Em busca de outro pai pro meu filho

Vou ser pai aos 38 anos. Estou com 28 e já há uns bons três anos mudei completamente meus hábitos e, principalmente, a forma como direciono minha relação com os homens. Antes eu não me importava muito. Eu me apaixonava bem fácil pelos caras altos e magros, os de tatuagem artística, os que votavam no PT ou no PSOL, os que tinham barba por fazer, os que usavam xampu neutro e fumavam tabaco em seda orgânica, os inteligentes nível “não discuto Lei Rouanet com quem não sabe o que é Lei Rouanet”, os sarados que não exibem corpos, os que frequentam jazz e os que ficavam de pau duro só de eu encostar a pontinha da língua no ouvido. Todos eles eu me dizia: “deixa pra discutir sobre esse assunto algum dia”.    

Agora eu continuo gostando de tudo isso, mas milhares de perguntas começaram a surgir antes da histérica e improvável lista de exigências que agora é mais urgente do que nunca e que, não raro, preciso logo deixar às claras pra esse cara: ele vai aguentar esse pique da paternidade e ser tão dedicado a ponto de dar educação ímpar ao nosso filho? Será que ele vai esperar o pequeno Martín completar seis meses no nosso lar pra poder arranjar um amante e finalmente assumir que não consegue deixar de ser adolescente mesmo tendo quase quarenta? Ele vai acordar duas da manhã pra segurar a testa dessa criança quando ele passar da conta no brigadeiro da festinha de fim de ano do grupo 3? Ele vai acordar seis vezes na noite pra poder medir a febre com o termômetro? Ele vai acordar cinco da manhã pra arrumar mesa de café e lancheira e mochila e levar essa criança pra escola?

Quando o homem que me acompanha não sorri nem de canto de boca pra garotinha de dois anos que acabou de entrar, com seu vestido de estrelinha, correndo a mil por hora no restaurante, a ponto do pai não conseguir alcançar, um sinal vermelho acende na minha cabeça: será que esse cara que eu tô saindo quer ser pai?

O que eu tenho não é loucura, é trauma. Vai dando errado tudo que é plano e expectativas com namorados, que logo passam a ser ex, que eu já nem sei mais. Estou cansado. O tempo inteiro eu tô sempre em busca de outro pai pro meu filho. Aí eu me pergunto: devo esperar, acreditar em mais uma relação ou cuidar dessa criança sozinho? Tem se tornado tão difícil encontrar alguém com o mesmo projeto de vida que eu, que às vezes eu acho que a melhor saída seja, realmente, ser pai solteiro, dar toda educação, carinho e amor sem esperar por ninguém.

Mas se for pra esperar, estou à procura de um homem com disponibilidade pra sustentar um filho em todas as dimensões que a palavra “sustentar” carrega ou a gente encerra a nossa conversa no primeiro encontro. Não dá pra colocar isso na descrição do Tinder. Não dá pra colocar anúncio em jornal. Aos poucos, a vida tem me tirado sem pena das festas libidinosas e tem me colocado em frente a uma dessas vitrines cheias de sapatinho e babador, com os olhos cheios de lágrimas. As vendedoras da Oito Baby até já me olham com uma certa antipatia porque, duas ou três vezes por semana, eu passo por lá, aliso roupinhas e não compro absolutamente nada.

Às vésperas dos trinta, pouco importa o que meu namorado sabe fazer com a língua, pouco importa a piada que ele conta na mesa de outros amigos que contam piada, pouco importa se ele se veste bem e curte um estilo musical agradável. Procuro parceiro perfeito que me ajude a limpar cocô mole de neném sem entortar a boca e que ande com canguru kababy ergonômico sem cansar no meio do caminho. Eu quero um homem que não esqueça o carrinho na seção do supermercado enquanto fala ao celular, um daqueles que prepara chazinho de camomila pra passar a cólica do bebê, um daqueles que consegue, só com balancinhos e canções de ninar, fazer o pequeno escandaloso dormir. É pra aprender a fazer papinha. É pra dividir os horários de passeio no calçadão da Barra ainda que ambos estejam atolados de trabalho. É pra corrigir a leitura. É pra correr pro hospital se, por descuido, nosso filho engolir uma moeda. Existe esse homem?  

Antes que o pretendente da semana saia correndo de medo, como a maioria sempre faz, pergunto: você ainda tem saco pra se preocupar com ‘lista amiga’ de festa que bomba e que só dá gente bombada? Ainda tem saco pra aguentar voz nasalada das amigas dos seus namoradinhos que combinam carnaval foda na praia foda e cheiram lança em alguma rave? Isso não te parece muito mais insuportável do que um bom rapaz querendo dividir a paternidade com você num mundo em que o universo hétero abandona criança em caixas de papelões à beira de latas de lixo? Tá na hora de investir num bom berço, numa geladeira inox de três portas, num bom plano de saúde familiar e num bom companheiro de vida. Eu tô pedindo alguma coisa demais?

Respire. Fique calminho. Mas não relaxe tanto porque homem também tem relógio biológico. O meu relógio biológico, por exemplo, me cobra pra que a professora de natação do pequeno Martín não me confunda com o avô dele. Um filho (ou dois, se tudo der certo!) será uma das melhores coisas que pode acontecer na sua vida. E vamos combinar que, se sua família não tivesse abraçado esse sonho, hoje você não passaria de um pó de estrela solto na atmosfera. Viva a paternidade!