguel Silvestre), as dificuldades sociais e financeiras de Capheus (Aml Ameen) e o girl power de Sun (Bae Doona). Apesar de muitas pautas necessárias e uma premissa instigante, a produção ficou muito custosa e foi cancelada em 2018. Ainda assim, vale a pena conferi-la.

 

Resultado de imagem para the fosters

 

4 –  The Fosters (2013-2018): Produzida por Jennifer Lopez e exibida pelo canal Freeform, a série conta jornada de uma família estadunidense não tão convencional. Duas mulheres são casadas e possuem três filhos. O garoto mais velho é fruto do primeiro matrimônio de Stef (Teri Polo). Já os gêmeos Jesus (Noah Centineo) e Mariana (Cierra Ramirez) são adotivos e de origem latina. De repente, Stef e Lena (Sherri Saum) precisam acolher mais duas crianças temporariamente: Callie (Maia Mitchell) e Jude (Hayden Byerly). Dentro deste contexto, é impressionante como o seriado tem a capacidade abarcar múltiplas discussões fortes e importantes da sociedade, em um tom cotidiano. Eles conseguem criar empatia, aproximando o espectador com a realidade daquelas personagens, trazendo isto em uma mãe muito rígida ou uma adolescente rebelde, por exemplo. Assim, assuntos como a descoberta da homossexualidade na adolescência, drogas, alcoolismo, racismo, lesbofobia, estupro, assédio sexual e moral são inseridos em cada episódio. Em alguns momentos, a exposição dos problemas fica um tanto didático, porém os roteiristas equilibram isto colocando instantes de intimidade entre os Fosters.

 

Resultado de imagem para faking it

3 – Faking It (2014-2016): Produzida e exibida pela MTV, Faking it mostra a história de uma escola na qual todas as minorias sociais são populares. Por esta razão, duas melhores amigas fingem ser um casal para chamar a atenção do colégio. A partir disto, Amy (Rita Volk) começa a notar que tem sentimentos reais por Karma (Katie Stevens). Mas, a garota sofre muito porque sua crush gosta de um garoto, o Liam (Greg Sulkin). A partir desta premissa, o seriado foca, inicialmente, em discutir sobre a sexualidade. As duas garotas se questionam sobre gostar de meninos e meninas e existe sempre uma tensão no que tangem a bissexualidade e a homossexualidade, mostrando que as duas orientações existem e precisam ser discutidas. Contudo, a produção avança ainda mais quando traz o tema da intersexualidade. Uma das personagens descobre que é intersexo e a forma como a série trata todo o processo da jovem é delicada e esclarecedora. Por fim, outros assuntos são mencionados em vários episódios, como o racismo, a gordofobia, a mobilidade e a visibilidade de deficientes, a quebra de expectativa em relação aos muçulmanos, entre outras coisas que valem cada minuto gasto!

 

Resultado de imagem para dear white people

2 – Dear White people (2017-): Adaptação do filme homônimo de 2014, a série é uma realização da Netflix. Mostrando o dia a dia de uma famosa universidade dos Estados Unidos, na qual a maioria dos estudantes é branca, a produção mostra os desafios que os alunos negros passam no campus. As tensões aumentam após uma festa na qual o tema era blackface. Obviamente, a sugestão foi feita por caucasianos que não possuiam sensibilidade e/ou conhecimento para barrar um ato tão racista. A partir disto, cada episódio trata da perspectiva de uma das personagens do seriado. Dear White People torna-se uma obra muito relevante por trazer pautas essenciais para a comunidade negra, inclusive aquelas que muita gente gosta de fingir que não existem. A autora deste top 5 reconhece que este não é seu lugar de fala, no entanto sabe também da profunda importância da discussão promovida por DWP e, por isso, recomenda que todos a assistam, urgentemente.

 

Resultado de imagem para the bold type

 

1 – The Bold Type (2017-): Racismo, homofobia, empoderamento feminino, intolerância religiosa, relação com tecnologia… Esta série consegue abarcar quase todas as pautas pertinentes para a sociedade contemporânea. Além de provocar reflexão e debate sobre assuntos importantes, a melhor coisa de The Bold Type é o como ela faz isso. Ambientada dentro de uma revista de moda, na maior parte do tempo as personagens principais precisam lidar com a rotina estressante, mas gratificante de seus trabalhos. Exibida pela Freeform, a produção encaixa-se no gênero adolescente e é esse o seu ganho. De maneira leve e divertida, ela consegue sinalizar grandes problemas sofridos pelas pessoas. Questões que parecem bobas, como o julgamento de uma garota pelo o que ela veste, até algo forte como a homossexualidade de uma mulher muçulmana são os destaques de cada episódio, durante as duas temporadas já exibidas. Aqui, o espectador vai se encontrar de alguma maneira. E, apesar dela ser voltada para os teens, The Bold Type consegue dialogar com uma faixa etária ampla. Ainda que a história seja sobre Sutton (Meghann Fahy), Kat (Aishaa Dee) e Jane (Katie Stevens), jovens em ascensão, outras narrativas são colocadas como importantes para o desenvolvimento do enredo. Assim, se você é uma menina que sonha por direitos iguais, é a chefe atenciosa ou alguém que luta para uma flexibilidade maior na sua religião ou cultura, existe a possibilidade de se sentir representada. O seriado ocupa a primeira posição por conseguir imprimir todo o sufocamento das minorias sociais de forma clara e objetiva e trazer também possíveis soluções para os problemas que afligem tanto algumas parcelas da sociedade. Vejam!

Maratone como uma garota: Sororidade e empoderamento em Good Girls

As meninas hoje podem ser tudo” – ecoa a abertura do episódio piloto de Good Girls, a nova comédia dramática da NBC, distribuída pela Netflix.

Criada e produzida por Jenna Bans, a série conta com uma história que envolve “cidadãos de bem” que se envolvem com drogas, armas e chefões do tráfico para levantar uma graninha em momentos de desespero. Este plot já nos é familiar, vide Breaking Bad. Mas, quando esse plano é levado a cabo por mães de família frustradas, com problemas financeiros, porém dispostas a tudo pelos filhos e por si mesmas, o resultado pode ser um enredo cheio de reviravoltas. Dentro deste contexto, Good Girls consegue apresentar um universo consistente, com personagens fortes e bem desenvolvidas. No Maratone como uma Garota de hoje, vamos falar sobre como o girl power e a sororidade* tornam a trama ainda mais cativante!

A história gira em torno de Beth Boland (Christina Hendricks), Annie Marks (Mae Whitman) e Ruby Hill (Retta), um trio de amigas que, com problemas pessoais, optam por um atalho não convencional a fim de coletar dinheiro para demandas emergenciais. O plano: um assalto ao mercado onde Annie trabalha. O que era para ser um episódio isolado acaba inserindo as personagens em uma sequência de acontecimentos perigosos, já que o dinheiro do cofre pertencia ao chefe do tráfico local, que vai buscar retaliação.

Resultado de imagem para good girls

Apesar de não ser completamente original, a premissa principal ganha aqui contornos interessantes, ao inserir e trabalhar os dramas pessoais de cada uma das protagonistas, tensionando questões femininas de forma crítica. Vários são os motivos para qualquer um grudar no sofá e devorar os dez episódios. A começar pela maneira como o piloto é bem construído. Mas, também pelo desenrolar dos twists inseridos no roteiro e as questões secundárias. Estes elementos garantem um ritmo que mantém o fôlego até o final. A proposta de dramédia acaba rendendo melhores momentos cômicos, enquanto certos pontos dramáticos, como assédio e estupro, por exemplo, carecem de aprofundamento. Vamos, porém, concentrar a atenção em um elemento essencial que diz respeito a como as questões de gênero são construídas no caminho traçado na temporada. 

O protagonismo feminino é o elemento mais evidente, porém a representatividade não se esgota aí. São todas mulheres e mães, mas as idades diferentes, as personalidades e experiências de vida bastante distintas conferem fluidez à narrativa. Beth é dona de casa, tem quatro filhos e acaba de descobrir que o marido, além de traí-la com sua secretária, uma caricata loira padrão mais jovem, gastou todo o dinheiro da hipoteca. Annie, irmã mais nova de Beth, é caixa do supermercado. Foi mãe ainda adolescente e briga pela guarda da sua filha de onze anos, Sadie, que não se encaixa nos padrões de gênero e se veste como menino, o que a torna vítima de bullying na escola. Já Ruby é mãe de dois filhos, negra, trabalha como garçonete e, junto ao marido que é estagiário na polícia, tenta pagar o tratamento da doença renal da filha mais velha.

Resultado de imagem para good girls

A decisão de assaltar o mercado parte não apenas das necessidades de cada uma, mas da comoção com os problemas das demais, principalmente, a doença da filha de Ruby. Esse é talvez o traço mais marcante da sororidade do trio, essa palavrinha especial que vem ganhando cada vez mais força. A união feminina aparece de forma bastante potente também (SPOILER ALERT!!!!!!!!!) quando Beth salva Annie, enquanto esta era estuprada pelo chefe Boomer (David Hornsby). Ela (Beth) não hesita em ameaçar e agredir o criminoso, afirmando que o NÃO de uma mulher deve ser respeitado. As três permanecem unidas no suceder dos acontecimentos e vão transformando-se nesse elo.

Discursos feministas são bastante recorrentes, sendo o tom de girl power bem explorado em muitos momentos. A filha de Ruby é uma ativista que sabe muito bem que as garotas podem tudo, como ela mesma afirma. O apoio de Annie à identidade de gênero da filha é um potente exemplo de empoderamento. Quem melhor encarna esse tom é Beth. Líder do grupo, ela é o estereótipo mais comum de dona de casa da classe média estadunidense: atraente, inteligente, membro da associação de pais do colégio e esposa prestativa. É ela quem desafia Rio (Manny Montana), o chefe do tráfico, e propõe o esquema de lavagem de dinheiro que conecta as amigas ao crime. É a personagem cuja transformação é a mais notável, principalmente o contorno que sua personalidade passa a assumir.

Resultado de imagem para good girls

A relação familiar é mote central de grande parte dos eventos, mas também convoca a reflexões sobre as mulheres na sociedade e ao que usualmente se espera do seu comportamento e escolhas, em especial, quando mães. Ao assumir o controle da economia do lar, Beth inverte a relação matrimonial que a oprimia. Annie representa as várias jovens que, sozinhas, tentam equilibrar a criação de um filho com o próprio crescimento. Em sua relação com Sadie, adolescente madura e responsável, ela encontra um suporte e companheirismo. Ruby vivencia diariamente o racismo, a angústia do sistema de saúde, e vê o casamento feliz e estável em risco ao envolver-se com o crime.

O desenvolvimento das personagens demonstra a intenção da direção em tentar brincar com os lugares de vilãs e mocinhas, em um debate moral, já que toda escolha transforma o ser humano, de alguma forma. Nota-se o cuidado com que a transição e transformação delas vai revelando nuances de suas personalidades e, por conseguinte, das mulheres reais. As “boas garotas” vão precisar lidar com as consequências das más escolhas na sequência, já confirmada para 2019.

O grande trunfo de Good Girls é, sem dúvida, a dinâmica do elenco, que conduz a trama com maestria. Muitos traços refletem a própria trajetória das atrizes. A interação entre elas é muito potente, especialmente na contra-cena, e garante o carisma do trio e humaniza a narrativa. O combo comédia com mulheres no crime garante uma boa maratona!

 


* Sororidade – do latim, soror -oris = irmã. Nome que se dá à união ou aliança entre as mulheres. É um conceito muito caro aos feminismos e está relacionado à empatia e companheirismo.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

CRÍTICA 13 REASONS WHY

por Enoe Lopes Pontes

Nesta sexta-feira, 18, a Netflix disponibilizou a segunda temporada de 13 Reasons Why. Produzido pela atriz e cantora Selena Gomez (Os Feiticeiros de Waverly Place), o seriado voltou mesmo após deixar uma sensação de que o final do seu primeiro ano se bastava e dava certo encerramento para a história. O anúncio de uma continuação deixou dúvidas como: será que o retorno precisava existir? Qual seria o novo plot? A narrativa conseguiria manter o seu estilo e estrutura? Eles teriam fôlego para manter o enredo vivo e interessante até o final?

Com o lançamento da parte dois de 13 Reasons, as respostas  vieram com um feedback cheio de “Sims” e de “Nãos”. Primeiro, é preciso reconhecer que os roteiristas conseguiram trazer um bom motivo para a season 2: Olivia (Kate Walsh), mãe da Hannah Baker, decide processar a escola por não ter protegido sua filha corretamente, impedindo a decisão da jovem de encerrar a própria vida. Com o caso em julgamentos, muitos estudantes precisam depor e reviver tudo o que aconteceu no período crítico que trouxe a morte de Hannah.

Até aí tudo bem. A premissa faz sentido pensando-se no desfecho da temporada anterior. Contudo, o desenvolvimento da narrativa possui altos e baixos, típicos de muitas séries da Netflix que parecem mais que querem esticar a história para preencher a quantidade necessária de episódios do que, de fato, expôr acontecimentos relevantes para a trama. Talvez 13RW se fosse uma minissérie, com sete ou oito episódios, funcionasse mais e isto trouxesse uma dinâmica maior para o script. Isto porque os autores da produção preencheram muitos vazios com conversas do Clay (Dylan Minnette) com a Hannah (Katherine Langford) que não são fundamentais para movimentar a narrativa; ou, por exemplo, quando trata do relacionamento do garoto com uma nova namorada que, inclusive, é bem explorado até certa parte do enredo, mas é abandonado quando outros conflitos tornam-se mais importantes para a trama.

A sensação que o público pode ter é o da existência de um conflito principal bem desenvolvido – com detalhes sendo revelados aos poucos, estabelecendo a tensão necessária para a série e aumentando a complexidade das personagens e de suas relações – mas, com conflitos externos ao plot principal cheios de pontas soltas, que enfraquecem o poder da narrativa. O que vale destacar de positivo, no entanto, é o crescimento do desenvolvimento da personalidade das personagens e das relações que elas estabeleciam com Hannah. Comparando este ano com o anterior, os treze porquês ficam ainda mais compreensíveis! Além disso, alguns dos mistérios que envolvem o relacionamento dela com os colegas, professores e a família são revelados a cada episódio, mostrando que Baker vivenciou muitos momentos importantes e profundos com as pessoas que aparecem nas fitas e fora delas, dando mais sentido a relevância deste indivíduos no cotidiano da adolescente.

A forma como eles passam o bastão da história de Hanna para a próxima também é  realizada de uma forma bacana, porque a personagem vai crescendo dentro da trama aos poucos. As suas fragilidades, medos e sofrimentos vão sendo mostrados gradativamente, junto com a maneira como os adultos “ajudam” esta pessoa, até que ela chega no seu limite e não suporta mais tanto pesar. Bom, mas sem spoilers, não é verdade.

Se o leitor deste texto procurou ele para encontrar uma resposta para a pergunta: “devo ver a segunda temporada de 13 Reasons Why?”, o Série a Sério deixa dois conselhos: 1. Você está bem psicologicamente para ver os conteúdos exibidos em seriado que fala sobre bullying, suicídio, violência contra a mulher e ingestão pesada de álcool e drogas? Se sim, tudo bem, prossiga para a próxima questão! 2. Você curte muito 13RW e deseja saber quais os rumos que trama tomou e pode vir a seguir no futuro? Se sim, então vale a pena ver! Se não, se você só acha o seriado ok, corre para ver The Handmaid’s Tale, Gilmore Girls ou qualquer outra produção destas mais firmes, que estejam passando na TV convencional ou streaming.

 

TOP 5 – SÉRIES GIRL POWER

por Enoe Lopes Pontes

Representatividade! Ligar a TV, acessar o tablet, abrir o computador e se ver na tela é uma das melhores sensações que a recepção pode ter. Apesar de Hollywood ser uma terra dominada por homens – sobretudo brancos -, as produções têm apresentado uma maior quantidade de personagens de gêneros, etnias e sexualidades distintas. Obviamente, a igualdade não foi alcançada, ela ainda está muito longe. Contudo, vale celebrar e assistir aos seriados que trazem diversidade na equipe e em seus textos.

Pensando nisso, o Série a Sério traz agora uma lista com cinco séries mais Girl Power da televisão estadunidense. No top 5, foram consideradas a popularidade, o grau de representação na tela e o discurso das produções. Lembrando que o tema foi escolhido pelos leitores em nosso instagram! Confiram!

 

Imagem relacionada

5. Desperate Housewives (2004-2012): Exibida pelo canal ABC e criada por Marc Cherry (Devious Maids), a série é uma dramédia de mistério, na qual quatro donas de casa perdem uma grande amiga que se suicidou. Juntas, elas descobrem que existem motivos obscuros para a morte da tão querida amiga e passam a investigar os segredos que levam Mary Alice a tirar a própria vida. Além da qualidade técnica do seriado, que sabe dosar em cada episódio os momentos cômicos e trágicos, ter uma boa dinâmica no elenco e uma trilha que casa com a ironia que a produção busca passar, Desperate é puro girl power. Em 2004, o público teve contato com quatro mulheres fortes e donas de si que, apesar de em sua primeira camada, demonstrarem ser esterótipos femininos estabelecidos no imaginário da sociedade: a esposa perfeita e cuidadosa (Bree), a divorciada atrapalhada (Susan), a mãezona estressada, cheia de filhos travessos (Lynette) e a fútil (Gabrielle); eram muito mais do que isso. Durante as oito temporadas de Desperate Housewives estes arquétipos vão caído por terra e as moças vão demonstrando camadas profundas em suas personalidades, as dificuldades enfrentadas por serem mulheres, os dribles no machismo e a força guardada em cada uma.

 

Resultado de imagem para annalise keating

4. How to Get Away with Murder (2014-): Viola Davis é protagonista deste drama criminal, também exibido pela ABC. Davis interpreta a professora Annalise Keating, uma célebre advogada que precisa de cinco estagiários para trabalhar com ela em seu escritório. Obviamente, ela e os alunos escolhidos envolvem-se em crimes e situações tensas que vão se complicando cada vez mais a medida que a narrativa avança. O girl power está presente na produção tanto em Keating quanto nas figuras femininas coadjuvantes. São as mulheres que descobrem ou planejam as ciladas primeiro, que sabem se expressar melhor e movimentam a trama com mais complexidade e desenvolvimento. HTGAWM é um produto da Shondaland – empresa de Shonda Rhimes, criadora de Scandal e Grey’s Anatomy – e traz consigo uma qualidade presente nas obras da produtora: a diversidade étnica e a visibilidade gay. No caso de How to Get Away, a bissexualidade também está em voga, algo mais raro e muitas vezes tratado de maneira equivocada, como um fetiche ou uma confusão.

Resultado de imagem para buffy a caça vampiros

3. Buffy – A Caça Vampiros (1996-2003): Poucas produções possuem um grau tão alto de girl power como esta série. A começar pela protagonista, Buffy Summer (Sarah Michelle-Gellar), uma jovem caçadora de criaturas sobrenaturais. A forma como a personagem é independente, firme e corajosa é uma inspiração. Construída paulatinamente com camadas de complexidades adicionadas a cada ano, sua postura de heroína só cresce dentro da história, chegando no ápice na sétima temporada, quando Summers já é uma mulher totalmente consciente e dona de suas ações. Outro destaque é Willow Rosenberg (Alyson Hannigan), que começa como uma menina ingênua e nerd, a jovem torna-se muito poderosa e determinada. Além disso, Willow é uma das primeiras personagens lésbicas assumidas da telvisão estadunidense e toda a sua trajetória até namorar uma mulher acontece com muita naturalidade e faz sentido dentro da trama. Por fim, é bacana falar sobre a presença de Joyce Summers (Kristine Sutherland), mãe de Buffy. Apesar de trazer um pouco do ideal de espírito maternal, aqui Joss Wheadon – showrunner* de Buffy – criou uma persona mais complexa. Joyce cria a filha sozinha e busca o melhor para ela, mas também tem vida própria e uma personalidade forte. Vejam bem, a produção começou em 1996, quando se era muito comum colocar senhoras rabugentas ou passivas nos enredos. Aqui não! Há fibra, garra e até participação direta em conflitos com mais ação. Na trama ainda existem coadjuvantes fortíssimas como Anya (Emma Caulfield) e Cordelia Chase (Charisma Carpenter). Por estes motivos e por ser muito divertida, Buffy – A Caça Vampiros vale muito a pena ser conferida.

Resultado de imagem para the handmaid's tale

2. The Handmaid’s Tale (2017-): Fotografia, roteiro e atuações; a qualidade dos elementos técnicos da série já é um chamariz para o espectador. Contudo, a discussão que a produção provoca é ainda mais relevante. Baseado na obra homônima de Margaret Atwood, o enredo traz um mundo distópico no qual as mulheres são brutalmente escravizadas, violentadas e assassinadas. Nada é tão diferente do que a sociedade da vida real vive. O que a história faz é colocar uma lente de aumento nos maus tratos, no machismo, na homofobia e no radicalismo para que o público fique tão tocado e provocado que possa conseguir alcançar algumas reflexões, tais quais: qual o lugar que as mulheres ocupam de fato na sociedade? Quantas repressões elas vivem em seus cotidianos? O que lhes é tirado todos os dias? O que está acontecendo com cada uma delas neste momento? O discurso é potente e as ferramentas para contar as trajetórias destas figuras são muito boas. A segunda temporada já começou a ser disponibilizada pelo canal streaming Hulu. Corre!

 

Resultado de imagem para orange is the new black1. Orange is the New Black (2013-): Observando a quantidade de diversidade presente em Orange, já é possível compreender a razão dela ocupar a primeiríssima colocação da lista. O seriado, porém, vai além disto: há qualidade em sua representações. Inicialmente, o espectador é apresentado ao cotidiano de Piper Chapman (Taylor Schilling), uma menina branca de classe média dos Estados Unidos, que é sentenciada a quinze meses de prisão por envolvimento com tráfico de drogas. A sacada da produção de começar com uma jovem que se encaixa mais no padrão dos EUA e ir introduzindo os conflitos de mulheres de outras etnias e classes sociais, atrai o público diverso e segura o mais conservador. No final das contas, olhando para as cinco temporadas de OITNB, é possível encontrar também a sensibilidade para retratar estas figuras femininas encarceradas, seus conflitos, seus sentimentos, suas vidas dentro e fora da cadeia. Se você ainda não viu Orange, corre lá para ver!

 

Resultado de imagem para lost girl

Outros títulos girl powers que valem ser conferidos: I Love Lucy, A Feiticeira, Jeannie é um Gênio, As Panteras, Charmed, Sex and the City, Gilmore Girls, Cold Case, The New Adventures of Old Christine, The Closer, Ghost Whisperer, Weeds, Grey’s Anatomy, The Comeback, Being Erica, Drop Dead Diva, The Good Wife, Body of Proof, Rizzoli & Isles, Revenge, 2 Broke Girls, Lost Girl, Veep, Faking it, The Fosters, Scandal, Supergirl, The Fall, Unbreakable Kimmy Schmidt, Jessica Jones, Crazy Ex-girlfriend, Big Little Lies, The Bold Type.

Santa Clarita Diet – O Retorno da Bomba

por Enoe Lopes Pontes

Nem só de cliffhanger vive uma série! Aliás, qualquer narrativa digna precisa de desenvolvimento, lógica e  coerência em todos os elementos que traga. Apesar de possuir bons desfechos em seus episódios, daqueles que deixam o espectador com vontade de terminar a temporada, o segundo ano de Santa Clarita Diet peca em saber manter o foco da trama e aproveitamento do plot .

Diferentemente da primeira parte de Santa Clarita, na qual as piadas e ações dramatúrgicas pareciam forçadas e deslocadas, aqui parece haver um esforço para que os conflitos menores se encaixem com a problemática geral: Sheila (Drew Barrymore), uma mãe do subúrbio dos Estados Unidos virou um zumbi e sua família deseja encontrar uma cura. Ainda assim, os realizadores deixam a sensação de que tem muita coisa ocorrendo ao mesmo tempo e o resultado acaba sendo o mesmo. Ok, todos os acontecimentos do roteiro acabam movendo o plot, contudo, a quantidade de personagens e “quiprocós” introduzidos retardam a resolução que a trama precisa, além de não trazer complexidade para o texto e ações.

Resultado de imagem para santa clarita diet

Um exemplo disto é o papel de Ramona (Ramona Young). Há uma inexpressividade desta figura, que parece ser algo demandado pela direção. Porém, ela não é apenas sem viço em sua interpretação, mas em sua própria participação na narrativa. Por que a jovem ganhou tanto espaço de cena se ela está ali apenas para revelar uma informação e sair? E se ela recebeu este foco, deveria ser mais bem explorada ou ter um desfecho menos apressado. Assim, como a moça, as escolhas de Victor Fresco (My Name is Earl) e sua equipe parecem todas apelativas e facilmente descartáveis.

No entanto, há uma qualidade nestes novos episódios que antes fora apenas rascunhado. Drew Barrymore (As Panteras) e Timothy Olyphant (O Maior Amor do Mundo) conseguem estabelecer uma boa dinâmica entre eles. O jogo, que é necessário que atores façam em cena, acontece em equilíbrio. É notável que eles estão conectados, pois a dupla traz no subtexto que há um entendimento forte entre o casal, através de olhares e gestos que dispensam palavras – o que pode ser que salve mesmo, visto que o texto é tão apelão -, além da constante troca entre agitação e tranquilidade das personagens que os dois dosam entre si, deixando que o espectador consiga fruir mais os acontecimentos e respire entre um frenesi e outro.

Resultado de imagem para santa clarita diet season 2

Ainda que uma relativa melhora tenha acontecido em Santa Clarita Diet, a série continua pecado em diversos fatos, incluindo ser uma comédia que não tem graça. Agora, resta esperar para ver se o conflito será finalmente resolvido ou a Netflix vai cair em si e cancelar esta produção.

 

Com indecisão de plot e falta de ritmo, Jessica Jones tem uma temporada morna

por Enoe Lopes Pontes

Após três anos de hiato, Jessica Jones finalmente chegou ao catálogo da Netflix. Continuando a explorar traumas da protagonista para impulsionar a sua história, a segunda temporada da série demora de engatar e parece enrolar o espectador da pior forma. Isto porque a decisão de qual conflito será explorado e quem a protagonista vai enfrentar vai sendo adiado e muitas personagens vão sendo inseridas ao mesmo tempo, podendo deixar o espectador perdido e/ou entediado. Há uma confusão sobre qual é o caminho que a narrativa vai seguir, o que pode deixar o acompanhamento dos três primeiros episódio uma tarefa cansativa.

Um dos elementos que contribuem para a falta de rumo do plot são os micro conflitos deste segundo ano do seriado, que envolvem os coadjuvantes! Ok, explorar o que acontece com a vida dos que cercam JJ poderia ser positivo, mas o roteiro e as atuações não exploram com profundidade seus sentimentos, problemas e emoções. As questões que envolvem Jeri Hogarth (Carrie-Anne Moss) e Malcom Ducasse (Eka Darville), por exemplo, são entregues a conta gotas, as soluções das peças deste um quebra-cabeça são óbvias desde o início, porque são clichês  e já muito utilizadas (sem spoilers). Há também uma direção falha, por deixar que o trabalho de ator de Moss e Darville pareça forçado e “apelão”, como numa tentativa para cativar o público, mas que, no fim, soa não orgânico. A única personagem secundária que se destaca em sua narrativa e interpretação é Patrícia/Trish Walker (Rachel Taylor). Sem entregar muito, talvez esta seja a parte mais instigante da trama.

 

 

Patrícia deixa ser uma figura plana, aquela que é apenas a melhor amiga da mocinha e passa a ocupar uma relevância dentro das teias que o enredo vai formando. Há uma complexidade nova em Walker. Isto pode ser visto na Taylor, através de seus movimentos de corpo, que exploram ritmos combinados ou descombinados com as ações que se passam na tela e as suas gesticulações que chamam a atenção a depender da idade da moça. A sua construção deixa clara as motivações da personagem e as marcas que a sua vida pregressa deixou em seu olhar e postura corporal. É por isso que os flashbacks enriquecem ainda mais o entendimento sobre a Trish Walker e preparam o espectador para a sua última cena da temporada! (Sem spoilers!!).

Mas, voltando para a Jessica! Aqui, vemos uma ampliação também dos elementos que formam a personalidade da JJ. Ao mostrar seu passado, a série coloca suas fragilidades expostas, assim como na primeira temporada. Contudo, estas revelações refletem no presente de Jones de uma forma que a deixa mais sensível, mostrando até um lado mais doce dela. Neste sentido, Krysten Ritter é bem sucedida. A artista não perde o que já foi estabelecido da heroína anteriormente, porém coloca camadas de sentido novos, com olhares mais demorados em suas contra cenas e pesando ainda mais na energia e nos movimentos na frente das telas.

 

 

Apesar de Trish, Jessica e a relação das duas serem bem abordadas pelos roteiristas e pelas atrizes, a quantidade de fillers* em cada episódio quebra o ritmo da narrativa, deixando o público fatigado. As cenas de ação também parecem pequenas, em comparação com o primeiro ano de JJ. Tampouco há uma criação de tensão que seja sustentada por um tempo grande. A sensação que a temporada deixa é uma indecisão sobre o plot principal.

Com um conflito que demora em se estabelecido e ritmos desnivelados, a segunda temporada de Jessica Jones é uma história sobre relações sentimentais entre familiares e amigos. Apesar de tentar enriquecer a complexidade das cenas e de suas personagens, a série apenas enche linguiça e pode deixar o espectador entediado até a sua metade.

 

*Filler: encheção de linguiça

 

TOP 5 – MELHORES SÉRIES ESCONDIDAS NA NETFLIX

por Enoe Lopes Pontes

As séries de TV mais vistas são descobertas pelo público através de divulgação pesada, por material dos grandes veículos de comunicação, pelas redes sociais e por indicação de amigos. Sejam  mais novos ou antigos, os seriados mais conhecidos acabam caindo no gosto do público e são muito maratonados. Há alguns casos, no entanto, de produções bem realizadas, mas que perdem seu destaque ou nunca foram descobertas. Algumas obras foram marcantes apenas em suas épocas,  outras não alcançaram uma alta popularidade mundialmente ou são difíceis de encontrar para comprar ou na internet.

Independentemente da razão para este mistério, o Série a Sério garimpou a Netflix e encontrou algumas pérolas um pouco mais raras, que valem pela qualidade, nostalgia, diversão ou puro entretenimento.  A lista – escolhida através de votação em nosso instagram: @serie_a_serio – buscou juntar gêneros, épocas e gostos diversos! Confiram!

 

Resultado de imagem para van helsing serie

5 – VAN HELSING (2016-) – Com duas temporadas exibidas pelo Canal Syfy (Estados Unidos) e pela Netflix, (Brasil), a série mostra uma sociedade distópica, na qual os vampiros infectaram os humanos e tomaram conta do planeta. Numa de mistura que fica entre The Walking Dead (AMC, 2010-) e Hemlock Grove (Netflix, 2013-2015), o seriado prende a atenção por despertar  curiosidade e atenção para o mistério que cerca a narrativa. As revelações ocorrem lentamente, mas sem perder o fôlego ou o ritmo da história. O seu roteiro tem consistência na medida em que sabe amarrar os conflitos que são desenvolvidos em episódios espaçados, sem se perder na teia de peripécias criadas pelos autores. Entre os flashbacks e o presente, o público vai desvendando quem é a protagonista e a sua importância dentro deste universo. Apesar do pontos bacanas, essa estrutura apenas se mantém completamente no primeiro ano de Van Helsing, deixando um gostinho de frustração e enrolação no ar na sua segunda parte. De toda forma, a produção vale ser conferida! Sejam pelas razões já citadas, por ter uma protagonista mulher bem interpretada (Kelly Overton) ou pelos cliffhangers, Helsing justifica a sede de um seriador por um bom binge watching*!

 

Resultado de imagem para drop dead diva

4 – DROP DEAD DIVA (2009-2014) – Exibida pela Lifetime (EUA), e pela Sony (BR), esta é uma daquelas séries que aquecem o coração! Com seis temporadas na bagagem, o seriado narra a trajetória de Deb (Brooke D’Orsay): uma super modelo que sofre um acidente de carro e morre. Após seu falecimento, já no céu, ela aperta um botão que a manda de volta para a Terra. Contudo, ela retorna diferente: em um corpo de uma advogada cdf, workhaloic e fora dos padrões de beleza impostos pela sociedade. O seriado mescla o estilo “procedural” com o serializado, mostrando ao público os casos jurídicos da personagem principal, junto com as dificuldades dela em se adaptar a um cérebro, um trabalho e a amigos diferentes. Drop Dead vale pelo carisma da atriz central – que ainda performa vários números musicais durante os seis anos de exibição de DDD e tem uma voz linda -, por saber equilibrar a comédia e o drama dentro de cada episódio e explorar as emoções e sensações de Jane (Brooke Elliott), deixando-a complexa e a humanizando, sem deixar a história piegas. Além disso, eles sabem segurar bem a onda em seu hibridismo, com doses jurídicas que instigam, mas não retiram o foco do mais importante para a trama: a trajetória de sua mocinha. Apesar disso, atentem para a paciência com os fillers** e algumas decisões narrativas que pesam a mão no melodrama, destoando da proposta estilística que predomina na obra.

 

Resultado de imagem para lovesick

3 – LOVESICK (2014-) – A sitcom britânica Lovesick ocupa a terceira posição, principalmente, pelo seu tom ácido e seu timing. Ok, é um seriado do Reino Unido! Seu humor é muito específico, por ser mais seco e menos explícito, contudo isto não o torna menos engraçado. Quando o espectador foca no plot da série, este argumento faz muito mais sentido!!! Dylan Witter (Johnny Flynn) é diagnosticado com Clamídia e precisa avisar todas as suas parceiras sexuais disso. Cada episódio, conhecemos alguma – ou mais de uma – garota que ele se relacionou. Apesar do protagonista ser aquele típico homem que não sabe dar atenção a menina correta, mas só vive reclamando, aqui este comportamento é mostrado de forma crítica. Através da tolice de Dylan e da perspicácia das mulheres ao seu redor, as situações cômicas são elevadas, juntas com a quantidade de risos. O ponto que desanima é um antigo clichê: o da paixão frustrada entre melhores amigos. Ainda assim, há muito mais para ser aproveitado na série: diálogos afiados e autores que conseguem dizer em poucas palavras o que querem; interpretações equilibradas e conscientes, os atores entendem suas personagens e demonstram suas forças e fragilidades em olhares e gestos, mas tudo com muita sutileza e elegância britânica; a fotografia que consegue mostrar a beleza da Escócia, sem tirar o foco – literalmente – das emoções das figuras dramáticas retratadas na tela. Ah! Ainda tem mais um detalhe que empolga, o binge é rapidinho! São 22 episódios exibidos até agora, cada um com um pouco mais de vinte minutos. Corre, porque em uma noite você fica em dia com Lovesick!

 

Resultado de imagem para party of five

2 – PARTY OF FIVE / O QUINTETO (1994-2000) – Série teen dos anos 1990, Party of Five conta a história de cinco órfãos que precisam  enfrentar os desafios da juventude. Para quem gosta do estilo dos seriados familiares do final do século XX, daqueles com os caminhos possíveis para resoluções de problemas aparentemente grandes e de ver os conflitos adolescentes típicos da época, essa é uma grande chance de ver isto acontecendo na tela e de forma bem feita. Vencedora do Globo de Ouro de Melhor Seriado Dramático, em 1996, a narrativa é simples: os irmãos possuem uma questão para resolver (dinheiro, tempo, amores) e com muita fraternidade e conversa vão conseguindo driblar os desafios. Porém, a forma de contar é o mais importante. Primeiramente, existe uma delicadeza tanto da direção quanto do roteiro em retratar as personagens principais que tão cedo perderam o pai e a mãe. O tom é acertado justamente porque consegue passar a ausência, a perda e a falta de credulidade das pessoas ao quando precisam lidar com o luto, ainda mais quando ele acontece de repente e como as mudanças acontecem na vidas destas pessoas e como elas acontecem. O sofrimento das personagens é equilibrando, suas fraquezas e forças são mostradas, deixando-as menos planas. Além disso, há uma qualidade no roteiro por possuir múltiplas questões em um mesmo episódio, mas que se amarram e passam a mesma lição do dia, no final das contas. É através das angústias de Charlie, Bailey, Julia, Claudia e Owen que os problemas são expostos e as respostas são encontradas.  As atuações não são o forte de POF, mas também não comprometem a qualidade da obra. Há, no entanto, um destaque dentro do elenco: Lacey Chabert (Meninas Malvadas). A atriz consegue passar muitas emoções complexas – como entender que precisa amadurecer mais rápido para ajudar em casa – sem ser expositiva em seu tom de voz ou expressões faciais.

 

Resultado de imagem para crazy ex-girlfriend

 

1 – CRAZY EX-GIRLFRIEND (2015-) – Talvez esta seja a melhor série cômica exibida na atualidade! Por que? Crazy Ex-girlfriend é uma comédia musical sobre uma mulher muito bem sucedida que se muda de cidade para ir atrás de um ex-namorado. Acompanhando a contemporaneidade, a série critica todo o machismo, a alienação e os problemas da sociedade do século 21 – como o crescimento das doenças psicológicas, o peso que as pessoas dão aos seus problemas, o egocentrismo e as farsas vividas e propagadas dentro das redes sociais. Tudo isso em números com canções cheias de frases sarcásticas e cruéis. O seriado também ganha muito pontos por não se tão levar a sério, rindo de suas próprias gags, criando plot twists que são desfeitos rapidamente ou com alguma quebra da quarta parede que exponha ainda mais a protagonista. Rebecca Bunch (Rachel Bloom) é uma mulher como outra qualquer, apesar de muito bonita e inteligente, é fora dos padrões de beleza e sanidade. Porém, seu carisma disfarça suas extravagâncias comportamentais e ela consegue conquistar todos ao seu redor. A empatia que a personagem causa foi passada bravamente por Bloom que, inclusive, recebeu o Globo de Ouro de Melhor atriz, em 2017, por sua performance. Por todas estas questões, CEG ocupa o primeiro lugar da lista e é uma excelente ideia para um final de semana de “Netflix and chill”.

 

*binge watching – maratonar

** Fillers – encheção de linguiça em narrativas

House of Cards 5ª temporada: Underwood para presidente!!!

por Enoe Lopes Pontes

Política, tensão, intrigas, sangue, conchavos, quebras da quarta parede e diálogos afiados. São cinco anos acompanhando Frank e Claire Underwood (Kevin Spacey e Robin Wright, respectivamente) rumo ao poder numa trajetória cheia de corrupção e  falta de limites éticos.

Quando o espectador termina a quarta temporada fica um engasgo. O futuro de Francis na Casa Branca é incerto e tudo indica que o protagonista tem chances de perder o posto para seu rival do momento: William Conway (Joel Kinnaman). Frank Underwood está sendo acusado de crimes severos, incluindo um falso ataque terrorista para modificar os votos das eleições de 2016. Porém, o espectador já conhece o presidente vigente, o que ele irá aprontar para garantir seu lugar é o que instiga.

A partir do plot deixado pelo cliffhanger da temporada anterior, o enredo se constrói lentamente, como o de costume. As peças do tabuleiro vão sendo mexidas cautelosamente, mas, ao contrário do que acontecia anteriormente, agora os passos de Francis parecem deixar um caos espalhado por onde ele passa. Spacey demonstra zelo na construção da personagem que sugere uma suposta ruína de F. Underwood. As expressões de exaustão, banhadas pelos cabelos brancos e a postura cansada deixam o público tenso, prevendo uma possível derrota final do político.

Enquanto isso, o bastão vai sendo passado para Claire. A dinâmica do casal permanece afiadíssima! Os olhares, gestos e tom de voz fazem das cenas danças e os atores conseguem atingir o que é chamado no teatro, em inglês, de “play”. As palavras reverberam, os confrontos e acordos fluem diante da tela, eles brincam, jogam certeiramente, não deixando a peteca cair em um só instante.

Sozinha em cena, Wright também se destaca. As complexidades de Claire Underwood são ainda mais exploradas nesta quinta temporada, tanto no texto quanto em sua interpretação. Outros lados da persona são expostos. Robin consegue equilibrar frieza e paixão, vontade, ambição e tensão, com leveza. Aparentemente ela não faz um esforço grande, mas os planos posteriores vão revelando suas intenções e ações, deixando claro todo o trabalho certeiro da atriz, que prepara o espectador e a própria personagem para o que estar por vir.

SPOILER ALERT!!! Continue por sua conta e risco!!!!!

Quando o público é brindado com as primeiras quebras da quarta parede feitas por C. Underwood a sensação é a de virada de posição. A partir daqueles momentos ela estaria no controle da situação, deixando Francis de lado e finalmente ocupando o lugar que merece. Porém, há algo que incomoda bastante nesta fase do seriado. Após doze episódios de um Frank cansado e quase derrotado, ele revela todo seu plano que parece ter saído de uma novela mexicana ruim.

Todos os riscos e erros que ele cometeu foram pensados para pôr Claire na presidência e ele no setor privado. A sensação de que por mais uma vez sua esposa não chegou no poder por esforço próprio e a onipotência de Francis parecem mal explicadas e jogadas como um plot twist gratuito. Isto porque, além do espectador se sentir traído, a situação não foi posta de forma orgânica e deixa a sensação de um roteiro leviano.

Por outro lado, nesta hora o brilho de Spacey resplandece ainda mais, pois é nos detalhes de sua interpretação que essa ideia consegue ter um pouco de lógica. Seus olhares profundos e uma vontade de não focar na tela que, neste caso, é o público. Francis mal olha para o espectador na quinta temporada. Ele parece tenso e nervoso e isso se justifica, pois a personagem estava tramando sua jogada mais perigosa até então.

Toda esta atmosfera é também construída com o apoio dos papéis coadjuvantes, principalmente por Catherine Durant (Jayne Atkinson) e Jane Davies (Patricia Clarkson). Entre suas armações privadas e as conversas com os Underwoods elas são uma das poucas que capturam a personalidade do casal e conseguem desestabilizá-los e fazer com que eles sintam-se ameaçados. As duas artistas imprimem essa espécie de neutralidade em suas faces, deixando a dúvida se merecem ou não a confiança da dupla principal.

Por fim, os ouvidos permanecem também atentos. A trilha de House of Cards é tímida, mas eficaz. Preenche o ambiente de seriedade ou tensão, a depender do que a cena pede. Contudo, algumas vezes deixa um tom de noticiário que incomoda um pouco quando vaza para momentos que vão além dos telejornais. No mais, é maratonar e esperar 2018 com um nó na garganta!

© 2019 - TV Aratu - Todos Direitos Reservados
Rua Pedro Gama, 31, Federação. Tel: 71 3339-8088 - Salvador - BA