Bar feio com quem a gente ama é tão bonito

Texto: Murilo Melo 

Olho pela varanda do meu apartamento e vejo ele chegando. Corro para o enorme espelho do meu quarto e me pergunto, pela milésima vez, “se tem alguma coisa errada”. Troco de calça seis vezes e troco de camisa seis vezes. Um ano de namoro. Ele quer fazer surpresa. Não posso aparecer feio. Coloco a minha melhor roupa e o meu melhor perfume. Ele fica meia hora me esperando dentro do carro, quietinho, com o farol aceso e ouvindo “Modern Nature”, de Sondre Lerche, na porta do meu prédio, sem reclamar.

Quando entro no carro, ele vai logo me avisando: “Vou levar você no lugar que mais gostava de ir antes de te conhecer”. Penso que é um daqueles restaurantes revestidos de vidro na Baía de Todos-os-Santos. Aqueles que a gente fica tentado a tirar foto com o mar e o pôr-do-sol de fundo, mas acha brega demais disparar flashes pra postar no Instagram. Me ajeito todo, mais uma vez, pelo retrovisor, e me pergunto, mais uma vez, “se tem alguma coisa errada”. A roupa tá legal? O cabelo tá bem penteado? Me sinto desarrumado pra ir a um lugar com pessoas deslumbrantes.

Ele estaciona num barzinho que eu não conheço, que fica num lugar que eu não conheço. Ajeito a roupa e o cabelo mais uma vez. Ele então desce do carro e eu, num repente, vejo que usa uma camiseta básica de R$ 29,90 e chinelo Havaianas meio desgastada, meio suja. Fico perplexo. Saio do carro e minha miopia esfrega na minha cara o que jamais idealizei pra comemorar qualquer aniversário de namoro: um bar com pintura de 1972, cartaz de deputado e homens com barba por fazer, desodorantes vencidos, jogando sinuca. Fico perplexo.

Aí ele grita antes mesmo de sentar na mesa: “ô Nelson, traz uma cerva aí”, com aquele sotaque paulistano que nele fica mais bonito que tudo. E Nelson traz. E ele cumprimenta todos os outros garçons com um tapinha nas costas. E me diz que “aqui ele se sente em casa”. E que ele “batia ponto” quase toda semana com os amigos da faculdade. E com os caras do trabalho. Fico perplexo. “Cê acredita que depois da formatura todo mundo veio pra cá?”. Imagino mulheres desfilando com vestido da Dior, pós-entrega do diploma, em um lugar que nem peças da Marisa caem bem. Peloamordedeus, como alguém pode gostar de um bar com cadeira de plástico bamba e copo americano com cheiro de ovo? Passei dez minutos numa fase deprimida que apelidei de “eu preferia virar noite no trabalho ou ser esquecido no dia do aniversário de namoro do que ser trazido pra cá”. Foi a pior noite estética com ele durante os últimos 12 meses.

Se você é do tipo que está acostumado a ir aos bares ruins and sujos and feios da cidade “porque a cerveja é barata pacas”, se você acha que “o que vale é o bom papo ou a boa intenção” entre amigos ou namorados, se você é o tipo obsessivamente engajado pelo “curta o momento e reclame menos”, te peço que não leia este texto. Eu não quero te perder só porque, ao contrário do meu namorado de “esquerda raiz”, eu me tornei “esquerda Nutella” que prefere bares com petit gâteau ao invés de moela cozida.

Admito que invejo seu bom gosto em ler Carta Capital, Caros Amigos e Piauí, seus amigos com argumentos filosóficos e sociais lúcidos e sua luta acirrada contra o machismo, a homofobia, o racismo e a favor de todo sistema de cotas. Mas eu quero aqui, lendo este texto, os que podem, assim como eu, passar horas em um bar feio, bastante deprimido, sofrendo com o óleo requentado de quinze dias que frita batatas e causa colites e gastrites e úlceras graves e incuráveis. Prefiro os que, assim como eu, almoçam na Casa do Comércio, com cozinheiros que usam touca e álcool em gel e vivem rodeados por uma equipe da Vigilância Sanitária.

Quando eu vejo o azulejo do bar, espécie de golfinhos quase indecifráveis de tão feios que são (estilo o que tia Izildinha mandou colocar na casa inteira de Castelo Branco porque ninguém vai mesmo), e eu penso em ficar mais deprimido, ele solta essa: “Eu só queria que você soubesse a importância de estar aqui comigo”. Paro a cerveja na garganta, quase engasgando. “É uma parte da minha vida. A outra. A que eu tinha antes de conhecer. Agora você faz parte das duas. Faz parte de tudo”. Foi a coisa mais bonita que alguém podia me falar num aniversário de namoro. Durante anos me relacionando com homens que achavam que comemorar aniversário de namoro em motel com cama redonda e café da manhã era o melhor presente do mundo, nunca ouvi nada tão sincero quanto. Aí acontece um fenômeno muito estranho comigo. O bar feio começa a liberar sêmens de coraçõezinhos dentro de mim. Quero um champanhe pra brindar, mas, eu sei, aqui não tem. Então, ele grita: “Ô Nelson, traz outra cerva aí”. Acho tão bonito quando ele fala assim “ô Nelson, traz outra cerva aí”, que tenho vontade de beber em goles longos e rápidos só pra ele gritar de novo. E de novo. E de novo.

Porque quando ele pede a cerveja. Quando ele pede. Olha, eu nem sei. Você esquece qualquer banheiro com papel jogado sem delicadeza, transbordando cesto. Esquece qualquer privada marrom porcamente amarelada que denuncia meses sem lavar. Você esquece que viu não sei quem do bar pegar em dinheiro, mexer no cabelo e nariz e depois preparar a vinagrete sem as luvas. Esquece ovos coloridos, isqueiros presos em cordões encardidos e tiozinhos barrigudos com cheiro de pinga que falam gritando sobre futebol no seu ouvido. Você simplesmente esquece que o bar não combina com seu óleo caríssimo de lavanda Weleda e se concentra nele.

É a delícia de ter alguém. A delícia de ter alguém de confiança. De ter um homem apaixonado ao seu lado. De não se sentir inseguro. De amar e se sentir amado. Aí ele se declara. E diz que continua apaixonado por mim exatamente como no primeiro dia que me viu. Só que agora ele acha que se apaixonou mais. Foi a primeira vez que eu tive coragem de falar sobre filhos com ele. E ele me pergunta com quem eu acho que o bebê vai se parecer. E depois ele me sacaneia. Diz que eu demorei tanto pra me arrumar e saí com uma camisa que parece pijama. Puta que pariu, essa porra custou mais de duzentos reais, pior é a dele que parece liquidação. E a gente ri. E ele chama Nelson de novo. E ele me ensina, sem dizer isso com as palavras, que talvez seja de simplicidade que a gente precisa pra ser feliz. Passei mais de vinte anos da minha vida pedindo, implorando a Santo Antônio entregas recíprocas. Só agora eu consegui.

“Ô Nelson, traz outra cerva aí”. A conta? Não, Nelson, que conta o quê? Tá louco? Não quero ir embora desse bar feio nunca mais.

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