O homem honesto

Outro sábado saio com este homem. No mesmo horário, no mesmo restaurante, com a mesma roupinha elegante e bem passada. Nem eu sei o que me faz ficar duas ou três horas com ele, com garçons que desfilam por salão, casais que tiram selfie compulsivamente (com flash, o que piora tudo), mulheres com tubinho preto, homens tirados a executivos que surfam, conversas sobre o cotidiano, traumas de infância, cansaços e manias bobas. Outra vontade de bocejar sem saber como. Outra ida ao banheiro sem ter motivo. Outra olhada rápida no cardápio sem saber o que procuro.

Começamos a falar sobre o amor que se dá e se recebe depois dos 25 anos. “Acho que as pessoas acabam focando muito mais em si e esquecem do outro”, eu disse mais baixo do que de costume, tentando equilibrar minha sinceridade alta com um sorriso. E ele disse: “Não precisa me prometer nada. Apenas fique. Isso basta”.

Ele sujou as pontas dos dedos depois de comer a lagosta, aproximou a cadeira da minha tentando limpá-los com o guardanapo de pano com o objetivo cínico de ficar perto de mim. Até que o joelho dele, equilibrado nas pernas imensas, estalou exaurido por causa da posição da mesa e ele se afastou pra bem longe. Ele queria mexer nos meus cabelos, mas achou mais divertido brincar com as pontas duplas da minha franjinha com o objetivo cínico de alisar minha testa. Eu ia encostar minha cabeça nos ombros dele e fechar os olhos, mas algo enrijeceu meu pescoço e me fez recuar. Foi quando ele voltou a falar sobre a obviedade da existência escassa de sentimentos verdadeiros e espontâneos para os adultos: “As pessoas acham bonito mostrar que não estão interessadas”. E completou, totalmente pendente pra frente, olhando nos meus olhos sem desviar, com a mesma certeza que um publicitário tem de sucesso ao colocar um outdoor neon na rua: “Cuidado, boca parada como a sua ganha beijo roubado e não tem como reclamar no Procon”.

No carro, ele chamou nosso beijo de “teste pra ver se dá pra continuar” e deu nota nove e setenta e cinco. Eu perdoei a chatice dele de professor de química corrigindo uma prova de cálculos estequiométricos como um aluno que confia. Ele me abraçou forte logo após eu tirar o cinto de segurança e me disse: “Não sou esse tipo de cara que abraça forte”. E o humor genial dele me fez rir por meia hora. Será que é só por isso que eu continuo saindo com esse cara? Será que é por que ele me lembra o começo? A esperança de uma criança que se deslumbra com o algodão doce e depena até não sobrar nada?

Ele quer me conhecer profundamente a cada segundo. Descobrir mais e descobrir mais. E me levar ao cinema. Pra um café. Pra um jantar. Pra ver as luzes da cidade em um daqueles terraços do Centro. E falar comigo todos os dias. Ele quer que eu seja aquele Murilo bobinho de quando tinha vinte anos. Quando eu comprava roupas e cuecas novas pro primeiro encontro. E tremia voz e pernas com medo de ser burro e desinteressante nos primeiros quinze minutos de conversa. Ele quer que eu volte a ser aquele inseguro que espera demais num nível extremo, o que sofre com despedidas na porta de prédio, o que se tranca no banheiro do bar e escreve escondido frases bonitas que ele falou durante a noite pra no dia seguinte publicar um texto. Ele quer ter a chance de namorar aquele que eu já fui um dia, com planos de casamento no primeiro mês, com discussões sobre nomes de filhos e escolhas definitivas, jogando tudo pra cima por causa de um encontro qualquer. Ele quer me salvar. Ele quer conhecer a minha mãe. Ele quer ser um algodão doce gigantesco. Ele quer que eu recupere a minha intensidade, que eu goste tanto, tanto, tanto dele a ponto que eu esqueça de Deus. A ponto que eu sinta no abraço dele o mesmo conforto do útero materno. Ele quer que eu volte a ser louco.

Vai, Murilo, goste de mim a ponto de você me nomear como o seu favorito logo na primeira semana. Por favor, Murilo, goste de mim a ponto de você planejar sair de casa e se casar e aquela coisa toda.

Tadinho, o homem honesto, bonito, sarcástico, bem-humorado e certo pra ser o pai dos meus filhos chegou atrasado. Se fosse há uns seis, sete anos, eu iria dormir beijando a foto dele no wallpaper do meu celular. Se fosse há uns seis, sete anos, eu iria transformá-lo em assunto monotemático na terapia e na mesa do bar com meus amigos. Mas agora tudo o que quero com ele é sair aos sábados, com roupinhas elegantes e bem passadas, e transar no fim da noite. De preferência na casa dele porque visto logo minha roupa e vou embora, não fico enfurecido com banhos demorados e conversa fiada.

Eu perdi a cara de pau pro amor e isso é um pouquinho triste. Eu sinto falta de tudo. Do que eu não tenho mais e do que eu nem sei se um dia eu tive. De quando eu esperava que alguma coisa bonita acontecesse, tipo agora. De quando eu acreditava nas pessoas, tipo nele. Eu sinto falta do que eu já fui um dia. Falta de quem eu era e do que eu implorava pra não mais ser. Falta da espera, da ansiedade, do amor em excesso. Eu não sei mais sentir. Dá dó, né? O homem honesto chegou atrasado.

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