Um metro e oitenta e dois, charmoso e discreto

O carro estaciona e ele dá um beijo de despedida num cara. Coisa rápida. Sei porque, apesar do vidro fumê, ele se descuida e deixa um pouquinho da porta do carona aberta. Até chegar à mesa, ele anda com coluna retinha, bermuda da Salve Terra, camisa da Limits e um Adidas nos pés que serve tanto pra academia quanto pra qualquer outro lugar. Você não sabe de onde ele veio ou pra onde ele vai.

Ele, o homem discreto, se encontra com amigos discretos, no canto de uma mesa discreta do bar, não abraça e nem dá beijinhos, simplesmente dá um tapinha no ombro com uma mão e faz uma piada máscula da barriguinha de um, do tríceps do outro.

O homem discreto deixa o celular no silencioso. Pra atender uma ligação, ele levanta da mesa e fala bem longe de você. E ninguém sabe se ele tá falando com um affair que ninguém conhece ou com uma avó que esqueceu de pagar o condomínio. Quem é o cara que ele deu um beijo na boca dentro do carro com os faróis apagados? Onde eles se conheceram? A família sabe? Eles moram juntos? Ele tá feliz? Você nem sonha. Ele não conta pro terapeuta nem ao melhor amigo. Aliás, você nunca vai saber se ele tem um terapeuta ou um melhor amigo.

O homem discreto deve ter 35 anos. Não dá pra saber só de olhar. Talvez ele more na Barra. Pituba. Imbuí. Veio da Chapada Diamantina. Ele é de Porto Seguro? Santo Amaro? Rio de Janeiro. Você deduz, desconfia. Quando você tenta ver o que ele guarda na carteira, dá um segundo e ele enfia no bolso. E você louco pra descobrir, ao menos, se ele tem ali a foto de alguém que sente saudade.

O carro dele tá no conserto. Deve ser preto, branco ou cinza, quase certeza. Ele gosta de música, porque um pedaço do fio do fone de ouvido sai do bolso. Mas o que será que ele ouve? Nada. Você não sabe porra nenhuma do homem discreto.

Numa social com os colegas de trabalho, às  sextas, alguns até tentam uma conversa animada, mas ele se limita a sorrir. Nada muito alto. Numa confraternização de fim de ano, ele sempre chega depois, fica alguns minutos e desaparece em segundos. Sempre muito ocupado, mas com o quê? Em um show, ele jamais canta as letras, fica no canto, no fundo. Não rebola, não tem euforia pelo artista, não fica suado, não beija ninguém. Aliás, quem é que já encontrou esse homem em algum show? Ou em algum lugar? Mas era ele, não era? Você não sabe se esse cara é gay ou bi ou se ainda tá no armário. “Mas ele não parece gay”, as pessoas dizem. E tá sempre rodeado por uma loira de óculos escuros ou um bombado que ninguém sabe quem é.

Dizer seu nome ao apresentá-lo a alguém basta. Nada de dizer onde trabalha, o que faz, traumas de infância e dores que sente pelo corpo. Fazer um comentário maldoso desse rapaz é o maior erro que você pode cometer na vida. Ele faz a linha “sou homem e não gosto de fofoca”. Não fala de ninguém e muito menos dá assunto pra alguém falar.

A maioria dos caras deseja loucamente esse homem discreto. A maioria dos caras deseja loucamente ser esse homem discreto.

E eu, como estava dizendo, sempre quis ser um desses homens que ninguém conhece inteiramente. Desses que ninguém consegue interpretar à primeira vista. Impenetrável, inatingível, inaudível, calmo, misterioso e incompreensível. Mas nunca consegui. Quando vou ver, já contei minha vida inteira, bêbado, na porta do banheiro de um bar qualquer pra uma pessoa qualquer que me deu um pouco de atenção. Quando vou ver, já tô rindo alto, sem a menor discrição, na mesa de um restaurante silencioso, porque não me controlei de tanta felicidade. Quando me dou conta, já escrevi um texto sobre algum namoradinho da semana passada e publiquei na minha coluna na internet. E o namoradinho da semana passada tá morrendo de medo porque escrevi que tô gostando dele. E se ele não gostar de mim, minha decepção não será segredo pra ninguém a ponto de ser eternizada num texto.

E passei séculos me odiando por isso. Até que resolvi conviver com vários rapazes discretos pra tentar entender como eles conseguem ser tão misteriosos. Como eles conseguem ser tão incríveis? Descobri que os rapazes discretos são chatos. Não sentem verdadeiramente a dor, temem sorrir de verdade, temem chorar de verdade, temem cantar, temem dançar, temem morrer de raiva, temem fofocar, temem sonhar em voz alta, temem revelar por puro medo de serem julgados. Os rapazes discretos, impenetráveis, inatingíveis, inaudíveis, calmos, misteriosos e incompreensíveis, tão admirados e desejados por todos, não têm a menor graça, a menor profundidade, a menor coragem. Eles não calam por mistério, por personalidade, ou discrição. Silenciam porque simplesmente não há nada mais atraente que eles sejam capazes de ter.

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