Ninguém precisa transar para estar transando

Texto: Murilo Melo | Arte: T Jalf Sparnaay

Na semana passada, ele pintou um pontinho com canetinha verde neon no meu nariz e apagou a luz do abajur da salinha de reuniões da agência de publicidade que a gente trabalha. Isso foi a coisa que me deu mais tesão nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. Um pontinho de canetinha colorida no nariz. Minhas mãos começaram a soar, minha respiração travou e a ânsia de querer mais e mais pontinhos pelo corpo já não sabia como se controlar. Um pontinho de canetinha colorida no nariz. Imaginar a voz dele ao pé do meu ouvido é preliminar. Imaginar o hálito da boca dele passando entre meus cílios equivale a abrir o zíper da calça, o anúncio do sexo. A língua que descamba da testa para a orelha é pau. A língua penetrando no ouvido é pau e bunda. A língua que passeia entre a bochecha e vai até o céu da boca é pau e bunda. Mas um pontinho de canetinha colorida verde neon é como um pau e bunda nunca visto antes na existência do planeta. Não sei explicar muito bem, mas o pontinho de canetinha colorida no nariz foi mil vezes mais sexual do que pau e bunda.

Na semana passada, ele colocou um bilhetinho dentro da minha ecobag dizendo que iria fazer uma serenata depois que eu saísse do banho só pra me ver dançando pelado. Acho que era o trecho de alguma música ou de algum livro desses milhares de livros que ele lê, mas foi a coisa mais sexual que li nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. E então me imaginei completamente nu, desfilando entre banheiro, sala, quarto e cozinha, enquanto ele tentava se concentrar nas notas musicais, me bisbilhotando, por debaixo dos óculos, entre uma pausa e outra da melodia. Tive orgasmos consecutivos que nenhuma penetração seria capaz de me dar em sete vidas.

Na semana passada, ele encostou o braço no meu braço quando pediu meu lápis emprestado. Eu emprestei, ele anotou o número de telefone de algum cliente, e depois descobri que ele é canhoto. Então o quê? Então nada. Mas sei que aquele braço roçando no meu braço foi a coisa mais sexual que me aconteceu nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. Esqueci o que eu estava digitando no e-mail, esqueci de beber o resto da água no copinho descartável, esqueci de atender o telefone. Meus dentes prenderam bravamente os meus lábios. Uma vontade sem fim de me enfiar mil vezes num buraco dentro do meu próprio buraco. Nem nos olhamos. Ele sem tirar os olhos do computador o dia inteiro. Photoshop e Ilustrator. O dia inteiro isso. Mal trocamos palavras. Ele anda rápido pela agência. Demanda, problemas, prazos apertados. Diz que vai resolver. Em um minuto, mas às vezes só dá no dia seguinte. Atende telefone. E depois outro. Nem sei o nome dele, só o apelido.

Mas eu gosto quando ele se ajeita no espaço dele, tão pequeno pra altura e, por descuido, chuta minha cadeira, no meio de uma reunião chata, e pede desculpas sinceras, franzindo a testa como um gatinho sem dono abandonado em caixas de papelão. “Desculpa”, e fala meu nome. E então dou um foda-se pra toda aquela merda de reunião e bloqueio nos meus ouvidos todo o resto que não me interessa. Eu me excito ao sentir os poucos centímetros do pé dele entre a rodinha da cadeira e a minha perna. E de saber que daqui a pouco ele chuta mais um pouco. E pede desculpas sinceras de novo. “Desculpa”, e fala meu nome. Tudo isso é minha vida sexual do momento. O toque que dá possibilidade. Possibilidades que não se concretizam. A transa do toque de possibilidades.

Eu transo quando, no elevador, ele encosta um pouco da barba no meu queixo pra apertar o andar e eu fecho os olhos e respiro fundo, quase gemendo, quase gozando. Quando ele pega um cafezinho e se espreguiça no meio do grupinho de publicitários e do outro diretor de arte. E então mostra, sem querer, o pedacinho de barriga que me estimula a pensar que tem o tamanho exato de uma lambida rápida. Essas coisas que ele nem sabe que eu penso. Essas loucuras que quando vou ver, já pensei. Não, eu não quero revisar o texto, repensar o post, pensar numa frase melhor pra propaganda. Eu queria mesmo era saber se lamber suas costas inteira secaria a minha língua numa lambida sem intervalo. E chego mesmo a abrir um pouco a boca, mas quando ele olha pra mim, finjo que estou bocejando.

No fim da semana passada, porque todo mundo da agência saiu pra beber uma cerveja num bar que só frequenta gente descolada – e ele me achou tão engraçado e tão interessante, e então criamos intimidade -, ele beliscou com muita força a minha cintura. E eu gritei. E ele disse “nossa, que menino fresco”, e riu mais do que a dor que senti. Nos conhecemos há sete mil anos, apesar de ser apenas semana passada. E eu retribui com uma mordidinha no braço dele. E ele fez aquela carinha de ” eu aguento, eu sou forte”. E riu com minha mordidinha. E depois bebeu um gole na garrafinha de Heineken, o que me deixou bastante enfurecido. Tudo isso foi a coisa mais sexual que me aconteceu nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. São tantas obrigações entre uma sala e outra, contas pra pagar, poucas horas de sono, textos pra ler, escrever e revisar, e ele aparece como minha única fantasia sexual, uma distração.

No fim dessa noite, do fim da semana passada, ele sugeriu que eu “esticasse a noite na casa dele ouvindo Nina Simone e bebendo todas as cervejas do frigobar”. Não tinha nada pra comer, ele avisou. Ovo frito? Ele riu. Eu não fui. Passei a gostar do homem que eu vejo do outro lado da pista. Se ele atravessa, perco o encantamento. Passei a gostar do comecinho do amor, da conquista, do que não chega a ser, mas que por algum ângulo já é. O negócio é que talvez eu nunca mais cruze com ele, porque só fiz um freela na agência e ele é interessante demais pra minha insegurança e eu nem sinto nada de bonito. Mas, por via das dúvidas, me depilei e tenho sorrido mais. Ninguém precisa transar para estar transando.

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