Quem é louco de namorar um escritor que se expõe na internet?

Meu Deus, como se tornou difícil arranjar um namorado. Mesmo seguindo o manual de instrução de todos os meus amigos, o guia do desespero pra desencalhar, juro, a coisa não anda. Quando eu tinha dezenove, vinte e três anos, choviam homens querendo coisa séria comigo. Querendo namorar depois de duas semanas. Querendo conhecer a minha família e o meu mundo.

Eu era um menininho deslumbrado com o jornalismo, com camisa xadrez de botão sobreposta por camiseta branca básica, semivirgem, rosto cheio de espinhas, óculos enormes, cabelo lambido de gel e com medo de não conseguir voltar da balada antes das dez da noite. Choviam homens. E homens bonitos, interessantes, gente boa. Aí agora, com vinte e sete anos, livro publicado, roteiro de cinema e teatro, academia seis vezes por semana e me vestindo bem melhor… Nada!

Os caras até se apaixonam por mim. Fazem aquela cara de “não vou conseguir viver sem você”. Se declaram, me beijam com vontade, coisa e tal, mas nada de me esperar num restaurante romântico, de me levar de mãos dadas ao cinema, de querer passar o Réveillon numa pousada bonitinha. Eu, meu armário da moda, meu cabelo descolado, meus textos publicados, minha barba charmosa e minha vida adulta vivemos sozinhos.

Socorro. O que é que eu tinha no início dos vinte que hoje eu sou incapaz de ter? Não, não era um corpo melhor. Eu era magricelo. Bem feinho. Agora eu posso pagar a Pedro, meu personal que grita pra “parar de comer carboidrato à noite”. Também melhorei de cabelo, de pele, de companhia. Só frequento lugares bons, com pessoas bem-humoradas e inteligentes. Meus melhores amigos estão aí pra confirmar. Sempre que me encontram, eles comentam: “ai, Murilo, como você ficou melhorzinho depois de uns anos”.

Socorro. Qual é o problema então? Será que me falta aquele brilho nos olhos de quem colocava a relação em primeiro lugar ao invés do trabalho? Será que me falta aquela “zero malícia” que eu tinha aos vinte? Ah, mas eu não era exatamente inocente, eu só era bobinho. Daquele tipo boboca que o cara leva pra casa, pergunta se quer conhecer o quarto “pra ficar mais à vontade” e aviso que “não dá porque preciso acordar cedo”. Que homem gosta disso e tem tempo a perder com isso, com uma oferta gigantesca de gente querendo transar em sites de relacionamento e aplicativos?

Será que os caras sentem falta de quando eu era estagiário, ganhava quatrocentos e oitenta e dois reais por mês, e avisava que não tinha como pagar a cerveja? Pode ser. A maioria dos caras adora se relacionar com gente que depende só pra que eles se sintam seguros com um menino que ainda tá aprendendo o que é a vida. É mais fácil ser o fodão do sexo com um inexperiente ou o fodão da gastronomia com um rapazinho que paga o Burger King com ticket refeição. É, eu exigia, cobrava e assustava bem menos no comecinho dos vinte. Mas será que é só isso mesmo? Descobri que não.

Todo santo dia um mala me canta. Mas os que me interessam são os que eu vou atrás, os que não perdem tempo me paquerando porque estão em 987 projetos. Só que passei os últimos dois anos encarando vários relacionamentos, com caras de perfis diferentes, incluindo os malas, como estudo antropológico. Finalmente desvendei o grande problema de estar sozinho: os caras têm medo, creia, dos meus dedos afoitos a digitar. Dos meus textos gigantes com detalhes minúsculos. Dos personagens cruéis que eles dão vida nas minhas crônicas onde apareço desnudo. Dá pra acreditar?

Alguns me criticam. Acham que há muita arrogância nessa coisa de me esfaquear em praça pública. Não entendem por que veias e fezes e sangue importam a ponto de serem mostradas para alguém.

Eles acham que se sumirem, no dia seguinte vai ter um textão expondo o que eles fizeram. Eles acham que se não forem inteligentes o suficiente numa conversa casual ou num bar com amigos intelectuais, no dia seguinte não vão escapar das minhas críticas num texto ácido e irônico. Já teve cara que me pediu “se a gente terminar, promete que me mostra o texto antes? É foda ver amigos compartilhando na internet”, como se eu precisasse de autorização ou de uma lista pontuada de “não é bem assim”. E teve também, óbvio, o clássico: “ei, a gente nem namora. Por que cê foi escrevendo como se a gente tivesse alguma coisa séria?”

Tem de tudo. Do cara que tem medo que eu escreva que dias depois da gente ter ido pra cama, descobri que ele tem namorado (ou, alguns, até namorada).  Tem também o “texto bonitinho pros outros caras e até agora nenhunzinho pra mim, hein?”. Homens que não suportam saber que você já namorou o amigão dele. E o amigo do amigão. E o amigo do amigo do amigão. Não sustenta namorar homem que não só tenha passado (e existe alguém com quase trinta anos que não tenha passado?) como resolveu escrever um livro sobre ele e expor sobre os outros machos que se relacionou.

Mês passado ouvi de um cara que tava gostando um pouquinho de mim: “não quero comprar seu livro, certeza que vou saber tudo sobre você e vai acabar com o mistério, a conquista”. Mas ele depois decidiu comprar o livro. E quinze dias depois ele sumiu. É aí que mora o problema. Eu escrevo sobre a minha vida e exponho isso na internet e nas bancadas das livrarias sem nenhum pudor. E isso causa nos homens um misto de medo “será que ele vai falar sobre o tamanho do meu pau?” e ao mesmo tempo rejeição “nossa, ele se expõe demais”, “qualquer coisa pode virar texto”, “ele vive me analisando”, “prefiro aqueles caras superficiais que vêm aqui, transam e ninguém nunca vai saber”. Eles gostam dos mudos e sem personalidade. Aí mora o problema.

Entrei numa baita crise. Conheci um carinha no começo da semana. Ele seria o primeiro homem do mundo que eu me relacionaria sem saber que eu escrevo. Eu me disse: chega. Pensei em tirar os meus textos da internet. Cancelar meu contrato na editora. Repensei meu trabalho, a minha vida. Aumentei a terapia. Mas depois, assim, meio distraído, com centenas ideias de textos, cheguei a uma conclusão maravilhosa: nasci pra escrever e escrevo e tem dado certo. E nenhum homem me deu mais prazer do que isso. Pra piorar, todos eles vão embora e os textos ficam. Então, que se danem eles. Ainda que isso, talvez, me custe muito caro.

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