O cara que bebe Heineken e toca pandeiro no bar Velho Espanha

No meio de pessoas bêbadas, garrafas vazias de cerveja no canto da mesa, fumaça de cigarro deixando o bar todo branco e meus olhos embaçados, ele surgiu com leveza, sorriso largo e o pandeirinho na mão, se unindo a uma mesa gigante de amigos com leveza, sorrisos largos e vários instrumentos. O tédio de ouvir os mesmos problemas dos meus amigos me convidando pra ir embora estacionou naqueles olhos claros melancólicos e ao mesmo tempo inocentes. Ele me olhou com amor enquanto bebia mais um gole de Heineken e tocava um pouco de pandeiro e, então, ouvir meus amigos reclamando de tudo e chorando por tudo fez sentido e por alguma razão minha vida também.

Foram dois ou três anos de uma entrega que, além de beirar a obsessão, era ridícula: eu esperava horas no banquinho verde da Ufba até ele sair da aula e eu, finalmente, fingir “acaso”, “coincidência”; eu ia nos mesmos shows de rap do flyer que ele compartilhava no Facebook só pra mostrar pra ele que eu era legal; eu andava pelas ruas, farmácias e supermercados achando que todo cara a dois metros de mim era ele. Cheguei ao ponto de um dia sair correndo no meio dos carros em movimento só pra entrar no mesmo ônibus que ele. Passei a comprar roupas parecidas, cortar o cabelo parecido e até me olhar no espelho e também achar que eu era ele. Eu lia o que ele lia, comprava sorvete da marca que ele gostava, aprendi a gostar de beber Heineken só porque ele bebia. Fiquei louco de pedra mesmo. Eu não via mais TV, não comia direito, não saía com meus amigos, não achava graça de nada, não sabia por que eu precisava acordar no dia seguinte. Adotei um cachorro, tentei academia, cartomante, uma nova graduação, curso de astrologia, numerologia, centro espírita. Nada dava jeito. A única coisa que adiantava por alguns minutos era ir ao bar Velho Espanha todos os dias e esperar ele chegar lá com leveza, sorriso largo e o pandeirinho na mão. Mas ele não aparecia nunca. E eu, sozinho na mesa do bar, chorava a noite toda porque o tal do cara perfeito não queria saber de mim.

Até hoje meus amigos me levam no mesmo bar e me perguntam: “E cadê ele?”. Eu dou uma risada sem graça e respondo mais sem graça ainda: “Já foi. Era coisa de quando eu tinha 23 anos”, querendo me desculpar com o mundo por encher o saco por dois ou três anos com a minha monotemática de só falar sobre ele.

Toda vez que eu pensava em algum texto, projeto, trabalho, eu me inspirava na cidade que ele nasceu, na banda que ele adorava, nas frases dele no status do WhatsApp, no sinal que ele tem no pinto. Foi o único cara que eu amei de verdade. Lembro de um dia, na época, sentir uma coisa absurda: todas as vezes que o ônibus passava perto do cortiço que ele morava, eu tinha crises de ansiedade e pedia a Deus: “por favor, não posso morrer antes de dar um beijo nele pela última vez”.

A república de quatro quartos onde ele e mais 500 estudantes comunistas da Ufba dormiam ficava no beco mais escuro do Dois de Julho. As paredes eram cheias de colagens de cantores de rap, do Che Guevara, Karl Marx, pôster de palestras da USP em que ele foi de caravana e um ou outro recorte de jornal que fala sobre mudanças históricas como casamento gay legalizado. Eu sabia de cor a ordem das músicas de Chico, Cazuza, Caetano, Cartola e Gilberto Gil porque ele repetia os mesmos álbuns em todos os nossos encontros. A emoção que eu tinha em segurar a mão dele, de sentir o calor do abraço dele, de me acalentar no peitoral dele me fazia sentir completamente protegido. Eu sentia tudo tão em carne viva que eu sempre inventava uma desculpa e ia embora com medo de vomitar ou explodir.

Minha loucura de gostar tanto dele acabou junto com a faculdade. Ele sumiu numa daquelas trilhas da Chapada Diamantina onde todo mundo vive maconhado e eu fui atrás de um emprego. Tive um milhão de namorados, aprendi a gostar menos, o que foi uma pena. E aprendi a ser mais sarcástico com a vida, o que também foi lamentável, mas fundamental. Viver pra sempre tão entregue, bobo, burro, estúpido, cego e fazendo carnaval pra tudo teria sido desastroso.

Semana passada recebi uma ligação com um número desconhecido. A mesma voz de sempre, o mesmo jeito calmo de sempre, a mesma respiração de sempre, o mesmo nervosismo que sempre tive quando converso com ele. O desejo de beijá-lo ainda me fazia implorar a Deus pra que me desse uma última chance e não me fizesse morrer de dengue, febre amarela, H1N1. Eu ainda era aquele rapaz bobo, de 23 anos, que guardava as sobras obsessivas e puras do primeiro amor.

Coloquei uma roupa bem bonita, usei um perfume bem caro, fui o caminho inteiro me dizendo: “Agora você é um homem, comporte-se como um homem” e implorando a Deus para que ao menos desta vez me ajudasse a controlar as pernas que sempre tremiam e o coração que sempre disparava.

Quando eu cheguei, ele estava lá. Ele me mandou uma mensagem “olhe pra trás”. Estalei os dedos, mordi os lábios, suspirei forte pra controlar as batidas do coração sempre saindo pela boca, segurei as pernas disfarçadamente, fechei os olhos. Aproximei os óculos mais perto dos olhos, revirei o bar inteiro, olhei fixamente pra tudo, olhei de novo, olhei outra vez. Encontrei. Não. Sério? O que a vida fez com aquele cara que usava chinelo e tocava pandeiro no Velho Espanha? Ele se sentou ao meu lado, de paletó, gravata, barba alinhada e cabelos penteados com gel fixador. Todo bem vestido, mas com olhos claros apagados e limitados. Disse que abriu um escritório e mudou de vida. Disse que vez em quando sente saudade e toca seu pandeirinho no bar. Sozinho, na maioria das vezes, porque seus amigos “casaram e tiveram filhos ou continuam morando na mesma república”. Sua gravata era brega, o cheiro do seu perfume era forte demais e seu papo, agora, fazia sentido ter pernas descontroladas: dava muito sono.

Nos beijamos no bar, no carro do ano dele, no apartamento imenso dele de novecentos quartos. Não senti nada. Eu pedia a Deus pra que agora eu finalmente morresse. O cara perfeito dos olhos claros, da leveza, do sorriso largo, do show de rap, das colagens na parede do cortiço e das músicas maravilhosas pra abraçar e me fazer sentir seguro era agora apenas mais um cara desinteressante que tocava pandeiro e bebia Heineken. Como eu fui burro de quase morrer pelo cara do pandeiro? Me despedi dele e fui lá no Velho Espanha. Dancei e cantei com um grupo de caras de chinelo que tocava pandeirinho. Voltei meio bêbado pro meu apartamento vazio amando e odiando a passagem de tempo. Amando porque nada do que foi será, odiando porque nada do que foi será.

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