“Tá demais, vai ver na terapia o que é isso aí”, diz ex-namorado em resposta à carta aberta

Texto: Gabriel Amaral | Ilustração: Igor Queiroz

RESUMO Neste texto, escritor convidado responde crônica publicada na coluna do Aratu na quarta-feira (1º) e reflete sobre exposição e reações depois do fim do relacionamento. Para ele, vige no ex-namorado esperas descabidas e espaço literário de poder que não admite opinião divergente ou questionamentos e que, ao se prender ao passado, anula a possibilidade de viver e ser feliz.

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Eu te vi. Semana passada, saindo da padaria, eu te vi, mas disfarcei. Preferia não ter visto.

Semana passada, cometi um erro. Um mísero, um ínfimo delito. Meu erro foi ter acordado com um desejo incontível e inexplicável de ir à praia com o meu namorado. Talvez pra me desculpar pelo desentendimento que tivemos no dia anterior. Talvez pra fazer com que ele, de alguma forma, se sinta seguro na relação. Não sei se você sabe, mas ele, mesmo sendo bonito e inteligente, é completamente inseguro. Parece que eu atraio gente insegura. Assim como você e outros trinta caras que eu me relacionei, como você mesmo disse na sua carta.

Porque ele não gosta de passar muito tempo brigado comigo, ele topou ir. Peguei a motocicleta e fomos até a Barra. Ele pediu pra parar no Bompreço e comprar uma revista. Aproveitei e comprei gorgonzola, massa e um vinho branco pro almoço. Depois caminhamos até a orla e ficamos conversando, assistindo às ondas quase brancas sob o reflexo do sol, como um mar de leite. Gosto quando a voz dele se confunde com o barulho do mar e eu fico estonteado sem saber se essa confusão é música ou poesia feita por um desses poetas que tem a capacidade de fazer esquecer, por uns minutos, os desalentos da vida.

Porque ele tem problema com o sol, meia hora depois decidimos ir embora. Foi quando eu te vi. Do outro lado da rua, de pé, segurando um saco de papel, analisando o movimento de pessoas e carros e lojas e ambulantes e barulhos em volta, como se esperasse alguma coisa. Você estava de pijama. Aquele pijama que você colocava, querendo morrer, porque a cor te fazia lembrar o colchão antialérgico laranja que sua mãe comprou na sua adolescência e que, na verdade, não era antialérgico. Eu amava quando você esquecia a neura dos espirros e usava esse pijama. Eu te achava bonito mesmo de pijama laranja e olheiras.

Porque eu gostava de você usando roupa de dormir, comecei a divagar, lembrando de quando você acordava cedo e saía da cama sem fazer barulho pra ficar lendo na varanda. Aquelas revistas literárias com gente que escreve achando que sabe tudo. Aqueles jornais que você reclamava que os repórteres escreviam mal. Eu achava tão lindo (você lendo, você reclamando) que até tirei foto. Até hoje a única foto sua que não consegui jogar fora. Me fazia pensar: “Esse homem não precisa de nada pra ser feliz”.

Num repente, puxei meu namorado pelo braço. Um carro passou ao nosso lado. Começou a tocar uma música de Bethânia. Quando dei por mim, estávamos praticamente dançando na rua como nas cenas daqueles musicais antigos e sentindo uma pontinha de vergonha. O resto é o que você já sabe. Eu não sabia que você também tinha me visto. Isso até a última quarta-feira, quando vi circulando nas redes sociais o seu último texto publicado, ao lado de uma foto sua 3 por 4. Sua mania de escrever sobre o outro com uma propriedade arrogante. Começa um exagero, que acho mais ódio de quebra de expectativas daquilo que você esperava de uma relação do que o desejo de colocar no papel o que você sente. Realmente não sei o que espera ganhar com isso. Mais angustiante: não sei o que você espera de mim. Um pedido de desculpas por não tê-lo cumprimentado? Por não ter tido a mínima ideia do que fazer ao encontrar o meu ex enquanto andava com o meu atual?

Percebi o óbvio ululante: eu não te devo nada. Foi você quem tentou me expor publicamente, não o oposto. A única coisa que fiz foi sair na rua com meu namorado, como fiz praticamente todos os dias nos últimos quatro meses. A única coisa que talvez tenha feito demais foi não acenar e dizer um “oi, tudo bem?” por educação. E sabe, muito mais do que a sua loucura de estar inseguro, de querer provar o tempo inteiro que está certo e de arranjar um namorado e fazer dele um personagem, foi exatamente as suas esperas descabidas a razão de nós termos terminado.

Porque mesmo depois de passado quase um ano do nosso rompimento, você ainda espera. Ainda espera que eu acene. Ainda espera que eu diga “oi, tudo bem?”, mesmo quando não tenho o menor interesse em como você está. Ainda espera que eu lhe dê atenção no meio do Jazz no MAM, no meio da confusão da vida. Ainda espera que eu perca meu medo de ir à praia e fique apenas no raso quando é na profundeza que mora o desconhecido. Tá demais, vai ver na terapia o que é isso aí. Vou te dar um último conselho. Não porque ache que você vá dar ouvidos, mas porque, apesar de tudo, também sinto ainda algum afeto residual que sobrou da nossa relação. Meu conselho é: não espere, viva. Faça acontecer. A espera é a morte antecipada.

Talvez fique feliz em saber – ou talvez fique um pouco amargurado – que eu mostrei a ele o seu texto. Ele achou um pouco triste, mas depois riu um pouco. O bacana é que você nos ajudou com o desentendimento do dia anterior. A gente conversou e ele disse que concordava com alguns pontos que você trazia na carta. Disse que, às vezes, eu ficava muito quieto e aquilo o incomodava, o fazia sofrer. Acho que melhorei nessa coisa do diálogo, graças ao que aprendi com você e, agora, com ele. Aliás, graças ao seu texto tivemos a oportunidade de conversar sobre você, que pra mim sempre foi tumultuado lembrar e contar. Ainda estamos juntos, melhores do que antes, eu diria. Por enquanto sua previsão não se realiza. Não se termina uma relação por ser intenso. Não se termina uma relação por não ser intenso. Quero que saiba que desejo a sua felicidade e que também possa encontrar alguém que te entenda e que possa amá-lo como eu não pude.

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