Nem vinte anos

Texto: Murilo Melo 

O interfone tocou pela primeira vez e ninguém ouviu. Pessoas procuravam Heinekens afundadas em gelos no enorme balde transparente no canto da sala, pessoas falavam sobre “tédio”, “mais tarde”, “quem sabe uma suruba”, e a única coisa que eu queria era ir embora. O interfone tocou pela segunda vez e eu corri pra atender. Foi tudo muito rápido. Eu tirei da linha e ele falou alguma coisa como “me libera daqui debaixo, por favor”. E eu me apaixonei por aquela voz de menino que ainda não era grossa, que ainda não era firme, mas tinha desespero em potência.

Cinco minutos depois, ele apareceu suado e sem graça porque subiu dez andares do prédio com um galão de água nas costas, porque, pra piorar, o elevador pifou. “Água?”. “Amanhã ninguém acorda de ressaca”. Eu caí da escada com aquele sorriso enorme e nunca mais consegui me levantar. Marcela, amiga e dona da festa, puxou meu braço e foi logo me avisando: “nem vinte”. “Oi?”. “Novinho. Só tem tamanho, mas não tem nem vinte anos”.

Ele não gosta de cinema francês. Não sabe o que é pós-verdade, metaficção, nunca ouviu falar no filme “Aquarius” e passa o dia lendo BuzzFeed. Ele é estagiário hard player de uma startup de games (daquelas que dão senha da Netflix, máquina de café e gaveta de doces), tem um carro cheio de apetrechos de animes, acha Chico Buarque “coisa de outro tempo”, faz questão absoluta de pagar meu almoço com ticket refeição, tem aqueles shortinhos descolados, floridos, que me lembram pijamas, e usa o mesmo Vans preto pra todos os lugares que vai. Quando elogio uma roupa, um acessório ou perfume, ele responde na lata: “Minha mãe que me deu”. Se você estiver com ele por vinte e quatro horas, nas vinte e quatro horas ele vai citar a mãe dele. Se você passar meia hora com ele, a cada cinco palavras, uma é “massa”, outra é “tipo assim” e as outras três podem ser intercaladas com “trollar”, “Se ligue” ou “se pá”. No áudio, no grupo de amigos do WhatsApp, ele sempre manda “pegar a visão”.

Se alguém me descrevesse esse tipo há alguns meses, eu, que sempre defendi romances com experientes e homens mais velhos extremamente cultos, certamente reviraria os olhos, daria uma risada alta e ignoraria tal existência, nem cogitando um simples “e aí” quanto mais beijo, sexo e relacionamento sério. Mas o que seria da minha vida se eu não mudasse em alguns meses? O que seria de mim sem a tecnologia dos prédios que transmitem vozes até o décimo andar através de um aparelhinho chamado interfone? Se o mundo não desmentisse minhas verdades absolutas?

Sempre achei o ideal gostar daquele tipo de homem que passa o dia inteiro no trabalho e vai me encontrar à noite, em algum restaurante romântico, com resto de perfume do dia no colarinho da camisa. Exausto, cheio de compromissos pro dia seguinte, mais preocupado com mensagens que não chegam do que com a nossa relação. Pois muito bem, fique com eles então, fique com os homens atarefados, pesados e problemáticos, porque eu ando satisfeito demais para lembrar que eles existem.

Imaginem a minha felicidade ao ver um casal, na mesa ao lado, com a cara fechada, discutindo a relação a dois, enquanto eu e meu menino de 19 anos discutíamos entre cheddar duplo ou chicken barbecue bacon. Sendo que eu preferia a primeira opção e ele a segunda. Esse era o nosso conflito. No fim, acabamos comendo o Burguer King do outro porque, enquanto o mundo adulto adere problemáticas que ferem a alma, a gente beija e transa um milhão de vezes pra esquecer o mundo.

Ele tem aquela pele limpa sem marcas de cansaço, sem preocupação. Ele é neutro de dores do mundo. Ele não pensa no amanhã, e talvez esse seja o segredo da juventude. Ele anda o dia inteiro entre uma sala e outra, resolvendo seus problemas de estagiário, com uma franja caída nos olhos, sua falta de pelos na cara e sua despreocupação desmedida. E eu vou junto. E apareço na startup de games que ele trabalha. E vejo Netflix. E bebo um cafezinho. E como doces da gaveta. E jogo Super Mario. Tudo no fim da tarde, quando o mundo se comporta como adulto. O dia inteiro entre uma sala e outra, o dia inteiro pra lá e pra cá enquanto ele vai, o dia inteiro disfarçando que não estou olhando quando ele vem. O dia inteiro desejando que ele acabe o trabalho pra me dar vida, e que ele vá trabalhar pra me dar ar.

Você esqueceria qualquer camisa passadinha em um homem sério se soubesse o quanto é divertido tentar traduzir frases em inglês numa daquelas camisetas divertidas que ele usa. Você esqueceria qualquer colo maduro se desse conta de que perdeu as horas naquele colo que nunca cansa, naquele colo tão forte e macio. Você esqueceria qualquer papo intelectual, num daqueles cafés de pré-estreia de filme de arte no Espaço Itaú de Cinema, se tivesse suas costas e nucas e cabelos massageados por horas, por mãos leves, por intenções leves, por momentos de paz jamais perturbados por celulares, e-mails, relatórios, obrigações e cobranças da vida adulta.

Eu poderia voltar pro meu ex que há meses me liga querendo “resolver isso aí”. Eu poderia sair com meu professor que há meses me pergunta “por que eu sou tão difícil”. Eu poderia ficar tentando e tentando e tentando mais uma vez com homens mais velhos pra suprir essa idealização que carrego desde a infância. Mas, por algum motivo, escolhi ele. Porque ele me olha safado quando ele sabe que eu sei que ele está mentindo, e eu gosto disso. Porque a mãe dele se preocupa quando a gente some o dia inteiro, e isso me faz lembrar a minha. Porque ele me lembra aquela coisa boa, que eu não sei explicar o que é, que eu sentia até o começo dos vinte, e só por isso eu me sentia vivo.

Tá na hora de parar com tudo isso. Ele é um menino adulto que não consegue entender o frio na barriga que causa só de chegar perto. Que não consegue acompanhar minha cabeça analítica, meio poeta, meio neurótica, meio atormentada por angústias existenciais. Que não sabe medir o tamanho do sorriso que ele coloca no meu rosto quando aparece. Que nunca vai aprender a colocar limites na minha vontade imensa de gostar dele. O problema é que ele me entende. Ele existe. Ele me salva da podridão do mundo. Consegue até o que nenhum homem, com barba na cara, relógios imensos e milhares de experiências nas costas, conseguiu: me deixar leve. Ele consegue, com um simples abraço quente e um “relaxa” bem baixinho, fazer com que eu me perdoe por apenas dormir e acordar sem questionar tanto.

Eu quero colocar um fim nessa loucura de querer tanto quem ainda tem tanto pra querer por aí. E aí eu me pergunto: Por que colocar fim nessa loucura? Se está tão bom, se me acalma, se é tão simples… Pra quê? Por quê? Ele me ensinou, dia desses, que a vida pode ser simples e maravilhosamente boa.

É isso, eu sei que vocês vêm aqui pra ler neuroses, mas, um aviso: estou de férias delas. Umas férias, tipo assim, se pá, muito massa.

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