Crítica: Segunda temporada de Samantha! é mais divertida e intensa que anterior

por Enoe Lopes Pontes

 

Neste mês, a Netflix, como de praxe, disponibilizou o conteúdo inteiro do segundo ano da série nacional Samantha! Com sete episódios, a produção conseguiu crescer por apresentar um equilíbrio maior em seu ritmo. Isto, porque a narrativa mesclou os tempos de cena de cada conflito com uma atmosfera dos sentimentos das pessoas mostradas na tela, seus desejos secreto e sensações pessoais. E é aqui que está o grande ganho do seriado! Além de ter as gags e situações divertidas esperadas de Samantha (Emanuelle Araújo), Dodói (Douglas Silva), Cindy (Sabrina Nonata) e Brandon (Cauã Gonçalves), o público descobre também questões do íntimo deles, principalmente da protagonista. Talvez, tenha sido até uma estratégia positiva primeiro apresentar arquétipos de figuras típicas do imaginário brasileiro, como a estrela mirim dos anos 1980 ou o jogador de futebol enrolado, para depois ir mais a fundo nos detalhes sobre elas.

Os roteiristas (Paula Knudsen, Felipe Braga etc) vão colocando pinceladas de informação, lentamente. O espectador vai tendo contanto com a trajetória da “mocinha” e seus problemas na infância. Aos poucos, é possível montar o quebra-cabeça com as peças dadas por eles. Na história, Samantha começa a traçar seu caminho para crescer verdadeiramente e fazer papéis mais sérios, além de buscar ser boa mãe também. Este ápice acontece no 2×06 quando, finalmente, é explicada a relação da artista com a TV e pouco de suas origens.

 

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Araújo traz alguns detalhes em seus olhares que demonstram este amadurecimento e coloca até pequenas modificações de postura corporal, em momentos mais profundos. Contudo, todas as marcas que fazem parte de sua personalidade anteriormente continuam presentes, não se perdem. Assim como Samantha; Dodói, Cindy e Brandon recebem arcos com mais complexidade. Estas são de menor grau, é bem verdade, mas ganham. Porém, os atores não acrescentaram nada de diferente. Não que isto seja um ponto muito negativo. Contudo, poderia ter acontecido um desenvolvimento mais forte na atuação.

Uma possibilidade seria um trabalho do corpo que mostrasse um Dodói com uma pitada de sisudo, porque começou a cursar a faculdade de Direito. Ou, Cindy – que entrou, de fato, na adolescência – e Brandon – que decidiu aceitar que é mesmo uma criança -, poderiam trazer um pesar e uma leveza nas suas interpretações ou qualquer nuance de mudança. Afinal, eles passaram e estão passando por coisas que os afetaram, pelo menos isto aparece no texto que eles dizem, que confirma emoções e decisões novas. Mas, este fator pode ser uma falta de atenção e delicadeza da direção também, que colocou o foco maior na protagonista.

 

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Contudo, esse fato não compromete e coisas como não ter muito filler chamam mais atenção. Todos os acontecimentos são muitos justinhos dentro da trama. Samantha precisa crescer! Este é seu objetivo e toda a narrativa deste ano foca nisso, juntamente com subtramas que, ao invés de atrapalhar, ajudam a levantar o enredo principal. O relacionamento de mãe e filha entre Samantha e Cindy, a nova carreira de Dodói e os medos de Brandon, tudo isso fomenta o nó central, o desenlace e o cliffhanger do final.

Ainda que existam pequenas questões como dicção dass crianças e coadjuvantes de personalidade chapada, Samantha! se superou. A dinâmica entre o elenco continua a funcionar e camadas de complexidade foram colocadas, mostrando que a antiga artista mirim é muito mais do que quem assiste esperava, ela é uma OR…

 

 

Plano em Série: Sharp Objects – Um Olhar Sobre a Cinematografia

Desde o sucesso de Game Of Thrones (2011) a HBO tem investido em conteúdos originais cada vez mais sofisticados. Este também é o caso da série Sharp Objects (Objetos Cortantes, em português). Lançada em 2018, pelo canal fechado e estrelada por Amy Adams, a criação é assinada por Marti Noxon, uma produtora influente no universo seriado estadunidense. Noxon tem no seu currículo a produção executiva de Mad Men, Grey’s Anatomy, Prision Break e Buffy, a caça vampiros, por exemplo. O diretor dos oito episódios é o canadense Jean-Marc Vallée, o que mantém uma unidade interessante na mini-série, contrariando o modismo (ora produtivo, ora cansativo) de um diretor por episódio. Vallée já vinha da competente direção de Big Little Lies, outra mini-série premiada da HBO.

Sharp Objects conta a história da repórter Camille (Adams), jovem que precisa retornar à sua cidade natal para escrever uma matéria sobre o desaparecimento de uma garota. Em uma relação completamente instável com sua mãe, Adora (Patricia Clarkson), e sua meia-irmã, Amma (Eliza Scanlen), Camille vive o conflito do desaparecimento alheio no vórtice de seus problemas familiares de forma a intensificar a sua condição psicológica – ela sofre de auto-mutilação.

 

 

Para construir a personalidade e os displays comportamentais de Camille, a dupla de diretores de fotografia Ronald Plante e Yves Bélanger assumem estratégias eficientes assim como o time de montadores liderados por Jean-Marc Vallée. Aqui vale a pena uma dedicação aos princípios da cinematografia utilizados por Plante e Bélanger para compreender um pouco da engenhosidade dos episódios centrados em uma linguagem de suspense. A câmera majoritariamente utilizada foi uma Arri Alexa Mini e um conjunto de lentes Prime Arri Zeiss – e isso significa que a equipe conseguia um aspecto imagético mais escuro (subexposto) com segurança, além de escolher uma espécie de textura na imagem mais próxima da realidade, evitando luzes artificiais e fugindo da perfeição. Assumir essa estrutura imagética como linguagem facilitou, inclusive, o tratamento de colorização final, já que a cinematografia teve poucas exigências quanto as diferenças na luminosidade – mas não dispensou o rigor na aplicação do LUT (Look Up Table) que uniformizou o visual de toda a série.

As sequências externas foram filmadas com prioridade para a luz natural. Neste sentido, é possível perceber a diferença na intensidade da luz a depender do episódio. Há realidade em assumir que os dias e as nuvens interferem nos tons de pele e nos reflexos dos objetos, por exemplo. A luz era proveniente de janelas, sempre presentes na casa de Adora e de práticos (objetos de cena que projetam luz, como abajures, lustres, velas, lâmpadas, tubos fluorescentes, letreiros luminosos, etc.). Essa composição influencia absolutamente na relação que Camille tem com o espaço, como ela transita por ele, se relaciona com a sua dependência com o álcool e também com sua família. E para além das definições de luz, há um investimento na estratégia de utilização da câmera – ela está sempre na mão e sempre com Camille. A câmera não se distancia da protagonista mesmo durante os flashbacks frequentes ou quando ela visita memórias inconscientes, subjetivamente é possível ver o olhar de Camille e objetivamente é possível ver quase que através dela (há um acento no famoso POV – Point of View). Neste sentido há uma decupagem livre, acompanhando os desejos da personagem e suas ações de forma sensível e corajosa.

 

E a Arri Alexa Mini está na mão. Ela trepida, se mexe, se desestabiliza sempre. Assim como Camille está destroçada em reviver memórias difíceis, a câmera conversa com a protagonista ora como se fosse ela mesma, ora como se assumisse o seu alterego. Um trabalho impreciso e por isso precioso, sufocando a intimidade de Camille, arrebatando suas inseguranças e vivendo com ela todo o suspense que Sharp Objects deseja sustentar.

**Marina Lordelo é fotógrafa, crítica do audiovisual, pesquisadora e diretora de fotografia.

Terror em Série – O horror na era pós Trump

Após seis temporadas lidando com temas ligados ao oculto e buscando metáforas entre o sobrenatural e os conflitos da convivência humana, o seriado criado por Ryan Murphy mergulha numa esfera mais realista e decide explorar o horror em sua mais pura forma, o horror da realidade. Nesta penúltima edição do nosso especial American Horror Story, chegamos na season do terror após a eleição de Donald Trump, chegamos em Cult.

A temporada começa estabelecendo quem são as personagens, mostrando um cenário polarizado, reflexo do período das eleições nos Estados Unidos. O primeiro episódio já começa revelando um clima de tensão e coloca em destaque ignorância x conhecimento, demonstrando o ódio daqueles que acreditam que estão perdendo muito ao ter que dividirem seus privilégios.

 

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Vemos na temporada essa dualidade o tempo inteiro. A protagonista, Ally (Sarah Paulson), tem estudo formal, tem consciência política, mas é mulher e lésbica, alguém que lutou muito por suas conquistas e que, por sua batalha e de outras pessoas, tem uma vida confortável, um casamento com outra mulher e um filho adotado. Devido ao seu passado, apesar de ter conforto financeiro e estabilidade, possui diversas fobias.

Já seu antagonista, é um homem branco, que, em sua primeira cena, comemora a eleição de Trump cheio de salgadinho laranja nas mãos, mostrando esse homem que procura culpar o outro pela sua falta de sucesso, como ele mesmo não pudesse ser responsabilizado pelos problemas que causou a si mesmo. A construção dessa dualidade é bem realizada e estabelecida no começo da série, contextualizando bem o enredo e os possíveis encaminhamentos.

 

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Murphy também sabe que o público, depois de sete temporadas, já está treinado e consciente de sua linguagem. Logo, ele tenta jogar com os códigos já entendidos por seus fãs. Os enquadramentos mais fechados nas cenas de Ally, traduzem esse sufocamento da personagem, mas também, deixa o espectador mais confuso sobre a sanidade de sua protagonista. Todos as conspirações, elementos sobrenaturais, coisas estranhas que sempre foram realidade na série, podem nessa temporada ser somente ilusão e a linguagem reforça essa impressão.

A primeira metade da temporada sabe conectar suas personagens, sabe segurar a tensão dos acontecimentos e une trama e visual numa viagem sobre o horror cotidiano, sobre o perigo iminente que são as pessoas ao redor, as pessoas de bem. O Culto, termina sendo o menos forte de certa maneira, porque suas cenas são desnecessariamente alegóricas e quando começamos a ver coisas demais, perde-se a metáfora do inimigo invisível, do olhar ao redor e se perguntar: “será que a aquele cara na outra rua votou em Trump? E se votou, do que ele é capaz?

 

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Por isso, a segunda parte da série se perde um pouco, ainda que mantenha certa qualidade, porque ao invés de se manter criticando um aglomerado de pessoas ególatras, capazes de fazerem mal para toda humanidade para manter o que as fazem felizes, sem pensar nas consequências, a série parte para se focar na vilania de Kai e relativizando todos os erros das outras personagens, tão sedenta por reviravoltas que termina quebrando um pouco o pacto com o espectador, quando o tempo inteiro o confunde com as intenções de suas personagens.

O maior louro de Cult é traduzir em imagens o que está na mente de cada eleitor de Hilary, de cada minoria social que vê a onda conservadora vindo como um tsunami desesperado para apaga-los da humanidade e também a mensagem final de que, quem sofre a vida inteira sem privilégios tem uma única vantagem, a vantagem de saber lutar, de saber esperar calmamente o contra- ataque, deixando uma mensagem de esperança para seu público.

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Crítica Van Helsing: 3ª temporada peca por falta de fôlego e criatividade

 

Por Enoe Lopes Pontes

Produzida pelo canal SyFy, Van Helsing chega em seu terceiro ano! Passando a sensação de que poderia ter sido mais pontual e enxugado as barrigas, cortando micro conflitos e indo direto para as questões referentes ao plot original, ela chegou naquele momento em que todas as situações pré-conflito grande anunciado já aconteceram. Sabe questões como o mistério da ilha, em Lost; a batalha final de Once Upon a Time ou o end game de Ross e Rachel, de Friends? Então, os problemas menores vividos pela protagonista, Vanessa Helsing (Kelly Overton) chegaram ao seu limite, porque não interferem no resultado final do seriado como todo e adia o desenvolvimento principal da season, deixando as resoluções e ganchos um tanto corridos. Principalmente no que se refere ao dilema moral de Helsing.

O público já viu que os limites entre o bem e o mal que vivem nela estão numa linha tênue, dando uma visão não maniqueísta das suas vivências e esta estratégia era mais eficaz para que o objetivo central dos criadores não ficasse perdido. É um mundo distópico, pós-apocalíptico e uma mãe – que também tem poderes – acorda sem sua filha! Já está dada a situação e quem é esta mulher. A ressignificação deste quadro vem somente para postergar o gancho da finale.

 

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Ao lado desta questão está o fato de que as tramas dos coadjuvantes passam a parecer mais interessantes. Contudo, como a história original se perdeu e agora o espectador tem contato com múltiplas peripécias, nenhum encaminhamento é mostrado em sua totalidade. Assim, pode ficar uma sensação de incerteza sobre o que os roteiristas queriam com o terceiro ano da produção. Se a premissa era a jornada de Vanessa para reencontrar sua filha, depois (SPOILER ALERT!!!) que a garota morreu em seus braços, os rumos do enredo foram ficando nesta neblina, com uma indecisão da importância da personagem principal.

O que acaba acontecendo é que a figura da irmã de Vanessa, Scarlett Harker (Missy Peregrym), se sobressai e consegue captar mais a atenção com a sua história. Tanto no quesito narrativo, quanto de atuação, é ela que parece o elemento mais seguro aqui. Peregrym imprime um tanto de complexidade em Scarlett, sabendo dosar a carga entre as cenas pesadas e os alívios cômicos apenas com olhares e velocidade de texto.  O que é um contraponto com Overton que é menos expressiva facialmente. Apesar desta característica ajudar em alguns momentos a manter o tom de mistério de Van Helsing, no geral, a falta de força da atriz joga o brilho para sua colega de cena.

 

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Por fim, um ponto que talvez seja o mais preocupante seja o fato de um produto de terror ter uma ausência de construção de tensão bem realizada. Além da obviedade dos acontecimentos, o número de tipos de criatura cresce, mas não foram pensadas características para torna-las assustadoras. Uma repetição de caretas para câmera, em uma quantidade de tempo constrangedora, não convence. Primeiramente, a atuação não soa orgânica. A tendência é acreditar que eles possuem uma ideia do que é um “Monstro” e passaram a rosnar e arregalar os olhos. A essência e motivações vistas em momentos anteriores da série desapareceram. Até mesmo Sam (Christopher Heyerdahl), o vampiro mais assustador deste universo, fica entediante, porque suas ações acontecem de forma dilatada de uma forma que o ritmo se perde.

Renovada para uma quarta temporada, fica a esperança que ela volte para a sua forma anterior, cheia de ritmo, relações que criam empatia e medo!!

 

Terror em Série – American Horror Story: Roanoke e suas múltiplas reviravoltas

A sexta temporada de American Horror Story (AHS) foi exibida em 2016 e trouxe uma tentativa de dar uma complexidade maior para suas tramas, focando em três camadas narrativas diferentes que vão se desenrolando durante os episódios. Além disso, paralelamente, ela mostra o passado da casa na qual a história está centrada.

A narrativa começa bem, mas deixa suspeitas de que talvez se encaminhe por um rumo um pouco repetitivo, trazendo ares muito semelhantes aos de Murder House. Na trama, o casal Matt e Shelby se mudam para uma misteriosa residência, que possui um secreto e sombrio passado. E a história daquele lugar remete bastante à atmosfera da terceira temporada (Coven), onde Kathy Bathes interpreta mais uma vez uma mulher sanguinária, a personagem Thomasin, a açougueira.

 

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Mesmo com as semelhanças, os episódios são consistentes e apresentam um elemento novo: no enredo, uma produção está realizando um documentário sobre os acontecimentos da casa. O tom quase metalinguístico, com pitadas de mocumentário, traz um tom de suspense e uma impressão de que tudo pode acontecer. O risco, algo visto nas obras de terror, se mostra maior, alimentando bem a curiosidade do espectador, dando poucas chaves e abrindo muitas possibilidades.

E aí que mora o maior problema de Roanoke. Muitas portas são abertas e é difícil se conectar com qualquer possibilidade. Após o sucesso da primeira temporada da série ficcional que o público vê na história do seriado, partimos para o segundo ano, agora, com atores interpretando todos os envolvidos na trama. A equipe realiza tudo na mesma casa onde todas as mortes aconteceram. A partir disto, a narrativa se modifica por completo e a metalinguagem e crítica aos realites shows, são substituídos por jump scares baratos e uma grande falta de coesão narrativa.

 

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A relação entre as personagens novas é mal construída e o valor das mesmas parece inexistente. Como elas não possuem um elo forte de ligação com o público, vão se amontoando em mortes diferentes a cada episódio, substituindo aquele suspense característico da série, pela constante procura em provocar medo com fantasmas e assombrações cada vez mais assustadores.

É essa tentativa constante de superar tudo antes já visto no seriado que destrói qualquer forma de conexão que poderia surgir, é extremamente forçada a busca de surpreender. Talvez o maior louro de Roanoke seja a crítica, até um pouco simplista, da sede de sangue que o público estadunidense possui de ver a desgraça alheia. Porém, nada que Black Mirror já não tenha feito em seus primórdios. O sexto ano de AHS fica um pouco no meio do caminho de tudo.

Sobre as intercessões com as temporadas anteriores, os principais destaques são: a primeira bruxa suprema – numa referência à Coven – e a presença de Lana Winters – de Asylum – uma escolha sempre acertada de Murphy. Para os fãs da série, só restou conferir os episódios e esperar pela temporada seguinte, muito superior e que traz de volta o suspense e os dramas que unem psicológico e sobrenatural, explorando o que American Horror Story faz de melhor: encontrar o terror dentro das pessoas mais inesperadas, desvendar almas sombrias de lugares menos prováveis. A quinta  e a sexta temporadas do seriado quase provocaram seu downfall, mas, a mesma se recupera com louvor. Mas, vamos deixar para o próximo mês!

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

BR em Série: Webséries brasileiras oferecem narrativas diversificadas e ganham espaço em premiações

Há algumas décadas, seriados audiovisuais eram apenas televisivos. Hoje, não os associamos mais somente à canais de TV (apesar de no Brasil a TV aberta ainda ser dominante) senão também à internet, principalmente com o crescimento dos serviços de streaming*, como a Netflix. Com o desenvolvimento tecnológico, essas mudanças revolucionaram não só as formas de assistir a séries, como também formatos e tipos de produções. Além deste serviço, existem outros estilos de produções audiovisuais surgindo e crescendo no mundo, como aquelas feitas para redes sociais e sites de vídeos. O Vimeo e o Youtube são exemplos disso. Estes materiais são popularmente conhecidos como webséries, que tem não só possibilitado produções mais acessíveis, como também uma maior pluralidade de temas.

Webséries ou seriados digitais são produtos serializados distribuídos online e com episódios mais curtos que os das séries televisivas comuns. Surgem no final da década de 1990, nos EUA, a partir do processo de convergência da web com a televisão, que depois consagrou-se enquanto formato com narrativa e especificidades próprias. Elas surgem pela necessidade do espectador consumir um conteúdo que poderia ser assistido casualmente. Por isso, variam entre 3 e 20 minutos de duração, mantendo uma narrativa mais simples, com histórias não muito complexas, que não exijam atenção total do espectador. A distribuição pela internet também possibilita uma maior liberdade criativa, pois não enfrentam as mesmas limitações de um conteúdo televisionado, o que incentiva a geração de conteúdos mais livres, a transformando em um formato midiático com oportunidades nos mais diversos nichos.

 

 

Em contrapartida, não há modelos de negócios e divulgação que tornem as webséries rentáveis, o que desincentiva muitos produtores. Por outro lado, assim como os curtas-metragens, os festivais são espaços possíveis de ganhar visibilidade e prêmios. O número de webfests têm crescido pelo mundo, e mesmo os festivais tradicionais de TV e Cinema com o Emmy e Cannes já abriram novas categorias visando essas produções. No Brasil, o maior é Rio WebFest, que teve sua edição inaugural realizada em 2015. Sediado desde 2016 na Cidade das Artes, se consolida como um dos maiores do mundo. A última edição aconteceu em novembro 2018, e premiou produções de diversas partes do Brasil.

 

Abaixo pequenas resenhas de algumas webséries com temáticas interessantes e que chamaram atenção nos festivais.

 

 

O Som do Amor: A Bahia em música e simplicidade

 

 

Não existe fórmula mais eficaz em atrair um público comercial do que histórias de romance. Um dos gêneros mais antigos, da comédia ao drama, as histórias de amor tem como forte, as relações amorosas e conflitos para viver o amor. A websérie  baiana, O Som do Amor, traz essa receita com muita simplicidade, aliado a outro forte artifício do melodrama: a música. Uma história de amor que se desenrola rápido, com um conflito usual, mas sem um drama exagerado, comum de produções assim. Tudo isso dá a produção um aspecto de ordinariedade. Porém, este logo se mostra ser o propósito da série, ou seja, retratar uma vida comum com o amor e a amizade. Marina e Dito, o casal protagonista, também conseguem trazer essa naturalidade a história. São 5 episódios de até 5 minutos que constroem relações que nós nos identificamos. O cenário, então, é bem romântico, com imagens lindas da cidade de Salvador. Talvez o que falte seja talvez circular por mais espaços, são poucos cenários por onde os personagens trafegam, como, por exemplo, a maioria das cenas acontece no mesmo bar. Isso não é de todo um problema, pois existem séries sobre grupos de amigos que fazem a mesma coisa, como os seriados Friends e How I Met Your Mother. Dado a realidade das séries digitais, com tempo curtos e baixo orçamento, é compreensível que se estruture uma narrativa mais concentrada e dê foco aos personagens principais. Falta desenvolver, talvez, os personagens secundários, que surgem quase como figurantes. O seriado ganhou Melhor Série Brasileira no Rio Web Fest e em breve terá lançamento da sua segunda temporada. Confira o trailer aqui:

 

 

Punho Negro: Uma história de super-herói contemporânea e brasileira

 

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Uma outra fórmula que também tem atraído um vasto público comercial são as narrativas de super-heróis. Apesar disso, o Brasil não tem muitas produções com essa temática. Uma justificativa usual para isso, é que essas produções normalmente são muito caras. De maneira engraçada e inteligente, a websérie baiana Punho Negro, traz uma super-heroína contemporânea, cheias de críticas a sociedade, sem deixar de rechear com cenas de ação e fantasia típicos do gênero. Os efeitos e a arte da série são uma questão a parte, com uma paleta de cores complementar ao figurino da protagonista, que também se adequam a arte dos créditos e da abertura que funcionam bem com a música. Efeitos simples, mas que não recaem sobre uma artificialidade (muito comum em produções que abusam de efeitos de computador gráfica). O projeto fica por conta do coletivo independente Êpa Filmes e traz personagens e situações, que, aliados com boas atuações, não deixam a desejar, tudo parece funcionar muito bem. Punho ganhou prêmio de melhor ideia original no Rio Web Fest, porém, ainda não há notícias sobre uma segunda temporada.

 

Link da serie no youtube:

 

Eixos: Narrativa distópica com uma produção majoritariamente de mulheres

 

 

Quem disse que Brasília não poderia viver um futuro distópico? Com uma fotografia, arte, maquiagem e figurino excelente, a websérie Eixos apresenta a capital do país em 2060, onde conflitos políticos e revoltas violentas levaram ao desmoronamento da ordem mundial, deixando a população a sua própria sorte. Imagens de ruínas, sujeira, calor e desesperado deixam a cidade irreconhecível. A narrativa que veio dos quadrinhos, com direção, roteiro e arte de mulheres, tem como protagonistas Cássia. A personagem é uma mulher forte, aventureira e dura e, junto com Inês, de personalidade mais leve, decide procurar seus amigos desaparecidos. A relação entre elas, que horas beira a uma relação amorosa, constrói uma história de luta e fé mesmo num mundo destruído. O problema que acontece em muitas narrativas desse tipo, é que muitas vezes se perdem nos detalhes. Os personagens secundários também enriquecem a narrativa, como Chico e Mãe Obá. Eixos foi indicada a melhor fotografia, melhor maquiagem e melhor série de ação no Rio Web Fest 2017. Link do trailer:

 

* Streaming Media é uma tecnologia sobre transmissão de conteúdos audiovisuais adquiridos  através de pacotes da internet, em que as informações não são armazenadas pelo usuário em seu próprio computador. odo vídeo “on demand” é transmitido via streaming. Mas nem todo conteúdo por streaming está sendo enviado sob demanda, ou seja conceitualmente é tudo o mesmo.

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

Crítica: Nem terrível e nem incrível, “Boneca Russa” é um bom passatempo

 

por Enoe Lopes Pontes

Parece que tem sido cada vez mais difícil de se encontrar uma série que seja equilibrada, na qual início, meio e fim possuam justeza, ritmo e costura. Boneca Russa se encaixa, de certa forma, nesta categoria. Seu piloto não entrega de cara a complexidade que a produção trará em seu desenvolvimento e seu desfecho não faz jus ao material que é exibido durante sua primeira temporada. Parece que todo o esforço criativo ficou para o seu recheio.

Narrando a trajetória de Nadia (Natasha Lyonne), a narrativa mostra como a moça morre e acorda repetidamente, em seu aniversário, numa espécie de rotina como a mostrada no filme Feitiço do Tempo (1993). Neste clima, pode ficar no ar, no primeiro episódio, uma sensação de que a história é boba e clichê demais. Isto porque, além do plot já ter sido visto no longa citado e em diversos outros, as personagens parecem um tanto planas e de caracterização fraca. A razão desta afirmação vem de que elas soam como grandes estereótipos, como: a amiga chapada (Maxine), a namorada certinha e cdf que comente erros, pois está entediada (Beatrice), a figura materna em forma de psicóloga (Ruth).

 

 

Contudo, estes tipos que cercam a vida da protagonista vão se tornando menores diante dos conflitos interiores e passados que a atormentam, juntamente com o mistério que sua vida se tornou. E é a partir daí que o enredo passa a ser mais bem trabalhado. O tom que Lyonne dá se encaixa com o peso dos acontecimentos da vida de Nadia, seu corpo vai perdendo as marcas e trejeitos já encontrados em outros papéis dela, como a Nick, de Orange is the New Black e sua Nadia vai ganhando contornos específicos dela, como o jeito de olhar mais fixo ou a postura. O roteiro passa a ter, suavemente, progressão. Aumentando as tensões, através de pistas que começam a aparecer de uma nova relação que vai sendo construída.

Neste contexto, as músicas e as luzes que estão sendo utilizadas passam a dar o clima das cenas, como cores mais azuladas em zonas de conforto ou quando respostas para certos conflitos vão aparecendo. As temperaturas mais próximas do magenta deflagram os medos e a morte. Os tons escolhidos em si não são uma grande novidade, mas como eles surgem na tela surpreendem, porque mudam repentinamente, assim como as certezas de Nadia e outra pessoa de dentro do problema com ela e fazem sentido para a trama (Sem Spoilers).

 

 

Por fim, é notável o cuidado da direção de arte em fazer com que elementos cênicos desapareçam lentamente e quase despercebidos, até o ápice desta necessidade, quando pessoas e coisas vão desvanecendo bruscamente. Todos estes elementos parecem estar cuidadosamente previstos no roteiro, escrito por Natasha Lyonne, Amy Poehler (Parks and Recreation) e Leslye Headland (Dormindo com Outras Pessoas). É possível enxergar a tentativa de criar uma dinâmica no texto, jogando com a velocidade dos tempos das cenas, com o ritmo dos diálogos e os progressos e percalços dos indivíduos retratados no ecrã.

No entanto, o encerramento do problema inicial é previsível e simples demais, perdendo a potencialidade do que está sendo contado. Talvez, se houvesse mais tempo para o desfecho – 50 minutos que fossem -, não seria tão abrupta a resolução, que parece tão leviana e preguiçosa quanto o início. Isto porque pode ficar parecendo para o espectador que as roteiristas sabiam o que queriam contar, mas não como começar e finalizar, porque não fica tão elaborado, não cria empatia ou sentido, é repentino. Mas, são oito episódios de 25 minutos cada. Então, vale ver, principalmente pela discussão não panfletária e de interpretação carregada sobre doenças mentais e vícios.

 

Críticas: Previsível e sem costura “You” é entediante do início ao fim

Paira no ar uma sensação de que a sociedade performa uma romantização de relações tóxicas, desde sempre. Seja na ficção ou na vida real. Essa sensibilidade para notar a linha tênue entre amor e psicopatia é um dos maiores ganhos da série You. Talvez o único. Produzida pela Lifetime e distribuída mundialmente pela Netflix, a produção conta a história de Joe (sim, Penn Badgley, o Dan Humphrey de Gossip Girl), um garoto aparentemente inteligente, educado e carinhoso que, na verdade, é um assassino frio, um homem manipulador e perigoso.

Do outro lado, tem-se a mocinha do seriado, Guinevere Beck (Elizabeth Lail, sim, a Anna de Once Upon a Time). A jovem é um retrato fiel de uma menina de comédia romântica – mão à toa, escolherem uma atriz que fez uma princesa! E é a partir deste ponto que começam os incômodos com a produção. Apesar de ficar claro que muito do como a personagem é mostrada vem da idealização que o protagonista faz da moça, em alguns momentos o estereótipo de mulher “feminina” prevalece. Quando ele diz, por exemplo, que ela está quer se mostrar e ser vista, pois gosta de ter a privacidade invadida por ter os perfis de suas redes sociais aberto ou por ter uma janela de vidro, ou quando ela é posta como uma figura sem forças e que precisa de um homem para protegê-la.

 

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Pois mesmo quando não a vemos sob o olhar de Joe, algumas dessas suposições dele são reafirmadas, como a o sentimentalismo exacerbado de Beck ou sua passividade diante de maus tratos de seus amigos. Talvez, a tentativa fosse criticar a fetichização que os homens fazem com as mulheres e a noção deturpada do que é carinho e atenção que eles têm. Mas, esse feito não é realizado. E esta inabilidade não fica somente aí.

You é a típica série contemporânea que filia o público com bons cliffhangers e tem o recheio insossos e entediante. Falta ritmo! Não há uma intercalada entre os tempos. Mais da metade de cada episódio é arrastada e somente os minutos finais são de tensão. Desta maneira, não há progressão e/ou níveis de dinâmicas, ações e/ou suspense. A maior parte do tempo, pode-se conferir os pensamentos do protagonista, que fica lambendo suas feridas, pois sempre acredita estar sendo traído pela namorada. Não que isto seja um defeito em si, poderia ser bacana, se fosse bem feito. Contudo, não é isto que acontece.

 

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Sem dúvidas, aesteo ponto alto na falta da qualidade do projeto. As narrações de Badgley são infinitas, monocórdicas, eternamente no mesmo tom. É quase como se eles quisessem fazer um clima meio Dexter (2006-2013), mas sem dar colorido ao texto ou mostrar imagens que equilibrem a temperatura da cena que que acaba ficando constantemente morna. E assim o é porque, para completar os problemas da escrita da série, os conflitos são jogados no enredo, mas eles demoram para voltarem a ser mencionados. Enquanto isso, vão surgindo subtramas que vão sendo deixadas para trás ou que somem e a aparecem de vez em quando.

 

A única coisa pior que tudo isso é saber que eles contarão com uma segunda temporada.

 

Maratone como uma Garota!: Tabus, liberdade e sexualidade feminina em Sex Education

Sex Education é muito mais do que pode parecer! A comédia dramática britânica, que está entre as queridinhas do público, se passa em um colégio cheio de adolescentes e tem como tema central: Sexo! Na infinidade de clichês que poderia emergir daí, a série, criada por Laurie Nunn, surpreende pela lucidez com que aborda temas e tabus que a maioria dos jovens vive, viveu ou vai viver um dia. A diversidade de questões apresentadas, como homossexualidade, aborto, sororidade, masturbação feminina, orgasmo e virgindade, bem como a complexidade na construção das personagens, são alguns dos trunfos. A Maratone como uma garota! de hoje vai discutir a importância de se abordar a sexualidade feminina e a liberdade sexual das mulheres em produtos para um público mais jovem.

 

O enredo centra-se em Otis (Asa Butterfield), típico adolescente nerd de 16 anos, que é um grande conhecedor de sexo, só que na teoria! Ele é filho da terapeuta sexual Jean (Gillian Anderson), com quem tem uma relação próxima, mas um tanto complexa. Otis, que além de virgem tem problemas para se masturbar, entra em uma sociedade com Maeve (Emma Mackey), após dar conselhos sexuais ao valentão do colégio. Maeve propõe que Otis seja um consultor sexual em troca de dinheiro. É nesse consultório “clandestino” que começam a emergir reflexões, dúvidas e situações inusitadas que envolvem sexo, jovens e relacionamentos. A virgindade, por exemplo, é abordada de modo cômico, mas sempre trazendo a reflexão: por que o sexo é tão importante (ou não) para cada um?

 

 

Maeve tem o protagonismo feminino na série. Sua (im)popularidade se deu por boatos envolvendo sua intimidade sexual. Apresentando-se como rebelde e anti social, a personagem é uma das mais bem desenvolvidas e ricas. A segurança com que lida com a própria liberdade sexual demonstra não só maturidade pessoal, mas conhecimento teórico e histórico sobre feminismos e literatura, mostrando como somos multifacetados e rompendo com certa tendência de reduzir as mulheres a certos estereótipos limitantes (a “nerd feia”, a “gostosa popular”, a “loira burra”, e quantos mais se lembrar). Além da amizade secreta com a popular Aimee Gibbs (Aimee Lou Wood), tem uma relação casual com Jackson (Kedar Williams-Stirling), o rapaz mais popular do colégio, que está apaixonado por ela. *SPOILER ALERT*. O drama da gravidez na adolescência é um tema delicado, especialmente quando envolve a escolha pessoal de optar por interrompê-la. A escolha do aborto é retratada de modo direto, sem julgamentos morais e sem diminuir a complexidade do ato, com uma lucidez que merece reconhecimento.

Sororidade, aquela palavrinha que vira e mexe aparece por aí, e que já abordamos em outras colunas, marca grandes momentos na série. A “união entre mulheres”, como se define, ganhou contornos bem significativos na trama. Maeve e Allison, por exemplo, pertencentes a mundos completamente diferentes, não só compartilham confidências, mas respeitam a individualidade, fortalecem e incentivam uma a outra. Isso é fundamental para que as adolescentes vejam as diferenças por uma ótica mais celebrativa e inclusiva. Allison, que sempre se esforça em agradar os parceiros, busca ajuda com Otis para tentar descobrir o que de fato lhe agradaria sexualmente e a orientação que recebe é bem simples, mas um dos maiores tabus dos séculos –*SPOILER ALERT*: a masturbação feminina. A prática não só ajudou-a a conhecer seus prazeres e preferências, mas a si mesma, tornando-a mais segura em suas ações. Muitas mulheres não conhecem o próprio corpo (como Maeve, que não localizou o hímen no desenho educativo) e isso é parte de um sistema de violência de gênero educacional.

 

 

O ponto alto de como a sororidade pode ser revolucionária vem quando o vazamento de uma foto íntima de uma garota e a chantagem sexual gera um clima de tensão no colégio.  *SPOILER ALERT* O desfecho é uma mobilização coletiva para enfraquecer a ameaça masculina de revelar a identidade da garota da foto. “It’s my vagina!” (ou: a vagina é minha!) começa a ecoar no auditório, por todos os cantos. Não importava de fato quem fosse a vítima, se amiga ou não, conhecida ou não, o patriarcado jamais pode ameaçar e violentar uma mulher e sair impune, então, a vagina é de todas nós!

Há um pequeno espaço também para pensarmos as relações entre casais lésbicos. Se no mundo em que a heteronormatividade reina já não se discute tanto a sexualidade das mulheres nas relações heteroafetivas, a invisibilidade da lesbiandade é nítida. Um exemplo é como, durante as aulas de educação sexual (na série), os alunos são sempre ensinados a utilizar o preservativo masculino. Como encontrar prazer e segurança para se relacionar com outra mulher se crescemos em um mundo em que se condena tal ato? Outra personagem marcante é Ola (Patricia Allison), cuja personalidade forte a faz romper vários padrões de gênero, como convidar o Otis para o baile e usar terno e gravata, levar e buscar o pai no trabalho.

 

 

Ainda que o centro da série seja os adolescentes e seus dramas sexuais, Jean, a real terapeuta sexual, tem seus momentos de roubar a cena. Mãe liberal, com sexualidade livre e abertura para todo tipo de conversa, ela não deixa de ter uma relação confusa com o filho, assim como também tem suas próprias dificuldades e entraves com relacionamentos. A personagem, porém, tem uma aparição que deixa um gosto de quero mais. Sex Education ainda rende muito mais discussões e essa temporada terminou deixando o público ansioso para a continuação, ainda que não esteja confirmada. Se tomarmos os produtos culturais massivos como grandes formadores de opinião, podemos comemorar a popularidade dessa série, pois precisamos tratar a sexualidade com mais naturalidade e menos tabus.

 

 

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

BR em Série: “Irmão do Jorel”, a animação original brasileira que é, literalmente, para toda a família.

Há quem diga que desenhos animados possuem um conteúdo infantil e bobo, voltado somente para crianças. Porém, a vasta e diversa produção e o público para filmes e séries animadas nos últimos tempos, tem mostrado o contrário. Um exemplo, é a série brasileira Irmão do Jorel, criada pelo quadrinista, apresentador, ator e roteirista Juliano Enrico e co-produzida pela Cartoon Network Brasil e a Copa Studio. Apesar das características ressaltantes sugerirem uma história mais infantilizada, seus personagens e enredos carregados de humor escrachado, dão profundidade à narrativa, atrelado as referências que constroem uma representatividade nacional que muito ainda falta aos desenhos infanto-juvenis.

 

A história do Brasil com animações seriadas para TV é recente. Mesmo com alguns sucessos no cinema, pode se afirmar que houve um crescimento grande de produções desse tipo a partir dos anos 2000, com a aprovação da lei 12.485/2011, conhecida como “Lei da TV Paga”  que estabeleceu um novo marco legal para a TV por assinatura no Brasil, garantindo a presença da produção audiovisual brasileira na maioria dos canais. Nesse período, a indústria da animação se desenvolveu bastante e uma das séries nacionais de maior destaque foi Peixonauta, que estreou no canal Discovery Kids em abril de 2009. O sucesso foi grande, contudo seu conteúdo é totalmente voltado para o público infantil (ou melhor, pré-escolar). No mesmo ano, o canal pago Cartoon Network, tradicional canal americano de animação comprou os direitos para produzir a série. Em 2014, estreou Irmão do Jorel que indicava como como faixa etária crianças entre 7 e 11 anos de idade mas, que conquistou um público muito mais amplo. O desenho original da série é o primeiro do canal na América Latina, ficando conhecido e sendo transmitido inclusive fora do Brasil. E em julho de 2018, estreou sua terceira temporada com mais 26 episódios que foram exibidos às segundas-feiras às 19:15 no Cartoon Network.

 

A família do irmão do Jorel, os personagens principais da série. Parodiando outra série brasileira “uma família muito unida, mas também muito ouriçada”

Aparentemente a narrativa é simplória: um menino de 8 anos que está crescendo e aprendendo a amadurecer. No entanto, é nessa simplicidade e generalidade que fica seu maior triunfo. Um protagonista tão comum que ninguém sabe seu nome, sendo conhecido somente através de seu irmão perfeito Jorel; uma família típica e tradicional; conflitos universais; aliado a uma representatividade nostálgica da infância, e mais ainda, de elementos da cultura brasileira, torna a séria atrativa para quem curte esse gênero de comédias leves. Em cada episódio nos deparamos com os conflitos vividos pelo protagonista. Tensões reais, aventuradas por uma criança fantasiosa, que a partir das relações com os outros personagens e com o ambiente em que vive, vai construindo uma narrativa engraçada e reflexiva que faz o público se apaixonar, mesmo com um toque escrachado e muitas vezes grotescos.

 

Personagens cativantes, numa narrativa sobre crescer numa família tipicamente brasileira.

 

É fato que uma boa série normalmente traz personagens interessantes e bem construídos e fazem o público se identificar com eles e com seus arcos dramáticos, mesmo que eles sejam vilões ou controversos. O desenho animado, Irmão do Jorel, consegue fazer isso com muita destreza. É impossível não amar os personagens da série e não identificar um pouquinho deles em nós e nas pessoas à nossa volta. Uma das explicações para isso, é que a história tem traços fortemente autobiográficos. O diretor Juliano afirmou em entrevistas que baseou várias situações e personagens em suas próprias experiências, porém, nega que o irmão do Jorel seja ele mesmo.

Irmão do Jorel pode ser definida como série comédia familiar. O núcleo principal é composto pela família do irmão do Jorel, cada um seguindo essa lógica dúbia do comum e ilógico, fantástico e trivial que permeia toda a construção da narrativa. Como foi colocado, é impossível não se identificar (ou identificar características) com os personagens. Um pai revolucionário, que sonhava em ser artista e vive reclamando do capitalismo, apesar de não resistir a ele; uma mãe cuidadosa, que vive enchendo o filho de sucos e comidas ruins, mas, que é muito forte, pilota sua moto e toma as decisões mais difíceis; os irmãos mais velhos, um perfeito, o queridinho da família e da escola, mas que nunca fala nada, e o outro, um roqueiro de cabelo grande e desleixado; e, claro, as avós que trazem toda uma relação de afeto, porém se contrapõe quase mimeticamente, fazendo o público enxergar um pouco de cada uma em suas vidas. Além deles, Juliano brinca também com os outros personagens e situações da vida real de uma criança, como a relação com a diretora e a professora, a menina bonita da escola, o ídolo, a melhor amiga. Cada personagem, apesar de uma estética caricata e muitas vezes repetitiva de se comportar, sofre, ri, transforma-se, tornando-os únicos e representativos.

 

Da esquerda para direita, Vovó Gigi, irmão do Jorel e vovó Juju, no episódio em referência ao filme Thelma e Louise.

 

Além disso, os personagens questionam algumas noções de gêneros, quando através do humor, trazem personagens diversos cheios de questionamentos, como por exemplo, mulheres fortes, homens que choram. O maior exemplo talvez seja a melhor amiga do irmão do Jorel, Lara, que é uma menina que não gosta de rosa, leva o amigo de bicicleta, gosta de jogar futebol e é muito independente.

O único ponto que fica um pouco excedente é a abundância do didatismo, comum em desenhos animados que trazem assuntos para educar as crianças. Por exemplo, na terceira temporada, se foca bastante na questão da poluição do oceano, que na série se dá por meio de uma fábrica de refrigerantes. Essa relação um tanto maniqueísta entre empresários, representado pela grande corporação da cidade, e os protagonistas, é amenizada com a carga irônica dada à algumas situações e a peculiaridade caricata dos personagens.

 

Ironias adultas x uma linguagem infantilizada.

 

Apesar do humor irônico, a série não contém tom pesado e nem usa do humor politicamente incorreto de animações mais adultas, como Rick e Morty, Family Guy e até mesmo Os Simpsons. Isso acontece, porque para a série ser exibida no Cartoon Network, algumas mudanças tiveram de ser feitas no visual e falas que os personagens tinham nas tirinhas originais. Mesmo assim, qualquer olhar mais maduro percebe, por exemplo, que o pirulito verde na boca da Vovó Gigi, é, na verdade um cigarro.

 

Irmão do Jorel e vovó Gigi são viciados em TV e principalmente nos filmes e programas do ídolo favorito deles, Steve Magal. O nome é uma referência ao cantor Sidney Magal e ao ator Steven Seagal.

 

O mundo visto pela perspectiva do irmão do Jorel é imaginativo, fantasioso, cheio de dilemas e situações comuns ao universo infantil, que contrapõe-se e contextualiza-se com as várias referências políticas e sociais do Brasil principalmente nos anos 80 e 90, como a memória da ditadura militar, os pais revolucionários “comunistas”, a influência da cultura norte-americana e a globalização, como por exemplo, na inauguração do shopping center, que se torna o evento mais marcante da cidade. O cenário e objetos também são todos pensados de maneira a referenciar/contextualizar esse período, como o vício pela TV e VHS, as construções modernas como o aeroporto, a cultura do rock, entre outras. A própria ironia metalinguística com o mundo pop, como os programas de televisão de ação e violência, episódios e cenas parodiando filmes, bandas, pessoas e músicas, atrai crianças e adultos nostálgicos. No meio de todas essas referências, ainda há espaço para  trazer ditados, gírias e personagens tipicamente brasileiros, como o comentários “típicos de vó”, situações como pegar piolho, o enredo sobre festa junina, etc. A dublagem cheia de sotaques também trazem o tom nostálgico de identificação, apesar da pouca variedade de dubladores. Essa relação entre uma linguagem infantil com humor irônico e as representações cria uma atmosfera bem humorada e não cansativa (os episódios ficam em torno dos 20 minutos), capaz de entreter toda família.

 

As duas primeiras temporadas estão disponíveis no Netflix. A terceira temporada  encerrou em 2018, e por enquanto ainda não há informações sobre onde poderá ser encontrada legalmente. Apesar de cada episódio ter seu arco principal finalizado- o que permite assistir e entender qualquer episódio sem necessariamente seguir a sequência numérica- na segunda temporada constrói-se uma serialidade mais complexa, com arcos maiores e referências a situações e detalhes da própria narrativa. Essa última temporada continua com participações especiais como a do rapper Criolo logo no primeiro episódio, após a participação de Emicida na segunda temporada, e muito,muito mais referências da cultura pop. Depois de tudo isso, para quem está em dúvida se vale a pena, dá uma conferida no trailer da 3 temporada abaixo:

 

 

** Vilma Martins é jornalista, cineasta, pesquisadora e mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia (PósCom/UFBA).

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