Mataram o amor no Grindr

Meu amigo é branquelo e vive com a conta no vermelho. Mas no Grindr escreveu “publicitário versátil” e colocou uma foto sem camisa, marcando tudo na sunga, bronzeadão, no Porto da Barra. Os óculos, um daqueles espelhados, escondem 70% do rosto, dando aquele efeito, propositalmente, de “puta-que-pariu-que-cara-gostoso” e deixando um ar de mistério de “queira me conhecer e mostro quem eu sou” para os seus pretendentes que têm prazo de validade. “Esse clima praia, sol, mar, bronze e corpo, inconscientemente, leva a pensar em sexo e esse tipo de homem adora isso”, ele diz. Pergunto que tipo de homem é esse e ele explica “qualquer um que tá a fim da coisa”.

Esta semana ele já transou com três. Esses três foram escolhidos depois de muita troca de nudes, chamadas de vídeo no WhatsApp e teste “ao vivo” com oito rapazes (sendo cinco na nova San Sebastian “porque ganhou vip, então ele não gasta dinheiro à toa” e três numa cerveja na Vila Caramuru “porque pareciam merecer que ele gastasse dinheiro”. Esses oito, por sua vez, foram os que sobraram de um papo “superficial, porém mais profundo do que os outros” e avaliados pelos critérios “beleza, nível de safadeza e profissão”. Se demorou de responder, ele não quer. Se morar três bairros depois, ele não quer. Se for afeminado, ouvir diva pop e não praticar algum esporte, nem pensar.

Seu polegar direito escolhe machos afoitos por sexo e ele é incisivo: “tá sem foto, eu já ignoro porque é fake; tá com close só na barba, certeza que é galã feio; só tem foto do pescoço pra cima, é gordo”. Eu vou ficando triste, muito triste, ao ver meu amigo chamando amor de “cardápio de boteco vagabundo” e ele, ao perceber minha cara de “você tá sendo escroto”, coça o redemoinho da cabeça e tenta se explicar: “Eu ainda amo o meu ex-namorado, mas, sei lá, ele é chato pra caralho e ultimamente não quero ninguém enchendo meu saco. Esses caras do Grindr, não. Esses caras chegam aqui, tiram a roupa, transam e depois não me dão nem um ‘oi'”.

Dos três que renderam um sexo pós-cerveja (um no domingo, um na segunda e outro ontem), ele gostou “um pouquinho” de um, mas não o suficiente pra transar de novo. Então, depois de uma semana recrutando rapazes e sair com alguns e transar com outros, ele atirou todos os pretendentes numa enorme fogueira e ficou sem companhia pra almoçar hoje. Por isso ele está aqui em casa comendo batata frita comigo. Me deixando mais triste e escolhendo a dedo “quem do Grindr que mora perto da minha casa vale a pena”.

Qual o problema deste último que você não quer responder? Ele não sabe me explicar. E os outros que você começou o papo e parou minutos depois, o que eles tinham de errado? Ele não sabe dizer. Alguns minutos digitando sem parar, rolando a barrinha do aplicativo, ele me avisa que vai embora. Mas antes de se despedir me diz que cansou dessa coisa digital onde as conversas beiram a pau e bunda. “Sinto falta de ir lá fora e paquerar num bar, vou sair dessa bosta”.

Ele vai embora da minha casa e fico me perguntando se “bosta” é o aplicativo ou o uso que as pessoas, inclusive ele, fazem do app. Se “sair dessa bosta” significa desinstalar o Grindr ou desbloquear o medo que ele tem de uma relação e voltar logo com esse ex-namorado que ele tanto ama (e aceitar de uma vez que todo relacionamento com o tempo fica chato mesmo).

Apesar de eu não pensar fazer parte do Grindr, preciso ser honesto e confessar que já estive, nos últimos dez anos, numa espécie de cardápio pro mundo. Ser o último a sair da festa na esperança humilde e triste e cruel de que aconteça alguma coisa interessante. Esperando, algumas vezes numa social ruim, outras na casa de duzentos amigos que querem pedir um delivery de pizza e convidou outros duzentos amigos legais, conhecer um cara bacana pra conversar, beijar na boca ou dormir de conchinha. Esperando, algumas vezes misterioso numa foto em preto e branco no Sul e outras mais desesperada, numa foto sem camisa mordendo o travesseiro, alguém que vale a pena para me apaixonar ou apenas transar. Usando óculos que cobrem 70% do rosto, fotos do pescoço pra cima e com close só na barba, porque todo mundo tem medo de não ser gostado, de não fazer um tipo, de não ser aceito como é.

Mas nem por isso eu fazia entrevista com meus pretendentes ou deixava eles em vácuo eterno porque eram gordos, feios ou moravam longe. Estar esperando alguém nunca me fez ser uma picanha no açougue. Nunca fui uma coisa no cardápio vagabundo do boteco que serve pra “se tiver com fome mais tarde eu pego”. Vários caras podem até ter me visto dessa forma, mas, assim como o Grindr, era o mau uso da ferramenta.

Julguei tanto o meu amigo por estar num aplicativo como esse: “Porra, você tão apaixonado, ia casar e tudo, agora enterrou seu amor no Grindr?”, mas acabei julgando o que meu amigo estava fazendo com o Grindr e falando mal dele pra todos os caras e, principalmente, pro ex-namorado dele que com certeza vai ler este texto.

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