Meu namorado está viciado em jogar Roblox

“Até que enfim”, penso quando vejo ele largado no sofá, cochilando de boca aberta como qualquer ser humano normal ao invés de ter o celular escorregando pelas mãos ou desmaiado em cima do peito. Mas basta lavar duas ou três louças ou pegar um copo com suco na geladeira e voltar à sala que lá está ele com o celular de novo preso às mãos: focado, olhos arregalados, ombros enrijecidos, nuca tensa, pernas escancaradas, suado. As veias explodindo da garganta graças a um empenho nunca presenciado antes em alguma resolução de problema da minha casa ou da própria vida dele. Quem vê de longe até se assusta. Vai que é AVC. Vai que é infarto. Nada, querido. Meu namorado está viciado em jogar Roblox.

Meus amigos acham que é um problema pequeno, que eu tô procurando DR com banalidades. Mas a verdade é que (mesmo depois de ter exposto meu incômodo na terapia e mesmo depois de ter autocriticado meu incômodo e mesmo depois de pensar bastante sobre o incômodo por diversos ângulos) tenho comparado o meu namorado com os namorados dos meus amigos. Daniel, namorado de Vítor, por exemplo, não é um cara nem bonito nem interessante; mas um dia, lavando o cabelo, pensei: “Puta que pariu, Daniel tem um charme, né?”. Daniel resolveu milhares de problemas da nossa festa de Réveillon praticamente sozinho, colocou duas grades de cerveja nas costas. Daniel intercalava um “deixa comigo” com um “fique de boa, eu resolvo”, umas quinze ou vinte vezes em menos de doze horas. Enquanto a casa estava uma bagunça (com o entregador de água berrando no interfone e carne do churrasco quase sendo tostada), meu namorado comemorava ter ganhado 450 roblox.

Combinei conversar com ele ontem assim que ele chegasse do trabalho. Lábios apertados e nenhuma piadinha, sinal de papo sério. Ele achou que eu vi alguma coisa no Facebook e já foi logo se explicando, dizendo que ele não tem controle sobre os comentários dos outros. Até parece que eu tô preocupado com esses modeletes de chapéu de palha e camisa florida que não sabem nem o que é um vocativo. Tem coisa bem mais urgente acontecendo na nossa relação, meu bem.

Suportei os primeiros anos, tentando entender que se relacionar é ter que aceitar as diferenças. Suportei os anos seguintes, levando o incômodo pra terapias lacanianas e freudianas “talvez eu tenha dificuldade de ver a infantilidade que eu renegue ter”. Mas, depois de meses tentando, depois de meses lendo milhões de teorias psicanalíticas, depois de meses fazendo depilação sem sucesso, que se foda a meditação: eu te imploro, desliga esta televisão, este iPod, este aplicativo, esta porcaria AGORA ou eu vou te largar pelo bisavô de algum amigo ou enlouquecer de tanto tempo sem sexo.

Fica difícil namorar um homem desses que não tá nem aí pro namorado pelado na cama. Fica difícil namorar um homem desses que não faz piadinha com as minhas saídas de banheiro enrolado na toalha. Posso parar de comparar ele com todos os namorados dos meus amigos (inclusive Daniel, que a essa altura, me vendo espalhado na cama, sem nenhuma peça de roupa, com certeza me diria “deixa comigo” ou “fique de boa, eu resolvo”. Então, amor da minha vida, te peço uma coisa: chega dessa musiquinha de perdas e conquistas que sai da caixa de som do seu Iphone. Volte a ler a Carta Capital e a reclamar dos rumos do país. Ande pela casa reclamando de dor na lombar porque você passou mais de vinte e quatro horas pensando em como rever algum projeto que não deu certo. Me ajude a não acordar com um misto de culpa e autopiedade por ter sonhado com idosos transando comigo na aula de pilates.

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