Mãe é uma coisa bem doida

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Minha mãe reuniu todo mundo em casa pra comemorar o aniversário de 51 anos dela. Tia Izildinha jurou que iria moderar nos aperitivos: só uma torta e algumas empadas, afinal de contas, era uma reuniãozinha de família. Acontece que, lá pelas seis e quarenta e cinco, faltando quinze minutos para a festa, tia Izildinha, sempre exagerada, apareceu com canapés e docinhos e barquete e torta salgada e empanada: “Não gosto de nada mixuruca”, reclamou.

Minha avó, 82 anos, gosta desses momentos “família”, e recupera recordações tristes e um tanto constrangedoras. “Se seu avô estivesse vivo, ele não iria aceitar essa festinha. Iria fazer um baita churrasco ou levaria todo mundo pra um desses restaurantes caros e com comida ruim”, disse ela enquanto ajeitava o vestido. Depois, enquanto recostava no sofá, empilhou álbuns, descansou os óculos no nariz, e olhou fotografias antigas (algumas um pouco desfocadas e desgastadas por causa do tempo).

Em uma delas, minha mãe aparece numa espreguiçadeira branca no Porto da Barra. Ela, com um biquíni lilás que favorecia o corpo, aproveitando toda a vitamina D do dia com bronzeador Neutrogena. Eu, meio tímido, odiando o sol e me escondendo debaixo do sombreiro com a cara e os ombros entupidos de protetor solar Adcos. Em volta, meus primos fazendo castelinho de areia, bebendo Coca-Cola e chupando picolé. Eu, um menino de sete anos, alérgico, pele sensível, com os olhos vermelhos, angustiado, sempre com enjoo.

Lembro de todos os meus primos fazendo fila pra pegar queijo coalho assado na brasa e eu perguntando à minha mãe: “Alguém morre se comer esses negócios de praia, mãe?”. E ela respondeu algo como “morre quem não tem o que comer”. E lembro que nessa época (e pra falar a verdade até hoje), ela não gostava que eu não gostasse de comida. Eu tinha que comer tudo e qualquer coisa que fosse oferecido “pra não ser uma pessoa fresca”: “Vai escolher o que comer quando chegar na casa dos outros?”. Lembro dela revoltada, aos berros na cozinha, porque fiz birra e não quis comer bife de fígado: “Você faz ideia de quantas pessoas no mundo comem lixo pra poder sobreviver?”. Foi a primeira vez que eu pensei na fome.

Depois, vejo outra fotografia dela. Ela com a blusa de listrinha preta e branca que eu tinha uma obsessão a ponto de um dia esperá-la voltar do trabalho na esquina da rua e abraçar uma mulher desconhecida, com a mesma blusa, por engano. E lembro que nessa época eu roubei uma agenda dela, espécie de diário, e me tranquei no banheiro pra ler. Ela invadiu e me perguntou se eu gostaria de que, algum dia, ela lesse as minhas descobertas da adolescência num desses meus caderninhos de folhas pardas. Congelei. Foi a primeira vez que eu pensei, sem egoísmo, sobre privacidade.

Em outra fotografia, mamãe aparece com um cabelo mais curtinho. Ela tinha feito amizade com Wanda, nossa vizinha e cabelereira, e, num vício quase demoníaco, queria o tempo inteiro mudar o cabelo. Começou com um corte nas pontas até parar num chanelzinho. Tive medo de voltar da escola, um dia, e encontrá-la careca. E lembro que nessa época, Adelaine, minha melhor amiga da infância (filha de Adelaide e sobrinha de Wanda, todas vizinhas), ficou doente. Eu dizia: “Mãe, Adelaine está com sarampo. Eu também estou. Olha essas pintas vermelhas”. E ela revirava os olhos e falava: “Você já teve sarampo, agora deve ser sarampo ‘emocional’, você é muito saudável pra ter essas coisas duas vezes”.

Um dia, mamãe foi internada às pressas no Hospital das Clínicas. Estava com uma bactéria na garganta. Ela se maquiou toda quando soube que eu ia visitá-la, e disse ao me ver com os olhos inchados de chorar: “não é nada. Se eu não reagir bem aos antibióticos, vão enfiar um tubo na minha garganta e depois que eu melhorar costuram de novo, mas não é nada”. Minha mãe era uma força espetacular da natureza, sempre achava que as coisas no fim das contas dariam certo. E eu, aos nove anos, já era trágico, fóbico e estranho.

Uma vez, coloquei detergente de prato dentro do frango cozido. Ela percebeu a espuma e me perguntou se eu fazia ideia de que colocar produto químico dentro de comida poderia matar todo mundo da família, inclusive ela: “Como você sobreviveria sozinho no mundo aos oito anos?”. Foi a primeira vez que eu pensei na morte.

Em outra fotografia, vejo mamãe com uma minissaia vermelha no aniversário da minha irmã. Lembro que uma vez ela chegou em casa contando que, ao sair da reunião de pais da minha escola, com essa minissaia vermelha coladinha, saltos extremamente altos, decote cavado, cabelão Farrah Fawcett versão morena, foi a grande culpada por um acidente de carros na avenida Paulo Sexto. Eles perderam o controle e colidiram ao vê-la passar. Ela chegou narrando a cena, preocupada, assustada. Meu padrasto fez um escândalo, quis sumir com a saia, e dizia “se você sair por essa porta, eu pulo daqui do décimo andar”. Ela saiu e ele não pulou, mas até dia desses, quando ainda eram casados, ele ficava nervoso quando ela chegava.

Ela vai ler este texto e brigar comigo. “Você me descreveu como chata, louca e fútil, você não contou que eu trabalhava mil horas por dia e voltava pra casa com os pés inchados pra te dar tudo o que você queria”. Tá contado, mãe. Ela me ensinou coisas incríveis que nenhuma outra pessoa seria capaz de me ensinar. Mas é que, apesar de tudo isso, o que eu lembro com mais carinho é da sua parte chata, louca e fútil. Nunca vi nada de errado nisso. Mãe não tem explicação lógica. Mãe é uma coisa bem doida.

Nas últimas fotografias do álbum, encontro uma que estou abraçado com ela no sofá. Eu tinha 12 anos. Foi ali que percebi que seria impossível amar alguém como eu amava a minha mãe. Minha obsessão à la Norman Bates. Minha obsessão pela sua estética maternal jamais vista em outra mãe. Eu sentado no chão do banheiro te vendo tomar banho pela neblina do box. Eu tentando guardar o cheiro da sua nuca enquanto você dormia. Eu abraçado com seu travesseiro quando você viajava. Eu olhando você com uma perna na cama e outra no chão pra passar creme de ameixa antes de dormir.

Eu amava o chulé que ficava nas pontinhas da sua meia-calça e o gosto do bolo de milho verde que surgia na boca quando eu passava mais de seis horas sem vê-la e as sapatilhas e sapatos altos de várias cores espalhados pela casa e como ela falava ao telefone enquanto cozinhava. Amava que no sábado à noite, depois que chegava do trabalho com um pote de sorvete de pavê, ela pedia pizza meia margherita meia mussarela numa pizzaria chamada Bella Massa, e eu e minha irmã pulava na cama de felicidade. Amava que, quando meu padrasto viajava, era eu que dormia com ela.

Eu gostava de ver minha mãe pelada, gostava de abrir a gaveta de calcinhas arrumadas, gostava de ver a pilha de sabonetes “caros que ela ganhou de presente da mulher do seu chefe”, gostava que ela arranhava as unhas pra tirar os cravos das minhas costas e só por isso eu me sentia amado e dormia em paz, gostava da loucura dela de reclamar de sujeiras e coisas fora do lugar, irritada, durante a noite. Eu amava uma calça bege que ela usava em dias frios, uma bem quentinha. Ela tem até hoje e, quando eu vejo essa calça, me dá vontade de chorar. Ela nunca superou o fato de eu ter crescido e ainda me enxerga como um menino, embora quando eu peça alguma coisa e falo “você precisa cuidar do seu filho”, ela diga que “quem tem filho grande é elefante”.

Talvez porque cresci ouvindo que eu era a cara do meu pai, talvez por causa da minha obsessão, talvez porque ela sempre foi bonita, talvez porque ela dava a vida dela pelos filhos, eu sempre quis parecer com ela. Semana passada, comprei um tapete que ela pediu. Ela não gostou. Dizemos coisas horríveis um ao outro. Foi triste. Ela me disse que não conseguia me odiar porque eu era muito parecido com ela: reclamava de tudo e explodia com tudo na maior sinceridade. Obrigado, mãe, aos 26 anos, finalmente fiquei parecido com você.

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