Fiquei ótimo bebendo Coca-Cola com sal até voltar tudo de novo

A última vez que senti esta coisa, eu tava na Linha Verde do metrô indo à Vila Madalena. Senti um aperto tão forte no estômago que pensei que fosse gastrite. Mas não era isso. Senti uma ânsia tão forte de vômito que pensei que fosse o longo tempo sem comer. Mas não era isso. Senti a garganta fechando e sufocando e pensei que, porque não sinto sede em São Paulo, talvez fosse necessidade de beber água. Mas não era isso. A coisa fazia suar as mãos, os dedinhos dos pés por dentro das meias, a linha reta entre o peitoral. Era calor, era aperto. Mas aqui faz quinze graus. Ainda não era isso. Queria culpar a multidão. Queria dizer que era só enjoo. Boca amarga. Falta de assento. Pressão baixa. Efeito colateral do cicoblenzaprina. Três baldeações. Perfume insuportavelmente forte misturado com suor de gente que trabalha o dia inteiro. Tudo demorado, tudo chato, tudo insuportável. Mas ainda não era isso. Pensei: “Vai começar tudo de novo”. Depois pensei: “Mas aqui não”. E por último pensei: “Aguenta só mais dez minutos”.

O metrô para na estação. Não tem mais pra onde ir. Mas e se agora for pior? Subo as escadas correndo pelo lado esquerdo. Estação lotada, mochila protegida, passos largos, direções contrárias. A coisa me faz andar quase correndo, as pessoas passam como vultos. Arquiteto, mentalmente, maneiras de pedir ajuda. Quero conversar com alguém, quero gritar, quero alguma coisa que eu não sei o que é, quero correr, quero sair disso, mas as pessoas estão fechadas em seus casacos, com seus olhos presos nos smartphones, atrasadas, cuidando de suas vidas e querendo correr e querendo sair disso, que a única coisa que posso fazer é me esconder no casaco, correr e sair disso.

Essa coisa me faz imaginar que com tanta gente na estação, é bem provável que a estrutura não aguente. Me faz imaginar que terroristas existem e alguém pode colocar uma bomba ali dentro e eu preciso me livrar desse lugar senão eu vou morrer. Me faz imaginar que alguém me observa, alguém me filma, alguém me segue e eu preciso me livrar desse lugar senão eu vou morrer. A coisa me avisa que o bebê bonitinho que está no colo de uma senhora vai crescer e vai ser assaltado. Me avisa que a senhora que carrega o bebê bonitinho vai morrer daqui a pouco tempo. E o bebê, com quem vai ficar? Me desespero.

Começo a pensar que eu vou morrer, que minha mãe vai morrer, que minha irmã vai morrer, que minhas sobrinhas vão morrer, que a senhora e o bebê que eu nem conheço vão morrer, que todos os meus amigos da infância, da faculdade e da vida adulta vão morrer, que meu ex-namorado que eu tanto amei vai morrer. Começo a pensar que eu serei empurrado, pisoteado. Que meu rosto será jogado contra a parede da saída do metrô. A mente em tumulto roda. Os pensamentos repetitivos e violentos num círculo minúsculo e em looping, num sentido paradoxal. Subo as escadas do metrô cambaleando, atravesso a rua cambaleando, ando na calçada cambaleando. Penso: “eu vou morrer”.

Lembro de Isabela, ex-psicóloga, me dizendo pra ter calma nessas horas de ansiedade e crise do pânico. Que quando a coisa chega, eu não posso seguir a coisa. Que eu preciso cortar meus pensamentos. Eles são obsessivos, trágicos, dolorosos, e puxam mais e mais e mais, o tempo inteiro, sem parar. Mais e mais e mais. “Não tente entender o que são esses pensamentos, Murilo, apenas corte”. Mas tentar não pensar já não é pensar? “Evite pensar sobre não pensar, certo?”, ela disse. Rua Alexandre Dumas, número dois sete meia; Avenida Lino de Almeida Pires, número um zero quatro; Avenida Cásper Líbero, número um cinco zero zero; Rua Harmonia, número oito dois. Penso em nomes de ruas e avenidas e números de ruas e avenidas daqui de São Paulo e tento respirar. Calma. São apenas pensamentos intrusivos, obsessivos, trágicos, dolorosos, que puxam mais e mais e mais, o tempo inteiro, sem parar. Mais e mais e mais. E você precisa cortar. “Apenas corte, Murilo”, lembro da voz dela como um eco. “Apenas corte”. Rua Alexandre Dumas, número dois sete meia; Avenida Lino de Almeida Pires, número um zero quatro; Avenida Cásper Líbero, número um cinco zero zero; Rua Harmonia, número oito dois. Falta pouco. Eu suporto.

Tenho saudades, agora, do banheiro do Sesc-Consolação. Em dois meses em São Paulo, eu já fui ao Sesc-Consolação quinze vezes só porque o banheiro de lá é extremamente limpo, silencioso e o ar-condicionado sempre está na temperatura honesta para qualquer ser vivo. Ando pelas ruas suando frio. Decido comprar uma garrafa de água mineral de dois litros numa padaria em que todo mundo espera “sair um porcão” numa fila quilométrica e, a cada dez passos, sem vergonha nenhuma, molho minha testa e meu cabelo. Mas não adianta. Preciso passar rapidinho no Pão de Açúcar antes que feche, mas uma voz me avisa que estou dentro de uma crise de pânico e não vou me livrar dela até o Pão de Açúcar fechar. E aí, faço o quê? Morro? Entro num boteco cheio de poster de cinema na parede, na Pompeia, e aquilo me distrai um pouco. Peço uma Coca-Cola e coloco um sachê de sal inteiro dentro da latinha. Preciso resolver, sem demorar muito, o meu problema de pressão baixa e hipoglicemia. Fico ótimo por exatos seis minutos, depois volta tudo. Não tem ninguém por perto pra pedir ajuda porque meu namorado está na aula do doutorado e os meus amigos estão trabalhando. Todo mundo em São Paulo tem sete empregos pra pagar um aluguel na Zona Oeste e pra não morrer de fome.

Duas quadras, próxima esquina, carro preto, árvore, semáforo, três quadras, farmácia, Bradesco, prédio verde. Eu suporto. Eu posso suportar. Eu já suportei tantas vezes. Um grupo de estudantes de rádio e TV, da USP, resolve fazer uma festinha no bar perto de casa. Gritos e batuques. Dois idiotas, cada um de um lado, com plaquinhas escritas “beijo grátis” e “se preserve comigo” penduradas no pescoço, gritam “aêeeeeee, molequeeeee” em pressão grotesca, enquanto obrigam outro idiota a virar um litro de bebida que corrói o fígado. Eu vou morrer. Preciso passar por essa bagunça, mas mesmo depois de dez metros de distância, eu consigo ouvir as vozes dos imbecis. Duas quadras, próxima esquina, carro preto, árvore, semáforo, três quadras, farmácia, Bradesco, prédio verde. Eu suporto. Eu posso suportar.

O elevador não demora mais do que inspirar e tirar o ar pela boca. Está fechado. Não tem ninguém. Cinza. Eu poderia ter ido por escada. Mas tem uma câmera aqui dentro. Vai dar certo. Tem um telefone de emergência também. Calma, funciona. Se isso quebrar em menos de inspirar e tirar o ar pela boca, o porteiro vai ver minha cara de desespero e vai me socorrer. Eu também posso gritar por socorro no telefone de emergência. Mas será que tudo isso está funcionando? Corto o pensamento intrusivo. Me distraio com a setinha indicando os andares por onde já passei. Calmo. Respirando. Bem devagar. Não demora mais do que inspirar e tirar o ar pela boca. Abro a porta depressa. Um trinco, outro trinco, outro trinco. Quero o limite da fechadura e ao mesmo tempo quero deixar tudo aberto pra poder pedir ajuda. Finalmente chego em casa, finalmente me escondo no edredom. Ali eu fico por horas, fechado, protegido, até que a coisa vá embora, como ela sempre vai. Ali eu fico por horas, descarregado, pesado, doentio. E, em posição fetal, um choro misturado com grito, com vergonha, com medo, com não entender, abafado no edredom por duas horas.

Posso marcar um psicólogo bom que uma amiga me indicou na Faria Lima. Mas vou dizer o quê? É mais fácil falar pra ele que é claustrofobia. Metrô é fechado, metrô é apertado às 18h30, metrô é abafado a qualquer hora do dia, metrô corre numa velocidade assustadora. Mas ainda não é isso. É mais fácil falar pra ele que é crise de um processo de adaptação. Por não saber lidar com esse negócio de sair da rotina, de sair de uma cidade que eu não saio há anos, de passar um tempo numa cidade imensa que eu conheço muito, mas tenho a impressão de que não conheço quase nada, que eu não me acostumei a ser refém do GPS. Que viajar me tira da bolha, que logo eu sinto saudade da minha família, da minha casa, dos meus amigos. Que ficar longe do cheiro das minhas coisas me dá angústia. Mas ainda não é isso. É mais fácil explicar que eu não lembro de ter, algum dia, vivido sem passar um pouco mal. De ter vivido sem estar com um pouco de pressão baixa, um pouco de hipoglicemia, um pouco tonto, um pouco com dores na lombar, um pouco tremendo. Mas ainda não é isso. É mais fácil explicar que talvez eu sofra de ansiedade intensa justamente porque transformei minha ansiedade em personagem, apertei o botão “para mais” e piorei tudo, me perdendo na minha própria narrativa. O fato é que agora eu sou o próprio personagem ansioso, mais realidade do que ficção, e eu não aguento. Mas não é só isso.

Esqueço o psicólogo da Faria Lima. O clima mudou de uma hora pra outra e decido ver os carros, as pessoas, o céu cinza da varanda do apartamento. A mantinha azul não aquece. O café quente não resolve. O buraco sem fundo do asfalto me dá mais tontura e ânsia e pânico. Essa coisa não quer ir embora e minha cabeça roda sem parar. Eu vou morrer. Você precisa cortar. Apenas corte. Rua Alexandre Dumas, número dois sete meia; Avenida Lino de Almeida Pires, número um zero quatro; Avenida Cásper Líbero, número um cinco zero zero; Rua Harmonia, número oito dois. Apenas corte. Falta pouco. Eu suporto. Apenas corte. 

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