O casamento do astronauta

Foi dando o horário de ir ao Fórum Ruy Barbosa e meu corpo inteiro, aos poucos, começou a me dizer que havia alguma coisa errada. Enxaqueca, dor na nuca, enjoo, boca seca, braço direito latejando, cãibra nas pernas, uma pontada de leve no peito. “Namorei esse homem por quase três anos, eu preciso ir ao casamento dele”. Essa era a frase que eu repetia enquanto aparava a barba, tomava banho, escolhia a roupa, pedia um Uber.

“Como vai ser quando eu estiver sentado numa daquelas poltronas vendo ele colocar a aliança no dedo do noivo?”. “Como vai ser quando ele estiver sorrindo pras fotos e abraçando amigos e familiares e conhecidos numa demonstração do ápice da felicidade?”. Porque uma coisa é ser simpático por e-mail, WhatsApp, dar like em publicações, comentar com emojis divertidos, encontrar por acaso na rua e dizer, na maior banalidade do dia a dia, um “tudo bem”. Outra é observar, cara a cara, os escombros de um amor bonito e fraternal. Eu não vou conseguir ir, eu me disse. Eu não vou saber disfarçar o fim da nossa história sem encolher a testa. Será bastante indelicado presentear um casal, tão amoroso, com o meu desprezo.

Por mais desconexos que fossem o blazer cinza, a meia preta e o sapato caramelo, esses eram meus únicos companheiros no que nomeei “a manhã mais difícil, reflexiva e solitária da minha vida”. O motivo do look bizarro não foi desleixo nem afronta: foi nervosismo. Eu não sei me vestir sem Vans, calça jeans e camisa de listras. Tolo é quem acredita que vestir um homem é uma das coisas mais simples da vida.  

O noivo dele, ao contrário de mim, sabia como disfarçar pequenas gorduras localizadas, o abdômen inferior um pouco avantajado escondido em terno preto slim, sorrir magistralmente sem o peso do cinismo, ser feliz sem autocrítica, estar em paz sem a obsessão cruel autoirônica e sarcasmos irrelevantes. Ele é elegante, um cavalheiro, um rapaz muito bem educado, prendado, estudado, um desses tipos que homens adoram apresentar às mães. Sem se incomodar, sem reclamar, sem gritar. Eu entendi tudo e me peguei, uma hora, olhando as fotos postadas há vinte e sete minutos no Instagram, querendo ser eu a estar casando com ele ao invés do meu ex.

Se eu usasse um terno slim, me peguei dizendo ao meu psicólogo no dia seguinte, eu exigiria do meu plano de saúde uma ambulância pra deixar na porta do cartório: certeza que eu sofreria de falta de ar. Eu me sentiria tão ridículo que logo pediria ao juiz pra adiantar a cerimônia. Tomaria os papéis e assinaria às pressas. Certamente gritaria aos convidados: “minha bexiga não aguenta mais ser apertada”. E nós rimos. Eu e o meu psicólogo.

Durante o caminho revivi nossa relação. “Seu ex te achava louco, mas lembra quando ele foi o único a te abraçar forte quando você estava inconsolável pela morte do seu avô materno? Lembra quando você tinha medo de andar sozinho no centro da cidade e ele ia ralando as mãos nas suas, cantando bem baixinho e fazendo graça só pra distrair e te acalmar? Quando você teve crises de ansiedade e ele dormiu na sua casa? Quando você estava com angústia e ele ficou com você ao telefone até pegar no sono? Quando mesmo você não sendo mais namorado dele, ele te levava pras infinitas festas da assessoria de imprensa que ele trabalhava porque, segundo ele, você sempre foi a melhor companhia?”. Então. Eu tinha que ir. Eu não podia deixar de estar ali no casamento do homem que eu mais amei na vida. Eu fui. Eu não devia ter ido.

O primeiro soco no estômago senti ao passar pela sua rua, que não é mais a sua rua. O prédio onde porteiros não me barravam, o apartamento em que a gente tinha que rir baixo, duas horas da manhã, pra não ser surpreendido pelas batidas de vassoura da vizinha do 403. Lembrei do seu trauma de brigadeiro e senti raiva só de lembrar que a festa do seu casamento certamente teria uma mesa só com ele. Lembrei de você me dizendo, dentro do carro, que se sentia um astronauta flutuando nos meus espaços tão analíticos, sempre julgando e guardando detalhes minuciosos que ninguém no planeta se interessa a ver. Namorar um homem como você tinha uma aura de “taí alguém interessante pra me tirar desse planeta e me salvar da podridão do mundo”.

Lembrei de você, mesmo sem saber como, indo até a minha casa pra dizer que não gostava mais de mim. A honestidade do homem que me prometeu, desde o primeiro minuto da relação, ser honesto. Eu achei muito bonito. Lembrei que depois de você ir embora demorei meia década pra voltar a gostar de me arrumar. Eu comia pouco, transava, dizia e amava pelas beiradas. Comportamento de quem quer se arrepender menos na hora de limpar a sujeira. E eu tive que aprender a sorrir em festas de trabalho mesmo numa fase de solidão profunda. A disfarçar choro e “pelinho” na garganta no meio de reuniões, no meio de papos leves, orgasmos com homens altamente desejados e começos de relacionamento. Ao dobrar a esquina, fechei os olhos e o coração queria abrir um buraco. Eu só queria voltar a ter aquele cabelo cheio e extremamente escuro. E ter uns óculos extremamente enormes na cara. E voltar a ser extremamente magricelo pra dormir no seu peito sem pesar. Agora eu tenho um corte de cabelo da moda, uns óculos pequenos como figurino pra pertencer ao mundo dos intelectuais e um braço inchadinho de puxar ferro.

Fiquei parado dentro do Uber, em frente ao Fórum, tentando decidir o que me dava mais medo: ir embora e desistir da nossa amizade, subir e encarar a simpatia do seu noivo, ter que aguentar seus amigos detestáveis que foram te cercando nos últimos anos só porque você tem um cargo importante onde trabalha, ficar estacionado ali vendo a felicidade a poucos metros de distância, ainda que eu corresse risco de ser assaltado.

Pelo retrovisor do carro, vi dona Márcia, a mulher mais amorosa pra ser sogra, consertando a gravata do genro. Luíza, a sobrinha, agora quase adolescente, fazia selfie pelas escadas. No meio de abraços e fotografias, olha lá o astronauta. Lindo, lindo, lindo. Um terno cor de chumbo e uma florzinha azul no bolso ao invés de um capacete e um macacão espacial pressurizado. A primeira vez que transamos (e eu não consegui gozar tão rápido porque eu estava feliz demais pra gozar rápido e você me achou louco por ter dito isso e então tudo começou a desmoronar porque você tinha pavor a gente louca e já tinha ideia de casar, mas não com um louco que diz essas coisas), eu olhei seus cílios tortos e as sardas nas costas e pensei “taquepariu, que cara gato do caralho”. Tudo muito simples de entender: seu jeito de galanteador protegido provocava em mim 25 ameaças de paradas cardíacas.

Minto pro motorista do Uber que esqueci a carteira com todos os meus documentos e peço pra mudar a rota. A felicidade que não era minha implorava por dois comprimidos de Dramin, uma cartela de Eno Guaraná e uma privada. De repente, ouço três batidinhas no vidro. Levo o maior susto e descubro, pelos braços enormes e peitos estufados, que é você.

Tarde demais.

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