Especial: Os Melhores e os Piores Spin-offs de Todos os Tempos

 

Por Enoe Lopes Pontes

Depois de The Vampire Diaries e The Originals, o canal CW traz para os fãs das séries outra série dentro deste mesmo universo! Legacies é mais uma continuação da história sobre os vampiros e criaturas mágicas da emissora e pretende narrar a trajetória da filha da personagem Klaus, a Hope Mikaelson. Além disto, o enredo também mostrará as aventuras dos outros seres sobrenaturais da geração da Hope e easter eggs dos seriados originais, incluindo a revelação do destino de Elena (Nina Dobrev) e Damon (Ian Somerhalder).

Aproveitando o gancho da nova estreia da CW, o Série a Sério preparou um especial com os três melhores e piores spin-offs de todos os tempos da televisão. Curiosamente, foram pensadas produções de outras localidades, como o Brasil e a Inglaterra, mas os conteúdos dos Estados Unidos ocuparam as posições iniciais por terem continuações com plots mais independentes e arriscados e, ainda assim, conseguirem superar o original, seja para melhor ou pior! Contudo, adicionamos alguns nomes extras no final da lista, caso o leitor fique curioso para descobrir ou evitar algumas tramas!

 

MELHORES

 

 

3. Angel (1999-2004): Em 1997, entrava na programação da TV dos Estados Unidos Buffy – A caça vampiros. Com uma trama que misturava aventura, romance e suspense, a produção possuía um público fiel, conseguindo manter uma média de 5 a 7 milhões de espectadores por episódio, em todas as suas temporada. Dentro da narrativa, Buffy (Sarah Michelle Gellar), a heroína protagonista, vivia um romance complicado com um vampiro, Angel (David Boreanaz). A personagem do namorado da mocinha fez tanto sucesso que ele ganhou um seriado solo, com seu nome no título. O ponto alto da série é que ela talvez seja a que mais conseguia manter o estilo do enredo original, sem perder a sua própria personalidade. Além disso, o  principal possuía carisma, as tramas “monstro da semana” e do arco geral eram instigantes e os crossover entre Buffy e seu spin-off faziam eram bem elaborados, com sentido, criação de tensões e incentivo para seu público ter a vontade consumir as duas produções, pois elas se interligavam, em alguns momentos. Angel ficou no ar durante cinco anos, com uma média de público de quase 5 milhões de pessoas.

 

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2. Better Call Saul (2015-): Ainda em exibição e com quatro temporadas, até o momento, a série é um spin-off da famosa e cultuada Breaking Bad (BB). Com uma pegada mais leve que sua original, o seriado foca na história do advogado trambiqueiro Saul Goodman (Bobby Odenkirk), quando ele ainda era conhecido como Kimmy McGill. Apesar de ter altos e baixos, em alguns momentos, Better Call Saul consegue desenvolver a trajetória de Jimmy, revelando gradativamente sua transformação em Saul. Além disso, o roteiro consegue trazer um equilíbrio entre o dramático e cômico, explorando a personalidade sarcástica do protagonista, sem deixar de mostrar que embaixo da ponta do iceberg existe a degradação humana encarnada na figura do principal e de outros que o cercam. Odenkirk também é um destaque por ter habilidade de “voltar no tempo” e mostrar completamente o McGill, sabendo dosar os inserts de Goodman, aos poucos, sem entregar o resultado final que ele já havia mostrado antes, em sua aparição anterior. A sua performance vem sendo agraciada por elogios da crítica e indicações em premiações como Globo de Ouro e Emmy Awards.  Por fim, ainda têm uma questão: os fan services para os fãs de BB! Muitas das tragédias e confusões que explodem em Breaking Bad têm suas trajetórias mostradas nesta continuação.

 

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1.Frasier (1994-2003): Com o final do seriado Cheers – que ficou no ar por onze anos, teve 275 episódios e ganhou 28 Emmy Awards -, os fãs da sitcom ficaram órfãos. Porém, a NBC, emissora responsável pela produção, trouxe o seu spin-off, intitulado de Frasier. Com oito temporadas, no total, a história girava em torno de Dr. Frasier Crane, personagem presente desde a terceira temporada do seriado original, e seu irmão. Os dois são psiquiatras. As tensões e disputas entre a dupla gera os momentos mais engraçados da série. Quando Frasier começou a ser exibida, existia certa tensão, pois o seu sucessor possuía sucesso de crítica e público. Contudo, a comédia conseguiu manter a graça e algumas características de Cheers, porém repaginando a cidade e seus os ambientes principais. Por exemplo, enquanto uma se passa majoritariamente em um bar, a outra fica mais na casa de Dr. Frasier e na rádio que ele trabalha. Isto muda o tom em certos aspectos, pois as situações e o comportamento das pessoas são diferentes a depender do local que elas estão. Contudo, o time das piadas permanece e o fato de existirem questões amorosas com destaque forte também. Ainda existe um fato curioso sobre o seriado, ele é o maior vencedor de Emmys de todos os tempos, recebendo 39 troféus, em 12 anos!

Outras dicas boas: Cidade dos Homens (Original/2002 e Continuação/2018); Carga Pesada (Original/1979 e Continuação/2003); As Cariocas/As Brasileiras; Doctor Who (Original 1963/Continuação/2005) e Torchwood.

 

PIORES

 

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3. Once Upon a Time in Wonderland (2013-2014): Quando Once Upon a Time (2011-2018) entrou em sua terceira temporada, os showrunners Adam Horowitz e Edward Kitsis anunciaram o spin-off da série. Com um plot que focava em Alice no País das Maravilhas, e pitadas de Aladin, a produção foi considerada um fiasco por não alcançar uma boa média de público, tendo menos de 6 milhões de espectadores por episódios. Comparada com a sua original, que chegava ao dobro disso, o seriado não rendia bons frutos para a emissora ABC e foi cancelada em seu primeiro ano. Talvez, a razão para a falta de fidelização dos espectadores seja a qualidade técnica de OUAT in Wonderland mesmo! A protagonista, interpretada por Sophie Lowe (The Returned), era pouco expressiva e sem carisma, o seu ship – o gênio da lâmpada Cyrus (Queen of South) e Alice – não tinha química, os plot twists eram tantos que acompanhar o enredo ficava entediante e os efeitos especiais eram horrendos (coisa que a sua antecessora também não brilhava).

 

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2. Joey (2004-2006): Considerada uma das melhores séries de todos os tempos pelo público e por veículos como a Rolling Stones e o Hollywood Reporter, Friends (1994-2004) foi um hit em seu período de exibição e continua sendo cultuada e assistida até hoje em canais de TV fechados, DVD’s e streamings. Pensando neste sucesso, dois roteiristas do seriado, Shana Goldberg-Meehan e Scott Silveri, criaram o spin-off Joey. Ele mostrava a vida do ator Joey Tribbiani (Matt Le Blanc), que previamente ficou conhecido um dos seis amigos da narrativa antecessora. Curiosamente, muitos episódios foram dirigidos pelo Kevin S. Bright, um dos criadores de Friends, e por David Schwimmer, que fazia o Ross Geller na trama original. Ainda que a história não tenha tanta graça, com apenas um dos companheiros da turma, as piadas sejam óbvias e o lado mais clichê de Joey seja explorado, deixando-o raso, Le Blanc recebeu uma indicação ao Globo de Ouro pelo papel. Contudo, este fator não salva o conteúdo desastroso e entediante de Joey e não é também uma grande surpresa, já que o artista interpretava Tribbiani por mais de uma década.

 

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1. DC Legends of Tomorrow (2016-): A grande vencedora – ou perdedora – da lista de piores spin-offs com certeza é Legends of Tomorrow. Sucessora de produções como Arrow e The Flash, a série é exibida pela CW, nos Estados Unidos e pelo Warner Channel, no Brasil. O seriado peca, principalmente, na falta de habilidade em administrar a quantidade de herói colocados na trama. Eles não conseguem explorar com profundidade nenhuma personagem, deixando que a própria condução da narrativa se contamine, ficando óbvia e tediosa, pois traz problemas e soluções já esperadas. Para finalizar, as cenas de ação são o que tem de menos empolgante, numa produção sobre Super-heróis. Talvez, a emissora só deseje expandir o conteúdo da temática no canal, mas poderiam fazer de forma menos preguiçosa.

 

Na trilha da série: Glee, Wicked e a luta por direitos

POR HANNA NOLASCO

O musical é um gênero que foi muitas vezes menosprezado por críticos e pesquisadores por ser encarado como mero entretenimento. No entanto, as temáticas sociais permeiam o enredo de seus produtos desde seu surgimento. Indo do teatro à televisão, o assunto foi abordado de diversas maneiras: a questão da diferença de classes era pano de fundo de My Fair Lady (teatros, 1956; cinema, 1964); as gangues de Nova Iorque e suas diferenças étnicas, base do enredo de West Side Story (cinema, 1961); e até filmes musicais infantojuvenis trouxeram discussões que perpassam o respeito ao próximo e a aproximação do diferente (A Bela e a Fera, 1991), os posicionamentos machistas de uma sociedade e a história de uma mulher que salva a China (Mulan, 1998) e também um governo ditatorial que assume o poder através do assassinato de um líder (O Rei Leão, 1994). Isso, além da guinada, a partir da década de 1970, de discussões mais abertas de temáticas sociais em musicais devido ao contexto histórico: Hair (1979), por exemplo, retratou a comunidade hippie estadunidense durante os anos 1960 e realizou uma crítica política à guerra do Vietnã. 

Mais especificamente em relação à discussão de preconceitos e de minorias sociais nos musicais, o tema do Na Trilha da Série de hoje é o seriado Glee e seu entrelaçamento com o musical da Broadway WickedGlee foi uma série musical de sucesso produzida pela FOX, com seis temporadas, exibida entre 2009 e 2015. O enredo se desenvolvia em um colégio no interior dos Estados Unidos, enfocando o Glee Club – coral – e seus membros. Nesse país, este tipo de grupo é apresentado como uma instituição marginalizada, que agrega jovens considerados nerds. A produção se apropria dessa discussão ao apresentar um grupo de estudantes guiados pelo professor Will Schuester, que saem de uma situação de preconceito escolar e constrangimento social ao prestígio entre os pares, através do sucesso em competições e divulgação da escola. Sendo assim, a narrativa mostra a transformação desse clube e da vida de seus participantes, abarcando temáticas como envolvimentos românticos, gravidez na adolescência e homossexualidade.

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A lista de músicas desse seriado abarcava grande quantidade de versões, indo do cancioneiro clássico estadunidense até hits da atualidade. Também havia uma aproximação grande com os musicais de teatro e cinema, visto que dois dos protagonistas, Rachel Berry e Kurt Hummel, almejavam ser atores da Broadway. É justamente na interação entre esses dois personagens, no nono episódio da primeira temporada de Glee, que foi realizada a versão de “Defying Gravity”, do musical teatral Wicked.

Esta canção é emblemática em Wicked: a história não contada das bruxas de Oz, obra que se passa na terra de Oz antes da ida de Dorothy – de O Mágico de Oz (1939). A peça trata da relação de amizade entre duas bruxas: Glinda, rotulada posteriormente como “bruxa boa” e Elphaba, posteriormente indicada como “bruxa má”. Acompanhando as duas bruxas desde a infância, o musical discute rótulos, questões de preconceito, corrupção na sociedade, além das próprias definições de boa/má: enquanto Glinda é branca e loira, Elphaba é verde, fator que sempre trouxe um estranhamento dos cidadãos de Oz em relação a ela. Esta produção, portanto, traz uma reflexão do que realmente é ser wicked (malvado), construindo assim uma crítica interessante a problemas vigentes em nossa sociedade, utilizando como metáfora essa terra fictícia.

 

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A canção “Defying Gravity” é utilizada no fim do primeiro ato da peça, marcando o momento em que Elphaba descobre que o Mágico de Oz, idolatrado por todos, não era um herói: pelo contrário, possuía planos sinistros para os animais de Oz. Sendo assim, a bruxa decide fazer tudo em seu poder para impedi-lo, mesmo enquanto os moradores de Oz a ridicularizam e vilanizam. Nesse momento, Elphaba canta sobre viver sem limites e ir de encontro a regras, desafiando a gravidade (tradução do título da canção), como podemos notar no trecho a seguir:

 

           “I’m through accepting limits                                                “Cansei de aceitar limites
‘Cuz someone says they’re so                          Porque alguém diz que eles existem
Some things I cannot change                          Algumas coisas eu não posso mudar
But till I try, I’ll never know”                                  Mas até eu tentar, nunca saberei”

 

Em Glee, no episódio 1×09, “Defying Gravity” marca um posicionamento do personagem Kurt, que luta pelo direito de interpretar essa canção na apresentação do coral, pois o professor Will deu o papel a Rachel somente por ser uma música tradicionalmente cantada por uma mulher. A mensagem da letra representa o momento vivido por Kurt, que tinha acabado de se assumir gay e se posiciona em face de uma decisão arbitrária, lutando por direitos iguais a solos em músicas independentemente de questões de gênero. Ao mesmo tempo, o episódio traz também um contexto do tratamento de homossexuais e suas famílias: o pai de Kurt, que o ajudou a ter a oportunidade de fazer a audição ao denunciar a atitude discriminatória ao diretor da escola, passa a receber telefonemas anônimos de cunho homofóbico.

 

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Sendo assim, durante a audição, Kurt erra propositalmente a nota mais aguda da canção, para que não seja selecionado por seus pares e seu pai não sofra mais ataques. Dessa forma, o episódio mostra não só um momento relevante de debate, mas também a realidade do preconceito de determinadas pessoas em relação àqueles que são diferentes.

Confiram aqui a apresentação de Idina Menzel e Kristin Chenoweth, da formação original de Wicked, na premiação Tony Awards, em 2004. Uma curiosidade: as duas atrizes participaram posteriormente de Glee, interpretando, respectivamente, a mãe biológica de Rachel e uma amiga de colégio do professor Will Schuester.

 

 

*Hanna Nolasco é jornalista, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e desenvolve pesquisas sobre o uso da música em produtos televisivos.

Crítica: Nem boa e nem ruim! Minissérie “Maniac” quase chega lá!

Por Enoe Lopes Pontes

Produzida pela Netflix e criada por Cary Fukunaga (It: A Coisa) e Patrick Somerville (The Leftover), Maniac é uma produção um tanto complexa de se descrever e adjetivar. A sua narrativa não possui unidade, é dispersa e cada enredo que eles criaram é mal aproveitado. Quando o público assiste ao piloto, a impressão é a de que o protagonista é Jonah Hill (Anjos da Lei) e que existirá um mistério a ser contado durante a temporada: o que Owen vê e diz é verdade ou não? Muito bem!

Em seguida, há uma quebra de expectativa – que poderia ter sido bem explorada, obviamente – e o segundo episódio é focado em Annie (Emma Stone). A partir daí, o espectador começa a pensar que irá montar o quebra-cabeça da relação de Annie com a irmã e o que isto tem a ver com Owen  dentro do enredo. Contudo, apesar do 01×02 ser bem executado, impactante, principalmente na forma de conduzir o conflito principal da personagem de Stone, ainda não é ali que a questão mais importante é posta. O que realmente o seriado vai contar é um experimento de uma empresa farmacêutica da qual os jovens interpretados por Stone e Hill irão ser cobaias. Saber que o processo e resultado disto é o que importa apenas fica claro… Bem, no final da série.

 

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O problema é que, ao invés de tentar contar com clareza o experimento e até mesmo usar as informações das personagens que são descobertas nas duas primeiras partes da trama, pequenas partículas de historinhas imaginárias são postas demasiadamente. O roteiro começa a parecer o mesmo labirinto mental que Owen e Annie estão, mas não de uma forma positiva. O tempo que é gasto com as fantasias das cabeças da dupla não têm ritmo, porque ficam estagnadas em um único tom, sem equilibrar aceleração com tensões ou calmaria, as falas são monocórdicas. Quando Maniac chega no final, a conclusão é de ela poderia se resolver em cinco episódios e ser mais impactante ou ter os dez que ele possui, mas que explorasse menos peripécias e desenvolvesse melhor o que importa: a saúde mental de Owen e o conflito de Annie com a irmã – sem spoilers!

Porém, não é possível dizer que a minissérie é ruim! A primeira coisa que chama a atenção é a experimentação de gêneros cinematográficos. Enquanto as cobaias estão desacordadas, elas vivem em mundos imaginários. Neles são mostrados romances, lutas, brigas, gangsters, dramas familiares, suspense, investigação. O tom, os figurinos, as temperaturas e as fotografias seguem bem cada estilo. O ponto alto é a história de máfia, vivida por Owen, que parece uma mistura de Os Bons Companheiros (1990, Martin Scorsese), com Baby Driver (2017, Edgar Wright). Mesmo fugindo da história principal que deveria ser contada, aqui o episódio consegue ser mais fluído graças ao ritmo imprenso nas fantasias de Owen. Inclusive, é quando a narrativa começa a voltar para o prumo e se encaminhar para um desfecho.

 

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Outro ponto positivo é a dinâmica entre Emma Stone e Jonah Hill. Os dois separadamente estão equilibrados, conseguem captar bem a essência das personagens fixas que fazem, bem como mostram outras facetas quando estão vivendo as pessoas da realidade paralela. Vozes marcantes, postura corporal, malemolência ou dureza, os atores trazem em cada persona uma figura diferente. Mas, as cenas crescem mesmo quando a dupla está junta. A vivacidade de Annie contamina a melancolia de Owen e tanto a dupla quanto os acontecimentos ao redor deles ganha equilíbrio, deixando que a energia seja apenas uma. Além, claro que a trama fica menos dispersa quando os dois se encontram.

Por fim, o clima de futurismo dos anos 1980, numa pegada Blade Runner (1982), é um plus para o seriado, que busca desconectar-se temporalmente. A ideia que se existia no século XX de máquina com sentimentos e pensamentos é colocada a todo vapor em Maniac. Inclusive, a trajetória da personagem/computador, dublada por Sally Fiel (Brothers and Sisters), é a que vai fazendo mais sentido durante as horas de exibição. Assim, a série vira um produto distraído, que pode ser consumido lentamente, sem maratonas, para não ficar entediante.

Terror em Série: American Horror Story – uma nova temporada, uma nova história

A nova temporada de American Horror Story começou na última quarta (12) e a expectativa de ver personagens de temporadas anteriores foi quebrada, com um episódio focado somente numa história nunca vista anteriormente. Não vimos nenhum sinal de Cordelia Fox ou Constance Landgdon. De qualquer maneira, calma (!), Fox, Landgdon e tantas outras irão, eventualmente, aparecer. Isso já se é sabido.

Talvez, o Ryan Murphy e sua equipe tenha achado melhor apresentar logo pessoas novas para que o espectador possa de alguma forma se conectar com eles, sem preferência das personagens antigas, que já ganharam o carinho do público. Na carona dessa estreia, resolvemos trazer um comentário de cada temporada por mês, até chegarmos na oitava. Na coluna anterior, abordamos o início do seriado e a força na qual ele já começa. (Para quem quiser conferir o texto do mês passado, clique aqui!

Resultado de imagem para ahs apocalypseImagem de American Horror Story: Apocalypse 

A segunda temporada de American Horror Story chama-se Asylum e é considerada por muitos fãs e críticos como a melhor temporada de todas. Isso se deve ao fato da mesma possuir uma trama muito bem amarrada e personagens que têm mais complexidade, com menos maniqueísmos. Ainda que estas sejam muito más, vê-se a motivação de cada uma. Os episódios vão levando o espectador em uma jornada profunda, num universo do pós-guerra dentro de um manicômio. Vê-se nesta temporada, conflitos clássicos do terror, como uma parte da trama dedicada a possessão de um jovem. Depois que Mary Eunice (Lily Rabe) morre, um demônio entra em seu corpo. A escolha de planos da cena do exorcismo, evoca a memória dos fãs de horror e traz num quarto escuro enquadramentos abertos e zenitais (como vistos de cima para baixo), mostrando toda a geografia da cena.

A irmã Jude, madre superiora do manicômio, que abusa ao extremo de seu pequeno poder por ali, vê-se na cena do exorcismo sem forças para lutar. Na sequência, a atriz Jéssica Lange imprime em seu olhar o medo de estar ao lado, verdadeiramente, de um demônio. E a série joga mais uma vez com a noção dos monstros interiores e humanos. Os homens são os vilões dessa temporada e na cena do exorcismo é quase como se ambos quisessem aquele demônio presente, como se a força sobrenatural soubesse que há uma cumplicidade entre os seres masculinos. Por isso, escolhe o corpo de uma mulher inocente para habitar, de uma freira boa onde teria mais espaço para corromper.

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O manicômio onde se passa a temporada é não somente sombrio, mas, cinzento, com paredes grossas e gélidas que, combinadas com planos mais fechados e quase sempre com movimentos, trazem a sensação de clausura e instabilidade. Lana Winters, a protagonista de Asylum, é uma jornalista lésbica, que é internada no hospício somente por ser homossexual. Vê-se então uma perspectiva do terror não somente pelo sobrenatural mas, mais uma vez, pela capacidade do ser humano de fazer o mal, de torturar psicológica e fisicamente. Winters se torna alvo de experimentos, castigos, como se houvesse nela vilania e é quem em ela mais confia que se mostra seu maior algoz.

Asylum possui uma mistura de linguagens consagradas pelo horror. Diferentemente de Murder House, onde se vê uma construção de linguagem única, na segunda temporada, vê-se uma união de alguns aspectos que são bem amarrados. Uma sucessão de conflitos que misturam filme de possessão, pegadas de Polanski em Bebê de Rosemary, de um universo desconhecido e escuro, onde a protagonista se torna espectadora de sua própria vida, a tortura física que lembra os filmes de Eli Roth (sendo que Roth atua na série e é justamente sua personagem que traz essa atmosfera).

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Há também o conflito com os nazistas e as cenas ficam com luzes mais artificiais, com uma direção de arte preocupada , que faz salas de experimento que são bem diferentes do resto do manicômio. Dr. Arthur, interpretado por James Cromwell, é um médico nazista disfarçado e em sua sala de cirurgia faz os experimentos mais variados com os pacientes do manicômio. Com poucos cortes, suas cenas têm uma amplitude do sentimento de medo, deixando os planos parados e abertos instalarem um sentimento de repulsa bem característico do horror. Esse sentimento reforça uma ambientação terrorífica, deixando claro que os fatos da trama estão mais perto da realidade do que se imagina.

Asylum possui uma competência em sua decupagem, mostrando um jogo de luz entre o que se vê e o que fica nas sombras, brincando com a imaginação do espectador. É uma temporada que utiliza de maneira ainda mais eficaz a linguagem do gênero para evidenciar o horror do cotidiano e das fronteiras das relações sociais que, quando ultrapassadas podem revelar um ser mais demoníaco do que qualquer entidade, o próprio ser humano.

 

 

*Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

 

Na trilha da série: A música em Grey’s Anatomy

A música é um elemento fundamental para a realização de qualquer produto audiovisual, podendo assumir funções variadas, como a transmissão de informações e emoções. Por conta disso, inauguramos hoje, no Série a Sério, a nova coluna Na trilha da série, onde falaremos sobre os diferentes usos desse recurso em produtos televisivos!!!*

Alguns seriados não são musicais e ainda assim utilizam a música de forma diferenciada: é o caso de Grey’s Anatomy (ABC, 2005–atualmente). Se encaminhando para a 15ª temporada, que estreia ainda no mês de setembro, nos EUA, este drama médico é criado pela célebre showrunner Shonda Rhimes. Seguindo a tradição de clássicos da televisão estadunidense – como E.R. (no Brasil conhecido como Plantão Médico, NBC, 1994-2009) – a produção traz as histórias de vida de profissionais de saúde intercaladas a casos médicos.

 

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Além de ter realizado um episódio plenamente musical em sua sétima temporada – que retomaremos em outra edição da coluna –, Grey’s traz como característica marcante o uso de nomes de canções para intitular seus episódios. A partir daí, os títulos dessas músicas podem indicar a ideia geral do episódio, a canção pode ser executada em momentos-chave da trama, ou a sua letra pode estar ligada ao desenvolvimento narrativo de cada exibição, por exemplo.

É importante dizer que as referências musicais estão nos títulos originais dos episódios, em inglês. Na tradução para o português, são realizadas interpretações livres. Daremos alguns exemplos em seguida (SPOILER ALERT! Fugimos de indicações diretas, porém explanamos alguns desenvolvimentos de personagens nos exemplos escolhidos).

 

 

1×01:

Vamos começar pelo piloto da série. Intitulado “A Hard Day’s Night”, referência à canção dos Beatles, o episódio lida com o primeiro dia de trabalho de um grupo de internos – incluindo a protagonista, Meredith Grey (Ellen Pompeo) – no hospital Seattle Grace. Seu primeiro turno tem a duração de 48 horas, nas quais eles devem trabalhar e atender às mais diversas demandas do local. Sendo assim, a canção evocada pelo título pretende fazer alusão ao que acontecerá durante o enredo do 1×01: uma jornada intensa, “uma noite de um dia duro” (tradução livre do título da música). A letra da canção se relaciona parcialmente com essa intenção, pois o eu-lírico afirma ter trabalhado como um cachorro, diz que deveria estar dormindo e anseia pelo reencontro com a pessoa que o espera em casa. No caso dos internos de Grey’s Anatomy, fica claro, no entanto, que o fator marcante em suas vidas é o labor intenso, que inclusive é um complicador para seus relacionamentos pessoais.

 

12×11:

Como o nome do episódio e seu teaser são anunciados antes da estreia, ter determinadas canções como título também ajuda a criar expectativa no público. Por exemplo, ao ver o anúncio de “Unbreak my heart”, o espectador que conhece a canção melodramática interpretada por Toni Braxton não tem como esperar que a trama se desenrole sem situações de muita tensão. Além disso, pode inferir que o desenvolvimento narrativo do episódio traga algo relativo a um relacionamento amoroso, como o tema da canção. Nesse caso, a suposição estaria certa: o episódio 12×11 traz a resolução do casamento turbulento de April Kepner e Jackson Avery, através do seu divórcio. Por ser um momento difícil, pensar em “desquebrar” um coração, como a canção sugere, é uma relação direta à dor da separação e ao estado mental desses personagens.

 

9×01:

Outras vezes a escolha da música pode ser contraditória ao sentimento do episódio. É o caso de “Going going gone”. A canção, de Maddi Poppe, traz uma melodia dançante e o ponto de vista de alguém que não conseguia agir por medo, mas decide acabar com esse comportamento. No entanto, ela foi escolhida como título do episódio inicial da nona temporada de Grey’s Anatomy, que traz os momentos posteriores a uma grande tragédia: uma queda de avião envolvendo médicos da equipe do hospital. Nesse episódio, um dos médicos mais carismáticos da série vem a óbito por consequência de seus ferimentos. Sendo assim, o sentimento da música é contraditório, porém seu título “Going, going, gone”, que pode ser traduzido livremente como “indo, indo, foi”, não. Contrariamente à libertação do eu-lírico da música, o título pode ser interpretado de outra maneira ao ser relacionado com a trajetória desse personagem, que acaba morrendo mesmo após ter resistido e conseguido ser resgatado do acidente ainda com vida.

Há muitos outros exemplos nos mais de trezentos episódios já exibidos dessa série – já clássica – de drama médico estadunidense. E vocês, identificam alguma relação entre música e episódio que gostariam de destacar em Grey’s Anatomy? Comentem e até a próxima!

 

*Hanna Nolasco é jornalista, cantora, pesquisadora e mestre em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia. A música é seu foco de estudo e algo que está ligado ao seu cotidiano também como um prazer!

Maratone como uma garota: Sororidade e empoderamento em Good Girls

As meninas hoje podem ser tudo” – ecoa a abertura do episódio piloto de Good Girls, a nova comédia dramática da NBC, distribuída pela Netflix.

Criada e produzida por Jenna Bans, a série conta com uma história que envolve “cidadãos de bem” que se envolvem com drogas, armas e chefões do tráfico para levantar uma graninha em momentos de desespero. Este plot já nos é familiar, vide Breaking Bad. Mas, quando esse plano é levado a cabo por mães de família frustradas, com problemas financeiros, porém dispostas a tudo pelos filhos e por si mesmas, o resultado pode ser um enredo cheio de reviravoltas. Dentro deste contexto, Good Girls consegue apresentar um universo consistente, com personagens fortes e bem desenvolvidas. No Maratone como uma Garota de hoje, vamos falar sobre como o girl power e a sororidade* tornam a trama ainda mais cativante!

A história gira em torno de Beth Boland (Christina Hendricks), Annie Marks (Mae Whitman) e Ruby Hill (Retta), um trio de amigas que, com problemas pessoais, optam por um atalho não convencional a fim de coletar dinheiro para demandas emergenciais. O plano: um assalto ao mercado onde Annie trabalha. O que era para ser um episódio isolado acaba inserindo as personagens em uma sequência de acontecimentos perigosos, já que o dinheiro do cofre pertencia ao chefe do tráfico local, que vai buscar retaliação.

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Apesar de não ser completamente original, a premissa principal ganha aqui contornos interessantes, ao inserir e trabalhar os dramas pessoais de cada uma das protagonistas, tensionando questões femininas de forma crítica. Vários são os motivos para qualquer um grudar no sofá e devorar os dez episódios. A começar pela maneira como o piloto é bem construído. Mas, também pelo desenrolar dos twists inseridos no roteiro e as questões secundárias. Estes elementos garantem um ritmo que mantém o fôlego até o final. A proposta de dramédia acaba rendendo melhores momentos cômicos, enquanto certos pontos dramáticos, como assédio e estupro, por exemplo, carecem de aprofundamento. Vamos, porém, concentrar a atenção em um elemento essencial que diz respeito a como as questões de gênero são construídas no caminho traçado na temporada. 

O protagonismo feminino é o elemento mais evidente, porém a representatividade não se esgota aí. São todas mulheres e mães, mas as idades diferentes, as personalidades e experiências de vida bastante distintas conferem fluidez à narrativa. Beth é dona de casa, tem quatro filhos e acaba de descobrir que o marido, além de traí-la com sua secretária, uma caricata loira padrão mais jovem, gastou todo o dinheiro da hipoteca. Annie, irmã mais nova de Beth, é caixa do supermercado. Foi mãe ainda adolescente e briga pela guarda da sua filha de onze anos, Sadie, que não se encaixa nos padrões de gênero e se veste como menino, o que a torna vítima de bullying na escola. Já Ruby é mãe de dois filhos, negra, trabalha como garçonete e, junto ao marido que é estagiário na polícia, tenta pagar o tratamento da doença renal da filha mais velha.

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A decisão de assaltar o mercado parte não apenas das necessidades de cada uma, mas da comoção com os problemas das demais, principalmente, a doença da filha de Ruby. Esse é talvez o traço mais marcante da sororidade do trio, essa palavrinha especial que vem ganhando cada vez mais força. A união feminina aparece de forma bastante potente também (SPOILER ALERT!!!!!!!!!) quando Beth salva Annie, enquanto esta era estuprada pelo chefe Boomer (David Hornsby). Ela (Beth) não hesita em ameaçar e agredir o criminoso, afirmando que o NÃO de uma mulher deve ser respeitado. As três permanecem unidas no suceder dos acontecimentos e vão transformando-se nesse elo.

Discursos feministas são bastante recorrentes, sendo o tom de girl power bem explorado em muitos momentos. A filha de Ruby é uma ativista que sabe muito bem que as garotas podem tudo, como ela mesma afirma. O apoio de Annie à identidade de gênero da filha é um potente exemplo de empoderamento. Quem melhor encarna esse tom é Beth. Líder do grupo, ela é o estereótipo mais comum de dona de casa da classe média estadunidense: atraente, inteligente, membro da associação de pais do colégio e esposa prestativa. É ela quem desafia Rio (Manny Montana), o chefe do tráfico, e propõe o esquema de lavagem de dinheiro que conecta as amigas ao crime. É a personagem cuja transformação é a mais notável, principalmente o contorno que sua personalidade passa a assumir.

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A relação familiar é mote central de grande parte dos eventos, mas também convoca a reflexões sobre as mulheres na sociedade e ao que usualmente se espera do seu comportamento e escolhas, em especial, quando mães. Ao assumir o controle da economia do lar, Beth inverte a relação matrimonial que a oprimia. Annie representa as várias jovens que, sozinhas, tentam equilibrar a criação de um filho com o próprio crescimento. Em sua relação com Sadie, adolescente madura e responsável, ela encontra um suporte e companheirismo. Ruby vivencia diariamente o racismo, a angústia do sistema de saúde, e vê o casamento feliz e estável em risco ao envolver-se com o crime.

O desenvolvimento das personagens demonstra a intenção da direção em tentar brincar com os lugares de vilãs e mocinhas, em um debate moral, já que toda escolha transforma o ser humano, de alguma forma. Nota-se o cuidado com que a transição e transformação delas vai revelando nuances de suas personalidades e, por conseguinte, das mulheres reais. As “boas garotas” vão precisar lidar com as consequências das más escolhas na sequência, já confirmada para 2019.

O grande trunfo de Good Girls é, sem dúvida, a dinâmica do elenco, que conduz a trama com maestria. Muitos traços refletem a própria trajetória das atrizes. A interação entre elas é muito potente, especialmente na contra-cena, e garante o carisma do trio e humaniza a narrativa. O combo comédia com mulheres no crime garante uma boa maratona!

 


* Sororidade – do latim, soror -oris = irmã. Nome que se dá à união ou aliança entre as mulheres. É um conceito muito caro aos feminismos e está relacionado à empatia e companheirismo.

 

**Letícia Moreira é produtora cultural e pesquisadora. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Maratone como uma garota: Let it bi, as minas bissexuais nas séries

por Letícia Moreira*

“Mas fulano não era gay/hetero?”

Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu essa frase!

 

A discussão voltada para o universo LGBTQI+ vem ganhando cada vez mais espaço na mídia. Na esteira das celebrações e militâncias, algo parece passar batido quase sempre que o assunto entra na roda: a invisibilidade dos sujeitos cuja sexualidade subverte a lógica binária monossexual, isto é, qualquer um que se sinta atraída/o por mais de um gênero, seja ao mesmo tempo, um de cada vez, ou com intensidades e intenções diferentes. “Bissexualidade” é o termo que se utiliza para designá-los e acaba servindo como guarda-chuva para incluir os pansexuais, fluidos, polissexuais, e algumas outras orientações.

A bissexualidade está quase sempre submetida a uma série de violências simbólicas, inclusive entre a própria comunidade LGBTQI+. A constante reprodução de estereótipos prejudiciais, como a rotulagem de “confusos”, e a recusa em reconhecê-los como membros da comunidade são exemplos ilustrativos. A isso dá-se o nome de “bifobia”. E como na cultura midiática a coisa não poderia ser diferente, essa estereotipação e invisibilidade acompanha a construção narrativa desses personagens.

Em filmes e séries, é bastante raro encontrar alguém bi que não seja tratado como um aventureiro curioso, um pervertido sedento ou alguém que se recusa a sair do armário. Mais raro ainda é que o personagem se assuma bi, afirmando de fato a sexualidade, vivendo feliz e tranquilo com isto.

Se tratando de personagens femininas, a questão das representações são ainda mais complexas, visto que recorrentemente a fetichização da bissexualidade está associada a uma função de deleite e prazer visual, especialmente para o imaginário masculino.

Para dar, então, visibilidade a esse grupo, dedico a estreia da coluna Maratone como uma Garota! ao tema. Selecionamos algumas personagens bissexuais das séries que amamos!

 

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PIPER CHAPMAN (Orange Is The New Black) – A personagem de Taylor Schilling é a protagonista da série, que volta na sexta temporada, próximo dia 27/07. Piper estava noiva de Larry Bloom (Jason Biggs). Quando entra para a cadeia, ela reencontra Alex Vause (Laura Prepon), um tórrido amor do passado e, ninguém mais ninguém menos, do que a pessoa que a colocou lá dentro. Primeiramente, ela é inspirada na verdadeira Piper (Kerman), que é uma mulher bissexual. Ok, a personagem pode ser bem chatinha às vezes e não é a favorita dos espectadores, mas a moça é claramente bissexual e já chegou a afirmar isso. Cabe a crítica de que a Piper se envolveu com a Alex apenas como uma aventura perigosa, mas ela não nega o amor que sente pela parceira, seja na prisão ou em liberdade. Aliás, nem só a Piper é bi/pan na série (temos a Soso, a Lorna Morello) mas ainda assim, o seriado nunca explicita essa identidade e parece às vezes reforçar que só se é lésbica ou hétero em Litchfield.

 

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STELLA GISBON (The Fall) – Aqui, vê-se mais uma protagonista bissexual! Stella (Gillian Anderson) é uma oficial da polícia britânica fod*na que está no comando da investigação de um serial killer em Belfast (Irlanda do Norte). Imponente, segura e com personalidade forte – em um ambiente majoritariamente masculino – ela é abertamente exploradora da sexualidade e já de início demonstra gostar de sexo casual com rapazes mais jovens. No correr da narrativa, desenvolve uma atração pela Dr. Reed Smith (Archie Panjabi), parceira de trabalho nas investigações. Esta química entre as duas não é algo desenvolvido na série (alerta Queerbating!!!), mas afirma a sexualidade de protagonista. Ficamos com gostinho de quero mais! (Preciso lembrar que a própria Gillian Anderson já declarou algumas vezes que é bissexual?)

 

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JOANNA BEAUCHAMP (Witches of East End) – Interpretada por Julia Ormond, Joanna é protagonista da série, que flopou tanto e foi cancelada. Mas ok, devemos reconhecer que foi interessante a inserção da bissexualidade na trama. Ela é uma bruxa imortal do mundo mágico de Asgard que vive na terra há alguns bons séculos. Nos dois episódio que contam com presença da personagem Alex (Michelle Hurd), descobrimos que as duas tiveram um romance de alguns anos no passado.

 

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KELLY (San Junipero/Black Mirror) – O episódio mais fofo de Black Mirror, e vencedor de dois Emmys, é estrelado por Mackenzie Davis (como Yorkie) e Gugu Mbatha-Raw (como Kelly). As duas se conhecem em San Junipero, uma vila na Califórnia, no ano de 1987, quando Kelly está tentando fugir de um ex-namorado. As duas se apaixonam depois de alguns encontros. San Junipero é uma cidade fantasia de um sistema de realidade simulada do ano de 2040, quando ambas já estão no fim da vida. Não importa como ou quando, o amor sempre transforma!

 

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EMALINE ADARIO (Everything Sucks) – Saudosista e ambientada nos anos 1990, Everything Sucks!, é protagonizada por adolescentes que acabaram de entrar no ensino médio, com seus dramas tipicamente adolescentes.Apesar da produção ter um conteúdo bacana, ela foi, infelizmente, cancelada. Na história, o público acompanha o desenvolvimento desta personagens, seus medos, lutas e conquistas. Contudo, nota-se que Emaline (Sydney Sweeney) é a personagem que mais se transforma. No início, ela é apresentada como uma atriz arrogante do teatro da escola, que é namorada do garoto popular. Ao decorrer da narrativa, ela se apaixona por Kate (Peyton Kennedy), que está em processo de se descobrir lésbica. A série tem seus furos de roteiro, e cabe a crítica de que a Emaline só se apaixona por uma menina depois de ter sido abandonada por um garoto. Mas, vale reconhecer que colocar a bissexualidade como uma existência possível, e em um momento de descobertas, foi bem significativo (e bem fofo!).

 

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XENA (Xena) – A heroína de infância que você respeita! Não é novidade para ninguém que muito mais que amigas, Xena (Lucy Lawless) e Gabrielle (Reneé O’Connor) compartilhavam um sentimento e uma ligação bem intensas – um casal implícito, em outras palavras. Uma, literalmente, morria pela outra. Já diziam as boas línguas que o romance só não era explícito devido aos costumes dos anos 1990. Tanto que quando um reboot da série quase foi aprovado pela NBC, ano passado (infelizmente o projeto morreu), foi anunciado que o romance seria mais explorado. De toda forma, a personagem era uma princesa guerreira e bissexual e é isso que importa por hoje!

 

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ANNELISE KEATING (How To Get Away With Murder) – A cereja do bolo fica no final, não é mesmo? Então temos aqui mais uma protagonista bissexual muito bem resolvida. Talvez a melhor representação bissexual em séries nos últimos anos, já que a temática é introduzida sem rodeios e sem justificativa/desculpa para nenhum outro evento. Annelise, a advogada e professora criminalista, negra e de origem humilde, é bastante segura com sua sexualidade e a expressa livremente. O romance com Eve Rothlo (Famke Janssen) foi bem intenso.

 

Nos campos de batalhas simbólicos, as representações nos meios de comunicação são super importantes para o reconhecimento das diversidades e das formas de ser e estar no mundo. Toda forma de amor é válida e o choro é livre!

 

E então, alguma personagem ficou de fora? Comente e compartilhe suas favoritas!

 

*Letícia Moreira é produtora de cinema, pesquisadora e crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Terror em Série: os elementos do gênero em The Handmaid’s Tale

por Hilda Lopes Pontes*

 

Dede o dia 25 de abril, o canal streaming Hulu exibe a segunda temporada do seriado The Handmaid’s Tale. Com uma ambientação estilística muito específica – como cores e enquadramento -, a produção utiliza alguns elementos técnicos para criar um clima de tensão e medo. Pensando nisso, o Série a Sério abre sua coluna especial “Terror em Série” analisando os elementos do gênero em Handmaid’s.

O tom observando aqui já pode ser sentindo em seus primeiros minutos de projeção, no qual há um mundo distópico, com opressões vividas pelas mulheres moradoras do território que, um dia, foram os Estados Unidos. O universo baseado no romance homônimo da escritora Margaret Atwood, ganha tons de horror e uma ambientação que torna sua narrativa verossimilhante e bem embasada.

 

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Em seus primeiros enquadramentos, vê-se a protagonista June (Elisabeth Moss) fugindo com sua filha. Os planos são fechados, revelando pouco do entorno. Não se sabe ao certo quem está perseguindo sua família. Se estabelece ali um jogo entre a música e os planos, dando um ritmo acelerado para a cena. Entre acordes mais agudos, indicado perigo e uma cena repleta de cortes, nota-se um ambiente inóspito, deixando claro para o espectador que não havia saída para June.

É possível observar ao longo do piloto e de toda a série uma amplitude restrita do cenário. Ainda que existam planos mais amplos,  há poucas cenas que mostrem paisagens mais abertas.  Os enquadramentos são mais laterais e frontais, sempre retos e quase nunca se vê o céu desse novo país totalitário. Essa escolha da direção e da fotografia elucidam ainda mais essa clausura, essa prisão que as mulheres vivem.

 

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A série também traz cores fortes, vibrantes, como vermelho e azul, porém sem utilizar a saturação. Assim, os tons que poderiam passar leveza e até alegria, imprimem uma sensação de melancolia e reforçam a impressão de movimento retrógrado feito pelos radicais, trazendo em seus figurinos cortes e adereços que possuem cores para cada função das mulheres. As aias, vestem vermelho, que remete ao parto e são mais fáceis de ver ao longe, caso as mesmas fujam. As esposas, senhoras da casa, usam azul, remetendo à pureza e soberania e o verde e o marrom, também presente nas mulheres não férteis e nas mulheres mais velhas, trazem a esterilidade.

As casas também, umas do lado da outra, revestidas por muros e pedras e cores sombrias, formam uma possível sensação de que as mulheres vivem em gélidas masmorras, transfiguradas de lares. De maneira hiperbólica, os medos das mulheres são todos explorados, mostrando uma sociedade distópica, mas que, de certa forma pode traduzir a sociedade contemporânea. E a ambientação de terror vem pelos planos, pela música, pela geografia das cenas e escolhas de enquadramentos, já citados, mas também pela narrativa que não dá alívio para o espectador. A primeira temporada traz conflitos que vão progredindo lentamente, mas que são constantes.

 

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The Handmaid’s Tale tem uma trama concisa e sabe como jogar com a expectativa do espectador, traçando estratégias visuais e de narrativa que amedrontam, mas atraem quem assiste. É como o vermelho das roupas das aias, que, mesmo representando o perigo e o aprisionamento em que as mesmas vivem, as deixa chamando atenção, belas sem poder se esconder ou fugir de suas vidas sufocantes.

 

*Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

CRÍTICA 13 REASONS WHY

por Enoe Lopes Pontes

Nesta sexta-feira, 18, a Netflix disponibilizou a segunda temporada de 13 Reasons Why. Produzido pela atriz e cantora Selena Gomez (Os Feiticeiros de Waverly Place), o seriado voltou mesmo após deixar uma sensação de que o final do seu primeiro ano se bastava e dava certo encerramento para a história. O anúncio de uma continuação deixou dúvidas como: será que o retorno precisava existir? Qual seria o novo plot? A narrativa conseguiria manter o seu estilo e estrutura? Eles teriam fôlego para manter o enredo vivo e interessante até o final?

Com o lançamento da parte dois de 13 Reasons, as respostas  vieram com um feedback cheio de “Sims” e de “Nãos”. Primeiro, é preciso reconhecer que os roteiristas conseguiram trazer um bom motivo para a season 2: Olivia (Kate Walsh), mãe da Hannah Baker, decide processar a escola por não ter protegido sua filha corretamente, impedindo a decisão da jovem de encerrar a própria vida. Com o caso em julgamentos, muitos estudantes precisam depor e reviver tudo o que aconteceu no período crítico que trouxe a morte de Hannah.

Até aí tudo bem. A premissa faz sentido pensando-se no desfecho da temporada anterior. Contudo, o desenvolvimento da narrativa possui altos e baixos, típicos de muitas séries da Netflix que parecem mais que querem esticar a história para preencher a quantidade necessária de episódios do que, de fato, expôr acontecimentos relevantes para a trama. Talvez 13RW se fosse uma minissérie, com sete ou oito episódios, funcionasse mais e isto trouxesse uma dinâmica maior para o script. Isto porque os autores da produção preencheram muitos vazios com conversas do Clay (Dylan Minnette) com a Hannah (Katherine Langford) que não são fundamentais para movimentar a narrativa; ou, por exemplo, quando trata do relacionamento do garoto com uma nova namorada que, inclusive, é bem explorado até certa parte do enredo, mas é abandonado quando outros conflitos tornam-se mais importantes para a trama.

A sensação que o público pode ter é o da existência de um conflito principal bem desenvolvido – com detalhes sendo revelados aos poucos, estabelecendo a tensão necessária para a série e aumentando a complexidade das personagens e de suas relações – mas, com conflitos externos ao plot principal cheios de pontas soltas, que enfraquecem o poder da narrativa. O que vale destacar de positivo, no entanto, é o crescimento do desenvolvimento da personalidade das personagens e das relações que elas estabeleciam com Hannah. Comparando este ano com o anterior, os treze porquês ficam ainda mais compreensíveis! Além disso, alguns dos mistérios que envolvem o relacionamento dela com os colegas, professores e a família são revelados a cada episódio, mostrando que Baker vivenciou muitos momentos importantes e profundos com as pessoas que aparecem nas fitas e fora delas, dando mais sentido a relevância deste indivíduos no cotidiano da adolescente.

A forma como eles passam o bastão da história de Hanna para a próxima também é  realizada de uma forma bacana, porque a personagem vai crescendo dentro da trama aos poucos. As suas fragilidades, medos e sofrimentos vão sendo mostrados gradativamente, junto com a maneira como os adultos “ajudam” esta pessoa, até que ela chega no seu limite e não suporta mais tanto pesar. Bom, mas sem spoilers, não é verdade.

Se o leitor deste texto procurou ele para encontrar uma resposta para a pergunta: “devo ver a segunda temporada de 13 Reasons Why?”, o Série a Sério deixa dois conselhos: 1. Você está bem psicologicamente para ver os conteúdos exibidos em seriado que fala sobre bullying, suicídio, violência contra a mulher e ingestão pesada de álcool e drogas? Se sim, tudo bem, prossiga para a próxima questão! 2. Você curte muito 13RW e deseja saber quais os rumos que trama tomou e pode vir a seguir no futuro? Se sim, então vale a pena ver! Se não, se você só acha o seriado ok, corre para ver The Handmaid’s Tale, Gilmore Girls ou qualquer outra produção destas mais firmes, que estejam passando na TV convencional ou streaming.

 

Com indecisão de plot e falta de ritmo, Jessica Jones tem uma temporada morna

por Enoe Lopes Pontes

Após três anos de hiato, Jessica Jones finalmente chegou ao catálogo da Netflix. Continuando a explorar traumas da protagonista para impulsionar a sua história, a segunda temporada da série demora de engatar e parece enrolar o espectador da pior forma. Isto porque a decisão de qual conflito será explorado e quem a protagonista vai enfrentar vai sendo adiado e muitas personagens vão sendo inseridas ao mesmo tempo, podendo deixar o espectador perdido e/ou entediado. Há uma confusão sobre qual é o caminho que a narrativa vai seguir, o que pode deixar o acompanhamento dos três primeiros episódio uma tarefa cansativa.

Um dos elementos que contribuem para a falta de rumo do plot são os micro conflitos deste segundo ano do seriado, que envolvem os coadjuvantes! Ok, explorar o que acontece com a vida dos que cercam JJ poderia ser positivo, mas o roteiro e as atuações não exploram com profundidade seus sentimentos, problemas e emoções. As questões que envolvem Jeri Hogarth (Carrie-Anne Moss) e Malcom Ducasse (Eka Darville), por exemplo, são entregues a conta gotas, as soluções das peças deste um quebra-cabeça são óbvias desde o início, porque são clichês  e já muito utilizadas (sem spoilers). Há também uma direção falha, por deixar que o trabalho de ator de Moss e Darville pareça forçado e “apelão”, como numa tentativa para cativar o público, mas que, no fim, soa não orgânico. A única personagem secundária que se destaca em sua narrativa e interpretação é Patrícia/Trish Walker (Rachel Taylor). Sem entregar muito, talvez esta seja a parte mais instigante da trama.

 

 

Patrícia deixa ser uma figura plana, aquela que é apenas a melhor amiga da mocinha e passa a ocupar uma relevância dentro das teias que o enredo vai formando. Há uma complexidade nova em Walker. Isto pode ser visto na Taylor, através de seus movimentos de corpo, que exploram ritmos combinados ou descombinados com as ações que se passam na tela e as suas gesticulações que chamam a atenção a depender da idade da moça. A sua construção deixa clara as motivações da personagem e as marcas que a sua vida pregressa deixou em seu olhar e postura corporal. É por isso que os flashbacks enriquecem ainda mais o entendimento sobre a Trish Walker e preparam o espectador para a sua última cena da temporada! (Sem spoilers!!).

Mas, voltando para a Jessica! Aqui, vemos uma ampliação também dos elementos que formam a personalidade da JJ. Ao mostrar seu passado, a série coloca suas fragilidades expostas, assim como na primeira temporada. Contudo, estas revelações refletem no presente de Jones de uma forma que a deixa mais sensível, mostrando até um lado mais doce dela. Neste sentido, Krysten Ritter é bem sucedida. A artista não perde o que já foi estabelecido da heroína anteriormente, porém coloca camadas de sentido novos, com olhares mais demorados em suas contra cenas e pesando ainda mais na energia e nos movimentos na frente das telas.

 

 

Apesar de Trish, Jessica e a relação das duas serem bem abordadas pelos roteiristas e pelas atrizes, a quantidade de fillers* em cada episódio quebra o ritmo da narrativa, deixando o público fatigado. As cenas de ação também parecem pequenas, em comparação com o primeiro ano de JJ. Tampouco há uma criação de tensão que seja sustentada por um tempo grande. A sensação que a temporada deixa é uma indecisão sobre o plot principal.

Com um conflito que demora em se estabelecido e ritmos desnivelados, a segunda temporada de Jessica Jones é uma história sobre relações sentimentais entre familiares e amigos. Apesar de tentar enriquecer a complexidade das cenas e de suas personagens, a série apenas enche linguiça e pode deixar o espectador entediado até a sua metade.

 

*Filler: encheção de linguiça

 

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