Onde encontrar pessoas interessantes pra paquerar em Salvador?

Texto: Murilo Melo

Não sei mais pra onde ir durante a semana. Nos fins de semana eu já combinei comigo mesmo não sair de casa: bares e boates lotadas de pessoas com dezessete, dezoito anos — faixa etária não tão absurdamente distante da minha, mas com bom senso bem longe. Nada contra adolescentes ou recém-adultos, alguns até conseguem ter diálogo além de “série” ou de falar, a cada frase, mil vezes a palavra “insano”. Aqui eu tô falando de proliferação desse tipo. Não quero dançar os hits da Jovem Pan ou de mais um MC babaca de Youtube e ter meu braço puxado por um garoto, aprendiz de idiota, bêbado quando ainda nem é madrugada, que fala rolê, véi, trampo. Tenho vontade de fazer a #loka e gritar “Sai daquiiiiiiiiiiii” até o DJ parar o set.

Há um mês decidi banir da minha vida qualquer coisa que seja sinônimo de “ferveção” e só sair de casa pra jantar em restaurantes com música baixa, ir aos cinemas de rua ou talvez um ou outro barzinho com gente que não grita, desses que têm aberto aos montes nas ruas escondidas do Rio Vermelho. Mas a verdade é que, por mais que eu seja apaixonado por meus amigos, filmes de arte e silêncio, meus hormônios de vinte e poucos anos começaram a implorar, quase explodindo de dentro da calça, um homem que aperte meu corpo contra o dele, esfregue a barba dele na minha e arranque um beijo desses de imobilizar a língua. Mas onde eu vou flertar em Salvador?

Já tentei paquerar alguns caras na Cultura e cafeterias como Terrasse. Nunca dá certo. Eles sempre me olham com aquela cara de “fica aí no seu mundo porque eu tô no meu”, ocupados com 549 livros pra ler até o fim do ano. Já tentei paquerar outros no Lalá. Também nunca dá certo. Eles sempre me olham com aquela cara de “gato, só vim ouvir uma boa música e beber uma cerveja com uns amigos, não crie”. Tentei aquelas sociais que os amigos sempre fazem num apê na Barra e que sempre criam a esperança de “se são seus amigos, provavelmente são interessantes”. Infelizmente essas sociais são cheias de casais querendo fazer sexo a três e me olham como “experimento”, e um ou outro esquizofrênico desesperado pra achar o primeiro que dá bola só porque os amigos estão todos acompanhados. Deus me livre de gente desesperada, ainda que eu seja quase um.

Botecos playbas, como o Bar do Guga, com garotos que olham pras bundas dos caras, exatamente onde fica a carteira, e rapazes que exibem a chave do Jaguar, eu tô fora. Lebowski ou Irish Pub, com roqueiros sebosos, drogados e com alargadores de trinta centímetro, também tô fora. Festinhas alternativas da Commons, como a Back in Bahia, com garotas alternativas hippie chique que falam sobre favela, mas nunca passaram por uma, insistindo naquela voz entre o nojo e o nasalado (elas conseguem unir a vontade de serem meigas com a vontade de serem manos com a vontade de serem patos) e rapazes garoto propaganda das camisetas Soul Dila, com bigode handlebar e cabelinhos sebosos samurai à la Tiago Iorc, bissexuais e com cheiro de maconha, tô mais do que fora.

Bares do Centro ou da Pituba, com atendimento bom, mas com suas mesas lotadas de rapazes que estão cansados de relacionamentos e já nem paqueram. O tipo assexuado que prefere bares abarrotados do que engarrafamentos, que reúne vários amigos da firma pra falar de trabalho, que se acha descolado só porque tirou a gravata e abriu dois botões da camisa e que fala tudo metade em inglês ao estilo “essa vida é uma bosta, but i love to live”, tô fora. O que sobra então? O samba no Santo Antônio? Gerônimo? Pra ficar em pé? Nem pensar. Até gosto da música, mas, em ambos os lugares, me sinto um ET. Ou todos são um ET e eu que não sou? Tenho vontade de vestir uma camiseta escrita “cansei” e, conformado com a minha condição, pedir um Uber e voltar pra casa pra assistir a reprise de people and arts.

Odeio sol, então, quando vou à praia (no Porto ou no Buracão), é pela manhã. E nesse horário, quem é interessante, além de se isolar com um fone imenso nos ouvidos e óculos imensos na cara, acorda cedo (quase de madrugada) e vai embora mais do que cedo, aí fica aquela sensação (verdadeira) de que, às nove da manhã, a hora que eu chego, só os idiotas, sem óculos e fones, vão à praia e às baladinhas praianas.

Voltei a frequentar as baladinhas alternativas de rock que eu frequentava na adolescência e que eu encontrava gente bem interessante. Os adolescentes agora são adultos. Gente mais velha, mais legal, roupas legais, jeito de falar legal, estilo legal, papo legal… Pessoas tão legais que se bastam e não acham ninguém legal pra nada além de um papo legal.

WhatsApp, Tinder, Facebook… Me pergunto onde foi parar a única coisa boa na conquista: a tal da química. Mas então onde, meu Deus? Onde estão as pessoas interessantes de Salvador? Até quando eu vou ficar trancafiado em casa, entediado pela mesmice e pelo vazio da vida social, sobretudo noturna? Até quando eu vou continuar sentindo dissintonia? Os anos estão passando, meus ex já estão quase todos casados, meus amigos já falam em ter um bebê, quando é domingo à noite, Réveillon ou lugares cheios de casais, eu sinto falta de ter alguém, eu sinto falta de tudo que se faz a dois. Até quando vou continuar insistindo nesses lugares idiotas, com pessoas idiotas, todas iguais, dizendo a mesma coisa, com a mesma roupa, com o mesmo cabelo, ouvindo o mesmo tipo de música idiota e me sentindo o mais idiota de todos?

Olha direito ao seu redor, meus amigos dizem. Tem alguém interessante. Tem sim. Ele chega tão bonito e me olha tão bonito e de repente beija outro cara que chega tão feio. O outro aparece com o sorriso enorme em uma boca que, em dez minutos, beija quinze e você não aceita ser o “dezesseis”. Meus amigos me criticam porque eu só ando nos mesmos lugares, em círculo. Mas pra onde vou nessa cidade? Pro Subúrbio? A 500 quilômetros da minha casa?

Foi então que eu descobri. Eu e o homem interessante nos desencontramos. Ele dança na pista e eu entro no banheiro. Ele espera o 99POP na porta e eu vou pegar outra cerveja. Ele vai no mesmo supermercado, mas ficamos em seções opostas, separados por uma prateleira gigante de enlatados. Ele está em casa, enrolado no edredom, com preguiça de escolher um sapato que combine com todo o resto. Por que ele sairia? Ele tem NET Now, Netflix, Globo Play, HBO. Ele está no mesmo lugar que eu, pensando nas mesmas coisas que eu.

Você não acha triste saber que quanto mais interessante um homem for, menor a chance de você se esbarrar com ele na rua? Você não acha triste pertencer a tudo e não pertencer a nada? Não acha triste voltar pra casa todo sábado querendo ser de alguém e, no domingo, acordar sentindo o maior vazio do mundo? Não é triste passar o débito mais uma vez e saber mais uma vez que o que realmente importa não se compra? Não é triste saber que o homem ideal pra você, aquele que odeia lugares cheios e música trincando o ouvido, está no mesmo lugar que você, mas vocês não se encontram? Não é triste saber que quando você decide ficar em casa, de pijama e pantufas, comendo brigadeirão de micro-ondas e assistindo um desses filmes de comédia romântica com final previsível, ele atende uma ligação no meio da noite e vai pra um desses inferninhos charmosos com gente que fuma, dança e bebe loucamente e ele, mesmo com todas essas opções, se sente deslocado? Não é triste saber que quando ele vai embora de uma dessas festinhas descoladas, você está chegando?

E aí, espera por quem?

 

Nenhum Comentário

Os comentários estão desativados.