Bons namorados se vestem muito mal

Meu namorado vez em quando recebe os amigos em casa, numa social de fim de semana, todos muito bem vestidos com jaquetas da Osklen e jeans da Levi’s, e coloca uma camiseta sem cor de 1993 com botões semiabertos (estilo Caetano Veloso nos anos 1970, no Porto da Barra), furada e com uma mancha amarelada de desodorante no sovaco.

Ele, no dia do casamento do próprio irmão, todo limpinho, cabelo muito bem penteado, terno muito bem passado e gravata combinando com todo o resto, inventou de colocar nos lindos pés um par de All Star que usava no ensino médio (sim, isso há uma década), surrado, com cadarço felpudo pelo desgaste e, aqui, pra não ser pesado, vamos chamar de terrivelmente sujo.

No meu celular, tenho guardado ​um vídeo dele dançando “almofadinha top”, um funk louco de trinta segundos que ele inventou por pura sacanagem só pra me fazer rir nas horas impróprias, em que ele passa uma almofada entre as pernas e se esquiva para os lados. No vídeo, ele usa, ao mesmo tempo, samba-canção bege com um furo gigantesco, meias de bichinhos e estrelinhas dois dedos abaixo do joelho e um moletom aberto com imagens de pequenos barquinhos. Ele dorme desse jeito todas as noites (e, às vezes, fica assim até meio-dia por pura preguiça) e isso, por algum motivo, me deixa feliz.

Às vezes, quando fico agoniado numa fila de supermercado ou quando quero gritar numa reunião de diretores brilhantemente insuportáveis, assisto o vídeo sem som. Em câmera lenta, consigo vê-lo me olhando com amor e, acima de tudo, com leveza, em seu figurino extremamente cafona. Seu sorriso de “fica calmo, vai dar certo”, mesclado com seu modelito mendigão, com dancinha de menino bobo que recebeu papinha de banana da mãe até os nove anos, mas com a segurança de homem feito, me conforta com o mesmo potencial de um útero.

Há duas semanas estou mal. Mas hoje, principalmente hoje, estou bem pior. A nuca inchada e dolorida me diz que é pressão alta, a dor de cabeça latejando em vários cantos do cérebro me diz que é enxaqueca, os pequenos “murrinhos” no pé da barriga me diz que é colite, a falta de sono me diz que é estresse. Mas acho mesmo que tudo isso é ansiedade. Já tomei chá de camomila, já fiz todos os exercícios de respiração que o Google indicou e estou desde terça carregando pra cima e pra baixo, parecendo um louco, uma garrafa com dois litros de água. Mesmo assim não adianta.

No fundo, sei que toda essa dor é algo jamais detectável pela medicina e que certamente sentirei pelo resto dos meus dias. Como também sei que afirmar isso é muito triste, resolvi chorar ouvindo músicas aleatórias de quando eu era adolescente e me sentia, na maioria dos dias, saudável. Mas antes da sessão #ChoroLivre, resolvi usar meu modelito da depressão. Trata-se de uma calça molinha cinza de 2009 e um moletom GG também cinza. Agora, completamente cinza, eu me sinto próximo a algo que se parece muito comigo.

Pra completar a cena, me cobri com meu edredom deixando apenas os olhos descobertos e abracei bem forte um travesseiro solitário com um desenho de pinguim na fronha. Você toma dois comprimidinhos de Rivotril e três de Dramin, aperta bem forte até sentir as penas de ganço do travesseiro entranhar seus poros e minutos depois sente um pouco mais de alívio.

Ele passa pelo corredor com o velho uniforme de dormir. Sei porque vi um pedaço da meia de bichinhos e estrelinhas dois dedos abaixo do joelho. Depois, ele para na porta do quarto e fica ali me olhando por dez minutos, em silêncio, vê que estou triste e com os olhos vermelhos de tanto chorar. E me diz que tá excitado. Mas hoje, amor? E tem que ter dia pra isso? Só que hoje eu… Você não percebeu nada? O quê? E me mostra a samba-canção nova que ele comprou, mais brega do que a anterior. Pelo menos essa é novinha em folha e dá pra gente se divertir. A gente então transa? Mas hoje, amor? E então ele abaixa um pouco o som do meu ipod, entra no meu edredom e aperta minha cintura, colocando minha cabeça em cima do moletom ridículo que ele usa. E eu vou, aos poucos, me acomodando no cantinho que ele quer me deixar até eu pegar no sono. Não me recordo, em nenhuma vida que passei, ter me sentido tão calmo e tão quente e tão seguro com alguém.

Sábado passei no Uber por uma daquelas boates no Rio Vermelho. Eu tenho saudade de me arrumar e ficar na porta dessas festas esperando o destino, com todo seu mistério, colocar alguém interessante na minha vida. Então eu vejo o vídeo dele dançando, sem som, e a vontade passa. Eu demorei mil anos conhecendo meninos em todos os fins de semana que saí de casa muito bem arrumado, mas agora, que finalmente troquei moleques por um homem, percebi que deu certo e quão maravilhoso é uma relação com creme de rachaduras para pé, roupa cafona, dor na cervical e samba-canção. Tem sido muito bonito.

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