Grupo da família é nosso novo lugar de tortura

Na infância, ouvi enquanto fazia pinturas de Natal na escola, e também na aula de religião, e depois quando minha mãe lavava meus cabelos, que nada era mais importante que a família. Setenta pessoas numa mesa, umas falando mal das outras, com barrigas entupidas de comidas e olhos vermelhos de álcool, com a desculpa de comemorar o nascimento de Cristo, me parecia o call center do inferno. Mas eu devia estar completamente errado. Se eram parentes felizes, se meus primos corriam pela casa, se minhas tias se dedicavam à ceia, o que havia de errado? E me forçava a ir. E ficava arrumadinho na sala. Cabelo lambido. Sapato limpo. Retinho no sofá. Depois eu tinha febre de quarenta graus e dor de cabeça e inchaços estomacais e alergias. Um dia, uma hora, depois de tomar um chazinho, um remédio, isso acabaria passando, os adultos avisavam. Eu só tinha que aguentar.

Durante a adolescência, me obriguei a fazer aquelas viagens pra visitar minha avó no interior, em janeiro, com todos os primos e tios e tias e desconhecidos levados por primos, tios e tias. Mil pessoas e um banheiro. A alegria histérica dos machos que falavam mal de namoradas, dos que falavam abertamente sobre traição, dos que brigavam por banalidades e agrediam verbalmente por banalidades. Era tão sofrido, tão sofrido, que eu tinha gastrite emocional, diarreia emocional, amigdalites que sufocavam a garganta e rinite alérgica de arrancar os fiozinhos de cabelo com uma só coçada no nariz. Eu queria voltar pra casa, me trancar no quarto e ver televisão sem ninguém encher o saco. Mas se é família. Mas se tem que amar porque é família. Mas se eram férias e estavam todos querendo e indo. Em algum momento eu acabaria gostando, as pessoas avisavam. Eu só tinha que aguentar.

Este menino chora porque você mima muito. Esta menina não come porque você não obriga. O menino vai ser viado se ficar nesse grude com a mãe. A menina vive de pernas abertas porque a mãe dá pra todo mundo. E assim essa família que a gente TEM QUE AMAR vai comentando em todas as festas, todos os carros, todos os domingos de praia, todos os aniversários, todos os batizados.

Na infância, é certo, fomos torturados por alguém da família. O tiozão machista que quer saber onde andam as namoradas, assim no plural (não sei quem avisou sobre a heterossexualidade do sobrinho); a tia que casou e se separou e casou de novo só por conveniência e que se junta a uma outra tia que casou e se separou e casou de novo só por conveniência e que soltam pum e riem das desgraças alheias (e detestam mulheres e mulheres grávidas que estão esperando meninas) se juntam às senhoras que rezam o terço às seis e que odeiam outras mulheres (e também soltam pum e riem das desgraças alheias).

Toda família, apesar do bando de insuportáveis que se amam porque são insuportáveis, há um ou outro que, em algum momento da vida, olha ao redor, vê todos felizes e não entende nada. Esse um ou outro acha que só pode estar maluco ou desacostumado ou doente pra achar todas as opiniões da família detestáveis. Não, esse um ou outro não é “estranho”, não é “de outro mundo”, só acha insuportável ter parente e conviver com parente e, sobretudo, ser obrigado a amar parente.

Um dia, esse um ou outro, que desde criancinha não tinha coragem de gritar, começa a ouvir o próprio narrador da cabeça e construir a árvore genealógico: o tiozão do churrasco que defende a intervenção militar, a namorada do primo (que nem é parente) que insiste em dizer que nunca houve ditadura no Brasil; a tia viciada em fake news que, sem senso crítico, só compartilha textos sobre “Chico Buarque na Europa fumando maconha na ditadura, fingindo que estava exilado”; e todos juntos, pessoas que se autodenominam de “gente do bem”, que não veem problema num novo regime militar em que brasileiros possam desaparecer, morrer afogados, queimados, eletrocutados, asfixiados.

Esses monstros disfarçados de parentes agora não se reúnem apenas em ceias e em sombreiros de praia pra berrar ódios e expelir violências. Eles agora estão enturmados em “grupo da família” no WhatsApp, o parquinho virtual de gente louca, cruel e sem noção. É lá que esses ignorantes detonam nossos defeitos, apontam o dedo na cara, não se sentem mal por dizer que fulana engravidou porque é puta, fulano tem que apanhar da polícia porque é maconheiro, fulaninha é casada, mas é sapatona, o vizinho é viado enrustido e à noite vive enchendo a casa de homem, não sei quem é gorda, o outro é doido e vagabundo porque é petista e inventou de estudar filosofia na Ufba. 

Passamos a infância e a adolescência desesperados por amor, mas só recebemos patadas e ordens e reclamações dos nossos queridos parentes. Ficamos com vergonhas de espinhas, de barrigas, de roupas. Ficamos à mercê dos olhares dessa gente toda pra tentar decifrar alguma crítica. Nos tornamos adultos tristes, inseguros e, às vezes, até julgando novos membros da família (mas se autocriticando pra não cair no mesmo erro). Tudo isso por puro curso de especialização em tortura promovido por parentes. Estou cercado de gente que não fez terapia e cansei de achar que isso é problema meu.

Graças a eles e essas mensagens diárias de ódio, eu ando muito triste, sem vontade de sair de casa, de ir aos lugares que frequento, de conhecer pessoas. Acho que se alguém me abraçar na rua, desmorono em lágrimas até secar. Se alguém me disser “a gente tá junto, vai ficar tudo bem”, trago pra morar comigo.

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