Eu gosto é de homem sarado e burro

Ai, meu Deus, que inferno. Preciso assumir. Publicamente. Que dor. Chega a ser ridículo, humilhante, triste. Pra você ter ideia, fiquei em dúvida em publicar ou não este texto, mas fazer o quê? É a verdade. Nada mais que a fria, pesada, cruel e irônica verdade. Eu gosto mesmo, e muito, é de homem sarado e burro. Juro que tentei de todas as formas, nos últimos dez anos, me relacionar com intelectuais de esquerda que usam óculos com aros grossos e não fazem a barba. Desses que usam sebos como hobby e frequentam cafeterias em becos escondidos pra falar de Contracultura e Vanguardas e Geração Beat e Literatura Marginal. Tentei, de todas as formas, me relacionar com esses que estudam filosofia em São Lázaro.

Ah, como eu tentei me relacionar com esses que querem mudar o Brasil, com os que se metem em alguma chapa política em universidade, com os que fazem barraco por ódio ao racismo, machismo, homofobia e heteronormatividade, com os que vestem a camisa “Lula Livre” ou “PT”, com os que estão no oitavo mestrado sobre pré-sal e há quinze anos escrevendo um roteiro com zero verba ou incentivo ou produtor ou distribuidor ou emissora ou patrocínio, com os que estão sempre à espera de um edital, com os que debatem sobre uma nova forma de fazer educação, com os que não admitem o projeto escola sem partido. Deus do céu, como eu tentei me relacionar com os que cantam Legião Urbana em bar barato, com cerveja barata, fumando cigarro barato. Eu tentei, juro que tentei, me relacionar com os que passam sufoco pra pagar o IPVA do carrinho popular, com os que ouvem Cartola bebendo pinga no meio da tarde sem nenhuma neura com barriguinha.

Não são esses os homens interessantes que existem na face da terra? Não era um desses que eu passei a adolescência inteira querendo me casar, com festa de casamento com João Gilberto de fundo, cercado de outros duzentos amigos dele com o mesmo perfil? Botando uma de Chico pra começar o dia enquanto reclama de notícias de jornais golpistas? Um que problematizasse carnívoros e falasse da importância de ser vegano? Um que só ensinasse nosso filho a ler e interpretar poesia e assistir filme de Almodóvar e Tarantino? Não fui eu que escrevi 967 textos reclamando dos saradões que frequentam aos montes o bar Preto? Aqueles que exibem chaves de carros na cintura e frequentam a Aldeia Crossfit? Não fui eu que falei mal de todos os fitness que lá pelas duas e tanta da madrugada tiram a camisa pra se exibir na San Sebastian? Não fui eu que implorei para a vida, de alguma forma, colocar nas minhas mãos um autêntico intelectual cheio de teorias, que prima pelo cérebro em detrimento dos ombros largos?

Sim, fui eu mesmo. E eu paguei a minha língua com a minha hipocrisia, como dizem por aí. Bem feito. Nos últimos meses, arrumei centenas (senão milhares) de homens assim. E fui pra cama com todos. E, pra alimentar meu desespero e inconformismo, não me apaixonei por nenhum deles. Nenhunzinho sequer. Nenhuma vontade de aquecer mão e coração. Nenhuma vontade de ligar no dia seguinte, de saber no que vai dar. Descobri que me divirto mesmo é com aquela merda de música eletrônica lançada semana passada por Alok, daquelas que tocam em qualquer bosta de boate moderna com gente que só rebola a bunda, usa muita droga, fala de creatina e não pensa no que vai fazer daqui a dez minutos. Ou do reggae ou do pagodão do momento estourando no carro ou nos tímpanos de tão alto. Tudo isso mergulhado num perfume amadeirado e numa camisa Ralph Lauren. Chega de camisas floridas e alternativas com dois botões abertos e dobradas na manga.

Gosto mesmo é de Lucão que escreve “le encontro mas tarde”, no meu WhatsApp, ao invés de “lhe encontro mais tarde”, mas que me beija bem pra caralho e sabe muito bem onde sinto prazer. Gente que pensa demais, que é inteligente demais, sofre demais. E, talvez, a superficialidade seja mesmo o segredo pra ser feliz. Chega de romantizar o drama. Gosto das cuequinhas da Calvin Klein. Aquelas que eles mostram sem vergonha quando levantam o braço pra chamar o garçom. Que saudade delas! Chega de Zorba cinza! Chega de vinho barato depois de uma foda e cigarro na janela com café em copo americano.

Eu gosto do abdômen trincado, da coxa bem dura, da virilha depilada, da nuca que aguenta meu peso inteiro, do ombro largo que me carrega sem sentir dor. Quem lê Foucault demais, vai demais ao teatro ou filosofa demais em boteco não tem tempo (nem paciência) pra ficar tão de boa com o corpo. A partir de agora vou parar de negar meus desejos por esses homens que gostam de mim, mas que eu rejeito por não terem cérebro. Melhor um músculo na mão do que uma cabeça cheia de neurônios voando.

Eu sei que depois de uma segunda-feira estressante é maravilhoso conversar. Eu sei que depois de tanto tempo de namoro, a paixão acaba e o que sobra é o companheirismo. Eu sei que depois de casado o que eu vou querer mesmo são os jantares com discussões saudáveis no sofá sobre lugares incríveis pra passar as férias de fim de ano. Mas até chegar aí, eu preciso mesmo é recuperar meu tesão tão perdido com ansiolíticos que cortam minha libido.

Mas, até chegar aí, eu preciso mesmo é sentir tesão novamente. Me sentir vivo de novo. Eu preciso mesmo é de um cara sarado (e não bombado) com tudo o que vem no pacote. Preciso apertar os olhos, relaxar no meu travesseiro de pena de ganço e enlouquecer com um daqueles óleos que lambuzam corpos e facilitam no cheiro, na apertada, na firmeza. Chega de frase inteligente, citações de escritores renomados ou comentários deliciosamente sarcásticos. Pra agora, pra resolver um problema urgente, o raciocínio beira este caminho: você tem mais tesão pelo Noah Baumbach ou pelo Martín Deus? É difícil admitir, mas preciso confessar a vocês: sou capaz de ter um orgasmo só de ouvir uma réplica de Maluma gritar “hashtag treinoooooo”.

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