Desproporcional

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Olhos tão arregalados pra não perder nenhum vulto. Pra devorar, como um predador. Pra se vender, como um produto de baixo custo, quase de graça, quase uma doação, na prateleira do mercado: “me coloque no carrinho, vale a pena, me leve pra casa, ignore todo o resto, eu não aguento mais ficar na poeira”. Pra conquistar tudo de mais interessante que você gosta, de um jeito que me faz ficar horas te olhando quase sem piscar.

Os vencedores têm um holofote gigante na alma e apesar de você ter me notado numa prateleira cheia de boas opções e feito tanto e sido mais do que tantos homens que tentaram bastante, é claro que a luz no centro do palco você deve guardar para o seu caminho que, não precisa ser vidente pra saber, será maravilhoso.

Eu sou estragado demais pra pertencer ao seu mundo simples, leve e sem agrotóxico. E sei que agora você deve estar por aí percorrendo seções infinitas atrás de alguém mais orgânico, mais parecido com você. A publicidade nas relações custa cara, e não adianta uma embalagem bonitinha e trocadilhos engraçados. Conquistar alguém e fazer tudo isso dar certo é ter pescoços esticados pra ver um outdoor genial, é ganhar o prêmio principal, é subir no pódio com a certeza da reciprocidade.

Olhar com amor requer um tempo que pessoas passageiras e imediatistas não podem e não devem fazer, arriscar. E eu, tolo, na urgência, tentei ser aquele maluco da plateia que saiu correndo do show pra agarrar o artista inalcançável. Você, protegido por milhares de seguranças, entrou num daqueles carros enormes, e eu fui obrigado a aceitar o corredor solitário, onde gente louca fica. Você está certo em exibir ao mundo uma boca com tantos dentes e tão incrivelmente brancos. Eu é que estou errado quando fecho a cara pra pensar com tristeza esses sustos previsíveis do amor, que de tão previsíveis não deveriam assustar mais.

Não tem mais você cantando, freneticamente e despreocupado, The XX debaixo do chuveiro, enquanto eu olhava a rua vazia e sem chão, do alto do seu apartamento, angustiado, sem saber que porra de dor era aquela que eu sentia no peito. Eu achava louco, eu não aceitava, eu queria entender: como pode alguém gostar de outro assim em tão pouco tempo?

Não tem mais você tirando sarro quando eu não aguentava o nó na garganta e te falava no escuro que era alguma coisa parecida com amor, talvez amor. Era amor mesmo, ainda é. Alguma coisa deu errado em mim quando você segurou a minha mão no portão de casa, no comecinho de tudo, e confessou que a pior parte do dia era quando você me deixava e ia embora.

Não tem mais você me ligando no meio da noite pra saber se estava tudo bem quando não estava. O meu desespero em ouvir sua voz era tão grande que eu dormia com o celular embaixo do travesseiro, porque até uma ligação sua, com voz de sono, cansado, de madrugada, era melhor do que o silêncio. Você dizia que o meu maior problema era não saber esperar pelo dia seguinte. E eu te odiei mil vezes porque minhas esperas pareciam durar uma eternidade, mas pra você viravam dois segundos.

Mas meu corpo todo enfrenta tumulto quando gosto de alguém. Me armo inteiro pra correr pro lugar mais distante e pra lutar com unhas imensas quem tentar impedir. Me sinto péssimo e choro em posição fetal quando constato o quanto é ridículo ficar com saudade só porque você foi tomar banho. Ter que sentir ciúme ou raiva ou solidão ou insegurança e sorrir pra não parecer louco. Me irrita ir ao cinema e pensar que depois do filme você vai embora. E ter a certeza que eu vou te ver em qualquer buraco da sua agenda que nunca tem buraco. Pareço um adolescente quando você está por perto e você é homem demais pra suportar esse comportamento de menino. Eu sinto de um tamanho que eu não tenho e, então, desproporcional, começo a adoecer, como sempre.

Eu não sou louco. Eu só não tenho pele pra proteger e sobrevivo em carne viva, e quando você toca em mim, ainda que de leve, eu sinto seus dedos e veias e batidas e olhos e salivas invadindo todos os meus órgãos. E você não precisa entender o medo que isso me dá, mas quem sabe, numa outra vida, num outro planeta, você entenda que tudo o que eu quis era carinho.

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