Oi, você sabe me dizer se ele é bom de cama?

Basta puxar ferro na academia pra ficar com os braços mais definidinhos, os ombros mais abertos, o peitoral desenhado. Alguns ainda dificultam um pouco, esperando um ou outro assunto em comum ou uma piadinha mais elaborada. Mas a maioria topa mesmo sem perfumes atraentes, bundas durinhas e esforços cerebrais. Ir pra cama com um homem é das coisas mais banais que existe. A vida de um gay bem resolvido, cosmopolita e sexualmente ativa é como um andar inteiro vazio de uma galeria de arte, um relógio esquecido em algum canto de uma casa com 957 quartos, uma solidão assistida.   

O tesão acaba na manhã seguinte quando você acorda com ele ao lado digitando no celular, com o velho teatrinho de “tenho o dia cheio porque sou importante onde trabalho”, exatamente como todos os outros que já encostaram a cabeça no mesmo travesseiro. E você não tá nem aí pra esse cara. Você não tá nem aí pra o que ele é e o que ele faz. Você quer que esse homem simplesmente vá pra ducha, vista a cueca branca da Calvin Klein e suma da sua frente o mais rápido possível.

Então o bonitinho não falou nada interessante a noite inteira, dormiu na sua cama sem nem saber direito o seu nome e agora quer mostrar ao continente que sabe formar frases?

Acabaram os bons partidos que precisam de intimidade para se soltar. Acabaram os que precisam de uma escada (olhares, toques, mãos dadas, beijos) para abrir o zíper. Os que precisam de tempo para se doar. De um papo intelectual para ficarem excitados. De risos soltos e putaria no ouvido no meio do cinema e conversas malucas meio bêbados e abraços meio suados e indicações de filmes que ninguém nunca ouviu falar e trocas de livros para surgir algum interesse. De meses e meses de relatos profundos e almoços rápidos e jantares com vinho seco e festas chatas para adormecer ao lado. Com o mundo digital, com o cardápio cheio de opções nos aplicativos, a transa deixou de funcionar como uma demonstração de afeto e intimidade e virou necessidade física, descontrole de hormônios, liberação de fluidos.

A sensação de “esse cara é para poucos e deve ser bom de cama” foi substituída por “uns seis amigos meus já pegaram e disseram que é muito bom. Vou provar também”. É como se eles viessem em catálogos, com indicações de outros homens conhecidos (e algumas mulheres também), que dão notas sobre o desempenho. É tipo fazer pedido no iFood. Eles agora são apontados. Estão praticamente num outdoor dos bares e boates descoladas. Fotos de pau e bunda circulam em smartphones e esse é o limite. Eles são só isso. É basicamente fazer uma rodinha no meio de qualquer festa e perguntar: ‘oi, você sabe me dizer se ele é bom de cama?” sem nenhum pudor.

Sumiram os mocinhos que gostam de dificuldade, são seletivos e estão à espera de um amor. O galinha da faculdade que saía comendo todos os calouros no banheiro do bar que rolava o trote era popular lá na faculdade. Mas o cara que você conhece numa reunião de trabalho, aquele que se diverte contando que passou o rodo desde o estagiário até o vice-presidente do trabalho, não nos interessa mais. Quer dizer, podemos até reparar nele, mas, aos vinte e oito anos, me diz, que graça tem conquistar um cara que vai pra cama com qualquer um? Quem, em sã consciência, confia num cara que sai todas as noites e leva pra cama mais da metade da população da cidade? Sim, eu estou tendo um acesso de puritanismo ou tradicionalismo ou chatice ou sendo o oposto de muitas pessoas da minha idade ou odiado por muitos meninos novinhos a fim de dar, ou seja lá o que for. Só sei que cansei.

Quero parar e quero um mocinho que goste de dificuldade e que mereça que eu pare. É que com dezenove anos a gente até acredita que “sexo é uma questão de desejo e química do momento”. E com vinte e cinco também não pode falar muito porque sai arrancando botões de camisas com total desespero. Mas, aos vinte e oito anos, pertinho dos trinta, com alguma matu­ridade, não sei vocês, mas eu ando preferindo o homem difícil, sem euforia, dedicado, bom moço. Aquele que, ao invés de trazer DST e longas noites sem resposta, provoca uma vontade nova e profunda e verdadeira de se arrumar por mais uma noite, sair de casa por mais uma noite e dançar bem colado por mais uma noite com a mesma pergunta: “Será que é hoje que vai rolar?”.

Ah, eu sei. Também não estou acreditando que escrevi este texto. Rezem por mim.

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