O safado do 302

Ele comia o professor de filosofia do 201, comia um garoto do 504 recém-aprovado em medicina na Ufba que, de tão magro, cabeludo e branquelo, a gente só enxergava o olho, comia Leandro, que era noivo de uma mulher meio lésbica, e comia até a Paula, mãe da Clarinha, casada há sete anos e que vivia tossindo de tanto fumar.

No sábado, cheguei em casa tarde da noite e, por coincidência, ele também. Enquanto ele pedia o elevador, seu Carlos, meu porteiro, foi logo me contando: “Ele aí do 302 comeu o morador novo da cobertura e a amiga do cara na academia daqui do prédio, cê acredita?”. O morador novo, que ninguém sabe o nome, já era velho conhecido por festas, música alta, drogas e centenas de multas em sua cobertura master. O negócio é que seu Carlos, com os olhos arregalados e a boca entortando para todos os lados, continuou: “Deu pra ver tudo pelas câmeras, cê acredita, seu Murilo? Foi um filmão. Ele comeu ela primeiro, mandou ficar de quatro e ele mandou ver… Depois foi a vez do cara. Uma, duas, três vezes. Ele é um bicho, manda bem”.

Não sei ao certo se o safado do 302 pagava um jabá a seu Carlos pra fazer propaganda sobre seu desempenho, e por isso mesmo saía levando pra cama todo mundo do prédio, ou se aquilo era apenas mais uma fantasia de porteiro pra acabar com o tédio do trabalho noturno. Só sei que comecei a gostar tanto das histórias sexuais que até sentei no murinho que dá pro jardim só pra ouvir melhor.

Seu Carlos soltou uma gargalhada que durou três minutos contados, transbordou modernidade nos olhos e concluiu com empolgação: “Meus sobrinhos, assim da sua idade, dizem que é normal ficar com homem, mulher, que as coisas mudaram. E como mudaram!”. Concordei com os sobrinhos dele e me despedi. Antes que eu me levantasse do murinho, seu Carlos me interrompeu: “Ah, seu Murilo, assim que ele largou os dois lá na academia, caídos nos colchonetes, ele fez um tchauzinho pra câmera, cê acredita? Eu, o Geraldo e o Edson, a gente tava tudo lá assistindo ao vivo. Aplaudimos de pé”.

Os dias se passaram e eu comecei a perceber. Na piscina, ele tá sempre consertando a sunga pra chamar atenção. Nunca vi um homem que adora se exibir como ele. No elevador, ele tá sempre sem camisa. E me dá um ‘oi’ meio tímido. Sei, conheço bem esse tipo. O auge foi a academia do prédio. Por lá ele tá sempre gemendo num daqueles aparelhos de musculação. Acho bizarro, mas nele é do tipo que dá tesão até nos dias que minha libido só vai voltar ao nível cem daqui a um século.

Eu não precisava ouvir e ver mais nada pra ter certeza: eu ia pra cama com esse homem. Ou a gente transaria na piscina, no elevador, no jardim, na quadra… onde ele quisesse. Esse cara era um safado, filho da puta, sem pudor. Era um desses caras errados que a gente se diverte um pouco enquanto o amor não chega. Era o cara safado pra esquecer o romantismo e viver a viva carnal. Ou seja, o cara certo pra mim agora.

Sim, eu sou um homem bem-educado, prendado. Um homem que publicou livro, que fez cursos de roteiro e teatro e tem duas faculdades. Um homem decidido a morar sozinho, decidido a rodar o mundo, decidido a ser feliz sozinho num bar ou na vida, decidido a nunca mais aceitar um emprego idiota com diretores idiotas que só sabem mandar, mas não prendem o rabo numa cadeira pra fazer melhor. Com humor incrível, com bom gosto, independente, sensato, lúcido, que cuida do corpo e da alma, maduro… mas, vamo ser sincero, o cara mandou uma, duas, três na academia do prédio, e ainda deu tchauzinho pras câmeras, como se transar numa academia fosse comprar um pãozinho na esquina? Que se dane tudo que conquistei agora, todas as minhas ideologias. Meu ego precisava levar esse safado pra cama e pronto.

Usei minha tática infalível pra fazer com que esse homem desejasse me ver sem roupa: um dia, assim, sem ser planejado, mas há semanas aguardando acontecer, numa dessas surpresas de quando a gente abre o elevador, contei pra ele que eu era escritor. Sabe Deus o que acontece, mas quando um homem descobre que eu escrevo, os olhos brilham no mesmo instante, me colocando num paraíso que nenhum mero mortal será capaz de conseguir entrar. E aí é tudo ou nada pra me conquistar.

Não sou nenhum Michel Laub e nem ganhei nenhum prêmio do Jabuti, sou apenas um escritor que senta a bunda flácida de frente pro notebook e escreve futilidades da vida o dia inteiro. Mas esses homens não estão nem aí. É tipo um “não, prêmio literário você consegue com o tempo” ou “os melhores, de verdade, não são reconhecidos”. Mas é tudo papo furado. Eles querem chupar meus personagens, minha falta de vergonha na cara em me expor, minhas putarias, minha raiva por caras canalhas como eles, minhas neuroses, a fotinho preta e branca que sai na coluna, meus leitores do Facebook, meus nojos, essa coisa de fazer literatura sobre si, sei lá… “Um branquinho magrinho e barbudo que ainda sabe escrever mais de um parágrafo sem falar ‘pô, mano, tipo assim’? Desse tipo ainda não peguei”.

Apois. Como imaginei, foi meio caminho andado. No mesmo dia, com certeza assim que ele leu meus textos pela internet, chegou áudios e textões dele bancando o crítico literário sobre minhas crônicas. Elogios que não acabavam mais e, por fim, depois dessa enrolação, um convite pra ir ao cinema e depois jantar (mas torcendo pra que ele desviasse o caminho e me levasse logo pra um motel). Aceitei, mas corri pra depilação. Depois corri pra comprar um perfume mais sedutor. E, por último, corri pra me entupir de óleo Weleda. O safado que deu uma, duas, três na academia do prédio, e que provavelmente iria fazer loucuras comigo no cinema, merecia a produção mais sexy do mundo. Coloquei um pacotão de camisinha no bolso e fui.

Achei estranho quando, dentro do carro, ele disse que falou sobre mim para a mãe dele, e mais estranho ainda quando ele ficou meio nervoso e sem graça toda vez que respondia alguma pergunta minha, como se estivesse inseguro. Mas tudo bem, daqui a pouco o lado escroto dele ia surgir e faria o carro parar em qualquer beco meio escuro, talvez atrás de alguma igreja ou no banheiro do restaurante pra fazer comigo o que ele fez com todos do prédio. Certeza. Aquilo tudo era papo furado pra fazer um charminho de “eu não te chamei pra jantar só pra te levar pra cama como os outros dos seus textos fizeram”, mas querendo fazer tão igual ou pior. Certeza.

Ele fez questão de pedir um vinho malbec e ainda pediu que apagassem a luzinha de uma luminária que ficava acima da nossa mesa. Achei estranho. Segurou minhas mãos, mordeu os lábios, brilhou os olhos com ternura e falou quase sem saber como: “Hoje pela manhã você me fez chorar”. O quê? Que palhaçada é essa? Ele possivelmente deve ter confundido o verbo, acho que ele quis dizer: “hoje pela manhã você me fez gozar”, sei lá, bater uma, duas, três no banho, mas chorar? Que palhaçada é essa? Mas ele continuou: “Tenho me sentido sozinho, não aguento mais essas conquistas vazias, o beijo sem química, a companhia sem companheirismo, o sexo sem alma, a falta de um parceiro com papo inteligente para uma vida, sabe como é?”.

Ô se sei, mas justo na minha vez? Caramba, o professor de filosofia gemeu tanto que deu pra ouvir até na pizzaria de seu Flávio. Depois ele desvirginou o adolescente lá que passava o fim da tarde jogando playstation nos intervalos dos exercícios do pré-vestibular, depois tirou Leandro do armário, fez um farvozão pra Paula que via o mesmo pinto mole do marido há sete anos e por último comeu o drogado da cobertura e a amiga drogadinha do cara da cobertura como dois cachorros. Justo na minha vez esse filho da mãe quer assistir filme de comédia romântica francesa? Que palhaçada é essa?

Ele passou a noite inteira me admirando, querendo saber como era ser jornalista. Contou do trauma com a morte do irmão que morreu afogado numa ilha, da separação dos pais, do medo de altura, da dificuldade de engravidar da irmã, da vontade dele de ser pai, do quanto sente falta de ter um cachorro em casa, de como ele se sente triste todo fim de noite de domingo e que, talvez, se ele tivesse um namorado, alguém, isso mudasse. “Olha, eu encontrei em você o que eu sempre quis em uma cara e até então não havia achado: profundidade”.

Quando a gente entrou no elevador do nosso prédio, sob olhares curiosos de seu Carlos, ele apertou o andar dele e o meu, destruindo de vez qualquer possibilidade de acordar na cama depois de dar uma, duas, três. Se despediu com cara de completamente apaixonado e ainda me ligou quando eu já estava frustradamente sozinho na cama: “Hoje foi a noite mais incrível dos últimos tempos”. Acabei dormindo mais uma vez me sentindo usado pelos homens.
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