Desculpa por eu ter feito um caos em sua vida

Não foi em um daqueles parques abertos com pessoas felizes e nem em um daqueles bloquinhos de Carnaval em que a gente se vê no meio da multidão e se apaixona. Foi em uma cafeteria pouco movimentada na Graça “porque ali é perto de onde a terapeuta dele atende”. Pensei que, talvez, como ele vomita boa parte dos próprios embrulhos estomacais na sessão, costuma sair de lá, provavelmente, com espaço de sobra pra um café e um pedaço de torta.

Cheguei quarenta minutos mais cedo.”Está fechada?”. “Não”. “E por que não tem ninguém aqui?”. “O senhor é o primeiro”, explicou o segurança. Quis passear pelas poucas bancas de revistas que sobraram nas ruas, mas, ao invés disso, acabei pedindo uma água e fiquei ali olhando pratos sendo colocados em mesas.

Você mede dois dedos abaixo do limite da porta da cafeteria. Toda vez que te vejo sempre acho que você cresceu mais um pouco. Lembro de você irritado, se sentindo excluído, porque, como você diz, “o mundo não é feito para pessoas altas”, e isso ainda me causa risos. Você me vê de longe e acena discretamente. Coloca a chave do carro e a carteira no bolso. Seu sorriso congelado ao agradecer à recepcionista chama atenção do estabelecimento inteiro. Sua fragilidade agora estão escondidas em músculos que quase rasgam camisas bem passadas. Nem de longe você me lembra aquele atendente da Livraria Saraiva que eu me apaixonei. O homem elegante, bem arrumado, grande e largo, agora com quase 32 anos, me espanta menos do que o rapazinho magricelo que me gritou durante uma discussão no restaurante Sagaz, me deixou sozinho e foi embora.

Você barrava em mim eu mesmo e era uma loucura administrar tudo aquilo, como eu sentia, como eu enxergava, como eu exigia, como eu queria me vomitar e impedir e jorrar sangue e explodir e rodopiar em mim até fazer um buraco sem fundo no chão, deixar um rombo e, desgovernado, sair derrubando o mundo como o único pião que acha que sabe de tudo e precisa balançar o próprio entorno pra não parar sozinho no fundo do poço. Era uma doideira tudo. Mas a morte, o fim, a nossa distância, nós, sentados, calmos, conseguindo se olhar nos olhos, me permitiram estar de alguma forma sem querer habitar cada instante do estar e pra isso tendo que ir embora o tempo todo do que a gente já foi.

O que me faz vir até aqui? O que esse cara quer comigo? Por que, depois de tudo, ele insistiu pra que eu viesse ao encontro? Eu não amo mais esse homem. Pra falar a verdade, acho que tive apenas um surto de paixonitezinha a ponto de perder o apetite. Hoje em dia nem isso. Somos dois completos estranhos em frente ao outro, com uma vaga sensação de que nos conhecemos de algum lugar. “Pedimos dois cafés?”. “Não. É que eu… Nossa, faz tanto tempo, né? Eu descobri que tenho alergia à cafeína. Mas pedimos um café pra você e um chá gelado pra mim”, você detalhou.

Passamos o resto da tarde juntos. Foi leve e eu estava quietinho, coisa que nunca aconteceu todas as vezes que saímos. Eu estava sempre histérico e inseguro e agora eu estava em paz. Talvez seja porque eu não tenha mais a euforia descontrolada de ser amado por você. Eu permaneci calmo ao lado do homem que mudou meus dias, que me deixou com febre emocional, e isso foi diferente, impensável, triste, insuportável, mas possível. Nem doeu.

E falamos por longas horas sobre coisas aleatórias. “Não me lembro de você ter dito quando a gente tava namorando que você gostava do ramo de imobiliária”. “Eu não disse. Mas aconteceu. Abri um escritório na Garibaldi”. E a gente ria e falava sobre mudanças e mortes e nos elogiamos e “nossa, como você está mais bonito, mais vivo”. E dentro de mim a pergunta como um mantra: o que esse homem quer comigo?

Avisei que ia embora. Pedi a conta ao garçom. Você interrompeu e pediu que o garçom não trouxesse a conta. E então abarrotou a camisa, se ajeitou na cadeira aparentemente tão pequena para o seu tamanho, segurou a minha mão e disse: “Eu ainda penso em você todo dia”. “A gente não precisa voltar a esse assunto”, implorei sem graça e gelado. “Eu sei, mas é importante pra mim. Me desculpa por eu ter feito um caos em sua vida. Por eu ter sido tão babaca e irresponsável. Eu amadureci. Eu tô religiosamente na terapia há um ano e meio. Mas até mesmo pra eu poder ir adiante, pra eu poder ter paz comigo mesmo, pra eu poder resolver as minhas pendências, pra eu poder encostar a cabeça no travesseiro e dormir sem sentir dor, eu preciso me desculpar com você. Sou uma pessoa muito melhor agora e eu ficaria muito feliz se pudéssemos começar de novo. Mas, desta vez, eu sei, como amigo. Eu só não quero te perder de vista. Eu quero voltar a ser seu amigo. Você acha que isso ainda é possível?”.