Finalmente consegui eleger a coisa mais triste do mundo

Ficar triste é sempre uma coisa inédita. Todo ano eu fico triste, todo domingo, todo fim de tarde, todo dia. Já fiquei triste, mas dessa vez é diferente. Porque ficar triste hoje é muito diferente de ficar triste ontem. Tristeza é coisa inédita. Já fiquei bem mais triste do que estou agora, mas nunca tão triste quanto ontem. Porque o “mais” de ficar triste, quando é tristeza mesmo, é sempre mais, é sempre deprimente, perturbador, doloroso e é inédito. É sempre com o coração bruto e inocente e vítima que ficamos tristes. É sempre com dois anos de idade, com fome, pelado, com frio, dependente de carinho, procurando sentido por ter nascido, procurando sentido por morrer, com crises existenciais como nunca antes.

A tristeza é uma privada feia de uma festa com decoração linda que demorou dias pra ficar pronta, uma criança quebrando vidros de carro no semáforo com um olhar de ódio pra falta de amor que o mundo ofertou pra ela. Uma pista bem asfaltada que abriu uma cratera na primeira chuva. A tristeza é alguma coisa que incomoda dentro do sapato, um pedaço de vidro incomodando o dedo mindinho, a roupa apertada que agonia o tempo inteiro até o fim do dia. A tristeza é a TV ligada no último volume pra dar a falsa sensação de que tem alguém em casa até que pegue no sono. É ter que comer uma comida cara num restaurante caro, com amigos incríveis e bem resolvidos, quando seu maior desejo, na verdade, é se trancar no banheiro e vomitar no banheiro de casa, sozinho, abraçando o vaso marrom. E triste. Completamente triste.

Eu quero vomitar tudo. O suco de abacaxi com hortelã, o remédio pra amenizar a dor de cabeça, a água que foi junto com o remédio, a saliva estacionada na garganta, a língua que passa pela boca e não vai pra lugar algum, o seco da falta de umidade, a rinite que coça o nariz, o apartamento de duzentos metros quadrados inteiramente sem móveis que virou o meu peito. Quero vomitar meu toque e o toque do mundo que filtro na memória, meus olhos que enxergam tudo tão feio e tudo tão bonito, meu fígado que não aguenta mais excessos, minha mania de querer no meu minuto, minhas listas imensas de expectativas que nunca saem do papel. Eu quero tudo fora, tudo fora. Eu quero meu corpo fora. Eu quero ir pra bem longe de onde está tão deserto e de onde eu tinha colorido tudo com flores pra fazer uma foto sua sentado bem no centro. No centro do meu peito. O afago do peito dilacerado. você, com o holofote focando na minha esperança.

A tristeza me deu uma caixa de espectativas esta semana. Me fez construir um milhão de esperas. Me orientou a ter autoestima em frente ao espelho. Me fez pensar em um milhão de almoços e jantares e cinemas e cursos e pessoas e projetos. Eu sorrindo pra que eu consiga como o resto. Eu implorando pra ser normal e achar normal que tudo bem mais uma foto no Instagram com amigos na balada e copos de cerveja pela metade na mesa do bar.

A tristeza me fez cortar o cabelo doze vezes em um mês. E pintar. E deixar uma franja. E cortar a franja. E sentir falta da franja. E pensar que talvez um topete. Ou deixar a testa limpa como um presidiário. E me fez me matricular na natação, na academia, no pilates. E me fez flertar com vinte caras no bar que eu jamais vou dar uma chance. Odeio estas listas de “o que fazer pra sair dessa”. Não existe nada mais triste do que esse papo furado de dar a volta por cima e essas coisas de seguir o baile e essas coisas de andar pra frente e essas coisas de sacudir a poeira e essas coisas insuportáveis que a gente fala ou pensa ou ouve ou encontra em livro barato de blogueira “paz e amor” que resolveu ser escritora. A tristeza são frases que combinam com para-choque de caminhão, vazias e feitas e deprimentes sendo expulsa de bocas vazias e feitas e deprimentes.

A tristeza me fez repartir o Rivotril no meio. Agora uma parte. Depois outra. Porque nem tarja preta eu tô suportando engolir pela metade. Que pelo menos dentro do meu corpo triste alguma coisa possa se sentir inteira.

A tristeza ​é o despertador tocando cinco da manhã, é a rodinha empacada da cadeira, a mesinha de computador do trabalho, o café frio, uma parede, um celular, um elevador, um carro, um engarrafamento, uma mochila, a poeira do ar-condicionado, o voucher até dia 30. A tristeza são as ruas escuras e vazias, as ruas claras e cheias, o rapaz corcunda da floricultura, os velhos andando devagar na sua frente, os jovens andando devagar na sua frente, gente gorda suando, gente magra suando, o cinza, o laranja, o azul, o incolor. É a próxima música, a próxima esquina, a próxima hora. É ficar em casa, é sair de casa. É aceitar ser louco e detestar gente louca.

A tristeza é a angústia de não saber o que é. A tristeza é esperar porque ainda faltam seis dias, sete dias, quinze dias, trinta dias. A tristeza é a nossa última vez andando de mãos dadas juntos. É a nossa última vez juntos fazendo seis dias, sete dias, quinze dias, trinta dias. É o amor que aceita acabar, mas não vai embora. É tentar entender o que é amor e não saber o que é o fim e não saber o que é não saber o que é o fim. ​​

A tristeza dá bronca o tempo inteiro porque cansou de gente que quer tentar entender. Ela não quer entender mais nada. Ela só sabe que é triste. A tristeza é de uma humildade que a deixa ainda mais triste. É ficar em pé, é ficar sentado, é deitar. É reclamar, é ficar calado. Tentar, ir, ficar ou desistir carregam o mesmo nível de tristeza quando tudo não sai como a gente quer.

Meus dedos tocam nucas e mãos e braços e barbas e cabelos e paus e outras milhares de texturas. Todos os toques são extremamente tristes. O que as pessoas fazem com digitais de afagos que ficam grudadas em nucas e mãos e braços e barbas e cabelos e paus? Lavam com água e sabão? E vão pro ralo. E isso é triste. Amanhã vai ser triste, semana que vem vai ser triste, ontem foi triste. Hoje é o dia mais triste do mundo.

É por que eu tenho medo daquelas ruas escuras da Federação e do Corredor da Vitória e do Canela e da Orla? É por que eu fui assaltado em todos os bairros desta cidade? É por que eu uso samba-canção feia pra dormir? É por que eu sou egoísta, arrogante, louco, sempre quero ter razão e tenho um dente meio torto? É por que você sempre soltava um arroto alto sem querer e eu ria de você e ria da sua estante que não aguentava tanto livro e ria das suas músicas e ria dos seus filmes e ria do sorvete sujando sua barba e ria de nervoso e ansiedade porque eu amava tanto você que odiava você? É por que eu torci pra que o mundo explodisse com suas chatices e tristezas, mas antes preparei um lugar seguro pra você? É por que criei dez mil muros pra receber alguém e quando encontrei você quis esmurrar sem luvas, até sangrar, o seu único muro como se você também não precisasse de dez mil muros pra se proteger? Ou é só por que é assim mesmo? Assim: pouco, mas em excesso; simples, mas complicado. E triste.

Hoje – às cinco e trinta e seis da tarde, a hora mais triste do dia -, quando abri a porta de casa, me deparei com o que eu elegi o mais triste de tudo. É o banquinho de madeira que você pintou de amarelo e que você colocava a sua bolsa carteiro e sentava ao lado dela pra fumar maconha e que não guarda mais nada e nem espera mais ninguém pra sentar. Ele agora cumpre bem a função: é só mais um banquinho. Vazio, sem graça, carente, impotente, em sua grandiosa função de banquinho. Sua miserável, desgraçada, amarela, insignificante, triste e livre função de banquinho.

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