Crítica: Segunda temporada de Samantha! é mais divertida e intensa que anterior

por Enoe Lopes Pontes

 

Neste mês, a Netflix, como de praxe, disponibilizou o conteúdo inteiro do segundo ano da série nacional Samantha! Com sete episódios, a produção conseguiu crescer por apresentar um equilíbrio maior em seu ritmo. Isto, porque a narrativa mesclou os tempos de cena de cada conflito com uma atmosfera dos sentimentos das pessoas mostradas na tela, seus desejos secreto e sensações pessoais. E é aqui que está o grande ganho do seriado! Além de ter as gags e situações divertidas esperadas de Samantha (Emanuelle Araújo), Dodói (Douglas Silva), Cindy (Sabrina Nonata) e Brandon (Cauã Gonçalves), o público descobre também questões do íntimo deles, principalmente da protagonista. Talvez, tenha sido até uma estratégia positiva primeiro apresentar arquétipos de figuras típicas do imaginário brasileiro, como a estrela mirim dos anos 1980 ou o jogador de futebol enrolado, para depois ir mais a fundo nos detalhes sobre elas.

Os roteiristas (Paula Knudsen, Felipe Braga etc) vão colocando pinceladas de informação, lentamente. O espectador vai tendo contanto com a trajetória da “mocinha” e seus problemas na infância. Aos poucos, é possível montar o quebra-cabeça com as peças dadas por eles. Na história, Samantha começa a traçar seu caminho para crescer verdadeiramente e fazer papéis mais sérios, além de buscar ser boa mãe também. Este ápice acontece no 2×06 quando, finalmente, é explicada a relação da artista com a TV e pouco de suas origens.

 

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Araújo traz alguns detalhes em seus olhares que demonstram este amadurecimento e coloca até pequenas modificações de postura corporal, em momentos mais profundos. Contudo, todas as marcas que fazem parte de sua personalidade anteriormente continuam presentes, não se perdem. Assim como Samantha; Dodói, Cindy e Brandon recebem arcos com mais complexidade. Estas são de menor grau, é bem verdade, mas ganham. Porém, os atores não acrescentaram nada de diferente. Não que isto seja um ponto muito negativo. Contudo, poderia ter acontecido um desenvolvimento mais forte na atuação.

Uma possibilidade seria um trabalho do corpo que mostrasse um Dodói com uma pitada de sisudo, porque começou a cursar a faculdade de Direito. Ou, Cindy – que entrou, de fato, na adolescência – e Brandon – que decidiu aceitar que é mesmo uma criança -, poderiam trazer um pesar e uma leveza nas suas interpretações ou qualquer nuance de mudança. Afinal, eles passaram e estão passando por coisas que os afetaram, pelo menos isto aparece no texto que eles dizem, que confirma emoções e decisões novas. Mas, este fator pode ser uma falta de atenção e delicadeza da direção também, que colocou o foco maior na protagonista.

 

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Contudo, esse fato não compromete e coisas como não ter muito filler chamam mais atenção. Todos os acontecimentos são muitos justinhos dentro da trama. Samantha precisa crescer! Este é seu objetivo e toda a narrativa deste ano foca nisso, juntamente com subtramas que, ao invés de atrapalhar, ajudam a levantar o enredo principal. O relacionamento de mãe e filha entre Samantha e Cindy, a nova carreira de Dodói e os medos de Brandon, tudo isso fomenta o nó central, o desenlace e o cliffhanger do final.

Ainda que existam pequenas questões como dicção dass crianças e coadjuvantes de personalidade chapada, Samantha! se superou. A dinâmica entre o elenco continua a funcionar e camadas de complexidade foram colocadas, mostrando que a antiga artista mirim é muito mais do que quem assiste esperava, ela é uma OR…

 

 

Terror em Série – O horror na era pós Trump

Após seis temporadas lidando com temas ligados ao oculto e buscando metáforas entre o sobrenatural e os conflitos da convivência humana, o seriado criado por Ryan Murphy mergulha numa esfera mais realista e decide explorar o horror em sua mais pura forma, o horror da realidade. Nesta penúltima edição do nosso especial American Horror Story, chegamos na season do terror após a eleição de Donald Trump, chegamos em Cult.

A temporada começa estabelecendo quem são as personagens, mostrando um cenário polarizado, reflexo do período das eleições nos Estados Unidos. O primeiro episódio já começa revelando um clima de tensão e coloca em destaque ignorância x conhecimento, demonstrando o ódio daqueles que acreditam que estão perdendo muito ao ter que dividirem seus privilégios.

 

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Vemos na temporada essa dualidade o tempo inteiro. A protagonista, Ally (Sarah Paulson), tem estudo formal, tem consciência política, mas é mulher e lésbica, alguém que lutou muito por suas conquistas e que, por sua batalha e de outras pessoas, tem uma vida confortável, um casamento com outra mulher e um filho adotado. Devido ao seu passado, apesar de ter conforto financeiro e estabilidade, possui diversas fobias.

Já seu antagonista, é um homem branco, que, em sua primeira cena, comemora a eleição de Trump cheio de salgadinho laranja nas mãos, mostrando esse homem que procura culpar o outro pela sua falta de sucesso, como ele mesmo não pudesse ser responsabilizado pelos problemas que causou a si mesmo. A construção dessa dualidade é bem realizada e estabelecida no começo da série, contextualizando bem o enredo e os possíveis encaminhamentos.

 

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Murphy também sabe que o público, depois de sete temporadas, já está treinado e consciente de sua linguagem. Logo, ele tenta jogar com os códigos já entendidos por seus fãs. Os enquadramentos mais fechados nas cenas de Ally, traduzem esse sufocamento da personagem, mas também, deixa o espectador mais confuso sobre a sanidade de sua protagonista. Todos as conspirações, elementos sobrenaturais, coisas estranhas que sempre foram realidade na série, podem nessa temporada ser somente ilusão e a linguagem reforça essa impressão.

A primeira metade da temporada sabe conectar suas personagens, sabe segurar a tensão dos acontecimentos e une trama e visual numa viagem sobre o horror cotidiano, sobre o perigo iminente que são as pessoas ao redor, as pessoas de bem. O Culto, termina sendo o menos forte de certa maneira, porque suas cenas são desnecessariamente alegóricas e quando começamos a ver coisas demais, perde-se a metáfora do inimigo invisível, do olhar ao redor e se perguntar: “será que a aquele cara na outra rua votou em Trump? E se votou, do que ele é capaz?

 

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Por isso, a segunda parte da série se perde um pouco, ainda que mantenha certa qualidade, porque ao invés de se manter criticando um aglomerado de pessoas ególatras, capazes de fazerem mal para toda humanidade para manter o que as fazem felizes, sem pensar nas consequências, a série parte para se focar na vilania de Kai e relativizando todos os erros das outras personagens, tão sedenta por reviravoltas que termina quebrando um pouco o pacto com o espectador, quando o tempo inteiro o confunde com as intenções de suas personagens.

O maior louro de Cult é traduzir em imagens o que está na mente de cada eleitor de Hilary, de cada minoria social que vê a onda conservadora vindo como um tsunami desesperado para apaga-los da humanidade e também a mensagem final de que, quem sofre a vida inteira sem privilégios tem uma única vantagem, a vantagem de saber lutar, de saber esperar calmamente o contra- ataque, deixando uma mensagem de esperança para seu público.

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Crítica Shazam!

 

por Enoe Lopes Pontes

 

Um adolescente de catorze anos tem a possibilidade de gritar “Shazam!” e virar um super-herói cheio de poderes incríveis e surpreendentes. Esse parece o sonho de qualquer criança viva que esse planeta já conheceu e também é a premissa da história sobre Billy Batson (Asher Angel). O garoto é órfão e procura sua mãe, até que ele recebe dons mágicos de um mago misterioso e sua vida acaba mudando completamente. Mas, vamos parar por aí na questão do enredo, senão vai chover spoiler.

Com uma dinâmica que mostra o passado e o presente do mocinho e do vilão, a narrativa se vale de um trauma de infância e da ausência de uma família para retratar os conflitos internos destas personagens. Talvez, a semelhança entre os problemas de Billy e Thaddeus (Mark Strong) e a decisões diferentes que eles tomam a partir deles seja uma espécie de fio condutor da trama. Isto é um ganho porque a questão passa quase suave diante do espectador.

 

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As trajetórias dos dois vão se desenhando durante a projeção e mostra-se o interesse que cada um tem sobre a vida e quando a escolha entre salvar o mundo ou se vingar dele faz com que o traço principal da personalidade de cada um seja definida. Tudo isto é feito com um clima constante de piadas de efeito. Apesar desta comicidade em alto grau cortar o clima de ação em alguns momentos, principalmente na luta final, este fator não compromete a totalidade do filme, justamente porque o herói é um adolescente e estas gracinhas que ele faz lembra sempre o público disto.

Mesmo quando Billy é o Shazam (Zachary Levi), a lembrança de que o um menino está ali fica vivida na exibição. Este também é um mérito de Levi que construiu o super-herói com trejeitos adolescentes, colocando os traços em seu corpo, seus olhares e nas intenções do texto. Contudo, Angel e Levi não parecem construir um papel único. Algumas vezes, faltam traços de atuação semelhantes entre os dois atores, o que deixa as versões destoantes.

 

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Outro ponto que incomoda na projeção são os diálogos expositivos. Ainda que não aconteçam o tempo inteiro, quando ocorrem dão a sensação de que o roteirista (Henry Gayden) subestimou a plateia e coloca textos dos mais ingênuos possíveis na bocas dos intérpretes. Sabe quando aparecem aquelas falas assim “Pai, você sabe que eu sempre odiei cenouras”. Este é um artifício um pouco preguiçoso que quem escreve faz para que quem assiste saiba de elementos anteriores. Porém, quando o roteiro é mais bem trabalhado, ele dá um jeito de contar as coisas de formas mais sutil.

Shazam! possui algumas falhas, mas chega para mudar um pouco o tom das adaptações das HQs da DC Comics, entregando um clima mais leve e menos sombrio, sem deixar os momentos de aventura e ação de lado. No geral, tem um resultado digno, trazendo a comicidade e o espírito do protagonista e deixando a possibilidade de um DCEU (Universo Extendido DC) com cada história dos heróis sendo contada com desenvolvimento e a personalidade que cada um deles merece.

 

Crítica Van Helsing: 3ª temporada peca por falta de fôlego e criatividade

 

Por Enoe Lopes Pontes

Produzida pelo canal SyFy, Van Helsing chega em seu terceiro ano! Passando a sensação de que poderia ter sido mais pontual e enxugado as barrigas, cortando micro conflitos e indo direto para as questões referentes ao plot original, ela chegou naquele momento em que todas as situações pré-conflito grande anunciado já aconteceram. Sabe questões como o mistério da ilha, em Lost; a batalha final de Once Upon a Time ou o end game de Ross e Rachel, de Friends? Então, os problemas menores vividos pela protagonista, Vanessa Helsing (Kelly Overton) chegaram ao seu limite, porque não interferem no resultado final do seriado como todo e adia o desenvolvimento principal da season, deixando as resoluções e ganchos um tanto corridos. Principalmente no que se refere ao dilema moral de Helsing.

O público já viu que os limites entre o bem e o mal que vivem nela estão numa linha tênue, dando uma visão não maniqueísta das suas vivências e esta estratégia era mais eficaz para que o objetivo central dos criadores não ficasse perdido. É um mundo distópico, pós-apocalíptico e uma mãe – que também tem poderes – acorda sem sua filha! Já está dada a situação e quem é esta mulher. A ressignificação deste quadro vem somente para postergar o gancho da finale.

 

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Ao lado desta questão está o fato de que as tramas dos coadjuvantes passam a parecer mais interessantes. Contudo, como a história original se perdeu e agora o espectador tem contato com múltiplas peripécias, nenhum encaminhamento é mostrado em sua totalidade. Assim, pode ficar uma sensação de incerteza sobre o que os roteiristas queriam com o terceiro ano da produção. Se a premissa era a jornada de Vanessa para reencontrar sua filha, depois (SPOILER ALERT!!!) que a garota morreu em seus braços, os rumos do enredo foram ficando nesta neblina, com uma indecisão da importância da personagem principal.

O que acaba acontecendo é que a figura da irmã de Vanessa, Scarlett Harker (Missy Peregrym), se sobressai e consegue captar mais a atenção com a sua história. Tanto no quesito narrativo, quanto de atuação, é ela que parece o elemento mais seguro aqui. Peregrym imprime um tanto de complexidade em Scarlett, sabendo dosar a carga entre as cenas pesadas e os alívios cômicos apenas com olhares e velocidade de texto.  O que é um contraponto com Overton que é menos expressiva facialmente. Apesar desta característica ajudar em alguns momentos a manter o tom de mistério de Van Helsing, no geral, a falta de força da atriz joga o brilho para sua colega de cena.

 

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Por fim, um ponto que talvez seja o mais preocupante seja o fato de um produto de terror ter uma ausência de construção de tensão bem realizada. Além da obviedade dos acontecimentos, o número de tipos de criatura cresce, mas não foram pensadas características para torna-las assustadoras. Uma repetição de caretas para câmera, em uma quantidade de tempo constrangedora, não convence. Primeiramente, a atuação não soa orgânica. A tendência é acreditar que eles possuem uma ideia do que é um “Monstro” e passaram a rosnar e arregalar os olhos. A essência e motivações vistas em momentos anteriores da série desapareceram. Até mesmo Sam (Christopher Heyerdahl), o vampiro mais assustador deste universo, fica entediante, porque suas ações acontecem de forma dilatada de uma forma que o ritmo se perde.

Renovada para uma quarta temporada, fica a esperança que ela volte para a sua forma anterior, cheia de ritmo, relações que criam empatia e medo!!

 

Terror em Série – American Horror Story: Roanoke e suas múltiplas reviravoltas

A sexta temporada de American Horror Story (AHS) foi exibida em 2016 e trouxe uma tentativa de dar uma complexidade maior para suas tramas, focando em três camadas narrativas diferentes que vão se desenrolando durante os episódios. Além disso, paralelamente, ela mostra o passado da casa na qual a história está centrada.

A narrativa começa bem, mas deixa suspeitas de que talvez se encaminhe por um rumo um pouco repetitivo, trazendo ares muito semelhantes aos de Murder House. Na trama, o casal Matt e Shelby se mudam para uma misteriosa residência, que possui um secreto e sombrio passado. E a história daquele lugar remete bastante à atmosfera da terceira temporada (Coven), onde Kathy Bathes interpreta mais uma vez uma mulher sanguinária, a personagem Thomasin, a açougueira.

 

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Mesmo com as semelhanças, os episódios são consistentes e apresentam um elemento novo: no enredo, uma produção está realizando um documentário sobre os acontecimentos da casa. O tom quase metalinguístico, com pitadas de mocumentário, traz um tom de suspense e uma impressão de que tudo pode acontecer. O risco, algo visto nas obras de terror, se mostra maior, alimentando bem a curiosidade do espectador, dando poucas chaves e abrindo muitas possibilidades.

E aí que mora o maior problema de Roanoke. Muitas portas são abertas e é difícil se conectar com qualquer possibilidade. Após o sucesso da primeira temporada da série ficcional que o público vê na história do seriado, partimos para o segundo ano, agora, com atores interpretando todos os envolvidos na trama. A equipe realiza tudo na mesma casa onde todas as mortes aconteceram. A partir disto, a narrativa se modifica por completo e a metalinguagem e crítica aos realites shows, são substituídos por jump scares baratos e uma grande falta de coesão narrativa.

 

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A relação entre as personagens novas é mal construída e o valor das mesmas parece inexistente. Como elas não possuem um elo forte de ligação com o público, vão se amontoando em mortes diferentes a cada episódio, substituindo aquele suspense característico da série, pela constante procura em provocar medo com fantasmas e assombrações cada vez mais assustadores.

É essa tentativa constante de superar tudo antes já visto no seriado que destrói qualquer forma de conexão que poderia surgir, é extremamente forçada a busca de surpreender. Talvez o maior louro de Roanoke seja a crítica, até um pouco simplista, da sede de sangue que o público estadunidense possui de ver a desgraça alheia. Porém, nada que Black Mirror já não tenha feito em seus primórdios. O sexto ano de AHS fica um pouco no meio do caminho de tudo.

Sobre as intercessões com as temporadas anteriores, os principais destaques são: a primeira bruxa suprema – numa referência à Coven – e a presença de Lana Winters – de Asylum – uma escolha sempre acertada de Murphy. Para os fãs da série, só restou conferir os episódios e esperar pela temporada seguinte, muito superior e que traz de volta o suspense e os dramas que unem psicológico e sobrenatural, explorando o que American Horror Story faz de melhor: encontrar o terror dentro das pessoas mais inesperadas, desvendar almas sombrias de lugares menos prováveis. A quinta  e a sexta temporadas do seriado quase provocaram seu downfall, mas, a mesma se recupera com louvor. Mas, vamos deixar para o próximo mês!

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Especial Maratona de séries curtas para o Carnaval

por Enoe Lopes Pontes

O Carnaval é uma comemoração que possui vários tipos de diversão para cada estilo de pessoa. Pode ser uma época para dançar, cantar, pular, viajar, relaxar, maratonar filmes e seriados ou tudo isto junto. Mas, como o site tem um foco específico, claro, o Série a Sério pensou nos seriadores de plantão e elaborou uma lista com dicas de produções para assistir durante o feriado. Contudo, há um detalhe especial aqui! Todas são narrativas curtas, já que só faltam poucos dias para o encerramento dos festejos! Assim, no top 5 se encontram tramas com poucos episódios, dando a capacidade ao espectador mais apaixonado de ver todos os títulos sugeridos até a quarta-feira de cinzas!

 

LISTA

 

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5 – Good Girls (2018) – Três mães do subúrbio dos Estados Unidos viram criminosas da noite para o dia. Somente a ideia da série já pode despertar certa curiosidade no espectador, certo? Mas, é o desenvolvimento deste plot que mais diverte e surpreende. As reviravoltas dentro da trama é um dos destaques da produção, pois as situações postas vividas pelas personagens principais são quase surreais, dentro do que é apresentando para o público sobre quem são estas personas.  A partir da premissa, existem duas coisas mais relevantes para o prazer em assistir ao seriado: as tiradas sarcásticas (para quem gosta de humor sombrio, melhor ainda) e a forma como as mulheres se unem e lutam por sua sobrevivência, demonstrando toda a sua capacidade de defesa, inteligência e destreza para se safar de situações aparentemente impossíveis de serem solucionadas.

 

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4 – Sex Education (2019-) – Com um total de oito episódios, a primeira temporada do seriado foi tão bem sucedida que a Netflix já confirmou o seu segundo ano no ar. Mostrando o dia a dia de um jovem que tem uma mãe terapeuta sexual, a produção consegue discutir temas importantes e profundos para adolescentes, conseguindo manter um tom leve. Mesclando as tensões e embaraços da puberdade com os maiores prazeres deste período, a graça de Sex Education são as relações de Otis (Asa Butterfiled) com as pessoas que o cercam, sejam as mais antigas em sua vida ou as mais novas. Neste sentido, a dinâmica do protagonista cresce quando está ao lado das personagens Maeve (Emma Mackay), Eric (Ncuti Gatwa) e Jean (Gillian Anderson). Ocupando o espaço de crush, melhor amigo e mãe, respectivamente, é possível conhecer os detalhes sobre Otis nos diversos âmbitos de sua vida, principalmente no que tangem seus conflitos sexuais. Paralelo ao que acontece com o garoto, também existem os casos que Otis analisa quando decide ser um conselheiro sexual dentro de sua escola, inspirado nas coisas que aprendeu dentro de casa.

 

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3 – The Fall (2013-2016) – Criada por Alan Cubbit (Prime Suspect), a série possui três temporadas de seis episódios e conta como Stella Gibson (Gillian Anderson) investiga diversos assassinatos que estão acontecendo no Norte da Irlanda. A trama mostra para o público o ponto de vista da policial e do psicopata, como os crimes são cometidos e quais os caminhos a detetive segue para solucionar o caso. No entanto, é preciso ter estômago para encarar a frieza do assassino Paul Spector (Jamie Dornan) e como o mesmo age com suas vítimas. O ponto alto da produção é a forma como são demonstradas as personalidades das personagens. Todas possuem suas complexidades, por mais que aparecem por pouco tempo na tela. Elas são humanizadas, mas seus atos não são relativizados. A crueldade de Paul é apontada o tempo inteiro, mas é nítida a preocupação do roteiro em mostrar a sua certeza de lógica para suas ações. Ao mesmo tempo, ele é um vilão inquestionável. Da mesma maneira, Stella é a heroína da história, sem dúvidas, porém ela possui segredos e más condutas em alguns momentos. Um segundo elemento destacável é a tensão da proximidade e distanciamento entre Spector e Gibson. Eles dividem o mesmo espaço ou ficam em direções opostas, as cenas de maior intensidade são as que os dois conversam ou ficam no mesmo ambiente de qualquer forma.

 

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2 – Collateral (2018) – Em quatro episódios, a minissérie britânica consegue discutir temas como xenofobia, privilégios sociais e misoginia. Com ação e construção de tensão, o espectador pode ser pego pela produção por gostar de histórias de crime e mistério. Mas, outro viés intenso é o olhar sob as personagens femininas da trama. A câmera revela a empatia entre as mulheres e o olhar sujo e/ou equivocado que os homens possuem sobre elas. Contudo, esta camada é sutil sem, no entanto, deixar de ser perceptiva.  Um bônus é a interpretação da atriz Carrey Mulligan (Educação). Com gestos precisos, ela demonstra o presente e o passado impressos em sua construção para o papel. Vê-se em Kip a ex-esportista, a policial, a mãe, a mulher etc.

 

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1 – The Good Place (2016-) – Criada por Michael Schur (Parks and Recreations), a série conta a história de Eleanor Shellstrop (Kristen Bell). A jovem acabou de morrer e foi parar em uma espécie de paraíso. O lugar calcula a entrada de seus moradores através de um sistema de pontuação de atos bons e ruins. Esta é apenas a premissa da produção que possui muitos plot twists e novas descobertas a cada episódio. Este fator poderia fazer com que a trama se desgastasse ou parecesse apelativa. Contudo, a estratégia de reviravoltas enormes acabam dando fôlego para a história. O ritmo não fica comprometido, pois as relações interpessoais acontecem em uma velocidade oposta aos acontecimentos gerais, nos quais estão envolvidos todos que cercam Eleanor. A utilização de temores cotidianos humanos, junto com o estudo da Ética e da Moral, mais o humor típico de Schur dão o tom e a graça de The Good Place, que merece ser vista.

BR em Série: Webséries brasileiras oferecem narrativas diversificadas e ganham espaço em premiações

Há algumas décadas, seriados audiovisuais eram apenas televisivos. Hoje, não os associamos mais somente à canais de TV (apesar de no Brasil a TV aberta ainda ser dominante) senão também à internet, principalmente com o crescimento dos serviços de streaming*, como a Netflix. Com o desenvolvimento tecnológico, essas mudanças revolucionaram não só as formas de assistir a séries, como também formatos e tipos de produções. Além deste serviço, existem outros estilos de produções audiovisuais surgindo e crescendo no mundo, como aquelas feitas para redes sociais e sites de vídeos. O Vimeo e o Youtube são exemplos disso. Estes materiais são popularmente conhecidos como webséries, que tem não só possibilitado produções mais acessíveis, como também uma maior pluralidade de temas.

Webséries ou seriados digitais são produtos serializados distribuídos online e com episódios mais curtos que os das séries televisivas comuns. Surgem no final da década de 1990, nos EUA, a partir do processo de convergência da web com a televisão, que depois consagrou-se enquanto formato com narrativa e especificidades próprias. Elas surgem pela necessidade do espectador consumir um conteúdo que poderia ser assistido casualmente. Por isso, variam entre 3 e 20 minutos de duração, mantendo uma narrativa mais simples, com histórias não muito complexas, que não exijam atenção total do espectador. A distribuição pela internet também possibilita uma maior liberdade criativa, pois não enfrentam as mesmas limitações de um conteúdo televisionado, o que incentiva a geração de conteúdos mais livres, a transformando em um formato midiático com oportunidades nos mais diversos nichos.

 

 

Em contrapartida, não há modelos de negócios e divulgação que tornem as webséries rentáveis, o que desincentiva muitos produtores. Por outro lado, assim como os curtas-metragens, os festivais são espaços possíveis de ganhar visibilidade e prêmios. O número de webfests têm crescido pelo mundo, e mesmo os festivais tradicionais de TV e Cinema com o Emmy e Cannes já abriram novas categorias visando essas produções. No Brasil, o maior é Rio WebFest, que teve sua edição inaugural realizada em 2015. Sediado desde 2016 na Cidade das Artes, se consolida como um dos maiores do mundo. A última edição aconteceu em novembro 2018, e premiou produções de diversas partes do Brasil.

 

Abaixo pequenas resenhas de algumas webséries com temáticas interessantes e que chamaram atenção nos festivais.

 

 

O Som do Amor: A Bahia em música e simplicidade

 

 

Não existe fórmula mais eficaz em atrair um público comercial do que histórias de romance. Um dos gêneros mais antigos, da comédia ao drama, as histórias de amor tem como forte, as relações amorosas e conflitos para viver o amor. A websérie  baiana, O Som do Amor, traz essa receita com muita simplicidade, aliado a outro forte artifício do melodrama: a música. Uma história de amor que se desenrola rápido, com um conflito usual, mas sem um drama exagerado, comum de produções assim. Tudo isso dá a produção um aspecto de ordinariedade. Porém, este logo se mostra ser o propósito da série, ou seja, retratar uma vida comum com o amor e a amizade. Marina e Dito, o casal protagonista, também conseguem trazer essa naturalidade a história. São 5 episódios de até 5 minutos que constroem relações que nós nos identificamos. O cenário, então, é bem romântico, com imagens lindas da cidade de Salvador. Talvez o que falte seja talvez circular por mais espaços, são poucos cenários por onde os personagens trafegam, como, por exemplo, a maioria das cenas acontece no mesmo bar. Isso não é de todo um problema, pois existem séries sobre grupos de amigos que fazem a mesma coisa, como os seriados Friends e How I Met Your Mother. Dado a realidade das séries digitais, com tempo curtos e baixo orçamento, é compreensível que se estruture uma narrativa mais concentrada e dê foco aos personagens principais. Falta desenvolver, talvez, os personagens secundários, que surgem quase como figurantes. O seriado ganhou Melhor Série Brasileira no Rio Web Fest e em breve terá lançamento da sua segunda temporada. Confira o trailer aqui:

 

 

Punho Negro: Uma história de super-herói contemporânea e brasileira

 

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Uma outra fórmula que também tem atraído um vasto público comercial são as narrativas de super-heróis. Apesar disso, o Brasil não tem muitas produções com essa temática. Uma justificativa usual para isso, é que essas produções normalmente são muito caras. De maneira engraçada e inteligente, a websérie baiana Punho Negro, traz uma super-heroína contemporânea, cheias de críticas a sociedade, sem deixar de rechear com cenas de ação e fantasia típicos do gênero. Os efeitos e a arte da série são uma questão a parte, com uma paleta de cores complementar ao figurino da protagonista, que também se adequam a arte dos créditos e da abertura que funcionam bem com a música. Efeitos simples, mas que não recaem sobre uma artificialidade (muito comum em produções que abusam de efeitos de computador gráfica). O projeto fica por conta do coletivo independente Êpa Filmes e traz personagens e situações, que, aliados com boas atuações, não deixam a desejar, tudo parece funcionar muito bem. Punho ganhou prêmio de melhor ideia original no Rio Web Fest, porém, ainda não há notícias sobre uma segunda temporada.

 

Link da serie no youtube:

 

Eixos: Narrativa distópica com uma produção majoritariamente de mulheres

 

 

Quem disse que Brasília não poderia viver um futuro distópico? Com uma fotografia, arte, maquiagem e figurino excelente, a websérie Eixos apresenta a capital do país em 2060, onde conflitos políticos e revoltas violentas levaram ao desmoronamento da ordem mundial, deixando a população a sua própria sorte. Imagens de ruínas, sujeira, calor e desesperado deixam a cidade irreconhecível. A narrativa que veio dos quadrinhos, com direção, roteiro e arte de mulheres, tem como protagonistas Cássia. A personagem é uma mulher forte, aventureira e dura e, junto com Inês, de personalidade mais leve, decide procurar seus amigos desaparecidos. A relação entre elas, que horas beira a uma relação amorosa, constrói uma história de luta e fé mesmo num mundo destruído. O problema que acontece em muitas narrativas desse tipo, é que muitas vezes se perdem nos detalhes. Os personagens secundários também enriquecem a narrativa, como Chico e Mãe Obá. Eixos foi indicada a melhor fotografia, melhor maquiagem e melhor série de ação no Rio Web Fest 2017. Link do trailer:

 

* Streaming Media é uma tecnologia sobre transmissão de conteúdos audiovisuais adquiridos  através de pacotes da internet, em que as informações não são armazenadas pelo usuário em seu próprio computador. odo vídeo “on demand” é transmitido via streaming. Mas nem todo conteúdo por streaming está sendo enviado sob demanda, ou seja conceitualmente é tudo o mesmo.

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

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