Eu não gosto de quem não amo e ponto final

O primeiro me espera por horas num daqueles banquinhos de madeira sem encosto do Mercadão CC. Diz que até Paulo, o segurança, já sabe que eu sou como sou de tanto que ele não tem outro assunto. Ele me espera, pede outra cerveja e outra cerveja e outra cerveja e fuma mais um cigarro e come mais um pedaço de pizza. Meio inseguro, pede aos meninos do bar uma opinião sobre um bom vinho pra mim. Meio nervoso, limpa a cara oleosa no guardanapo, depois joga o papelzinho embrulhado numa lixeira entupida de copos descartáveis. E vai esperar por toda a noite. Coitado. Mal sabe ele que acabo de mandar uma mensagem no WhatsApp pro segundo, num áudio de oito segundos, dizendo que vou chegar em minutos.

O segundo me espera com a porta do banheiro escancarada, cantarolando enquanto ensaboa o pau e o rabo numa busca pela pureza. Safado. Ele quer putaria comigo, mas daquele tipo de putaria pura com direito a perguntar no ouvido “tá gostoso, amor?”.

O terceiro quer me esperar não muito longe dali. Mas antes ele se prepara pra encontrar os amigos, tão deliciosos e cafajestes quanto ele, num daqueles bares lotados da Barra. Cafajeste. Ele usa o mesmo perfume que eu, mas numa intensidade de barrufadas mil vezes mais forte. Seu charme está em transformar a própria dor em sarcasmo, em passar a noite inteira fazendo piada com os amigos. Adoro pessoas que já sacaram que a vida é uma merda, mas que não têm pra onde correr e então decidem dar a cara a tapa. Talvez se eu encontrar esse bonitinho, a gente passe a noite inteira bebendo, transando e disparando frases sarcásticas entre uma bebida e uma transa, num ato de pura sinceridade alta no meio de tanta gente insossa desta cidade corretinha.

A cidade corretinha que aparece no Instagram comemorando com a “família tradicional” com champanhe em alguma boda disso ou boda daquilo, mas se entope da porra do Frontal ou qualquer genérico do Alprazolam, mas se entope da porra do Xvideos e Playboy TV com aquelas loiras completamente nuas, de salto alto e sobrancelha desenhada a lápis, se pegando com aqueles negões extremamente bombados e com o pau do mesmo tamanho do braço. Mas se entope da porra dos comentários sobre chegar lá. Seja do tio que “comprou o primeiro carro aos dezoito anos com a bolsa do estágio” ou do primo que “conseguiu abrir um escritório antes de se formar na faculdade”. Vão se foder todos vocês. Ninguém nunca chega a caralho de lugar algum.

O primeiro bebeu tanto, esperou tanto, que resolveu pedir a conta e ir embora. Bebeu o vinho sozinho, o coitado. Se tenho pena? Nenhuma. Nenhuma. Juro. Vou cavando até achar o limite do meu ser, querendo resgatar um pouquinho de sensibilidade que sobrou na minha alma. Mas, tadinho, mesmo me virando pelo avesso percebo que não tenho nenhuma pena dele. Não consigo gostar de quem não amo e ponto final.

O segundo tá lá me esperando na cama com o pau explodindo na cueca. Bebe mais um copo de energético pra aguentar o pique, o safado. Chego no Uber e pego no bolso uma cópia da chave da casa dele me sentindo o dono do pedaço. Ao menos por algumas horas eu serei dono de um pedaço que até poucos minutos era ensaboado no chuveiro. A putaria esperada é muito mais pura do que os excessos de raiva escondidos nas bodas disso ou bodas daquilo. Então vamos deixar as coisas às claras aqui: não consigo gostar de quem não amo e ponto final.

O terceiro encontra os amigos tão deliciosos e cafajestes quanto ele e vai virar a noite num daqueles bares lotados da Barra. Talvez depois complete com um daqueles bares lotados do Rio Vermelho. E depois vai querer um after comigo em algum motel pra esvaziar o tesão após a bebida. Se perde muito para tal, o cafajeste. Música e dança e álcool e conversas banais. De novo ele gastando dinheiro e tempo. Mas ganha alguma coisa, sim. Sempre se ganha alguma coisa. Talvez uma virose ou uma herpes ou mais uma pá cavando um pedacinho do buraco no peito. Sempre se ganha alguma coisa na noite.

O primeiro bebe outro Engov pra  não acordar com ressaca por ter misturado vinho e cerveja. Ele queria dormir de conchinha, o coitado, mas acaba deitando em posição fetal. Antes de dormir, ele coloca uma daquelas músicas em inglês que toca em todas as rádios e novela da Globo e tenta entender qual é o meu problema. Eu não fui porque peguei trânsito, ele pensa. Eu não fui porque a coisa tá ficando meio séria e eu tenho medo do amor, ele pensa. Eu não fui porque tenho medo de sofrer, ele pensa. Ah, os homens carentes. Conseguem ser mais burros do que os homens que substituem a dor da vida pelo sarcasmo. Eu não fui apenas por uma razão: eu não consigo gostar de quem não amo e ponto final.

Eu espero comportado no sofazinho verde musgo enquanto ele termina de se esfregar. Sei que esse safado fez tudo às pressas porque ele aparece na sala com espuma de xampu na orelha. Homem afobado não sabe lavar orelha. Nós vamos mais uma vez nos olhar querendo transar até altas horas, mas vamos ficar analisando cenas de filmes antigos em algum canal brega de TV. Nós vamos mais uma vez querer ver algum filme juntos no cinema, mas vamos acabar parando em algum bar barato e vamos tentar falar inglês. Eu prefiro morrer seu amigo do que ser mais um em sua cama, do que quebrar nosso elo misterioso. E ter que te perder de novo e te perder pra sempre. Te perder como sempre.

Peço o Uber e corro pra encontrar o terceiro e seus amigos deliciosos e cafajestes. Ele tem o tronco enorme no alto das costas que vai diminuindo até a cintura. Coisa de homem sarado. Só não digo que ele parece com Klebber Toledo porque esse é bem mais branco e tem uma barba meio falhada. Se bem que ele é bronzeado porque só vive na praia e vive mexendo tanto na barba que ela já tá quase meio falhada. Parece Klebber Toledo.

Adoro sua virilha, sou obcecado por ela. Ele depila com barbeador e mesmo assim consegue deixar todos os fios do tamanho exato de quase nada. Adoro seus amigos sarados e as besteiras engraçadas que eles falam. Eles são leves de um jeito que muitos magrinhos jamais conseguiriam. Adoro tudo o que dói nele. Aquela coisa dele se sacanear sempre quando conta alguma parte da vida que deixaria uma plateia inteira com um nó na garganta. Adoro que posso encontrá-lo sempre depois das duas da manhã, sempre depois dos bares que eu não vou e das transas que eu sempre dou um jeito de fugir. Adoro que posso fazer ele existir ou nem lembrar que ele existe.

O primeiro acabou de abrir a minha foto de perfil em alguma rede social e dorme tentando me encontrar, tentando me entender. Mas como não consegue nem me encontrar e nem me entender, o coitado, o que sobra é dormir mesmo em posição fetal. Ele não sabe que tudo o que eu mais quero é casar e ser pai de dois bebês que dançam pelados antes do banho, com aqueles patinhos de borracha entupindo a banheira. Mas talvez esse seja um querer esquecido em algum canto de mim.

Ganhei a porra do sarcasmo no lugar da dor da vida. Ainda que seja pura tolice acreditar nele. Agora o que eu quero é saber que o primeiro se fode no pub, que o segundo se ensaboa no banho, que o terceiro me espera sempre depois das duas da manhã e tem amigos deliciosos.

Sempre dá tempo de ser um pouquinho mal com esses caras que no fundo só querem me usar. Respondo a mensagem do primeiro, que a essa altura já dormiu abraçado com um travesseiro gordão. Respondo a mensagem do segundo, que a essa altura, pra não ter que se masturbar, acabou transando com algum garoto que já encheu o saco. Respondo a mensagem do terceiro, que a essa altura deve estar transando com os amigos sarados e arrotando Whey Protein com álcool.

Eu continuo conhecendo, saindo e indo pra cama com mais de cinquenta homens. E mais uma vez acordando me sentindo sozinho. O cara de trinta e quatro anos que me espera no pub, o cara de vinte e seis anos que se esfrega no banho, o cara de vinte e nove anos que frequenta os bares lotados. Nenhum desses filhos da puta é você.

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