Mas como vocês vão fazer pra ter um filho?

Por que diabo fui contar pra minha mãe que eu e meu namorado estamos planejando ter um filho? “Tá na hora de desacelerar mesmo. Pensar na sua família. Você só faz estudar, trabalhar, estudar, trabalhar. Homem também tem relógio biológico, tem que ter energia, não pode parecer o avô do seu filho”. Fiquei mudo ouvindo o discurso dela. Eu quis argumentar algo na linha do “quero, mas não agora”, que planejamos, sim, ter um filho. Mas isso daqui a, em média, cinco anos. Ainda tem o apartamento pra terminar de financiar, quitar algumas dívidas, pensar no meu casamento, guardar dinheiro porque filho só faz gastar, só faz gastar, enfim, mais um tempinho pra arrumar a minha vida. Ela não quis me ouvir e, num impulso, postou três vídeos no Facebook. Teve o do bebê, com cabelos arrepiados, batendo perninhas e rindo alto; teve o bebê fitdance dançando no berço, bastante animado, com coreografias estranhamente não ensaiadas e teve o bebê rindo, sem pudor, de imitações de pum.

No sábado à tarde, tia Izildinha fez um bolo gigante de cenoura com calda de chocolate, especialidade dela, e convidou algumas vizinhas e outras tias. Conversa vai, conversa vem, ela disse não entender muito bem “essa coisa de casal gay ter filho”: “Mas como vocês vão fazer?”. Todas as vizinhas e tias e até a minha mãe ficaram caladas, meio envergonhadas. “Método natural com alguma amiga? Inseminação? Adoção? Adoção é mais chato, deve ser horrível criar filho dos outros”. Fiquei mudo, e minha vontade era continuar mudo até meus cento e quatorze anos, quando eu daria um grito imensurável, vibrante, e então morreria.

Na segunda-feira pela manhã, fui acertar um freela no jornal. No RH, o cara, preenchendo minha ficha, quis saber do item não preenchido: “Nossa, você tem uma formação muito boa… e filho, você tem?”. O bonitinho ao lado, um amargo que o quadril mal cabia na cadeira giratória, se apressou: “Com essa carinha de menino que ainda mora com mãe? Claro que não”. E os dois riram, sem fazer cerimônia, dando graças a Deus de terem tido filhos na adolescência, arriscando não terminarem o ensino médio, como se isso tivesse compensado. Olharam meus olhos descansados por falta de olheiras (porque agora durmo às dez da noite) e zombaram de mim, como se eu fosse um ser egoísta que quer o posto de filho por toda a vida: “Quem é pai trabalha dia e noite pra bancar as necessidades da criança, não tem tempo pra descansar um pouquinho”.

Eu vi meu namorado pela primeira vez e tive certeza que ele, mesmo sendo cheio de defeitos, seria o homem certo pra ser o pai do meu filho. Que relação não tem suas crises? Às vezes ele vai embora. Às vezes eu vou embora. Às vezes a gente acha que acabou. É ele que eu quero mesmo que tenha um filho comigo? Sou eu mesmo o escolhido pra ser o pai de um filho dele? Quem diz isso? Quem diz pra você “olha, caralho, você passou a vida inteira querendo arranjar um homem bacana, é ele, agarra esse homem”?

O bullying da família e dos amigos (e das pessoas do meu trabalho, do supermercado e padaria), disfarçado de “não leve a mal, só falo porque quero o seu bem”, começou depois que fiz três anos de namoro. Eu recebo mensagens de todos os tipos, mas os conselhos se resumem a: “Não pensa muito, Murilo, filho não é o fim do mundo. E se o seu namorado quer, por que não agora? Depois fica muito pior, a gente perde a paciência”. Há também os “olha como sou queridão” que mandam links “você não precisa ter filhos pra seguir um modelo heteronormativo da sociedade”. Os dois tipos têm a mesma função: se meter na minha vida.

Escrevi dois livros, estou terminando uma peça de teatro, a segunda faculdade e um curso de cinema. Mas me olham como um homem perdido, oco, adolescente, que cuida mais da vida profissional do que pessoal. Falei pra minha psicóloga que “quero, mas lá pelos 35”. Ela, pausadamente, me disse que “decidir o que acontece amanhã, não é decidir, é deixar que o tempo resolva por si só o que vai ser amanhã”. Ontem passei em frente a uma lojinha de bebê no Shopping Barra. Pela vitrine, olhei algumas roupinhas. Vi alguns pais felizes lá dentro, achei aquilo muito bonito. Preciso mesmo desacelerar a minha vida a partir de amanhã. Mas, agora, se você me encontrar na rua, saiba que o que eu preciso mesmo é de um abraço muito forte.

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