Você não deixou de amar o homem da sua vida, às vezes você só está cansado da relação

Um tempo tomando café, saindo, fazendo conta, dormindo junto, sem brigar, sem sentir ciúme, se entendendo, com espaço na cama, no guarda-roupa, dividindo gostos, lugares, sabendo de cor opinião e críticas, com uma escova de dente dele no seu banheiro e uma escova de dente sua no banheiro dele. O que a gente faz pra rotina não engolir a relação, o namoro? Tenta simpatia, espiritismo, reposição energética, faz terapia de casal? Viaja pra Búzios pra mais uma lua de mel forçada toda vez que o amor estiver ameaçado por um dedo no gatilho?

Pela manhã preciso dar aula de literatura. Depois, devo passar na agência de publicidade que faço um freela pra resolver uns problemas. Em seguida, preciso ir ao dentista e sair às pressas pra acertar com o técnico da SKY a mudança de lugar da antena na minha casa. E, por último, preciso passar na Cultura pra comprar três livros importantes pra seleção do mestrado. À noite, volto pra casa. Às sete, você chega. Segunda, o dia que a gente combina de se encontrar, pedir uma pizza, beber alguma coisa, falar da vida, rir de coisas bizarras do dia a dia, passar num cinema e, finalmente, transar. Mas, nos últimos meses, isso tem sido cada vez mais raro. Você chega, coloca sua bolsa carteiro em cima do banquinho amarelo de madeira, me dá um beijinho automático, pega chá mate na geladeira, e se joga no sofá.

No dia a dia (cara a cara ou por mensagens no celular), havia esquecido como meu namorado é bonito. E ele também esqueceu disso. Esquecemos, inclusive, de conversar sobre a nossa relação, sobre o que a gente sente, sobre o que irrita, sobre o que dói. Falta a gente. Há um cara no meu sofá, meio mal-humorado, bastante concentrado num joguinho de videogame ou quase sempre olhando pra um ponto fixo na parede branca da sala até berrar o primeiro ronco. Suas camisas esquecidas na área de serviço, agora estão penduradas no armário, passadinhas, e me encaram toda vez que eu abro a porta, um tanto tristes porque fui mais receptivo do que deveria com outras coisas, com outras pessoas.

Na sexta, quando ele estacionou o carro na garagem do prédio pra tirar as compras do supermercado do porta-malas, eu tive certeza que alguma coisa não estava bem. Mas não só sexta, não ontem, não hoje, mas há algum tempo nada anda bem entre a gente. O que é que tá acontecendo? Não tá acontecendo nada, ele diz. Eu só estou cansado e com preguiça, ele explica. E se joga no sofá pra jogar mais um joguinho imbecil no videogame e fica lá o dia inteiro.

A gente não sente mais vontade de transar, de esperar pra almoçar junto, de sair no fim de semana. Não acho que ele tem outra pessoa. Não acho que é o fim do amor. Não acho que uma relação aberta vai resolver nosso problema. Mas a verdade é que com o tempo eu passei a não admirar mais. Eu amava ele. Eu ainda amo. Mas com o passar do tempo eu comecei a achar ele meio acomodado, meio desistido, meio preguiçoso, meio conformado. Assim, encostado. Encostado nele mesmo, no que ele já conquistou. Encostado numa zona de conforto, sabe? Pra que se esforçar numa carreira acadêmica, pra que ter diploma em Portugal, pra que planejar tanto. Pra ele tá bom aquilo. Pra quê? Pra que mais? Pra quê?

Estes cartazes que a gente vê na rua que dizem “trago o seu amor de volta” iriam causar furor se prometessem trazer de volta a paixão, a conquista, a adrenalina dos primeiros dias (ai, meu Deus, que saudade!). Eu preciso de estabilidade nas relações, mas também preciso de desafio, de novidade, de mudança. Será que a gente se acomodou à falsa sensação de que ainda é amor? Será que não chegou a hora de, mesmo amando o homem mais incrível do mundo, colocar um ponto final?

“Será que terminar o namoro é a solução mais fácil, Murilo? Deu problema troca ao invés de consertar? Será que dá pra construir alguma coisa na vida assim desistindo nos primeiros impasses, nas primeiras dificuldades, nas primeiras crises, colocando culpa num videogame? O que você tem feito pra fazer valer essa relação? Independente do seu namorado, você se interessa por você mesmo? Você investe na sua cabeça, no seu corpo, nas coisas que você gosta individualmente? Você tem uma dieta diária mínima de gratificação, de alegria? É muito difícil a gente sentir desejo no déficit, de saco cheio, se sentindo cansado, feio, sem admirar. E da mesma maneira é difícil despertar desejo no outro no déficit. Se um dos parceiros estiver no vermelho ou, pior, ambos estiverem no vermelho, você pode ter certeza que vai dar algum problema. E, pelo visto, já está dando”, diz minha psicóloga.

Pela janela do Uber, rodando ruas e parando em semáforos, lembrei de quando o vi pela primeira vez. Eu achei o nariz dele, o queixo, a boca fininha e extremamente vermelha, os ombros imensos, as pernas esquisitas, a falsa arrogância cheia de argumentos e contornos e delicadezas e gentilezas, o olhar de interesse omisso, o sorriso pelo canto da boca de “fica, eu gosto do seu jeito”, as coisas mais lindas do mundo.

“Nem sempre você deixou de amar o homem da sua vida, às vezes você só está cansado do caminho torto que a relação tem levado. Mas o bom disso tudo é que, se você e ele enxergam como amor, é porque dá tempo de recuperar”, lembro da voz da minha psicóloga.

Depois de anos namorando um cara legal, precisei juntar os meus caquinhos de afetos pra me apaixonar perdidamente pelo homem mais legal que já conheci. Cheguei em casa e ele tava lá largado no sofá, com a preguiça de sempre. Com um controle de videogame na mão, eu era agora a dupla dele pra derrotar outros jogadores online. E ele se surpreendeu. E a gente riu. E a gente pediu pizza. E a gente, finalmente, voltou a ter desejo de transar. É isso. A felicidade não exige, só precisa ser enxergada por outro ângulo. E quando você se dá conta disso, ela deixa de ser uma espera infinita e passa a ser uma hora, um minuto, um segundo. E é de horas, minutos e segundos que se faz a vida.

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